terça-feira, 27 de junho de 2017

Impulsividade.

Eu quero vê-lo. Preciso vê-lo, na verdade, porque a saudade está me amassando e enrugando por dentro como se eu fosse um papel de seda que pode virar uma bolinha diminuta e franzina nas mãos gigantes da distância. Compro a passagem. Simples assim. Depois fico assustada, pensando, remoendo e condenando minha própria incoerência. Não sou impulsiva. Ao menos, não costumo ser. Sou aquele tipo de pessoa que analisa tanto e tão friamente cada minúsculo passo que, geralmente, acaba por analisar mais do que deveria. Não tomo decisões rapidamente porque elas podem se mostrar precipitadas mais tarde. Geralmente se mostram mesmo. Eu penso. Horas, dias, meses. Penso até tudo ter virado uma massa complexa e confusa que já não entendo mais e onde se perdem os fios que iniciaram o pensamento. De tanto refletir, acabo nunca agindo pelo impulso de uma saudade ou da vontade beligerante de um abraço.
Então por que diabos eu simplesmente decidi, em questão de minutos, que seria uma boa ideia comprar uma passagem, entrar em um ônibus e encarar seis horas de uma viagem que deixará minha lombar geriátrica ainda mais dolorida só para vê-lo, sem sequer saber se a saudade é recíproca? De onde veio a urgência de tocar aquele rosto, de ver aquele sorriso, de ficar quietinha sentindo um calor no peito – que, algo me diz, é o que costumam chamar de felicidade, embora eu não tenha certeza – e uma completude na vida? É bem verdade que minhas mãos formigam de vontade de se enterrar naqueles cabelos. Também é verdade que a saudade me sufoca como um par de garras grosseiras e robóticas envolvendo meu pescoço. É verdade ainda que sinto falta de sorrir e ele me arranca sorrisos com uma facilidade irretocável.
É possível, portanto, que a razão do meu impulso tenha sido inteiramente egoísta. Fico apavorada, visto que também nunca fui egoísta. Eu penso nos outros. Penso até em quem não merece pensamento. Atribuo culpa a mim quando sequer meti um dedinho na situação. Ele não disse que estava com saudade... Ou disse? E se ele não sentir vontade de me ver? Por certo será o cara educado e amável que sempre foi, mas e se lá no fundo estiver sentindo um incômodo que não se cala? Seremos dois opostos, então. Eu, inflando algo que se aproxima, desconfio, da felicidade; ele, miserável. Eu, querendo nunca mais me soltar daquele abraço; ele, pensando no horário do ônibus que me despacha. Eu, querendo nunca mais me perder; ele, querendo estar perdido ou, ainda pior, ser perdido por mim.
Devo cancelar a passagem. Deixá-la em branco para outra ocasião. É isso. Por que continuo arrumando a pequena mala enquanto decido não embarcar? É como se minhas mãos tivessem vida própria, tacando ali dentro pijamas confortáveis, escova de dentes e chinelos. Depois de piscar violentamente, percebo que está tudo pronto. Blusas dobradas com cuidado – que estarão misteriosamente amassadas na hora do uso, de qualquer forma –, uma calça jeans, o exemplar de “Admirável mundo novo” que tem uma foto como marcador de páginas, roupas íntimas e meias. Não falta nada. Até o shampoo foi parar ali sem que eu me recorde de ter ido ao banheiro e voltado ao quarto. Está tudo aonde deveria estar. Escova de cabelos. Presente! Remédio. Presente! Casaco, suéter, perfume. Presente! Presente! Presente! Mas eu não vou, então por que está tudo ali? Na próxima piscada a mala está fechada. Não sei o que está acontecendo. Quero gritar que não vou, que o que quer que esteja acontecendo é um engano e precisa parar. Vai dar trabalho recolocar tudo nas respectivas estantes do guarda-roupa mais tarde. Voltem para suas gavetas! Chega! Parem, mini duendes trabalhadores invisíveis que estão organizando as coisas da forma como eu organizaria. Decidi não ir, vocês não veem? Larguem tudo, deixem-me em paz. 
Por que estou sentada no banco do carona do carro agora, sendo levada até a rodoviária? Talvez para cancelar a passagem, claro. Mas por que a mala está no banco traseiro, então? Não. Está tudo errado. Ele não quer me ver, não posso ir. Alguém faça isso parar. Socorro! O mundo está girando e eu estou entregando a passagem ao motorista do ônibus. Sentada na poltrona 25. Ajeitando a bolsa sob os pés, esmagada pelo ínfimo espaço. Sinto exaustão, o corpo minguado como se uma força magnética tivesse me arrastado até ali e minha luta contra ela tivesse sido intensa e inútil. Quero ir, mas não posso. Não quero, mas já estou indo. Quero sim.
Estou telefonando, então. Desculpe, é tarde demais. Não sei o que houve, a viagem correu como se estivesse participando de uma maratona. Cheguei. Perdão. Estou aqui. Sinto muito. Enquanto aguardo, uma sensação aguda de arrependimento toma conta de mim, corroendo tudo como ácido ingerido e virando uma massa pesada no estômago. Dói. Sinto antecipadamente a rejeição, o palpitante “que bom que você veio” apático de quem pouco se importa. Me assusto e olho ao redor, desnorteada, quando levo um tabefe na cara. Depois de alguns segundos, percebo que foi apenas uma mistura de rajada de vento com culpa por forçá-lo a aturar minha presença. Não é como se eu estivesse apontando uma arma para sua linda cabeça, mas bem que poderia. Ele deu todos os sinais de que não queria que eu viesse, não deu? O que foi que eu fiz? Ignorei tudo como se ignora aquela dor de cabeça chata? Idiota. Estúpida. Sinto que sou como uma febre que não vai embora e, ao mesmo tempo, sinto-me febril. Não sei o que fazer. Não sei o que fiz e por que fiz. A saudade não pode anular o resto. A vontade não pode nublar o pensamento racional. Imbecil.
