quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A louca do telefone.


Olha, estou ligando só pra dizer que ainda ligo pra nós dois. Odeio telefones e sinceramente não sirvo para isso. Sempre saio da sintonia. Nunca aprendi a apertar o botão da chamada sem ter uma síncope. Você ouve frases economizadas do outro lado da linha e me imagina sentada em uma cadeira de praia, com um drink de frutas na mão. Mas, na verdade, nessa hora, estou abrindo um buraco no chão de casa de tanto andar em círculos. Daqui a pouco eu caio e vou buscar uma cerveja, como aquele chinês da propaganda da Skol. Fico com meus cabelos desgrenhados à la Einstein, tão fora da última moda, tentando manter um diálogo. Não rola. Telefones causam interferência no meu cérebro. Você pergunta se está tudo bem e tudo que ouço aqui na cachola é tu tu tu. Ocupada. Ocupada para sempre e sem linha de espera. E aí, porque eu odeio telefones e não consigo te ligar, você pensa que eu não ligo para nós. Mas eu ligo para nós e para você e até para mim mesma quando te amo tanto assim. Só que prefiro te amar sem surtar porque sua tranquilidade não combina com a desmiolada que eu viro quando encosto um aparelho na orelha. Bate o nervosismo, os nós dos dedos ficam brancos com a força, a bochecha esquenta e parece que, quando desligar, vai sair um pouco de pele grudada no identificador de chamadas por causa da pressão.
Estou ligando para desembuchar umas palavrinhas, nada sério, assuntos banais só para que você veja que não te esqueço nunca, nem um dia sequer. E, de repente, da pessoa inteligente que você achava que eu era, viro a mulher mais tola do mundo. A louca do telefone. Porque eu ligo para dizer uma lista infinita de coisas e não digo nada. Oi, tudo bem? Tudo e aí? É, tudo bem... Quero falar que, olha, ainda te amo, mas minha língua é teimosa demais e fica escondida no céu da boca ou presa entre dentes brutos. Sinto sua falta, mas por que diria isso? Você adora me deixar cheia de saudade. Eu sumo, você some e quem sabe esteja esperando que um dia eu ligue e diga tudo que me consome, todo esse excesso de ausência sua, tudo que não suporto mais viver ou deixar de viver por você e com você. Esperando que eu xingue e berre e no fim te mande à merda só para depois dizer que te amo. Talvez espere que eu vá despejar um pouco de emoção para decidir se responde com feedback positivo ou negativo. Mas só eu sei o quanto essa espera é fútil. Não sei jogar emoções e sou até meio egoísta. Minhas emoções são minhas, meu amor por você é meu, meu sofrimento também. Você não precisa de nada dessa porcaria para viver e eu prefiro te dar aquele ursinho segurando um coração que diz “gosto de você” do que um que diz “te amo”. Amar é admitir demais. Você sabe que eu gosto de você, como todo o resto do mundo sabe. Mas não precisa saber que te amo ou que sempre haverá um sorriso na minha cara quando aparecer. Nem que suas merdas me maltratam. Nem que aquela magricela me afetou em proporções humilhantes. Tudo que você precisa é saber que, em algum lugar de mim, tem um pouquinho de carinho por você. Só isso. E, se um dia te ligar, vai ser só para ouvir sua voz e descobrir se está bem, se está feliz e se ainda é o mesmo cara que me tira do sério. Por mais que toda essa história de não ter você aqui pegue pesado com minha saúde, é coisa que você nunca saberá. Eu não sei gritar e não sei dizer que nada está bem. Sou aquela que evita barracos tanto quanto você evita me amar. E por isso – mais o fato de não ligar – você pensa que eu realmente não me importo com você, com a magricela, ou com a falta de nós dois. E acha que meu sorriso é sempre sincero, mesmo quando você me liga depois da magricela dizendo que quer me ver. Então estou ligando só para avisar que me importo sim. E que, embora tenha aberto um sorriso, nos meus sonhos eu arranco o cabelo ruim daquela estranha e saio a passos largos bufando e reclamando sobre como te odeio.
Está todo mundo ouvindo minha voz de louca do telefone. Não é macia nem beira a rouquidão sedutora, mas também não é aguda a ponto de precisar de tampões de ouvido. Nada em mim é tão agudo assim, exceto o jeito de sentir demais. Sentir agudamente. E de me entregar demais a você, em um patamar que só as notas mais agudas alcançariam. E de chorar escondida em um canto esquecido da faculdade ou no banheiro da sua casa. E de olhar para você e me doer toda por seus ombros perfeitos. Pensando bem, estou tocando um instrumento agudo e desafinado na orquestra, por mais grave que tente ser. E eu tento tento tento, mas todo afinador insiste em me deixar envolta por tons agudos. Tento ser grave de voz, olhar penetrante e passos de deusa. Tento ser grave erguendo uma sobrancelha só. Tento ser grave de um jeito sensual. Mas é engraçado como um episódio de “Two and a Half man” quando uma mulher faz de tudo pra ser sensual. Tende mais a parecer caricatura de gibi exagerada do que bonequinha de luxo. Aí eu desisto, antes mesmo de colocar em prática, porque sou mais do tipo que dá um meio sorriso quando alguém pergunta o que aconteceu. Do tipo que olha de canto de olho e cora como um tomate eterno. Do tipo que mordisca vez ou outra o lábio inferior sem perceber, mas que não consegue fazer isso de um jeito sexy. E, seja como for, não estou procurando por uma matéria sobre como ser sensual em dez dicas, já que elas só mandam a mulherada pisar nos camaradas do sexo oposto. Pilhas de livros de banheiro ensinam que nós devemos dominar e pronto. Mas, quer saber, eu jogo para a rua os besouros lá de casa carregando-os pelo dedo. Uma mulher que não gosta de pisar em um besouro, não pisa tão fácil assim no homem que transforma a perna dela em gelatina. Quando tenta, só faz um boing molengo no chão. Então, ao invés de parecer patética tentando virar dominatrix, prefiro ser normal e falar muita coisa sem sentido ou permanecer em silêncio. Prefiro concentrar meus esforços em ser grave só pra mim. Grave o suficiente para te amar de um jeito bonito e não maluco, grave para não passar uma borracha em mim mesma quando você erra o risco do lápis. Grave para esperar o momento certo de correr, para longe ou para perto. Grave para saber, silenciosamente, o quanto você me dói quando eu enlouqueço só de te observar dormindo. Grave para pensar em ligar e dizer que ainda ligo para nós dois, que ainda te amo, que sinto um monte de outras coisas que você ainda não sabe e que possivelmente nunca descobrirá. Grave para continuar encarando o telefone e escolher ficar só no ensaio, apertar o botão vermelho ao invés do verde, fechar o celular e fazer outra coisa qualquer que não seja pensar em você. Grave para não ligar – nem hoje, nem amanhã, nem no mês que vem ou no próximo ano -, ainda que eu ligue pra nós dois antes mesmo de ligar para mim.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Baboseira natalina.

Aqui onde eu moro a noite está linda. Tem aquela mistura de estrelas cobertas por névoas que anunciam a chegada de uma chuva logo logo. Tem um mundaréu de carros congestionando as avenidas, porque as pessoas querem sair pra ver o natal de Pato Branco. A dona primeira-dama investe pesado na decoração e do lado da igreja tem um gramado com passeio que está abarrotado de enfeites natalinos. Nada de bolinhas vermelhas e douradas, nada dessa coisa brega. Ali tem soldados de chumbo enormes, casinhas tamanho família, globos iluminados, anjos, renas, carruagens e o escambau. E tem muita, muita luz. Dá até pra sair usando óculos de sol, de tanta luz que atravessa as retinas. Tem boneco de neve e tem até neve caindo o tempo todo, vejam só, em pleno verão. Espalharam até pedrinhas brancas pelo chão pra parecer real. As crianças olham maravilhadas e erguem seus bracinhos e rodopiam e riem e acreditam que estão na vila do Papai Noel. E eu fico prestando atenção, tirando fotos com a câmera profissional pra poder usar no portfólio depois. E pensando aqui no fundo, com certa vergonha, que eu morro de vontade de ser a filha da puta que estraga tudo e diz: "Seus trouxas, estão vendo aquela máquina escondida ali atrás? Sua neve vem dali e é só a porcaria de uma espuma. Vão pra escola aprender que é muito raro nevar no Brasil. E que nevar no verão é impossível". E aí uma risada de escárnio. Isso tudo na minha cabeça. Na vida real eu fico só olhando. Tentando encontrar o tal espírito de natal. Mas, sabe como é, eu não tenho mais isso não. Não dá pra ter espírito de uma coisa comercial. Sei lá, vai ver eu sou mão-de-vaca e não consigo aderir a mais uma data criada pra gente ter que gastar com presentes e pinheiros. Ou talvez seja só a minha fé, que de tão volátil já não existe mais. Eu tô tentando, beleza? Tô parada aqui na praça, tentando absorver por osmose um pouquinho dessa pureza toda. Mas acho cada vez mais patético, infelizmente.
Eu queria trabalhar no correio nessa época do ano, porque os funcionários de lá devem divertir-se lendo as cartinhas que a meninada escreve pro senhor Noel. É irônico pensar que ele só vai trazer presente pra quem se comportou bem durante o ano e alimentou-se direitinho, quando o cara não passa de um mentiroso que usa barba falsa, enchimento na roupa e é tão gordo que a artéria coronária deve estar nas últimas. Vem falar de colesterol pras criancinhas, Noel, vem. E os toquinhos de gente esperneiam até que encontram o velho no shopping, sentado em um trono que mais parece de rei. E correm, com as perninhas trançando, só pra sentar no colo do cara, entregar uma cartinha de letra ilegível e sair de lá carregando uma balinha barata. E o João, Alfredo, Graciliano - ou seja qual for o nome do dito cujo embaixo da barba -, se não for um cara confiável, vai é ficar de olho na busanfa da mulherada ou, ainda pior, curtir dar colo pras crianças. Aí você vem falar em comportamento excepcional, Noel.
Não sei quanto tempo faz que não acredito em natal e Noel, mas sei que há anos fico pra lá de satisfeita passando essa noite em casa com uma taça de martini na mão e o show anual do Roberto Carlos na tv. Sem barulho, sem abraço, sem ceia e sem falsidade. Sinto falta da vó, com seus cachinhos lindos; do vô, com seu jeitão amável; da madrinha que é meu exemplo de vida; da tia que tem a letra igualzinha à minha. Mas prefiro abraçar cada um deles em dias comuns, quando o abraço é simplesmente um gesto de amor verdadeiro e não algo que a gente se sente compelido a fazer porque a indústria diz que é o momento de abraçar e chorar e cantar musiquinhas.
Se eu acreditasse que lá no Pólo Norte existe um cara barbudo de verdade que voa pelo mundo com suas renas aladas, eu escreveria uma carta também. Diria que este ano fui uma boa mulher, que não fiz maldades, que vivi minha vidinha sem me preocupar com a dos outros - ainda que os outros se preocupem muito com a minha - e que não magoei ninguém, porque não deixei que alguém se aproximasse o bastante para que pudesse ser magoado. Viver meio reclusa é o jeito mais fácil de não sofrer. E, pela primeira vez na minha vida, este ano optei pelos caminhos mais fáceis a maior parte do tempo. Se fosse pedir alguma coisa ao cara, não seria uma bolsa Chanel, nem sapatos Louboutin, nem um vale compras na Sacks. Eu pediria um pouco de amor sincero, um em que não entregasse meu coração cheio de cicatrizes para quem só quer praticar embaixadinhas com ele. Um em que meu corpo fosse só a caixinha onde fica guardada a parte essencial e não a única e exclusiva vantagem do relacionamento. Um amor onde o cara percebesse que amar não é uma desonra e que eu fosse muito mais importante do que as meninas de balada que ele deixaria de levar pra casa. Um empurrãozinho pra fazer a coisa toda andar mais na velocidade de trem bala e menos de carroça de sítio. E se nada disso fosse plausível, então eu pediria que a minúscula parte em mim que ainda acredita em amor fosse finalmente extinta. Que eu terminasse meu processo de fortalecimento porque, segundo Nietzche, o que não mata nos fortalece. Mas eu tô cansada de crescer, de fortalecer, de transformar em sólido o que deveria ser líquido. Cresci o suficiente, já podem desligar a máquina. Eu ficaria feliz com uns cinco centímetros a mais de altura, mas crescer à base de pancadas já deu o que tinha que dar. É isso, eu pediria ao senhor Noel um pouco de redução. Diminuir para caber. Chega de calças apertadas e abraços que não encaixam. Quero reduzir medidas, reduzir feridas, reduzir tentativas frustradas. Reduzir estômago pra sobrar menos espaço para embrulhar, cortar fora a parte que ama e sonha e não consegue deixar de esperar. Diminuir tudo até que fosse tão minúsculo que um pisão esmagasse para sempre.
Mas sendo o velho Noel ficção, não tenho para quem pedir amor ou redução. Porque amor não se pede, não é um presente embrulhado e disposto embaixo da árvore. E redução não se ganha, desenvolve-se. Não é possível amar em um minuto e não amar mais no seguinte. É um processo lento. Ceticismo é um dom, mas é preciso alimentá-lo. Independente de quantas cartas forem escritas e de quem forem os destinatários, no final nossos pedidos só dependem de nós. Ou, quando pedimos amor, de nós e de mais alguém. Mas então, se eu tiver que optar por um caminho, vai ser o da redução, porque poxa, falta muito pouco para não sobrar nada de mim que não esteja contaminado por sarcasmo. São só mais alguns passos. Só mais um pouquinho e chego no topo do morro, uma perfeita muralha construída ao meu redor. É por aí que eu vou. Sem companhia, por favor. Essa é uma estrada cheia de pedágios e eles são tristes demais para que eu arraste alguém comigo. Tô bem com a minha mochila vermelha nas costas. Não vem com essa de "volta pra cá, não vai por aí que aí só tem escuridão e solidão e desespero". Não me enche com histórias sobre o espírito de natal, tempo de querer ajudar. Espírito de natal o caralho, falou?

Amor anêmico.

Ontem um biruta qualquer tentou segurar minha mão. Assim, do nada. Dei um salto instantâneo para trás. Instinto. Proteção. Tive vontade de gritar. Essa mão está fechada, seu idiota, enclausurada na espera interminável do último cara que a segurou. Essa mão tem cérebro próprio; pensa sozinha, lembra de tudo que viveu, transpira a saudade dos apertos. Tem medula espinhal; treme insegura, arrepia-se ao pensar na única mão que a completa, que fecha dedos com dedos com tanta exatidão que gera campos magnéticos. Choques. Aposto que você nunca sentiu isso nas mãos, cidadão. Sua mão fica rebolando para qualquer outra e acaba sendo a biscatinha que não sossega as falanges. Mas a minha é silenciosa, não gosta de requebrar. A minha tem amor até a pontinha de cada unha roída. Está fechada em um casulo e não é por qualquer um que vai se abrir e liberar a borboleta escondida. Não, esta lagarta já determinou suas vontades, seus desejos, seu caminho. Decidiu que só precisa esperar, mesmo sem saber se valerá à pena no final. Para os demais, acenos de tchau. É só para isso que ela se abre. Mas quando avistar sua companheira retornando e voltar a se esticar, todos os choques voltarão e tudo vai se encaixar novamente. Nada mais de unhas roídas. Nada de buscar um entrelaçar de dedos no vazio absoluto. Tudo vai ficar cheio como deve ser. Cheio de pele, de contato, de carinho.
Ontem um homem de jaleco branco puxou sem gentileza meus olhos para baixo, deu uma olhada na mucosa e exclamou: "você está anêmica, qualquer exame de sangue pode comprovar". Eu ri, desconcertada. Não estou anêmica. Meus olhos estão um pouco amarelados, doutor, mas é que a saudade faz isso com a gente. Deixa o branco da folha sulfite parecendo pergaminho encardido. Não estou anêmica, a não ser que anemia agora seja sinônimo de saudade. Tem também uns vasinhos bem vermelhos, eu sei, mas são efeitos da distância. O senhor por acaso conhece droga mais potente? É a distância que me deixa com esses olhos injetados. A distância, a falta de sono e uma ou outra lágrima fora de hora. Mas estou usando óculos o tempo todo, juro. Nada de forçar a vista, porque ela precisa estar perfeita quando meu amor voltar. Não posso correr o risco de aumentar o grau da miopia e não enxergar direito os detalhes daquele homem quando a distância acabar. Mas, mulher, seus olhos estão opacos. Eu sei, eu sei. Opacos e sem vida, como os cabelos das propagandas de shampoo antes de passarem por fórmulas miraculosas. Preciso lhe explicar tudo tintim por tintim, não é mesmo doutor? Isso quem causa é a tristeza, a despedida e a incerteza do retorno. Minha alma anda meio opaca mesmo e já que os olhos são as tais janelas grandes e escancaradas... Bem, tá aí. Veja só o que um tchau forçado pode fazer. Pode deixar os olhos sem brilho, meio mortos. Mas eu estou vivinha da Silva Sauro, o senhor pode ver pela cor azul - ou está verde hoje? - da minha íris. Não está esbranquiçada como a dos cadáveres. Fica tranquilo, doutor, isso tudo vai passar quando a distância terminar. Minha doença é saudade, não anemia, e isso nenhum hemograma vai lhe contar. É segredo de estado. Não esqueça da confidencialidade entre paciente e médico. O mundo lá fora deve achar que eu sou saltitante, feliz e que a saudade é o hamster com o qual eu brinco todos os dias.