O carro dele desponta e rasga a escuridão e eu quero largar a mala e correr para longe dali e fugir e berrar e não sentir mais nada. Minhas bochechas queimam de raiva e tenho a certeza de estar mais vermelha do que o tênis do garoto que acabou de passar ao meu lado. Mais ainda, imagino minha expressão de horror pela ciência completa do sacrifício que estou incutindo na vida dele. Agonia, agonia, agonia. A ansiedade assume o volante e sinto que vou desmaiar. É como se uma massiva onda negra tivesse me engolido. É tarde demais para voltar atrás. Perdão. Meu peito angustiado quer implodir e eu quero mesmo que imploda logo, antes que eu precise ver a feição complacente e desanimada dele.
Ele estaciona o carro bem na minha frente. Vejo seus cabelos sendo atingidos pelo vento gelado quando desce do carro. Vejo seu rosto enquanto caminha até mim e fico petrificada de pavor. Mas algo está errado. Ele não parece sisudo ou indiferente. Está sorrindo. Não um sorriso mais ou menos, condescendente, mas aquele sorriso aberto e gostoso que faz meus órgãos derreterem e virarem não mais do que poças pobres e pegajosas. Não sei o que me sustenta em pé nessas horas. De fato não sei. Ele está sorrindo desse jeito. Quando para em minha frente, contenho o desejo de também abrir um sorriso grande demais. Ainda sou uma amálgama infinita de emoções e não sei qual escapará por entre os dentes, afinal. Mas acabo cedendo simplesmente porque não resisto e a próxima coisa que sei é que estamos abraçados. Acho que fui eu que joguei os braços por cima dele e o colei em mim, mas não tenho certeza. Tudo o que sei é que ficar tão perto e tão longe é impossível, para ser franca. E, então, um beijo. Longo e inebriante, preenchendo com calmaria cada canto escondido entre minhas poças derretidas e expulsando todo o medo, o horror, a angústia, a agonia, a ansiedade. Tudo vai embora e não sobra nada além do afeto. O mundo se oblitera por completo. Entendo, nesse momento, minha impulsividade desconcertante: não aguento ficar distante dele por muito tempo, embora seja difícil de admitir. A combinação de bem querer e saudade é fatal e atinge em cheio o instinto impulsivo que eu pensava não ter. O beijo é longo o suficiente para que eu deixe de me importar com qualquer outra coisa, para que esqueça das aflições e até mesmo de respirar. Eu me desmancho ali e a sensação de estar entregue e flutuando é estupenda. Tudo ao redor não passa de um borrão indecifrável, tudo o que senti até minutos antes evapora. Alguém poderia muito bem roubar minha mala, largada na calçada da rodoviária, e eu não conseguiria me importar.
Ele entrelaça seus dedos nos meus enquanto me olha, ainda sorridente, e eu o beijo mais uma vez. Beijo-o para que meu beijo expresse o que estou sentindo porque sou incapaz de formular palavras e meu corpo está trêmulo demais. Beijo-o para que ele saiba que o amo, que tudo sem ele é triste, sombrio e descolorido. Beijo-o para que ele entenda os motivos da minha impulsividade e perceba que há fogos de artifício estourando dentro de mim. Todos os sons, toques e cores se entranham em minhas células. Não consigo verbalizar nada disso. Então o beijo para que ele compreenda que todos os meus sentimentos são absurdos e intensos demais para que caibam em palavras. Enormes demais para serem aprisionados. Foi por isso que eu comprei uma passagem, entrei em um ônibus e fiz uma viagem de seis horas que deixou minha lombar destruída e dormente. Por essa injeção de amor. Por esse casulo protegido de afeto, carinho e cuidado que é o abraço dele. É simples assim. É amor.

terça-feira, 20 de junho de 2017

A razão de Neruda.

É interessante como a mente nos prega peças nos momentos mais inusitados. Estou comendo uma belíssima porção de Eggs Benedict, acompanhada por uma xícara de café preto bem quente. É um instante raro e delicioso, o ovo e o molho aveludado fazendo um carinho gostoso na barriga, os aromas de frutas doces, pães quentinhos, grãos torrados e moídos e chocolate somando-se aos do prato e do frescor das árvores ao redor da cafeteria. É agradável e me permito um sorriso discreto de aquiescência. Ultimamente tenho conseguido enxergar alegria em pequenas coisas; tenho encontrado uma renovada e interessante vontade de viver. Como se meu cérebro entendesse que estou relativamente feliz, no entanto, um pensamento horrível me açoita como se fosse um chicote de couro estalando. Vem do nada e vai para lugar nenhum, espremendo tudo até sugar a última gota de leveza e luz.
Ao meu redor, mesinhas de madeira polida abrigam casais, amigos e famílias conversando. Coisas que sempre gostei de observar, mas que, agora, parecem não fazer sentido algum. Tudo se move em câmera lenta. Ouço sons que não reconheço. O ar está estranho, como se tivesse ficado denso demais. Rarefeito. Difícil de inspirar e resistente à expiração. Tudo está muito alto – o tilintar dos talheres, o sugar do canudo no último gole do copo, tampas dos frascos de mostarda dijon se abrindo e fechando, burburinhos de conversas aleatórias – e inaudível ao mesmo tempo. A garfada da refeição que contemplei há segundos, tão bela, agora parece um bloco rígido percorrendo lentamente o caminho até meu estômago. A gérbera amarela no centro da mesa parece murchar até a morte dentro do minúsculo vasinho de cristal.