Ontem bateu vontade de atacar a barra de chocolate branco com cookies que repousa no armário da cozinha há um tempão. Tentei até imaginar uma barata gorda e nojenta passeando por cima dela, mas a vontade não passou. Devem ser os malditos cookies, que fazem "crunch" quando mastigamos, mas não tanto quanto aqueles crocantes que uma vez arrancaram fora dois brackets do meu antigo aparelho. Chocolate branco com cookies é suculento e delicioso na medida certa. Não é verme nas tripas, não. É impossibilidade de cair em um abraço delicioso na medida certa como o chocolate. Dá vontade de encontrar afago em bombas calóricas, filmes românticos e cama improvisada no sofá da sala. Calor de trinta graus e eu dormindo com um edredom puxado até as orelhas. E sem nem fazer pizza embaixo dos braços. É caso que a ciência não explica, mas eu tenho a teoria de que aquele cara que girou meu mundo do avesso e depois que precisou ir embora virou uma espécie de aquecedor particular. Independente do termômetro do resto da atmosfera, era ele quem ditava minha temperatura. Que me abraçava para mandar o frio embora. E que, só de sorrir, já aquecia tudo. E agora eu tô nessa onda hipotérmica. Congelando quando todo mundo passa calor. Assistindo "Cartas para Julieta" e outros tantos filmes bobinhos e chorando como se minhas estantes de livros tivessem sido queimadas. Dormindo de edredom quentinho e acordando com orelhas e pés frios. Pé frio é má sorte. Picolé de pé é o que? Sexta-feira treze todos os dias da semana?
Ontem meus músculos doíam tanto que, no final do dia, tudo que eu queria era deitar. De novo no sofá da sala. O controle remoto ficou longe e só tinha chatice passando na televisão, mas tudo doía tanto que a ideia de levantar para buscá-lo já me fez ver estrelas No mau sentido. O caso é que essa saudade temperada com solidão me faz pensar tanto no amor que foi embora que eu procuro meios de não pensar em nada. E eu pensaria a mesma coisa com 80 ou 110 quilos no aparelho da academia para exercitar as coxas, mas optei por 110 porque 80 não dói mais, já virou hábito. Intensifiquei o exercício anaeróbico e foquei apenas nele. Lucidez, há quanto tempo não te encontrava, querida. Poderia ter aumentado só dez quilos na barra, mas dez quilos a mais não superariam minha saudade. Dez quilos a mais não me fariam esquecer de tudo por alguns instantes, nem cerrar os dentes e pensar apenas em erguer e abaixar as pernas. Dez quilos a mais não me deixariam toda firme para quando o cara voltar com seus quadríceps imaculados. Mas trinta quilos? Trinta quilos são capazes de esbugalhar meus olhos, encharcar a testa e exibir um gritante "puta merda" em minha cabeça ao invés das mesmas imagens tristes de sempre. Trinta quilos a mais me deixaram lembrando da academia por horas a fio, enquanto dez quilos ainda me permitiriam enxergar o adeus, as coisas que poderiam ter sido e blá blá blá. Dez quilos não fazem diferença. A não ser que estejam depositados nos meus culotes.
Ontem minha cabeça avisou que ia explodir. Disse que a enxaqueca estava passando do limite e que, já que não tomo providências, ela iria arrebentar e espalhar pedacinhos de encéfalo por todos os cantos da casa. Tomei remédio para a dor e para manter a cabeça no lugar, mas não resolveu. Porque pensar demais não dói - e todo mundo deveria tentar -, mas pensar demais em soluções que não existem pode transformar sua massa cinzenta em uma massa de biscuit perfurada por diversas agulhas. E enxaqueca é um bicho teimoso que, quando chega, não quer mais ir embora.
Ontem minha mãe reclamou que eu não quero mais sair com ela. Que minhas férias resumem-se a academia, leituras, cinema em casa e silêncio. Pensando bem, ela tem razão. Estou introspectiva além do normal. Não quis ir ao boliche, nem ao cinema - verdadeiro -, nem às compras, nem à festa de não-sei-quem-e-não-sei-onde. Não quero. Tô de bode. De olhos amarelados, músculos doloridos, gula intensa, enxaqueca premiada e, principalmente, uma dorzinha constante aqui no peito que os sábios chamariam de coração partido. Eu poderia explicar. Poderia dizer à minha mãe que cada strike do boliche dolorosamente me lembraria de como eu derrubei todas as minhas defesas, como pinos espalhados pelo chocar da bola, por alguém que fez um belo strike em meu coração. Poderia dizer a ela que o cinema real não tem sofá, nem edredom, nem nossos gatos deitados de conchinha comigo. Que não adianta comprar um vestido bonito se for para deixá-lo guardado junto com minha vontade extinta de botar os pés para fora de casa. Que festas de estranhos, tanto quanto festas de conhecidos, não fazem o menor sentido. Se for pra tomar umas bebidinhas falando baboseiras com gente fútil, prefiro tomar tequilas conversando com Bukowski. Mas não vou explicar tudo isso, porque minha mãe é uma guerreira. Uma das nobres, que não abandona soldados no campo de batalha. Então, ao invés de continuar travando suas lutas, ela vai estacar ao meu lado até que eu a acompanhe. E ela precisa continuar, porque vê-la trazendo um sorriso a cada nova vitória é o que me dá forças para não desistir com as minhas derrotas.
Ontem, enfim, eu percebi que todos os males corporais e mentais que me assolam vêm conduzidos pela ausência - a cruel e sarcástica motorista do ônibus. Percebi que fiz amizade com a solidão e que ela se tornou frequentadora assídua da minha residência. Tomamos chá juntas. Percebi que ela só tomará o ônibus de partida quando meu amor voltar. Então eu decidi, ainda ontem, que viver de você, meu bem, está de bom tamanho para mim. Que tudo que eu tento evitar é também tudo que afasta as doenças e tristezas do meu corpo. Vou pisando com cautela no campo minado em que nós vivemos, evitando uma bomba enquanto dou de cara com outra. Você tem o dom de minar tudo por algumas horas. Expectativas, amor, tudo. Fica aflorada só a decepção. Mas quando você volta, com voz suave e abraço apertado, eu sempre topo retornar às trincheiras do nosso querer. É assim, não adianta. Olha só tudo que a distância tem me causado. Tudo que a saudade de você me traz. Não dá para viver assim, escondida em edredons dia e noite, passando colírio para curar a ardência dos olhos, tomando remédio para amenizar as dores. Não dá. Decidi que vou esperar, levando aos trancos e barrancos até você voltar. E quando estiver novamente pressionando minha boca contra a sua, jogo os remédios fora e vou jogar boliche com minha mãe, ou comprar um vestido novo. E se você não quiser assim, se a distância temporária virar definitiva, se minha ausência não lhe doer nem um pouquinho sequer, vou pensar em algo mais. Em outro jeito de ser feliz. Porque não quero minhas mãos fechadas para sempre, nem me acostumar com a enxaqueca. Não quero meus olhos apagados, quero que eles brilhem e sejam a luz de alguém. E se for sua, prometo piscar menos, só uma ou duas vezes por minuto, para você jamais cair na escuridão. Prometo tudo. Tudo para que você nunca mais precise partir.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A verdade sobre os contos de fadas.