Tomo um gole de café, mas parece amargo demais e a azia sobe imediatamente. Estava tão bom antes. Vai ver que é isso que acontece quando você vê o futuro passando em sua frente em um desses momentos absurdos de lucidez extrema. Todo o resto fica suspenso no tempo, como se fizesse parte de uma vida que não é a sua e na qual você foi jogado como mero espectador. O vestido vermelho da garotinha na mesa mais próxima se tornou, de repente, vibrante demais para meus olhos. Tudo está intenso e fraco, comum e excêntrico; é como provar uma pitadinha de realidade alternativa. Solto os talheres no exato segundo em que uma lágrima de compreensão escorre por meu olho direito e um soluço gutural fica preso na garganta. É um pensamento simples e mundano, mas assustador: em algum tempo, não sei precisar quanto, não nos falaremos mais. Não nos veremos, não nos amaremos e talvez até nos desprezemos ou ignoremos. Talvez eu me lembre de cada traço seu ou de fragmentos nossos – como quando minha cólica renal te deixou preocupado e você acariciou meus cabelos por horas a fio; talvez você não saiba, mas eu estava tão maravilhada com seu toque sutil que fiquei imóvel, apenas querendo calar a dor e congelar o momento – e talvez você se lembre da moça que te olhava com olhos brilhantes de admiração e cheios de amor. Ou, talvez, não nos lembremos de nada. Talvez deixemos de existir um para o outro como um livro que alguém leu na infância e deletou da mente porque não significou muita coisa ou foi irrelevante.
A vida como eu conheço foi sugada de mim quando essa convicção criou raízes instantâneas em meu cérebro. Mais do que convicção, na verdade. Eu quase vi acontecer através de uma série imaginária de fotografias amareladas pelo tempo. Você sorrindo. Suas mensagens diárias. Nossas conversas sem fim. O abraço de reencontro. Você sorrindo de forma mais contida. As mensagens rareando. A frequência das conversas reduzindo lentamente. Nada mais de abraços de reencontro. Fim. Silêncio. Adeus. Quanto tempo falta para esse novelo se desenrolar por completo? Quanto tempo falta para no lugar do “eu te amo” entrar a mudez ensurdecedora de quem não sabe mais o que dizer? Anos? Meses? Dias? Seria esse amor tão fugaz assim? Não seria, então, amor. E a alternativa dói mais do que imaginar o tempo passando e o vazio se abatendo sobre nós: a ideia de que você talvez não ame, de que talvez tenha apenas sentido algo parecido com o amor. O quase lá que nunca chega a ser.
Em um romance de cinema, nossa história seria contada com início, meio, salto temporal e fim. A ansiedade do querer ver hoje, todo dia, para sempre, decaindo lentamente para o querer ver de vez em quando, dia-sim-dois-dias-não, quase nunca, até chegar ao nunca mais. Haveria uma narração bonita com fotografia límpida, impecável e abarrotada de cores, sons, risos, cheiros e trilha sonora. Depois tela preta, silêncio e três palavras estampadas demonstrando o lapso de tempo. Quinze anos depois. Ou outro número qualquer. Volta, então, a imagem, agora mais apagada, mostrando dois indivíduos em espaços e momentos diferentes da vida. Duas pessoas que já não mais se reconhecem, quando antes tanto amor compartilharam.
O estampido do escapamento de um carro passando na rua me arranca bruscamente do devaneio realista e apavorante em que estava submersa. Olho para a refeição que me fez tão feliz por alguns minutos. O café esfriou. A comida já não parece apetitosa. Largo os talheres, de repente indigesta, empurro a cadeira com um solavanco desleixado e levanto com tanta pressa que quase deixo a bolsa para trás. Pago a conta, esqueço o troco e saio correndo com o passo mais apressado possível, abotoando o casaco no caminho. Abençoo o recém adquirido costume de usar tênis ao invés de saltos altos. Tenho pressa. De fato, nunca antes tive tanta pressa de viver. Ainda tenho outros motivos para ser feliz além de um belo prato de Eggs Benedict e uma xícara de café. Não posso perder mais um minuto sequer. Não hoje.
Quando chego até você, percebo que estive prendendo a respiração. Solto um suspiro cheio de sofreguidão que sai acompanhado de um gemido baixinho de angústia e alívio conjugados. Você sorri seu sorriso mais lindo. Diz “oi” e o timbre da sua voz reverbera e deixa minhas pernas tão amolecidas quanto estariam se não tivessem ossos. Você ainda me conhece. Ainda me enxerga. Ainda lembra. Ainda quer e ainda ama. Assim como eu. Ainda estamos no hoje, todo dia, para sempre. Corro os últimos passos até estar tão grudada em seu abraço que sinto sua pele quente derretendo junto com a minha. Afundo as mãos em seus cabelos enquanto você me puxa pela cintura e observo cada linha do seu rosto mais uma vez. Não quero nunca não querer te ver. Não quero nunca não lembrar que te conheci e fui sua. Não quero nunca fingir que não te vi passar ao meu lado na rua. Quero você para sempre e quero que esse para sempre queira durar. Deixo meus lábios roçarem nos seus e aceito fechar os olhos só porque sei que dentro desse abraço estou protegida e entregue e, principalmente, que você ainda estará no mesmo lugar quando eu voltar a abri-los.
Sou sua. Você me permite pertencer somente a mim mesma e, por isso, sou sua. Beijo seus lábios tão conhecidos com um pouco mais de urgência, seu rosto entre minhas mãos. Sou sua desde o dia em que você cuidou de mim naquele sofá, fazendo carinho nos meus cabelos e colocando a mão na minha testa a cada cinco minutos, com o assento do meio nos distanciando por algum motivo. Mais um beijo. Sou sua desde que roubei seu moletom, desde o primeiro abraço, desde o primeiro olhar repleto de ternura. Sou sua desde a primeira vez em que te vi chorar enquanto mexia suavemente em seus cabelos, percorrendo todo o comprimento da raiz às pontas.
“Sempre fui sua”, penso, enquanto nossas mãos decoram o perfil um do outro. Que nos decoremos para nunca esquecer, então. Fui sua desde que percebi que você conseguia me enxergar de verdade, além da superfície de sorrisos forçados. Desde que percebi que, na verdade, meus sorrisos deixam de ser forçados na sua presença. Você vê o que eu sou e é provável que ninguém jamais olhe para mim da mesma forma. Enxergando o melhor e o pior, mas realmente acreditando no melhor. Valorizando qualquer brilho, qualquer mínima faísca que você pensa perceber em mim. Como se eu fosse uma pessoa muito mais incrível do que eu penso ser. Não é como se você estivesse tapando o sol com a peneira. Não. Você me desnuda e me lê e me decifra e enxerga tudo aquilo que eu não quero mostrar porque é podre e gosmento. E encontra tudo aquilo que quero esconder porque é frágil, vulnerável e debilitado. Você vê as duas coisas, os dois lados da moeda. É a escolha do que prevalece na sua visão que me faz te amar ainda mais e me traz uma força que eu não tinha. Porque você escolhe o melhor de mim e, com isso, eu acabo sendo o melhor que posso ser quando estou ao seu lado.
Sim, é possível que a fluida passagem do tempo faça a gente se cruzar um dia por aí sem nem lembrar direito que chegamos a nos conhecer. O tempo é um contador de histórias bastante sarcástico e cruel. Como disse Neruda: “É tão curto o amor, tão longo o esquecimento”. Pode ser. Mas uma possibilidade não significa um fato concreto. Não precisa ser. E, fundida em você através de um amor que parece inesgotável, minha única opção é acreditar que não teremos a tela preta com as letras de salto temporal. Que não preciso sair correndo das cafeterias para voltar e te amar com pressa porque o amor caminha sempre comigo. Quero crer que seremos aquele livro infantil especial. Aquele que marca a vida de uma criança tão profundamente que ela não deixa jamais que os pais passem para frente o exemplar surrado de tanto virar as páginas. Aquele que fica. Que traz nostalgia e lágrimas de felicidade aos olhos. E amor. Aquele amor que nunca cessa por algo que te moldou e te fez ser quem você é. Te fez ser, no mínimo, melhor. Quero crer que nós seremos tudo aquilo que “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon, foi para mim. Você significa muita coisa para permitir que se perca de mim. Você é relevante demais para deixar de estar em mim. Quero que você seja aquele que fica e quero também me permitir ficar. Preciso acreditar que nunca precisaremos atravessar a rua para evitar contato. Que, ao invés disso, apertaremos as mãos para atravessarmos juntos uma rua movimentada em qualquer canto que seja do mundo. Quero, com a mesma intensidade do desejo de conhecer cada milímetro do seu corpo e cada viés da sua personalidade, que sejamos aqueles que perduram. Quero fugir do realismo chato e insistente, se necessário, e viver no idealismo por um tempo. Quero que Neruda esteja errado, que o amor seja tão longo que não sobre espaço para o esquecimento. Quero eu mesma estar errada quando penso que Neruda tem razão.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Seis mensagens, uma resposta.

A primeira mensagem chega enquanto ela ainda está desperta. Apática, mas atenta. “Eu te amo”, diz a caixinha de texto, acompanhada por um coraçãozinho vermelho. Três palavras intensas e verdadeiras. Ela sabia. Mais do que isso, acreditava e correspondia. Mas nem sempre o amor é suficiente para salvar uma vida. Ela não responde. Continua inerte na cama, em posição fetal, o braço pendendo por cima de um travesseiro, algumas lágrimas embaçando sua visão. Nada explosivo, apenas gotas gordas e solitárias escorrendo por regiões esparsas da pele já um tanto quanto marmorizada do rosto. Sua feição está tão neutra quanto estaria se ela estivesse apenas cansada de um dia cheio ou do tráfego pesado da cidade. Mas ela está cansada de muito mais do que isso. Não há escapatória do que está pregado dentro da mente.
Ao longe, Stone Sour embala o início do fim e o som da chuva surrando o vidro da janela garante a entonação correta ao momento. A vida se encarregou de levá-la até aquele ponto, afinal. A música está alta, mas não o bastante para abafar seus pensamentos. Está tudo bem, ela diz a si mesma. Não sente dor, agonia ou medo. Não mais. Até que enfim, tudo está tranquilo como deveria ter sido desde sempre. Uma brisa de gratidão e certeza começa a niná-la aos poucos. A segunda mensagem salta na tela do celular: “Tô com saudade”. Ela também está, mas não há mais nada que possa fazer a esta altura. Não responde.