Anelise é uma dessas espécies diminutas de bochechas rosadas, ondas douradas nos cabelos e olhos azuis grandes e pedintes. Não sou fã de crianças, mas admito que resistir ao rostinho de amor misturado com pele de pêssego de minha prima as vezes é impossível. Quando a senhorita charme em miniatura chegou toda serelepe, cheia de presilhas em trancinhas, sentando ao meu lado na cama e pedindo que lhe contasse uma história, fui compelida por uma paixão repentina que me fez largar William Faulkner, jogar longe os fones de ouvido tocando sinfonias clássicas, tirar os óculos de lente e vasculhar a cabeça à procura de um conto de fadas. Há mais de quinze anos não acredito neles, com suas princesas insatisfeitas que acabam sendo felizes para sempre com um belo príncipe apaixonado, mas sem um trabalho dignificante ou vontade própria, mas aquela criaturinha sentada ao meu lado não precisava de ceticismo; seus olhinhos brilhantes pediam por algo puro e cheio de esperança em cada sopro do vento. Ela teria tempo para aprender, mais tarde, como a vida real é muito mais fria e sem magia. Prometi-me que, caso fosse necessário, eu mesma a tomaria pela mão e mostraria os caminhos tortuosos que somos obrigados a viver. Por enquanto, aqueles dedos minúsculos que seguravam os meus mereciam um pouco da mentira que deixa a vida mais bonita.
“Era uma vez uma linda garotinha com cachos dourados como os seus e olhos azuis da cor do oceano...” – comecei. Ela sorriu ao constatar que a tal garotinha era igualzinha à sua imagem. Pediu se o nome poderia ser Anelise também e respondi que, já que a história era muito, muito feliz, poderia sim. Construí castelos, mas não contei que quase sempre eles são feitos só de areia e derrubados pelas ventanias. Criei uma bruxa má, de nariz torto e pele meio verde como a bruxa malvada do oeste que amedronta Dorothy e seus companheiros, mas não falei que de todas as bruxas já inventadas, a vida é a mais assustadora. Inventei romances com beijinhos de esquimó, pequenos corações apaixonados, braços minúsculos que se apoiam e sorrisos tão grandes que fazem os olhos ficarem espremidos. Inventei tudo o que não existe. Tudo o que torna nossas crenças completamente infundadas. Tudo o que acabamos, no fim, descobrindo ser uma grande e absurda mentira. Mas não expliquei - ainda que a verdade me sufocasse, pedindo para sair – que beijinhos de esquimó quase nunca tem graça, que braços alheios não devem ser usados como muletas, que os sorrisos ficam cansados no fim da tarde e que corações são apenas músculos que não se apaixonam coisa nenhuma. Não desmenti as valsas dos aclamados contos de fadas, nem os príncipes perfeitos, nem a vida apática e fútil das princesinhas, cujo único objetivo no final do livro é casar, virar mãe e viver com a barriga grudada no fogão.
Para minha própria surpresa, consegui chegar ao final da história sem deslizar pelas alamedas da desilusão. Só quando ouvi o “e viveram felizes para sempre” saindo de minha boca, ainda que de forma não convincente, pude respirar aliviada e, de certa forma, até realizada por não ser eu a estragar os sonhos de uma criança, quando sua fé em finais felizes é o que de mais bonito ela possui. Talvez, com o passar do tempo, Anelise e muitas outras crianças espalhadas pelo mundo entendam que a verdade nua e crua é que contos de fadas são grandes pedaços de merda mergulhados em ilusão. Que finais felizes não passam de hipocrisia. Que nossos erros tortos são, embora dolorosos, os detalhes que mudam uma vida. Que perfeição não existe e que o máximo que nos aproximamos disso é quando somos a parte bonita e meio errada de alguém. Que podemos passar uma eternidade procurando e jamais encontrarmos esse alguém ou, ainda pior, encontrarmos e não sermos encontrados. E que amor, amor sim é um conto de fadas hipócrita. Um grande pedaço de merda – o maior deles - mergulhado em ilusão.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Curinga desempregado.

Ás, dois, três. Valete, dama, rei. Treze cartas, quatro naipes. Cinquenta e duas possibilidades de fazer parte do baralho legítimo, das cartas reais e adoradas. Cinquenta e duas possibilidades e, ainda assim, sou a quinquagésima terceira: o curinga. A única carta descartável, que serve apenas para alguns poucos jogos. O curinga e sua nulidade. O curinga e sua obrigação de fazer o monarca rir, dançando para lá e para cá com os penduricalhos de seu chapéu gigante e destrambelhado. Quando há um buraco no jogo, uma carta faltando, o jogador usa o curinga. Quando o naipe em suas mãos é diferente do que a canastra exige, o jogador usa o curinga. E só. Este é seu fim, caro Joker. De bobo da corte à tapa buracos, você manda assustadoramente bem. Faz-se merecedor de aplausos sarcásticos.
O curinga sabe que não passa de uma opção temporária. Não deve se envolver com ninguém porque sua estadia será breve, não haverá jamais tempo para cativar a carta amada, seja ela qual for. Não haverão meios para mostrar a ela como é grande o coração que se esconde atrás da figura de palhaço colorido e sorriso dissimulado. Ele sabe. Sabe que ficará na jogada por duas ou três rodadas, até que apareça a carta certa. Aquela que será apresentada com orgulho, sorriso nos lábios e um sonoro e apaixonado "é ela". Aí, então, o jogador tira o curinga e sua feiura do meio da bela canastra, porque não combina. A nova carta entra na parada, substituindo e encaixando perfeitamente porque é a verdadeira. Ela ganhará não só o jogo, mas também o amor. A máxima "sorte no jogo, azar no amor" não se aplica à vida do curinga, que será largado em um canto qualquer até que outra carta desapareça ou demore a chegar com sua bunda perfeita e conversinha fácil. Operação de resgate, pesca sem isca. Abriu uma vaguinha e o tapa buracos está lá novamente, tentando caber. Tentando desesperadamente se ajustar para ser feliz. Tudo para depois ser descartado como lixo e ter seus resquícios de dignidade chutados sem piedade por um pé calçado em chuteira profissional, que é para doer mais.
Houve um tempo em que quis ser a dama, o ás ou qualquer outro número desde que fosse para permanecer na vida de alguém. Para ser legítima. Para sentir o gostinho de ter um naipe só meu. Desejei a segurança de estar em um universo particular, ocupando o espaço anteriormente vazio do coração de alguém e transformando esse coração em nada menos que meu mundo, a caixinha onde o baralho dorme quando os boêmios descansam. Naquele tempo eu sonhava em chegar com mala, naipe e tapete de boas-vindas, anunciando toda prosa que chegara para ficar e enxergando felicidade plácida no rosto daquele que ganhara meu amor. Sonhava em pedir demissão do cargo de idiota que deve fazer palhaçadas para o senhorio e sair pelas ruas à procura de um emprego melhor. Por muito tempo acreditei que poderia aprender a ser outro tipo de carta, a realizar outros feitos no baralho, a mudar a sorte de um jogador para sempre. Mas não existe telecurso 2000 para deixar de ser curinga. O tempo todo buscando um lugarzinho fora da caixa, uma maneira de mudar a situação de ser o dedo tapando o buraco da barragem enquanto o cimento não chega. Maquiando, espremendo, dobrando para caber em canastras que não foram feitas para mim. Sofrendo a cada desilusão, a cada tentativa frustrada de me moldar em um rosto de dama para conseguir ficar onde os curingas não são hóspedes bem recebidos.
Esse tempo acabou. Agora entendo que, uma vez curinga, curinga para sempre. Acostumei-me a ser expulsa de corações que pensava ter ocupado por mais tempo do que a data de vencimento do contrato de aluguel. Habituei-me a ser despejada com todas as tralhas caindo ao meu redor, não por falta de pagamento, mas por não ser a moradora ideal. Quis mais do que tudo ser uma carta diferente, única, de naipe vermelho ou preto, mas tudo que alcancei foi a figura de curinga, a escória das cartas, o descartável. Hoje já desisti. Ainda machuca olhar no espelho e enxergar esse desenho colorido e infame que amedronta alguns e é inútil para outros. Ainda dói ostentar esse sorriso monstruoso, reverberando nas canastras alheias, quando uma pequena lágrima escorre pelo canto de um olho. Mas pelo menos, há muito tempo, não latejam mais os músculos dentro de caixinhas apertadas demais para esse tamanho todo de curinga. Porque quando você não cabe em lugar algum e sua mão não se encaixa em nenhuma outra, a vida é solitária. Solidão, no entanto, é uma das coisas mais belas que um curinga pode provar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A nossa tempestade.


Ao fundo um professor explica processos sinápticos, mas não presto atenção porque estou focada demais em manter as vísceras em seus lugares corretos. Na falta de ar-condicionado a porta da sala ficou aberta para que os alunos não derretam no calor da pequena Palotina. Não é minha culpa se me perco em devaneios olhando para fora quando deveria enxergar estritamente o quadro cheio de desenhos neuronais. Ou é. Tanto faz. O fato é que agora um alarme cerebral berra violentamente em meus sentidos só porque você passou no corredor ali fora. Não posso abrir a boca porque sairá um barulho misturando sirene de viatura policial e gritos de “segurem aquele coração!”, enquanto o dito cujo rola para longe em sua pulsação tremendamente exagerada. Já sinto a acidez do estômago chegando à garganta, querendo ir embora também.
Todo esse caos só porque você passou. Não durou mais que três segundos. Suficiente. Três segundos são mais do que o necessário para que eu enxergue o mundo em você. Tão seguro, tão firme em seus passos, atitudes e feições. Firme nos músculos... Ah, esses músculos. Como diabos devo prestar atenção nas tais células de Schwann quando tem um filme sobre você – e seus músculos – passando em slow motion bem na frente dos meus olhos? Está em cartaz: “Ele é o cara”, estrelando o homem dos músculos mais proporcionalmente bem desenhados. É seu último lançamento, acrescentado recentemente à filmografia em expansão. Conta a história de um cara que poderia ter o universo aos seus pés, mas preferiu ser o universo de uma só mulher. O romance de um cara que não sabia o quanto era amado, mas que sabia que, independente de quanto sentimento estivesse envolvido, mais cedo ou mais tarde teria um fim inevitável. Uma história sobre o cara dos músculos incríveis, da barba incrível, da personalidade incrível, que faria suas malas em uma data qualquer coisa menos incrível.
Bainha de mielina, blá blá blá. Você passou ali e eu fiquei babando aqui, um nível acima das cabeças pensantes que estudam os problemas da desmielinização. Estúpida, foi só uma olhadinha, coisa de uma piscadela, e deixo de ser a mulher de sempre para virar uma adolescente sonhadora, do tipo que me faz querer vomitar a bolacha de aveia do café-da-manhã. Você caminha todo lindo, o peito onde eu adoro dormir tão estufado quanto um balão de gás hélio. E eu quase deitada por cima da carteira, derrubada na postura corcunda de quem não aguenta o próprio peso. Com cara despreocupada, beliscando o lábio inferior com o polegar e o dedo médio, mania inconveniente.
Um fluxo de imagens compete por um lugar no meu cérebro. Levanto vagarosamente, ignorando os olhares curiosos, e vou de encontro a você, que me espera ancorado no batente da porta. Seguro sua nuca com delicadeza e você agarra meus cabelos, puxando-me com vontade para um beijo cuja música de fundo é o professor discorrendo, agora, sobre líquido cefalorraquidiano. O primeiro dos delírios. Fico puta quando alguém me arranca, com um cutucão, de meu pequeno sonho de olhos abertos, perguntando-me por quê o sorriso na cara por uma matéria tão chata. E de repente não estou mais puta e nem há professor cuspindo sem vontade algo sobre meninges do encéfalo. A música agora é um rock’n’roll do AC/DC e o som de nossas risadas enquanto corremos e sujamos as barras de nossas calças com o marrom da terra que cobre as ruas de Palotina. Não temos destino certo, nem objetivo, mas fluímos como duas nuvens passageiras, prontas para envolver o mundo em tempestades bonitas, porém perigosas. E isso é o segundo delírio.
Todas as mil fábulas que se formam em minha mente são melhores do que a original. Porque, na original, nada disso acontece. Nem beijo, nem sorriso, nem correria com “you shook me all night long”. Na original eu deveria estar prestando atenção na aula da faculdade, mas estava olhando para fora. E então você passou pela porta, em direção ao banheiro do bloco novo, me viu, sorriu e piscou. Eu te vi e só, mais nada. O coração acelerou, tudo virou silêncio e névoa como parte da ansiedade e do suor frio que sua presença traz. Mas, embora ninguém tenha percebido, um sorriso realmente tomou conta de meus lábios. Porque, originalmente, ainda que nossas tempestades atinjam tão somente duas vidas, elas não deixam de ser os espetáculos mais magníficos da natureza. Flórida, você perdeu. Fique com seus raios e trovões, porque nós temos uma bela de uma chuva de granizos para viver bem aqui.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O sequestro da felicidade.


Esta manhã saltei da cama com o pé direito, só pra não dar motivo para superstição me pegar. Escovei os dentes andando pela casa de camisola e não dei a mínima para a cara amassada no espelho. Procurei uma roupa colorida para andar por aí com alegria estampada no corpo. Saia florida balançando ao vento, cabelos ricocheteando no rosto, óculos de sol gigante refletindo a luz do dia. Olhares curiosos ao redor, do tipo “o que aconteceu com ela?”, olá daqui, bom dia dali. Afoguei minha própria voz que perguntava “é mesmo, o que aconteceu com você?”. Alguém me perguntou onde estava a mulher serena de sempre. Respondi com um sorriso, sabendo que por serena queriam dizer quieta demais. “Sei lá, deixei a introspectiva em casa hoje”, respondi.
Hoje eu decidi rir. Rir como uma criança brincando de dar susto. Como um comediante que ri antes de terminar a própria piada. Resolvi, é isso, hoje vou rir. Pelo menos para saber como é a sensação de passar um dia inteiro gargalhando. Precisava de uma razão engraçada e... Bem, resolvi rir de você. Hoje eu vou rir de você e não há nada que possa ser feito. Só por hoje você é minha piada e não mais meu caso triste. Amanhã não sei o que será, mas nesse exato momento não passa de um rabisco abstrato e engraçado. Não mexa comigo agora, rapaz, porque você não verá minha face confusa e dolorosa. Ah, não. Você verá meus lábios se franzindo, tentando segurar um risinho debochado. E depois me assistirá explodir em uma gargalhada muito alta, cheia de vida e frescor.
No final da tarde fica frio, mas os sorrisos me aquecem. Devo mesmo estar parecendo uma boba, achando graça de tudo, mas quer saber? Não me importo. Hoje é assim que vai ser. Não me venha com “para com isso” porque estou me sentindo uma criança sem limites e posso colocar as mãos nas bochechas, mostrar a língua e sair cantarolando “lero-lero”. Deixei todo o amargo da vida guardado em casa até a hora de voltar e trouxe para a rua apenas o doce mais doce. E você, azedo como sempre, não combina com meu doce mais doce que chocolate. Se fosse o azedinho de um morango, tudo bem, mas você é como limão estragado e vai me amargar.
Vou embora, rindo sozinha e parecendo uma louca, mas uma louca feliz e não a louca à beira da morte que você me faz parecer. Visto a jaqueta porque só os sorrisos já não bastam, mas tudo bem. Imaginar seu rosto mergulhado na ignorância, sem saber o que diabos aconteceu para causar uma mudança tão drástica me faz rir ainda mais. Dá-me vontade de saltitar e, como hoje não me importo com nada, saltito até o joelho – meu velho joelho estragado - doer. Aos olhos alheios devo estar parecendo uma paquita que fugiu de um manicômio, mas eu poderia gritar ao mundo um convite para saltitarem ao meu lado. Se pareço uma paquita, vamos todos procurar as botas brancas, então, e seguir até a nave da Xuxa. Até me imagino com uma multidão correndo e cantando atrás de mim, como num comercial da Coca-Cola. São comerciais felizes, ainda que eu deteste o refrigerante.