Puxa a gola do moletom vermelho surrado dele mais para perto do rosto e cobre as mãos com as mangas muito compridas para seus braços curtos. A caneca de café já está vazia há muito tempo e ela imagina como seria bom tomar só mais um gole quentinho e acalentador. Mas não há mais tempo para isso também. O torpor começa a aparecer vagarosamente, engatinhando com suas pequenas mãozinhas formigantes. “Cem anos de solidão” repousa em um canto da cama. Ironicamente, ela sente que sua solidão já era muito mais anciã.
“Bastante saudade”, diz a terceira mensagem. A cada vibração do celular ela o ergue, lê e deixa que volte a ficar com a tela preta sozinho. Gostaria de ter feito muitas outras coisas durante a vida, mas já não se preocupa com isso. Queria ter viajado para muitos lugares do exterior, sentado em uma cadeirinha externa de um pequeno café em Paris e sido ridicularizada por uma pronúncia completamente errônea do francês, conhecido a beleza dos campos de tulipas da Holanda, visitado museus de arte pelo mundo. Queria ter deitado na grama à noite mais vezes para ficar observando o céu estrelado em silêncio. Queria ter aprendido a dançar, ter aberto os braços mais vezes na chuva, abraçado muito mais vezes as poucas pessoas que amava. Aliás, queria ter amado um pouco mais e se preservado um pouco menos... De quê adiantaria toda aquela autoproteção, afinal de contas? Deveria ter terminado de escrever os três livros que idealizou e deixou pela metade; ao menos deixaria algum legado além das sete cartas que descansavam em cima de um dos travesseiros, empilhadas e amarradas por uma estreita fita de cetim azul piscina.
A quarta mensagem adotou um tom mais preocupado. “Tá tudo bem por aí?”. Ela quis responder que sim para tranquilizá-lo; como não foi capaz de mentir, optou pelo silêncio. Ou não seria mentira? Estava tudo bem, de certa forma. Ela tentou. Muito. Ninguém que não tivesse passado por aquilo seria capaz de compreender a magnitude do esforço que fizera para continuar levantando todos os dias e encarando uma vida sem vontade. Mas toda vez que olhava para dentro de si, via mais cicatrizes e razões para interromper o percurso. Via mentira, desilusão, peças sem conserto, aflição excruciante por todos os lados. Receio, cautela excessiva, abandono.
Ela permanece deitada, o celular frouxo na mão depois da quinta mensagem, que dizia que ele estava preocupado. Imaginava mesmo que sim, visto que a última conversa que tiveram adotara um tom disfarçado e sutil de despedida. O olhar estava fixo na parede. A tinta deveria ser branca, não gelo. Queria ter consertado isso antes. Fecha os olhos com força e tenta pensar com clareza, mas já não consegue mais. Há um zumbido no ouvido, as mãos estão trêmulas e ela sente um pouco de frio, mas não se importa. Alguns espasmos provocam movimentos involuntários nos braços e costelas e as pernas chutam o ar vez ou outra, mas isso também não incomoda.
O gosto em sua boca é pastoso e estranho, mas tudo o que comera durante o dia parecera excessivamente pegajoso mesmo. Seus olhos se enchem de lágrimas novamente e ela se questiona se deveria ligar para alguém uma última vez ou, ao menos, responder as mensagens do cara que ama. Mas decide que não. A voz soaria embargada e a última coisa que ela precisa é de compaixão, condescendência ou qualquer outro tipo de sentimento alheio. Correria ainda o risco da indiferença, o que seria mil vezes pior. Não queria isso de jeito nenhum.
Os minutos se arrastam lentamente, o escuro do quarto se tornando cada vez mais acolhedor e companheiro. Ela respira fundo muitas vezes, descansando o corpo dolorido e retesado e tentando afastar os pensamentos sombrios. Já não precisa mais deles agora que tudo está quase resolvido. Força-se a tentar lembrar dos instantes belos, ainda que fugazes. Do amor que recebeu, mesmo quando pensou que ninguém fosse capaz de amá-la. Do carinho inesgotável, dos cafés saborosos, de dormir aninhada perto do corpo dele. Lembra-se dos momentos de pequenas alegrias com diferentes pessoas. Foram tão poucos nos últimos anos. Lembra-se do colo da mãe. E chora, é claro.
Quando a sexta mensagem chega – “Boa noite, coisa linda” – a exaustão já tomou conta do seu corpo e a tristeza vai e volta em enormes marolas. O pulso lateja e os olhos estão pesados, embora a vontade de dormir se esquive como quem planejou uma viagem, mas ficou com preguiça de fazer as malas na última hora. A respiração está mais difícil e uma dor começa a surgir em regiões aleatórias do corpo. Sua mente está borrada. Ela pensa em coisas difusas. No abraço apertado do melhor amigo e no selinho que ele lhe deu um dia só para provar um ponto. Pensa em porcelana se espatifando nos paralelepípedos da rua vazia. Em noites de conversas e risadas sem nada para fazer. Em folhas voando livres pelos ares. Nos cabelos compridos e no sorriso lindo do homem que soube se tornar o mundo dela em pouco tempo. Em trechos de Bukowski e Austen. Em taças de vinho solitárias ao som de músicas melancólicas. Em copos de cerveja ou cachaça ao som do violão dos amigos. Em olhos nos olhos. Em temporal que chacoalha a porta de vidro da sacada e apaga as luzes da casa. Sua cabeça nunca girou tanto por tanto tempo, voando pelos cenários mais dispersos, incontroláveis e incoerentes das lembranças.