Então, ainda saltitando, chego em casa. A lua alta é só o que tinge a noite escura, com uma ou duas estrelas pinceladas por aí. No instante em que fecho a porta, sinto toda a alegria vazar por meus poros numa fuga desenfreada, como se afirmasse não ser minha. Corre para longe como um refém que escapa de um sequestro. Ok, nada mais justo, eu tinha mesmo sequestrado a felicidade e agora ela já estava livre para voltar ao mundo ao qual verdadeiramente pertencia. Talvez isso seja muito cruel; não foi um sequestro, foi só um empréstimo de algumas horas. Junto com ela, vai embora também a sensação de leveza e de tudo que é bom. Instantaneamente o gosto doce que me acompanhou durante o dia dá lugar ao amargo de sempre. Faço uma careta de desgosto. No espelho não enxergo mais estampas coloridas na roupa e as poucas ainda presentes parecem muito deslocadas. Melhor prender o cabelo. Enquanto tiro a maquiagem, vejo uma máscara indo embora pelo ralo da pia do banheiro. Não uma máscara de pepino de madame, mas algo que apenas os tristes que não querem ser tristes têm. Minha máscara feliz tem vida própria. Me acompanha durante o dia, mostra-se plausível à multidão, convence o mundo de que essa alma está carregada de tudo que é lindo. Mas me abandona à noite, dizendo não aguentar mais. Deixa-me sozinha e vai pela escuridão afora festar, comemorar sua liberdade. Em meu rosto fica só a opacidade, o lado verdadeiro de mim, as bochechas vermelhas, os olhos sem brilho e os lábios fechados, cansados de sorrir. Deve ser por isso que tenho tanto medo de palhaços; eles fingem uma felicidade que não têm e, quando encaro minhas próprias feições dissimuladas, descubro que não passo de um palhaço de circo: rosto maquiado, pintado como um quadro de comédia, só esperando pelo nariz grande e vermelho.
Mas tudo bem, hoje não vou chorar. Hoje eu senti, lá no fundo, um calorzinho real que há tempos não dava as caras por aqui. Foi, enfim, um dia para sorrir, e ainda que não termine com um sorriso, também não terminará em lágrimas. Hoje eu quis, mais do que tudo, convencer não apenas a plateia dessa pequena cidade de hipócritas onde moro, mas também a mim. Quis incutir em minha mente que a felicidade era real, que você não machuca mais, que sua falta não dói em cada cantinho meu. Quis acreditar que tudo era verdadeiro, do sorriso ao gostinho doce. Mas, sejamos francos, minha parte doce foi embora no momento em que você também virou as costas. Minha parte doce está na sua mochila, esquecida junto aos seus sentimentos por mim. Eu quis rir de você, das suas bobagens, de tudo que você usou como desculpa para não me querer mais. Mas a verdade é que, no escuro do quarto, quando não é preciso representar, suas desculpas matam, dia após dia, minha vontade de acordar, vestir uma roupa florida e sorrir de verdade, tentando sentir qualquer sabor que não seja tão desesperadamente amargo na boca. Porque nada disso é necessário; suas desculpas são apenas desculpas e ambos sabemos que a verdade é ainda mais triste. Aqui, no escuro, na solidão, sem a máscara e sem o nariz de palhaço, resta-me apenas esperar o sono chegar e levar embora a visão das suas costas – sempre tão belas - ficando a cada noite mais distantes de mim.

sábado, 23 de outubro de 2010

Ligue os pontos.


Olha, meu amor, sinto dizer que acabou. Sinto muito, sinto tanto, sinto de um tamanho muito maior que meus 164 centímetros. Você apareceu de repente e arrebatou minhas defesas sem precisar de muito esforço. Ontem havia ao meu lado uma imagem pontilhada, do tipo “ligue os pontos”, que sempre pareceu enigmática e complicada demais para que gastasse meu tempo tentando resolver. Quando criança, costumava ser boa nisso; minha mãe desenhava os pontinhos e, seguindo o tracejado, eu os transformava em paisagens, cogumelos com portinhas e nuvens de algodão-doce. Nada disso era difícil. Esse amontoado de pontinhos amorfos que sempre me acompanhou, no entanto, era complexo demais para ser elucidado. Pensei que fosse levá-los comigo para o caixão, sem jamais descobrir qual deveria ter sido sua forma.
E então chegou você. Não acredito em contos de fada, muito pouco em amor. Acredito em cavalos brancos – sem magia –, mas príncipes são seres tão lendários e irreais quanto vampiros. Então não, não vou entupir este texto de firulas e dizer que você chegou enfiado em uma camisa de babados, calça embalada à vácuo, botas de mosqueteiro e o cabelo balançando ao vento, montado em um cavalo de crina luminosa. Ah não, isso é um punhado de baboseiras e se visse algo assim eu sentaria para rir. Não, você chegou muito mais belo e real. Veio em suas calças jeans surradas, blusa de fio e cabelos que, infelizmente, não conheci quando compridos. E com uma barba que fez falta na única vez em que vi seu rosto liso. Veio a pé me fazendo companhia, outras vezes me dando carona em um carro que tem tanto de você que toda a cidade sabe que é seu. Chegou pegando subitamente um pedaço do meu coração para você e levando o resto aos poucos, pacientemente. Hoje há mais de mim em suas mãos do que ambos gostaríamos.
Ontem havia pontinhos voando espalhados ao meu lado; hoje até uma criança de três anos poderia ligá-los com uma canetinha colorida. Todos viraram luminosos como vaga-lumes e escolheram suas posições; abandonaram a confusão embaralhada e definiram um padrão que se parece com os desenhos tracejados de minha mãe, exceto que, desta vez, não há cogumelo algum. Desta vez há uma forma humana com seu corpo e suas feições. Desta vez há você, só esperando que eu brinque de traçar os pontos. Seu contorno luminoso me segue dia e noite e ocupa tanto meu coração que me surpreende ainda haver espaço para o sangue bombear. É como uma panela com água em ebulição; uma água doce com gosto de amor. Com açúcar e com afeto, parafraseando Chico Buarque.
Vou te contar, amor, que ver aquela bolinha de papel preto amassado de repente se transformar em você fez meu mundo virar de cabeça para baixo e o estômago embrulhar violentamente. Antes era confortável, sem imagem, sem desenho, sem apego. E agora é como um soco no abdome a cada manhã em que abro os olhos. Há dias em que tudo que queria era poder dormir novamente. Mas você roubou de mim o coração, os pontinhos, a paz e também o sono. Pegou sozinho uma caneta e riscou seus traços como quem diz: “se você não me pintar ao seu lado, eu mesmo pintarei”. Tudo bem mas, ei, você esqueceu de um detalhe. Esqueceu de preencher o que agora é seu contorno já traçado. Me deixou com sua forma de centro vazio, não colocou nada de sentimento, nada de você que pudesse torná-lo mais substancial. E eu posso te amar, posso passear de mãos dadas com o contorno vazio, posso querer que borracha nenhuma te apague daqui, mas não posso amar por nós dois. Se você tivesse um pontilhado meu, ele estaria preenchido com meu coração e tudo que de mais verdadeiro posso oferecer. Mas você nem quis ver meu desenho, aquele monte de pontinhos tristes que só queria um pouco do seu abraço. Você preferiu deixar a forma ao seu lado sem figura para caber qualquer pessoa. Eu poderia pegar minha própria caneta e me traçar segurando sua mão com cuidado, mas de nada adiantaria. Você enxergaria baratas, não vaga-lumes.
Não vou abandonar seu contorno em uma ruela qualquer; não pense que quando digo adeus estou dizendo que não te quero ou não te amo. É, ao contrário, amor e querer demais, quando tudo que vem de você chega em quantidades de menos. Não vou mentir que, se quiser, posso sentir apenas um nada absoluto. Gugu Keller me disse, certa vez, que “tudo de que precisamos para que um sentimento se agigante ou mesmo se eternize dentro de nós é que contra ele lutemos bravamente”. Ele tem razão. Tentei por muito tempo negar à minha própria consciência o quanto ela já estava tomada por você. Tentei fechar os olhos, esfregá-los com força, estapear a cara tentando te esquecer. Procurei não me importar com a maldita frase “esquece isso, cara” mas, quer saber? Não existe nada mais estúpido para ser dito a um coração preso nas garras de outro alguém. É como aconselhar a um preso que ele pare de sonhar com a liberdade.
Então, a partir de agora, digo sim. Sim, eu estou aqui morrendo aos poucos por ver em cada faceta de nosso caleidoscópio um motivo a mais para ir embora. Sim, eu amei cada detalhe seu como achei que nunca seria capaz. Sim, esses mesmos detalhes me martirizam à noite em meus sonhos e durante o dia flutuando em minha mente. Está martelando, sim, o pesar de ver que você se importa tão pouco, que eu fui apenas mais uma peça aleatória do seu efeito dominó. Uma pecinha lá do meio, derrubada por outras tantas que chegam avassaladoramente. Sim, martela ainda mais o fato de eu, por outro lado, me importar a ponto de não saber viver sem carregar esse peso por aí como uma nuvem chuvosa particular, sempre trovejando acima de mim. E todo esse martelar daqui, martelar dali, acabou martelando seus pontos em mim, grudando em minha pele tudo que nós vivemos. Debaixo de toda essa roupa, ando pelas ruas cravejada de pontinhos que, agora, são pregos eternos. Sangrando, infeccionando, fazendo casquinha e sangrando novamente. Pregos que desenharam sua forma em mim, para que eu jamais possa esquecer. Sem cicatrização. Sem analgésico o bastante para tantas feridas abertas.
Sim, é tudo isso mesmo, mas é nada disso também. Porque, embora esteja marcada por nossas lembranças e cercada por sentimentos que jamais se afastarão, estou dizendo adeus. Levo comigo um tracejado completo de você, e deixo contigo meu punhado de pontinhos amorfos. Você faz deles o que bem entender. Pode jogá-los fora, pode brincar como se fossem massinha de modelar, pode desprezá-los ou lançá-los longe com uma raquete. Só não os quero em minha bagagem porque desde o início pertencem a você e assisti-los morrendo, pouco a pouco, é mais do que meu corpo pregado pode suportar.
Isso é um adeus. Estou virando as costas e partindo antes que você mesmo o faça. Olharei para trás, sim, centenas de vezes, algumas na esperança de que você esteja tentando me alcançar, outras apenas para te ver ao longe. Estou indo embora fisicamente, mas deixando a parte mais viva de mim aqui, em seus braços. Vou andar devagar, caso você queira recuperar a distância entre nós. Se for me esquecer, tenha como última imagem aquela em que precisei me lembrar constantemente de não te abraçar para sempre. Mas se, por acaso, mudar de ideia e criar ao seu lado um contorno com meu formato, pode ligar os pontos e eu voltarei correndo o mais rápido que puder. Se decidir me amar, estarei esperando em algum ponto da estrada, para onde você pode vir de jeans surrado e blusa de fio. Pode vir com barba ou sem barba, tanto faz, basta vir e me envolver em seus braços como se nada houvesse existido antes, como se fosse esse nosso primeiro encontro. Pode vir a hora que quiser, do jeito que quiser. Apenas poupe-me do cavalo branco pois nossa vida nunca foi um conto de fadas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Para Tânia.


Desde que tomou conhecimento do blog, Tânia tem me pedido pra escrever um texto feliz. Ela diz que gosta do que eu escrevo, mas que quer muito muito muito ler umas linhas cheinhas de felicidade. É porque Tânia é minha amiga e não gosta da tristeza que vê em mim. Digo para ela: “ei, uma hora isso tudo passa, não se preocupa”, mas ela não acredita; ô menina sem sossego! Tudo bem, eu também não acreditaria em mim se me ouvisse sendo tão otimista. Tânia mora comigo e já sabe que minhas risadas nem sempre são verdadeiras e que meu silêncio diz muito mais que as baboseiras que eu possa vir a falar.
Tânia é uma das poucas pessoas que não vê só meus sorrisos; não sei por quê, mas a danada conseguiu conquistar minhas lágrimas também. Pobrezinha, quando menos espera vê uma loira descabelada soluçando em sua frente. E ainda que eu não divida com ela todos os problemas e pensamentos que poluem meu cérebro, certamente o que ela sabe é muito mais do que eu esperaria que alguém soubesse um dia. Tânia sempre tem uma solução pra tudo, ainda que os planos nunca passem da fase “arquitetando uma ideia”. Tudo nas palavras dela soa simples, mas no fundo a gente sabe que não é e acaba desistindo de tentar fingir que é. Assim, complicado. É um tal de chora e tenta e no fim não tenta nada.
Tânia mora no quarto ao lado e quando me vê deitada na cama, num esforço monstro de esconder a tristeza, vem correndo como quem vai executar um salto duplo, joga-se em mim gritando “montinho!” e se esparrama ao meu lado pronta pra me fazer rir. Num dia desses ela resolveu dar uma lambida no meu cabelo pra que eu parasse de pensar no que estava me entristecendo. E não é que a técnica funcionou? Porque aí eu deixei de pensar no triste pra pensar no “eeeeeeca”. Tânia é engraçada, decora músicas tão bem quanto um analfabeto lê um livro e faz caras e bocas que merecem um prêmio, tudo isso regado à tererê e amendoim japonês. Muito amendoim japonês.
Seu nome deveria ser Paciência, sobrenome “dos Complexos”. Dona Paciência dos Complexos. Primeiro porque ela me aguenta, simples assim. Depois porque vive se achando muito mais do que realmente é; mais gorda, mais feia, mais burra, quando na verdade é linda em todos os sentidos. Tânia ama a palavra grotesco - até hoje não entendo por quais motivos, - e também se esbalda de rir quando eu falo “crianças pestes”. Vai entender, não é? Procuramos há tanto tempo um nome para nossa república, mas acho que no fim deveríamos simplesmente chamá-la de Hospício ou Manicômio, porque de loucura não nos falta nada.
Mas a realidade é que não sei escrever sobre quem me faz bem. Ironia ou não, as únicas pessoas por quem perdi horas digitando, apagando e reformulando, foram as que menos mereceram. Porque, Tânia, veja bem, escrever é minha maneira de expulsar os tormentos e aqueles que os provocaram. Ou pelo menos na teoria, já que no fim não expulso nada. Então, minha amiga, como você espera que eu fale sobre você e para você, quando tudo que faz é me trazer felicidade?
É essa, penso eu, a maneira mais próxima que meu coração fechado e meus modos reservados encontram de dizer que te amo, nega (mesmo que você me faça engordar demais)!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Saudade de adulto, coração de criança.

Alguém me disse que saudade é um prato que se come quente - muito quente - para ver se acaba logo. Otária que sou, entrei na vibe da velocidade e, sabe o quê? Acabei queimando a língua e não consegui comer mais nenhuma garfada. A saudade ficou ali, intacta, rindo da minha cara enquanto eu engolia litros de água para acalmar a ardência das células morrendo na boca. E por não ser um sentimento egoísta, quando percebe que vai conseguir machucar bastante, pra valer, a saudade chama toda a turma para a festa, porque aí sim a folia está armada. Meu coração vira um clube e, quanto mais tristeza carrega, mais decoração, luzes coloridas e gelo seco se instalam para o lado negro dos sentimentos. Logo chegam a angústia, a ansiedade e o desassossego para fazer parte da chacota, invadindo o local como penetras sem moral e trazendo consigo uma trupe gigante. Na porta não há seguranças, nem ninguém cobrando os tickets; dessa vez tá tudo liberado. Bebedeira, gritaria, avacalhação. Um tuntz-tuntz fenomenal tomou conta do meu peito e pensei que fosse a dor da desilusão, taquicardia emocional, quando na verdade era a galerinha da pesada acabando com meu sono e sanidade e deixando cacos de vidro espalhados pelo chão. Garrafas quebradas, drogas, putaria. A saudade comanda sua turma inescrupulosa, berrando "manda ver moçada, hoje a parada é nossa!". Sou dona da propriedade, sim, mas nada posso fazer quando o aluguel foi pago por uma noite inteira. Devo resignar-me e esperar que os ânimos esfriem e o festerê desenfreado acabe. Sou polícia que chega querendo botar banca, falando grosso e mandando todo mundo ir embora no mesmo minuto, achando que o cassetete mete medo em alguém; vem então a saudade e diz "se manda daqui, mermão, porque a gente tem alvará pra uma noite inteira de som alto e não ligamos a mínima se a vizinhança tá reclamando". Sou mãe de adolescente rebelde que liga avisando que está na hora de voltar pra casa, só para ouvir um "vê se me erra, mãe, a noite é uma criança". Porque, aqui no peito, sou mesmo uma criança sem você, uma criança abandonada que precisa aprender a se virar porque não vê uma mão estendida. Uma desprezada criança sofrendo de bullying na escola porque é um pouco diferente do convencional. Gorda demais, magra demais, quieta demais, espontânea demais. Vítima de indiferença. Arrasada pela sociedade opressora que exila quem está fora do padrão. Sou, então, uma criança fora do padrão aos seus olhos, olhos malvados mas ainda vistos com tanta doçura por esse meu coração que demora a aprender as consequências de seus atos infantis.