Já flutuando mais do que ainda presa na cela que criou para si mesma, pega o celular com as mãos tremelicantes pela última vez. É difícil digitar, as letras parecem menores do que nunca, a tela iluminada parece um raio de luz machucando seus olhos e tudo está desfocado. “Perdão por não ter sido capaz de continuar. Por não ter sido mais forte. Por não ter me prendido às coisas boas mais do que às que calaram todos os meus sonhos, vontades e alegrias. Eu quis muito estar aqui por você para sempre. Eu quis muito estar aqui por nós. Não sinta raiva de mim. Tente lembrar do amor e do quanto você me fez feliz. Você foi meu pontinho de felicidade, segurança e amor em meio a um mundo de pontos gigantescos de dor. Você me devolveu as lágrimas, o sorriso, o bem querer. Eu apenas não fui capaz de me agarrar à essa corda antes que a outra arrebentasse de vez. Você foi o presente que a vida me deu, embora tarde demais. Guarde a parte bonita da minha memória, se puder. Se não puder, se for muito difícil... Esqueça. Tudo vai passar. Fique bem. Seja feliz. Seja você. O mundo precisa dos poucos e raros corações de ouro que andam por aí. Nunca desista de você mesmo. Sei que não se pede ou agradece amor, mas obrigada por ter escolhido e aceitado me amar de forma tão intensa. Obrigada por ter sido meu brilho em um breu que já não abria mais rasgo algum. Eu te amo”.
Era tudo isso que ela queria ter escrito na última mensagem que mandaria à ele. Uma das cartas lhe pertencia, mas precisava dizer adeus, ao menos para ele, de um jeito mais íntimo, mais carinhoso, mais... Vivo. Precisava que ele soubesse o quanto ela o amava. O amor dele conseguiu atrasar o inevitável, como o menino que fica com o dedo no buraquinho da barragem da represa pelo máximo de tempo que seu corpo frágil permite. Era isso o que queria lhe dizer, mas não teve tempo. Calculou mal, talvez. Provavelmente. Com tudo escapando por seus poros, com tudo enegrecendo sob as pálpebras quase cerradas, só conseguiu digitar um trôpego “eu te am” e pressionar a flechinha de envio. A última resposta que ela lhe deu continha apenas três palavras. A mais importante, aquela que expressava seu sentimento, incompleta. Exatamente como ela, por ironia da vida. Mas ele entenderia. Assim como a primeira mensagem dele fora a mais importante das seis, a última dela teria o mesmo valor. Mesmo faltando uma letra, aquelas três palavras eram o que de mais valioso ela tinha a oferecer. Eram o resumo do seu coração e entregava-o, como último ato, a ele.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

E esse tal de amor-próprio?

Cenários comuns. O cara que se comporta como se você fosse um objeto a ser usado, guardado e usado de novo quando conveniente. O cara que te trata como merda, mas do qual você não consegue fugir. O cara que trai e, como um grande artista, consegue te convencer de que a culpa é sua. O cara que te vê como alguém que não merece mais do que alguns momentos específicos de carinho, mas, para não perder sua própria fonte de entretenimento, te mantém atada com todas as frases e promessas que, no fundo, você sabe que jamais serão cumpridas. Aquele outro que tem todas as palavras certas, mas atitudes absurdamente contrárias. Aquele que precisa te diminuir para se sentir maior e que não aceita que você seja uma pessoa independente e bem-sucedida. Esse é o papel dele, afinal. E o pior de todos: o cara que não está emocionalmente disponível, mas segue encontrando maneiras infinitas de te persuadir a ficar por perto. E você fica, mesmo sabendo que jamais haverá amor. Que nenhum desses cenários é plausível. Que você merece mais do que isso. Ou será que não?
Todos já estivemos nessa posição. Homens e mulheres, já que o inverso também ocorre. Já vivemos uma ou duas dessas histórias, quando não todas elas. E, toda vez, quando finalmente nos encontramos livres do peso esmagador da barbárie, prometemos que jamais deixaremos algo semelhante acontecer. Mas acontece. Sem nem perceber, aceitamos mais uma vez. Eu vivi relacionamentos que afetaram minha vida de forma terrível. Que roubaram, aos poucos, meu sorriso, minha confiança nas pessoas, minha vontade de me entregar. Banalizaram o amor, deixaram uma dose excessiva de ceticismo e me esconderam de mim. Deixei de saber quem eu era para ser quem queriam que eu fosse. Fui a pessoa exigida, aquela que percebe que acesa e brilhando não serve e aceita se apagar aos poucos, assistindo o que o cara quer assistir, bebendo o que o cara quer beber, deixando meus sonhos e até mesmo minha intimidade de lado porque eram menos importantes do que as necessidades dele. Deixei de saber o que eu desejava para saber o que desejavam de mim. Conforme me moldava, fui me perdendo e aprendendo a esconder até mesmo a infelicidade. Sim. Fui essa mulher e fui tão boa nisso que ninguém percebeu que me aniquilei.
Em um determinado momento, sozinha em meu quarto recentemente redecorado para exterminar os vestígios do último homem da minha vida, ouvindo a chuva lá fora açoitando a janela, forcei-me a encarar a realidade: a culpa é minha. Claro, todos esses caras são horríveis, mas quem aceitou viver dessa forma fui eu. Nem todos os homens são iguais, mas os que passaram por mim foram. Dedo podre, costumam brincar. Portanto, fui eu o denominador comum de cada relacionamento ferrado que vivi. De certa forma, era tudo que eu atraía por pensar que era apenas esse o meu valor. Por não amar o que o espelho me mostra diariamente, passei anos aceitando pequenos farelos.
Escrevi em uma folha de caderno o que eu realmente pensava de mim. Quanto eu valia. E foi no horror que minha resposta trouxe que percebi que EU estava moldando de forma atroz o que sou e o que vivo. "Eu não sou bonita", "meu corpo é uma desgraça", "não sou inteligente ou interessante o bastante", "tenho que mudar isso, isso e aquilo se quiser que alguém me ame", "não mereço algo diferente do que vivi até hoje". Essas eram algumas das coisas que me encaravam em caligrafia rabiscada. É absurdo. Essa sou eu ou essa é a pessoa que os outros me fizeram sentir e acreditar ser? A resposta é a segunda e me fez perceber outros dois pontos. O primeiro é que não preciso - e não deveria - me esforçar para ser amada. E, principalmente, que não preciso de um cara. Nem mesmo de um bom cara. Sou perfeitamente apta a ser minhas duas metades. Eu sou tudo o que preciso, desde que consiga me amar de verdade. Não acontece de uma hora para a outra. Nada se desconstrói tão rápido, muito menos um ódio e desprezo cultivado pelo seu jeito de ser - física, emocional e psicologicamente - durante anos. Mas, com esforço, há uma saída. Se sou capaz de mudar minha vida por um cara que nem sequer vale a destruição, sou também capaz de quebrar os tijolos por mim.
É importante se colocar na dianteira e enxergar que sua prioridade deve ser você. Conhecer-se de verdade pode trazer à tona qualidades que você não imaginava que tinha, seja por não ser hábil para enxergá-las ou porque estavam escondidas atrás do personagem que você cria, inconscientemente, para ser "amado" e sobreviver a um relacionamento. Se isso é necessário, esse encontro de corpos e almas está fadado ao fracasso desde o primeiro segundo. Aprender a se amar antes de tentar amar outra pessoa é tão importante que deveria ser ensinado desde a infância. A redescoberta dos meus verdadeiros gostos, da forma como prefiro passar meus dias, dos pratos que amo, do que gosto de ler e até do que me agrada ou não na televisão - depois de tanto tempo me tornando, em todos os aspectos, aquilo que um cara ou outro esperava de mim - trouxe o alívio da percepção de que minha verdadeira personalidade ainda existe. De que eu posso ser e fazer o que quiser, tendo ou não alguém ao meu lado. Imaginar o contrário, a incapacidade, é mais do que deprimente: é um erro crasso. Ainda não me amo ou admiro. Não sei nem se gosto um pouquinho que seja de mim. Mas sei que um dia chegarei lá.
O tempo que tirei para mim foi meu maior presente. A solidão me fez lembrar do quanto amo estar sozinha. Há muitos fantasmas dentro de mim, mas olhar para dentro, ainda que assustador, trouxe todas as memórias tolinhas que eu tinha esquecido. Amo andar de pijama pela casa. Gosto de poucas coisas na televisão e as principais são séries americanas. Amo cinema, sou apaixonada por musicais e problematizo tudo que assisto. Gosto de procrastinar, de fazer nada, de ficar largada em um sofá e dar risada de coisas bobas. Gosto de música alta, de dançar pela casa como se fosse uma participante de "Dancing with the Stars", de cantar mesmo sabendo que sou desafinada, de cozinhar só de camiseta e calcinha enquanto degusto uma taça de vinho. Gosto de café quentinho e de me aconchegar com meus gatos e um livro. Não me importo se as pessoas da minha idade estão casando, tendo filhos ou conquistando o mundo; gosto do ritmo da minha vida. Gosto do meu cabelo curto e não vou deixá-lo crescer porque alguém prefere assim. Gosto de usar batom vermelho, mas só quando meu estado de espírito pede; muitas vezes eu só quero mesmo um hidratante labial. Mas, mais do que isso, descobri o quanto preciso das minhas próprias amizades e da minha família. O quanto sou, sim, forte e capaz de ultrapassar obstáculos. Percebi que sou o bastante e que mereço mais do que as migalhas que costumava aceitar. Mereço ser eu mesma. Romântica sem excessos. Melancólica e nostálgica. Alguém que gargalha e tagarela em um dia, mas chora e fica em completo silêncio no outro. Mereço sonhar grande e não diminuir meus sonhos por ninguém. Posso e vou fazer o que quiser. Serei guerreira da minha própria batalha. E nada disso tem a ver com a minha idade, com as decepções, com meu peso ou com minhas bochechas rosadas demais. Tudo isso tem a ver com aprender a gostar de mim, a me dar valor, a ouvir o que meu corpo pede. Porque eu não preciso de um homem para atingir meu potencial, especialmente se for mais um desses caras que não entendem que todo e qualquer relacionamento merece o melhor que ambos os protagonistas puderem oferecer. Porque é primordial que eu aprenda a amar o que o espelho me mostra e o que não mostra também. E, acima de tudo, porque amor não tem idade e o amor mais importante da sua vida sempre será aquele que você der a si mesmo. Afinal de contas, quem constrói seu caráter é você e quem define para que lado sua jornada vai também é você. Quem escolhe se renovar é você. O que um cara tem a ver com seu valor? Quem se valida é somente você. E essa belíssima consciência... Essa ninguém pode arrancar das suas mãos.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Dublê.

Quem é você e o que quer de mim? É você o tempo, maltratando e trazendo consigo sempre muito mais do que rugas? É você a insônia, com seus pensamentos ridículos e flutuantes que nunca param de rodar? É você uma pessoa, entre tantas outras, magoando com a maestria que só o ser humano tem? É você a depressão, infligindo seus males dolorosos e doentios? Não sei quem é você. Não sei nem mesmo quem sou. Mas sinto a sensação ominosa da sua presença. Esse peso da indiferença, da grosseria disfarçada de sinceridade, da tristeza que não cessa, mesmo quando cede espaço para um sorriso.
Não sei quem sou, mas sei que hoje não passo de um fantasma do que fui um dia. A mulher triste no espelho que não reflete a alegria da garota que já existiu dentro de mim em tempos remotos. Alguém que machuca sem querer e é machucada de propósito. Um saco de pancadas surrado até por quem diz carregar amor. Talvez seja compreensível. Quem sou eu para dizer? Como posso entender algo quando me encontro tão perdida em desilusões e desencontros, muitos deles causados por minha única e exclusiva culpa? Não, não sou inocente ou santa. Erro como qualquer pessoa e muitos desses erros pesarão como fardos eternamente. Mas é a indecisão que me mata. Deitar na cama à noite e não parar jamais de ponderar opções. Não saber optar por um destino, escolher uma jornada, definir um fim ou um começo.  
Não sei quem sou, mas sei que caminho em silêncio. Por respeito, calo-me e espero que formem-se os calos que me enrijecerão mais um pouco. Calo-me para criar calos. Resistência. Dureza. E torço para não perder a doçura enquanto torções me dilaceram por todos os lados. Torço por menos torções. Aceito desaforos que não deveria aceitar. Ignoro palavras rudes que antes eu retrucaria. Não sei se isso é amadurecimento ou se apenas parei de me importar. Não quero que seja a segunda opção. Quando deixamos de nos importar com o que dizem pessoas que são, de alguma forma, importantes, é um sinal de que a carapaça protetora ficou rígida demais. Aquilo que deveria afastar apenas os monstros, afasta também quem deveria trazer amor. Os calos passaram do ponto. As torções machucaram mais do que é suportável. 
Eu não passo de uma casca. Um fantasma. Presença que não traz calor, que congela vidas e estraga almoços felizes e regados à cerveja. Não sei se ainda há alguém que me enxergue. Como poderiam? Às vezes parece que estou assistindo aos desenvolvimentos ao meu redor através de uma tela sem interação. Mas talvez assim fosse mais seguro. Não, eu sou capaz de interagir. Apenas, com frequência, opto por ser só audiência até mesmo do que me diz respeito. Eu, telespectadora de mim. Escolho o sábio silêncio que o tempo e suas rugas me ensinaram. O mesmo silêncio que de muitos atritos piores já me afastou, mas que também me impede de chacoalhar a vida. 
Tenho um caminho tão cheio de detritos que parece que há, em algum lugar invisível aos olhos, uma máquina responsável por atirá-los. Alguns caem duros, com uma sonoridade seca, bem em frente aos meus pés. Outros acertam no estômago ou no coração. Os piores atingem direto no rosto, como bofetadas da vida, deixando respingos de sangue para trás e cicatrizes pela frente. Com resiliência, vou erguendo todas as pedras e seguindo em frente da melhor maneira possível. Nem sempre é a maneira correta, mas é sempre a minha melhor tentativa. Muitas vezes uma decisão traz efeitos colaterais que são piores do que eu gostaria. Geralmente vêm de decisões "impossíveis", dessas que seriam ruins de qualquer forma. E eu vou andando, passo após passo. Desviando do que posso, chutando pedras menores e me esforçando para transpor as pesadas e altas. Por melhor que eu faça, parece que alguém sempre sai machucado. Mesmo que esse alguém, muitas e muitas vezes, seja eu mesma.
Por tudo que já ouvi, li e estudei, a vida tem barreiras e dificuldades, mas não precisa ser tão amarga assim. Deveria haver menos dor, mais aprendizado e uma infinidade de pessoas e momentos que compensam o mal. Não é o que tenho atestado. No máximo, encontrei paradeiros estranhos e pessoas amáveis, mas que não permaneceram por muito tempo. Sinto todas escorrendo por meus dedos através de um erro ou outro.
Quem é você que tanto exige de mim? O tempo? A insônia? Uma pessoa que se transforma em tantas outras? A depressão? É você a vida? É assim que te chamam? É você uma mistura de tudo aquilo que nos condena a sermos seres infelizes e amargurados? Quem é você? Perdão pela insistência. Preciso saber para que possa mandá-lo embora ou descobrir como aceitar sua presença. Não me deixe doente. Não afaste tudo e todos de mim. Por favor... Apenas me permita viver em paz. Não é tão difícil assim. Não estou pedindo por sucesso, dinheiro ou ascensão. Só paz. Física e espiritual, mas, mesmo assim, nem de longe impossível.
Quem é você e o quer de mim? É o tempo? A insônia? Uma pessoa? A depressão? A vida? Ou, talvez, a resposta seja mais simples e assustadora do qualquer dessas hipóteses. Talvez você seja tão somente um pedaço arrancado de mim. Um pedaço que hoje vive aí fora, atormentando o que sobrou e exigindo o que pensa que ainda é seu por direito. Talvez você seja apenas uma extensão do que sou. Um clone infeliz que arranca, corta e faz sangrar. O lado mais triste, severo e solitário; aquele que guardei em um recipiente hermético e tento afastar enquanto me esforço para continuar andando. Aguardando uma brecha. Pacientemente, esperando por uma chance. Um dublê de corpo e alma, esperando para voltar para o que já não lhe pertence mais.
 
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