Não, coração, você não tem mais tamanho para isso, deve deixar de ser imaturo e acompanhar com a razão o crescimento de sua massa corpórea. Deve abandonar essa criança boba que ainda existe em você, que não cansa de sofrer os mesmos resultados de seus atos impensados. E apanha, apanha, apanha. É varinha, é chinelo, é toalha molhada debaixo do chuveiro. Apanha até ficar cheio de hematomas, mas é burro demais pra aprender. Burro demais pra ver que, desse jeito, vai morrer espancado pelo pouco caso, menosprezo e desgosto. Sempre pensando que, "ai", está apanhando, está doendo muito muito muito, mas amanhã vai sarar. Amanhã um gelo e uma pomada darão jeito nos ferimentos, um analgésico para a dor e pronto, tudo vai embora. Sempre querendo começar de novo, calando a voz da sabedoria que avisa que já é hora de deixar tudo isso para trás, que não há mais forças suficientes para resistir. Cólera, temor, melancolia. Tudo se fechando como um cinto apertado demais, estrangulador, mas sempre procurando por mais um espacinho que não esteja coberto de cicatrizes, algum pequeno canto que possa abrigar uma nova tentativa. "Olha só, aqui ainda cabe, você pode ficar aqui", diz sorridente o coração estúpido. E "tchi-pá"; é o som do chicote ferindo com sua ponta insensível novamente. Você é mesmo uma criança sem dignidade, não é mesmo coração? Não aguenta sem uma ferida aberta, sem um rasguinho no couro pra costurar, pra fechar os pontos dia após dia, com lentidão e sem anestesia. Sempre sangrando e limpando o maldito sangue, ardendo com água oxigenada. Seu passatempo é observar a cicatrização, o amontoado de células se juntando numa diapedese mal executada, formando o calombinho branco que permanece para o resto da vida. Masoquista, louco, insano. Quando você vai parar, coração? Quando vai perceber que não há mais espaço algum para cicatrizes, que tudo já está tomado de dor e de feridas que nunca irão se fechar, criando pus numa infecção generalizada? Você já virou uma massa disforme, graças à quantidade de linhas enrugadas e brancas que se formaram em sua superfície, mas os cortes mais profundos são eternos. Não há linha de sutura que aguente, não há ponto que seja firme o suficiente para unir as duas pontas do machucado. Não vai parar de sangrar e você, coração, criança burra, ainda procura por mais. Chega, estou avisando, você não pode arcar com mais pauladas; na próxima não será aceito em seu hospitalzinho medíocre.
Shhh, dorme coração. O barulho aí dentro está infernal, a festa vai longe, há muita comida e bebida à disposição da saudade e sua turma. Não há nada que você possa fazer, mas é hora de criança pequena deitar e dormir. Insônia, horror, apreensão. Agora não adianta, coração; você quis tanto uma história bonita e algo pra sonhar, mas conseguiu apenas mais um pesadelo para suas intermináveis noites maldormidas. Vá contar carneirinhos, se isso ajudar, mas trate de dormir agora. Se você não deixa de ser criança, deve ser tratado como tal, e crianças não tem permissão para permanecerem acordadas até altas horas da noite. Amanhã você pode brincar, pode levar sua peteca e sua bola para o jardim e se divertir, porque é isso que você faz, não é? Não passa de um pirralho afobado que vê a bola correndo em direção à rua e sai numa loucura desenfreada para buscá-la antes que seja atingida por um carro. E é você, então, que termina embaixo dos pneus, esmagado, reduzido a pó, sobrevivendo por tempo o bastante para ver sua bolinha colorida sendo levada para longe nos braços de outro coração, possivelmente um menos idiota. Pode chorar agora, otário, você não obedeceu aos limites do jardim, desobedeceu às regras, perdeu seu brinquedo e ainda vai apanhar por tudo isso. Mas a culpa é toda sua e de mais ninguém. Foi você quem não quis ouvir os os bons conselhos e foi você também quem não quis crescer, quem preferiu continuar na fase pré-escolar eternamente. Agora é tarde, pequenino, e quando der por conta você terá perdido os anos em que poderia ser maduro, mas ainda conservar aquele algo infantil, aquela pitada que dá graça à vida. Quando menos esperar você saltará da infância para a senilidade e não terá chance de deixar para trás um legado inteligente. Sua bagagem será burrada atrás de burrada, todas andando numa fila indiana como boas escoteiras.
Durma, coração, a festa há de acabar em breve. Em pouco tempo a saudade irá embora, bem como a maioria dos presentes. Ficarão apenas alguns retardatários, como a frustração e o abatimento, mas com estes você pode sobreviver, são quietos e toleráveis. Tudo vai estar silencioso novamente, até que a saudade cure sua ressaca e resolva patrocinar outra festa. Ela é bicho importante por estas bandas, não dá pra negar um aluguel, sabe como é. Mas você será avisado com antecedência, terá tempo de sobra para procurar uns tampões de ouvido ou um mp3. E caso, ainda assim, não consiga esconder os gritos vindos da festa ou de sua vizinha laringe, aí então você pode se sentir um lixo por ter escolhido viver todo esse fel que arrebatou sua alegria. Como uma boa samaritana, tento sufocar os ruídos atribulados do desespero e das lágrimas, mas nem tudo é tão simples. Você faz a bagunça e quem tem que pegar o esfregão e limpar sua merda todos os dias sou eu, andando por aí com um baita sorriso imaculadamente fixado no rosto, acenando para o mundo como se ninguém fosse mais feliz e as nuvens fossem mesmo de algodão. É a sua bosta toda e eu não sou psicóloga, estou ficando exausta de botar as mãos na massa por você. Da próxima vez que ferrar com tudo, vai se virar sozinho. Aguentará a festa e não terá sossego, será obrigado a sangrar, inflamar e inchar na frente de quem te ama, sofrendo quietinho e magoando quem menos merece ser magoado, fazendo chorar as poucas pessoas que se importam com sua saúde. Chega de subir em árvores só para se desequilibrar e levar tombos que viram chacota de quem vê. Eu lavarei minhas mãos, porque 21 anos esfregando com uma esponjinha toda a sua sujeira é tempo demais. Cansei de receber as olheiras enquanto você descansa com uma máscara de pepino nos olhos. Te vira, coração, ou cresce e aprende a trocar suas próprias fraldas porque o resto deste corpo está frustrado e decepcionado demais para continuar suportando sua birra e empáfia de criança mimada que não desiste de querer e tentar e sofrer e morrer um pouquinho a cada giro do relógio. Este corpo clama por silêncio; chega de festas, chega de atropelamentos, de brinquedos chegando em caixas bonitas embrulhadas em papel celofane e indo embora espatifados ou roubados, deixando para trás apenas a fita de cetim da embalagem como lembrança. Chega, por favor, coração, importe-se um pouco com o resto de mim e aquiete o que te impele a ser infantil, tão crente, tão sofrivelmente adaptado a receber nada em troca de muito. Não queira mais ser assim, coração, não queira mais levar essa vida de mão estendida como oferta e chutes na bunda e tapas na cara como recompensa. E se não conseguir resistir, se só tiver fraqueza estocada em seu ser, nenhuma réstia de força, e inclinar-se mais uma vez, algum dia, aos arroubos do amor, saiba que será sua última vez, porque este corpo não mais aguentará as consequências danosas e vis do que você não sabe administrar. O fardo será somente seu.

A festa acabou. Tudo está quieto agora, exceto pelos grilos cantarolando seu cri cri cri sem fim. Restos de comida e sujeira se amontoam em cada canto, mas a saudade está repousando em um divã de marfim. E matando por dentro. Até mesmo dormindo ela corrói. A saudade de você é horrível, mas ainda mais amarga é a de acreditar que a culpa não é desse meu jeito de ser que bota tudo a perder, que só consegue ser menos e não mais. A saudade de não ser um incômodo, um pegajoso e chato carrapato alheio ou um calo que só é suportado por não haver outra opção. A saudade de não viver de utopias e de não querer, sempre sempre sempre, trocar meu coração de criança por um de metal para que eu possa controlar suas decisões, enterrando o antigo no buraco mais fundo que meus braços me permitirem cavar. Essas saudades destroem muito mais, derretem e enlouquecem, dormem mas não descansam, estão sempre de vigília para ficar repassando na memória tudo que vivi e perdi, vivi e perdi, vivi e perdi incontáveis vezes. A festa acaba, a turma vai embora, mas fica a saudade e toda a dor velada que ela é capaz de causar com sua maestria de personalidade de sucesso com doutorado e PhD. Opressora, orgulhosa. E meu coração criança, que não consegue passar da primeira série, dorme um sono intranquilo, sempre à espera da próxima surra.
 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration