quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A louca do telefone.


Olha, estou ligando só pra dizer que ainda ligo pra nós dois. Odeio telefones e sinceramente não sirvo para isso. Sempre saio da sintonia. Nunca aprendi a apertar o botão da chamada sem ter uma síncope. Você ouve frases economizadas do outro lado da linha e me imagina sentada em uma cadeira de praia, com um drink de frutas na mão. Mas, na verdade, nessa hora, estou abrindo um buraco no chão de casa de tanto andar em círculos. Daqui a pouco eu caio e vou buscar uma cerveja, como aquele chinês da propaganda da Skol. Fico com meus cabelos desgrenhados à la Einstein, tão fora da última moda, tentando manter um diálogo. Não rola. Telefones causam interferência no meu cérebro. Você pergunta se está tudo bem e tudo que ouço aqui na cachola é tu tu tu. Ocupada. Ocupada para sempre e sem linha de espera. E aí, porque eu odeio telefones e não consigo te ligar, você pensa que eu não ligo para nós. Mas eu ligo para nós e para você e até para mim mesma quando te amo tanto assim. Só que prefiro te amar sem surtar porque sua tranquilidade não combina com a desmiolada que eu viro quando encosto um aparelho na orelha. Bate o nervosismo, os nós dos dedos ficam brancos com a força, a bochecha esquenta e parece que, quando desligar, vai sair um pouco de pele grudada no identificador de chamadas por causa da pressão.
Estou ligando para desembuchar umas palavrinhas, nada sério, assuntos banais só para que você veja que não te esqueço nunca, nem um dia sequer. E, de repente, da pessoa inteligente que você achava que eu era, viro a mulher mais tola do mundo. A louca do telefone. Porque eu ligo para dizer uma lista infinita de coisas e não digo nada. Oi, tudo bem? Tudo e aí? É, tudo bem... Quero falar que, olha, ainda te amo, mas minha língua é teimosa demais e fica escondida no céu da boca ou presa entre dentes brutos. Sinto sua falta, mas por que diria isso? Você adora me deixar cheia de saudade. Eu sumo, você some e quem sabe esteja esperando que um dia eu ligue e diga tudo que me consome, todo esse excesso de ausência sua, tudo que não suporto mais viver ou deixar de viver por você e com você. Esperando que eu xingue e berre e no fim te mande à merda só para depois dizer que te amo. Talvez espere que eu vá despejar um pouco de emoção para decidir se responde com feedback positivo ou negativo. Mas só eu sei o quanto essa espera é fútil. Não sei jogar emoções e sou até meio egoísta. Minhas emoções são minhas, meu amor por você é meu, meu sofrimento também. Você não precisa de nada dessa porcaria para viver e eu prefiro te dar aquele ursinho segurando um coração que diz “gosto de você” do que um que diz “te amo”. Amar é admitir demais. Você sabe que eu gosto de você, como todo o resto do mundo sabe. Mas não precisa saber que te amo ou que sempre haverá um sorriso na minha cara quando aparecer. Nem que suas merdas me maltratam. Nem que aquela magricela me afetou em proporções humilhantes. Tudo que você precisa é saber que, em algum lugar de mim, tem um pouquinho de carinho por você. Só isso. E, se um dia te ligar, vai ser só para ouvir sua voz e descobrir se está bem, se está feliz e se ainda é o mesmo cara que me tira do sério. Por mais que toda essa história de não ter você aqui pegue pesado com minha saúde, é coisa que você nunca saberá. Eu não sei gritar e não sei dizer que nada está bem. Sou aquela que evita barracos tanto quanto você evita me amar. E por isso – mais o fato de não ligar – você pensa que eu realmente não me importo com você, com a magricela, ou com a falta de nós dois. E acha que meu sorriso é sempre sincero, mesmo quando você me liga depois da magricela dizendo que quer me ver. Então estou ligando só para avisar que me importo sim. E que, embora tenha aberto um sorriso, nos meus sonhos eu arranco o cabelo ruim daquela estranha e saio a passos largos bufando e reclamando sobre como te odeio.
Está todo mundo ouvindo minha voz de louca do telefone. Não é macia nem beira a rouquidão sedutora, mas também não é aguda a ponto de precisar de tampões de ouvido. Nada em mim é tão agudo assim, exceto o jeito de sentir demais. Sentir agudamente. E de me entregar demais a você, em um patamar que só as notas mais agudas alcançariam. E de chorar escondida em um canto esquecido da faculdade ou no banheiro da sua casa. E de olhar para você e me doer toda por seus ombros perfeitos. Pensando bem, estou tocando um instrumento agudo e desafinado na orquestra, por mais grave que tente ser. E eu tento tento tento, mas todo afinador insiste em me deixar envolta por tons agudos. Tento ser grave de voz, olhar penetrante e passos de deusa. Tento ser grave erguendo uma sobrancelha só. Tento ser grave de um jeito sensual. Mas é engraçado como um episódio de “Two and a Half man” quando uma mulher faz de tudo pra ser sensual. Tende mais a parecer caricatura de gibi exagerada do que bonequinha de luxo. Aí eu desisto, antes mesmo de colocar em prática, porque sou mais do tipo que dá um meio sorriso quando alguém pergunta o que aconteceu. Do tipo que olha de canto de olho e cora como um tomate eterno. Do tipo que mordisca vez ou outra o lábio inferior sem perceber, mas que não consegue fazer isso de um jeito sexy. E, seja como for, não estou procurando por uma matéria sobre como ser sensual em dez dicas, já que elas só mandam a mulherada pisar nos camaradas do sexo oposto. Pilhas de livros de banheiro ensinam que nós devemos dominar e pronto. Mas, quer saber, eu jogo para a rua os besouros lá de casa carregando-os pelo dedo. Uma mulher que não gosta de pisar em um besouro, não pisa tão fácil assim no homem que transforma a perna dela em gelatina. Quando tenta, só faz um boing molengo no chão. Então, ao invés de parecer patética tentando virar dominatrix, prefiro ser normal e falar muita coisa sem sentido ou permanecer em silêncio. Prefiro concentrar meus esforços em ser grave só pra mim. Grave o suficiente para te amar de um jeito bonito e não maluco, grave para não passar uma borracha em mim mesma quando você erra o risco do lápis. Grave para esperar o momento certo de correr, para longe ou para perto. Grave para saber, silenciosamente, o quanto você me dói quando eu enlouqueço só de te observar dormindo. Grave para pensar em ligar e dizer que ainda ligo para nós dois, que ainda te amo, que sinto um monte de outras coisas que você ainda não sabe e que possivelmente nunca descobrirá. Grave para continuar encarando o telefone e escolher ficar só no ensaio, apertar o botão vermelho ao invés do verde, fechar o celular e fazer outra coisa qualquer que não seja pensar em você. Grave para não ligar – nem hoje, nem amanhã, nem no mês que vem ou no próximo ano -, ainda que eu ligue pra nós dois antes mesmo de ligar para mim.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O cara que quis consertar.

Estragou a maquinaria. Simplesmente enguiçou, parou de funcionar. Depois de tanto tempo aguentando as pontas, finalmente rendeu-se. Cansou de sacolejar, arfar, quebrar e continuar dando a cara à tapa. Já passava da hora. O mecânico a recebeu com olhar desconfiado, careta meio torta. É bastante trabalho moça, disse ele, e mesmo assim não dá para garantir que voltará a funcionar, não. Tudo bem, pior do que está não pode ficar. Custará caro, ele insistiu. Não queria pegar o serviço, assumir tamanha responsabilidade. E se algo desse errado? O pobre coitado sentiria culpa pela desgraça alheia sabe-se lá por quanto tempo. Mas, no fim, aceitou tentar o conserto. Pagamento adiantado. Fez uma lista gigante de tudo o que precisava ser feito; peças faltando, engrenagens estragadas, motor danificado, pintura descascada e incontáveis fendas e amassados. Caramba, era de admirar que aquela lata velha tivesse aguentado tantos anos. Era até emocionante ver o quanto ela lutou. Levaria pelo menos um mês para ajeitar e, mesmo assim, a maior parte não teria jeito. Seria um trabalho com 30% de sucesso, no máximo. Mas já que a dona quer tentar, pensou ele, mãos à obra.
Dentro de um mês, o serviço não chegara nem mesmo perto de ser concluído. E olha que o cara estava mesmo se esforçando. Dispensou todos os outros bicos que chegaram naquele período para poder se dedicar totalmente àquela tarefa, em parte pelo dinheiro, em parte pelo respeito à força de vontade da mulher em reviver a máquina. Preocupado, ligou para a contratante. "Olha, dona, não tá rendendo como eu esperava. Ainda tem muita coisa para arrumar, sabe? É que depois de desmontar tudo eu vi que a superfície estava em boas condições perto do interior. Esse eu não sei não, tá muito judiado. É tanto dano que tô achando que não vai ter jeito, mas tô me atendo aos detalhes para não deixar escapar nenhum buraquinho". Ele queria se explicar e ela percebeu o receio em sua voz. O pavor de que ela dissesse que não ia mais pagar porcaria nenhuma fora do prazo. E ouviu também um tom de pena disfarçado. Pena não, moço, por favor. Tudo menos pena. Mas, para grande estranhamento do mecânico, o que ele ouviu do outro lado da linha telefônica foi uma boa risada. Não daquelas assustadoras, do tipo "você tá ferrado, moleque". Era uma risada verdadeira, até gostosa de se ouvir. Um som engraçado. Ele quis rir da falta de melodia do riso, mas conteve-se. Não entendia mais nada. Ela também não explicou. Simplesmente, quando parou de rir, disse que não havia o menor problema. Nem pressa. Que ele podia demorar o tempo que achasse necessário. E falou tudo isso com a voz aguda da alegria, de quem realmente não se importa. Ele não estava acostumado, tão esculachado fora por outros clientes mesmo quando tudo ficava nos trinques. Aquela mulher era uma incógnita. Ou louca. Mas é um crime reclamar da sorte, quando há tanta gente que carece dela; sendo assim, ele aquiesceu e voltou ao trabalho. Sem pressa, mas com uma vontade que jamais tivera ao consertar outras máquinas. Posso conseguir, pensou, vou conseguir.
O trabalho era árduo. Tudo naquela geringonça estava tão quebrado que dava até angústia de olhar. Havia momentos em que ele nem mesmo sabia por onde começar. Dias em que pensava em desistir. Mas então pensava na mulher. Não em seu dinheiro, mas no olhar triste com que chegara, trazendo aquela gororoba amassada em suas mãos trêmulas, embalada em um tecido de lã azul muito delicado. Delicado demais para o estado do que continha. Pensava que, se ela não desistira, mesmo com toda essa destruição inegável, quem era ele para fazê-lo? Fosse um médico, ele declararia com voz impessoal "sinto muito, fizemos tudo o que havia para ser feito". Mas não era médico. Era um mecânico e orgulhava-se disso e de sua competência. Nunca antes abandonara um projeto e não seria esta a primeira vez. Então, com renovado afinco, voltava ao processo de cura da máquina. O renascer, como carinhosamente o apelidara. Quando terminasse, aquilo seria como um novo bebê. Um meio feio e coberto por cicatrizes. Talvez algumas feridas internas. Mas ao menos o motor estaria funcionando novamente, engrenagens à todo vapor. Teria mais algum tempo para continuar estragando-se por aí.
Cerca de quatro meses se passaram até que o mecânico estivesse satisfeito. Não era um serviço perfeito, longe disso, ele sabia. Como previra logo de início, a maior parte não pudera ser consertada. Mas ele procurou cada possibilidade, ajeitou cada pequeno furo que podia, passou óleo em cada peça. Limpou até que não sobrasse poeira para contar história e pintou tudo novamente, dando uma cara nova ao que antes estivera enferrujado e feio. Deu o máximo de si e estava ansioso para devolver a máquina à mulher. Discou o número e contou, todo faceiro, com alegria quase pessoal, que terminara e que ela já podia passar na oficina. Desta vez não ouviu risos. Ao contrário da animação dele, ela parecia até decepcionada com a novidade. Nesse momento ele decidiu que ela era realmente doida. Louquinha, louquinha.
Ainda assim, dois dias depois ela chegou, batendo à porta de metal da oficina com suavidade. Não parecia a mesma jovem que estivera ali para contratar sua habilidade. Emanava um ar estranho, como se estivesse muito feliz há dias e, de repente, algo a tivesse abatido. Seus olhos estavam com a vermelhidão que só quem passa muito tempo chorando consegue adquirir. Braços cruzados de quem procura proteção. Postura curvada e cabeça baixa. Insegura demais, pensou ele. Será que tem medo que eu tenha estragado ainda mais a lataria?
Mas não, não era medo o que ela sentia. Quando ele voltou, após deixá-la sozinha por alguns segundos para buscar o embrulho, ela arfou e apertou o peito com uma das mãos. Por favor moça, pensou ele, não vá ter um infarto. O rosto comprimido em feições de dor, tristeza e algo que parecia saudade, ela adiantou-se até ele com passos lentos. Pensava o tempo todo se não deveria simplesmente virar-se e correr para o mais longe que pudesse. Poderia ligar depois e pedir que ele desse fim àquilo. Que queimasse tudo até que não sobrasse vestígio. Mas a saudade falou mais forte. Pensou em quantas coisas vivera com a máquina. Em quantas lembranças estavam arquivadas ali, esperando para voltarem ao lugar a que pertenciam. Em tudo que sentira com ela. Pensou no barulho constante do motor e nas engasgadas que ele dava às vezes. Pensou na inutilidade de viver sem aquilo. Então, decidida, estendeu as mãos para receber a peça que o mecânico envolvera, com visível carinho, na mesma lã azul em que ela a levara. Antes de abrir, deu um abraço no homem e agradeceu. Não fiz mais que minha obrigação, ele pensou, mas estava envergonhado demais para responder. Sentia-se um invasor de almas, tendo assistido à reação da moça, sua humilhação e a dor com que recebera o pacote. Cogitava a hipótese de que tentara ajudá-la, mas teria mais sucesso caso largasse o trambolho em uma lixeira. Ela não queria aquele peso em sua vida novamente e só agora ele percebia. Amaldiçoou-se por ser tão insensível e quase pediu desculpas, mas ela já fora embora.
Sentada em seu carro, em uma rua afastada, a mulher puxou os cantos do tecido e deu uma olhada em seu conteúdo. Estava diferente. Repaginado, ainda que todas as cicatrizes fossem claramente visíveis. Ele fizera um bom trabalho. Ela sabia que jamais poderia se desfazer dos machucados e golpes que a lataria já levara, mas ainda assim o resultado final a surpreendeu. Então, com calma, tirou a camisa de renda preta que vestia. Abaixo dela, uma grossa camada de faixa hospitalar cobria a região torácica. Ela foi desenrolando a faixa fina até que não houvesse mais nada além de um montinho de gaze. Um curativo grudado com micropore, que não doeu em reação ao puxão. Sem mais nada para cobri-la, tinha expostos agora os seios e um grande buraco negro entre eles. Não mais sangrava, pois no decorrer do tempo as bordas ressecaram. Pegou a máquina em suas mãos e posicionou-a no centro do buraco. Fechou tudo novamente, cruzou os braços sobre o volante do carro, abaixou a cabeça e chorou até sentir que poderia chegar a um hospital e agendar um enxerto de pele sem que desmoronasse.
Enquanto dirigia, pensou no quanto fora feliz durante os quatro meses sem seu coração. Quando o dito cujo, em frangalhos e vencido, deu seus últimos suspiros, ela quis que houvesse conserto. Levou-o ao mecânico com sincera esperança de que ele pudesse dar um jeito no problema, independente do quão dispendioso fosse. Não queria se afastar do órgão que batera forte tantas vezes por ela. No amor, no padecer, sempre em resposta surda às suas experiências. Não queria abandonar o enfermo. Mas,  logo na primeira semana de vazio, ela não sentia mais desconforto. Dor, saudade, amor, insegurança, tudo fora embora. Não sentia mais nada. De repente começou a acordar feliz todos os dias, de segunda a segunda. Ninguém conseguia magoá-la nem abalar suas estruturas. Aquele seu antigo amor, por quem ela tanto perdera noites de sono e tantas cobertas borrara com maquiagem, agora podia aprontar o que quisesse. Não importava mais. Era assim a tal felicidade, então? Poderia viver disso, com certeza. Foi a festas para comemorar até sem ter o que comemorar. Tudo era motivo para risos e nada para lágrimas. Quatro meses. Os mais felizes de sua vida. Até que o mecânico ligou e acabou com tudo. Por duas noites ela pensou em nunca mais aparecer, trocar o número do celular e sumir do mapa. Ele não poderia processá-la por não querer de volta seu coração. Estava tão bem assim, tão "insofrível". Riu com a palavra ridícula que inventara. Mas então algo chocou-se estrondosamente com seus novos sentimentos. Percebeu que, embora feliz, estava vazia. Tudo o que nunca quis ser. Por mais que seu coração fosse capaz de trazer tantas dores absurdas a seu mundo, precisava dele. Não poderia ser alguém cujos sentimentos são vácuo e breu, nem ter um grande nada em seu peito. Não poderia ser como tantas mulheres que reduzem-se a aceitações inúteis. Precisava de sua profundidade, ainda que ninguém estivesse disposto a conviver com ela, ainda que seu preço fosse a solidão. Precisava daquilo que, embora fosse um chato calo doloroso, era também seu bem mais precioso. Nunca teria o coração de outra pessoa, não era encantadora o suficiente para tanto. Mas foi buscar o único que tinha para chamar de seu.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Baboseira natalina.

Aqui onde eu moro a noite está linda. Tem aquela mistura de estrelas cobertas por névoas que anunciam a chegada de uma chuva logo logo. Tem um mundaréu de carros congestionando as avenidas, porque as pessoas querem sair pra ver o natal de Pato Branco. A dona primeira-dama investe pesado na decoração e do lado da igreja tem um gramado com passeio que está abarrotado de enfeites natalinos. Nada de bolinhas vermelhas e douradas, nada dessa coisa brega. Ali tem soldados de chumbo enormes, casinhas tamanho família, globos iluminados, anjos, renas, carruagens e o escambau. E tem muita, muita luz. Dá até pra sair usando óculos de sol, de tanta luz que atravessa as retinas. Tem boneco de neve e tem até neve caindo o tempo todo, vejam só, em pleno verão. Espalharam até pedrinhas brancas pelo chão pra parecer real. As crianças olham maravilhadas e erguem seus bracinhos e rodopiam e riem e acreditam que estão na vila do Papai Noel. E eu fico prestando atenção, tirando fotos com a câmera profissional pra poder usar no portfólio depois. E pensando aqui no fundo, com certa vergonha, que eu morro de vontade de ser a filha da puta que estraga tudo e diz: "Seus trouxas, estão vendo aquela máquina escondida ali atrás? Sua neve vem dali e é só a porcaria de uma espuma. Vão pra escola aprender que é muito raro nevar no Brasil. E que nevar no verão é impossível". E aí uma risada de escárnio. Isso tudo na minha cabeça. Na vida real eu fico só olhando. Tentando encontrar o tal espírito de natal. Mas, sabe como é, eu não tenho mais isso não. Não dá pra ter espírito de uma coisa comercial. Sei lá, vai ver eu sou mão-de-vaca e não consigo aderir a mais uma data criada pra gente ter que gastar com presentes e pinheiros. Ou talvez seja só a minha fé, que de tão volátil já não existe mais. Eu tô tentando, beleza? Tô parada aqui na praça, tentando absorver por osmose um pouquinho dessa pureza toda. Mas acho cada vez mais patético, infelizmente.
Eu queria trabalhar no correio nessa época do ano, porque os funcionários de lá devem divertir-se lendo as cartinhas que a meninada escreve pro senhor Noel. É irônico pensar que ele só vai trazer presente pra quem se comportou bem durante o ano e alimentou-se direitinho, quando o cara não passa de um mentiroso que usa barba falsa, enchimento na roupa e é tão gordo que a artéria coronária deve estar nas últimas. Vem falar de colesterol pras criancinhas, Noel, vem. E os toquinhos de gente esperneiam até que encontram o velho no shopping, sentado em um trono que mais parece de rei. E correm, com as perninhas trançando, só pra sentar no colo do cara, entregar uma cartinha de letra ilegível e sair de lá carregando uma balinha barata. E o João, Alfredo, Graciliano - ou seja qual for o nome do dito cujo embaixo da barba -, se não for um cara confiável, vai é ficar de olho na busanfa da mulherada ou, ainda pior, curtir dar colo pras crianças. Aí você vem falar em comportamento excepcional, Noel.
Não sei quanto tempo faz que não acredito em natal e Noel, mas sei que há anos fico pra lá de satisfeita passando essa noite em casa com uma taça de martini na mão e o show anual do Roberto Carlos na tv. Sem barulho, sem abraço, sem ceia e sem falsidade. Sinto falta da vó, com seus cachinhos lindos; do vô, com seu jeitão amável; da madrinha que é meu exemplo de vida; da tia que tem a letra igualzinha à minha. Mas prefiro abraçar cada um deles em dias comuns, quando o abraço é simplesmente um gesto de amor verdadeiro e não algo que a gente se sente compelido a fazer porque a indústria diz que é o momento de abraçar e chorar e cantar musiquinhas.
Se eu acreditasse que lá no Pólo Norte existe um cara barbudo de verdade que voa pelo mundo com suas renas aladas, eu escreveria uma carta também. Diria que este ano fui uma boa mulher, que não fiz maldades, que vivi minha vidinha sem me preocupar com a dos outros - ainda que os outros se preocupem muito com a minha - e que não magoei ninguém, porque não deixei que alguém se aproximasse o bastante para que pudesse ser magoado. Viver meio reclusa é o jeito mais fácil de não sofrer. E, pela primeira vez na minha vida, este ano optei pelos caminhos mais fáceis a maior parte do tempo. Se fosse pedir alguma coisa ao cara, não seria uma bolsa Chanel, nem sapatos Louboutin, nem um vale compras na Sacks. Eu pediria um pouco de amor sincero, um em que não entregasse meu coração cheio de cicatrizes para quem só quer praticar embaixadinhas com ele. Um em que meu corpo fosse só a caixinha onde fica guardada a parte essencial e não a única e exclusiva vantagem do relacionamento. Um amor onde o cara percebesse que amar não é uma desonra e que eu fosse muito mais importante do que as meninas de balada que ele deixaria de levar pra casa. Um empurrãozinho pra fazer a coisa toda andar mais na velocidade de trem bala e menos de carroça de sítio. E se nada disso fosse plausível, então eu pediria que a minúscula parte em mim que ainda acredita em amor fosse finalmente extinta. Que eu terminasse meu processo de fortalecimento porque, segundo Nietzche, o que não mata nos fortalece. Mas eu tô cansada de crescer, de fortalecer, de transformar em sólido o que deveria ser líquido. Cresci o suficiente, já podem desligar a máquina. Eu ficaria feliz com uns cinco centímetros a mais de altura, mas crescer à base de pancadas já deu o que tinha que dar. É isso, eu pediria ao senhor Noel um pouco de redução. Diminuir para caber. Chega de calças apertadas e abraços que não encaixam. Quero reduzir medidas, reduzir feridas, reduzir tentativas frustradas. Reduzir estômago pra sobrar menos espaço para embrulhar, cortar fora a parte que ama e sonha e não consegue deixar de esperar. Diminuir tudo até que fosse tão minúsculo que um pisão esmagasse para sempre.
Mas sendo o velho Noel ficção, não tenho para quem pedir amor ou redução. Porque amor não se pede, não é um presente embrulhado e disposto embaixo da árvore. E redução não se ganha, desenvolve-se. Não é possível amar em um minuto e não amar mais no seguinte. É um processo lento. Ceticismo é um dom, mas é preciso alimentá-lo. Independente de quantas cartas forem escritas e de quem forem os destinatários, no final nossos pedidos só dependem de nós. Ou, quando pedimos amor, de nós e de mais alguém. Mas então, se eu tiver que optar por um caminho, vai ser o da redução, porque poxa, falta muito pouco para não sobrar nada de mim que não esteja contaminado por sarcasmo. São só mais alguns passos. Só mais um pouquinho e chego no topo do morro, uma perfeita muralha construída ao meu redor. É por aí que eu vou. Sem companhia, por favor. Essa é uma estrada cheia de pedágios e eles são tristes demais para que eu arraste alguém comigo. Tô bem com a minha mochila vermelha nas costas. Não vem com essa de "volta pra cá, não vai por aí que aí só tem escuridão e solidão e desespero". Não me enche com histórias sobre o espírito de natal, tempo de querer ajudar. Espírito de natal o caralho, falou?

Amor anêmico.

Ontem um biruta qualquer tentou segurar minha mão. Assim, do nada. Dei um salto instantâneo para trás. Instinto. Proteção. Tive vontade de gritar. Essa mão está fechada, seu idiota, enclausurada na espera interminável do último cara que a segurou. Essa mão tem cérebro próprio; pensa sozinha, lembra de tudo que viveu, transpira a saudade dos apertos. Tem medula espinhal; treme insegura, arrepia-se ao pensar na única mão que a completa, que fecha dedos com dedos com tanta exatidão que gera campos magnéticos. Choques. Aposto que você nunca sentiu isso nas mãos, cidadão. Sua mão fica rebolando para qualquer outra e acaba sendo a biscatinha que não sossega as falanges. Mas a minha é silenciosa, não gosta de requebrar. A minha tem amor até a pontinha de cada unha roída. Está fechada em um casulo e não é por qualquer um que vai se abrir e liberar a borboleta escondida. Não, esta lagarta já determinou suas vontades, seus desejos, seu caminho. Decidiu que só precisa esperar, mesmo sem saber se valerá à pena no final. Para os demais, acenos de tchau. É só para isso que ela se abre. Mas quando avistar sua companheira retornando e voltar a se esticar, todos os choques voltarão e tudo vai se encaixar novamente. Nada mais de unhas roídas. Nada de buscar um entrelaçar de dedos no vazio absoluto. Tudo vai ficar cheio como deve ser. Cheio de pele, de contato, de carinho.
Ontem um homem de jaleco branco puxou sem gentileza meus olhos para baixo, deu uma olhada na mucosa e exclamou: "você está anêmica, qualquer exame de sangue pode comprovar". Eu ri, desconcertada. Não estou anêmica. Meus olhos estão um pouco amarelados, doutor, mas é que a saudade faz isso com a gente. Deixa o branco da folha sulfite parecendo pergaminho encardido. Não estou anêmica, a não ser que anemia agora seja sinônimo de saudade. Tem também uns vasinhos bem vermelhos, eu sei, mas são efeitos da distância. O senhor por acaso conhece droga mais potente? É a distância que me deixa com esses olhos injetados. A distância, a falta de sono e uma ou outra lágrima fora de hora. Mas estou usando óculos o tempo todo, juro. Nada de forçar a vista, porque ela precisa estar perfeita quando meu amor voltar. Não posso correr o risco de aumentar o grau da miopia e não enxergar direito os detalhes daquele homem quando a distância acabar. Mas, mulher, seus olhos estão opacos. Eu sei, eu sei. Opacos e sem vida, como os cabelos das propagandas de shampoo antes de passarem por fórmulas miraculosas. Preciso lhe explicar tudo tintim por tintim, não é mesmo doutor? Isso quem causa é a tristeza, a despedida e a incerteza do retorno. Minha alma anda meio opaca mesmo e já que os olhos são as tais janelas grandes e escancaradas... Bem, tá aí. Veja só o que um tchau forçado pode fazer. Pode deixar os olhos sem brilho, meio mortos. Mas eu estou vivinha da Silva Sauro, o senhor pode ver pela cor azul - ou está verde hoje? - da minha íris. Não está esbranquiçada como a dos cadáveres. Fica tranquilo, doutor, isso tudo vai passar quando a distância terminar. Minha doença é saudade, não anemia, e isso nenhum hemograma vai lhe contar. É segredo de estado. Não esqueça da confidencialidade entre paciente e médico. O mundo lá fora deve achar que eu sou saltitante, feliz e que a saudade é o hamster com o qual eu brinco todos os dias.
Ontem bateu vontade de atacar a barra de chocolate branco com cookies que repousa no armário da cozinha há um tempão. Tentei até imaginar uma barata gorda e nojenta passeando por cima dela, mas a vontade não passou. Devem ser os malditos cookies, que fazem "crunch" quando mastigamos, mas não tanto quanto aqueles crocantes que uma vez arrancaram fora dois brackets do meu antigo aparelho. Chocolate branco com cookies é suculento e delicioso na medida certa. Não é verme nas tripas, não. É impossibilidade de cair em um abraço delicioso na medida certa como o chocolate. Dá vontade de encontrar afago em bombas calóricas, filmes românticos e cama improvisada no sofá da sala. Calor de trinta graus e eu dormindo com um edredom puxado até as orelhas. E sem nem fazer pizza embaixo dos braços. É caso que a ciência não explica, mas eu tenho a teoria de que aquele cara que girou meu mundo do avesso e depois que precisou ir embora virou uma espécie de aquecedor particular. Independente do termômetro do resto da atmosfera, era ele quem ditava minha temperatura. Que me abraçava para mandar o frio embora. E que, só de sorrir, já aquecia tudo. E agora eu tô nessa onda hipotérmica. Congelando quando todo mundo passa calor. Assistindo "Cartas para Julieta" e outros tantos filmes bobinhos e chorando como se minhas estantes de livros tivessem sido queimadas. Dormindo de edredom quentinho e acordando com orelhas e pés frios. Pé frio é má sorte. Picolé de pé é o que? Sexta-feira treze todos os dias da semana?
Ontem meus músculos doíam tanto que, no final do dia, tudo que eu queria era deitar. De novo no sofá da sala. O controle remoto ficou longe e só tinha chatice passando na televisão, mas tudo doía tanto que a ideia de levantar para buscá-lo já me fez ver estrelas No mau sentido. O caso é que essa saudade temperada com solidão me faz pensar tanto no amor que foi embora que eu procuro meios de não pensar em nada. E eu pensaria a mesma coisa com 80 ou 110 quilos no aparelho da academia para exercitar as coxas, mas optei por 110 porque 80 não dói mais, já virou hábito. Intensifiquei o exercício anaeróbico e foquei apenas nele. Lucidez, há quanto tempo não te encontrava, querida. Poderia ter aumentado só dez quilos na barra, mas dez quilos a mais não superariam minha saudade. Dez quilos a mais não me fariam esquecer de tudo por alguns instantes, nem cerrar os dentes e pensar apenas em erguer e abaixar as pernas. Dez quilos a mais não me deixariam toda firme para quando o cara voltar com seus quadríceps imaculados. Mas trinta quilos? Trinta quilos são capazes de esbugalhar meus olhos, encharcar a testa e exibir um gritante "puta merda" em minha cabeça ao invés das mesmas imagens tristes de sempre. Trinta quilos a mais me deixaram lembrando da academia por horas a fio, enquanto dez quilos ainda me permitiriam enxergar o adeus, as coisas que poderiam ter sido e blá blá blá. Dez quilos não fazem diferença. A não ser que estejam depositados nos meus culotes.
Ontem minha cabeça avisou que ia explodir. Disse que a enxaqueca estava passando do limite e que, já que não tomo providências, ela iria arrebentar e espalhar pedacinhos de encéfalo por todos os cantos da casa. Tomei remédio para a dor e para manter a cabeça no lugar, mas não resolveu. Porque pensar demais não dói - e todo mundo deveria tentar -, mas pensar demais em soluções que não existem pode transformar sua massa cinzenta em uma massa de biscuit perfurada por diversas agulhas. E enxaqueca é um bicho teimoso que, quando chega, não quer mais ir embora.
Ontem minha mãe reclamou que eu não quero mais sair com ela. Que minhas férias resumem-se a academia, leituras, cinema em casa e silêncio. Pensando bem, ela tem razão. Estou introspectiva além do normal. Não quis ir ao boliche, nem ao cinema - verdadeiro -, nem às compras, nem à festa de não-sei-quem-e-não-sei-onde. Não quero. Tô de bode. De olhos amarelados, músculos doloridos, gula intensa, enxaqueca premiada e, principalmente, uma dorzinha constante aqui no peito que os sábios chamariam de coração partido. Eu poderia explicar. Poderia dizer à minha mãe que cada strike do boliche dolorosamente me lembraria de como eu derrubei todas as minhas defesas, como pinos espalhados pelo chocar da bola, por alguém que fez um belo strike em meu coração. Poderia dizer a ela que o cinema real não tem sofá, nem edredom, nem nossos gatos deitados de conchinha comigo. Que não adianta comprar um vestido bonito se for para deixá-lo guardado junto com minha vontade extinta de botar os pés para fora de casa. Que festas de estranhos, tanto quanto festas de conhecidos, não fazem o menor sentido. Se for pra tomar umas bebidinhas falando baboseiras com gente fútil, prefiro tomar tequilas conversando com Bukowski. Mas não vou explicar tudo isso, porque minha mãe é uma guerreira. Uma das nobres, que não abandona soldados no campo de batalha. Então, ao invés de continuar travando suas lutas, ela vai estacar ao meu lado até que eu a acompanhe. E ela precisa continuar, porque vê-la trazendo um sorriso a cada nova vitória é o que me dá forças para não desistir com as minhas derrotas.
Ontem, enfim, eu percebi que todos os males corporais e mentais que me assolam vêm conduzidos pela ausência - a cruel e sarcástica motorista do ônibus. Percebi que fiz amizade com a solidão e que ela se tornou frequentadora assídua da minha residência. Tomamos chá juntas. Percebi que ela só tomará o ônibus de partida quando meu amor voltar. Então eu decidi, ainda ontem, que viver de você, meu bem, está de bom tamanho para mim. Que tudo que eu tento evitar é também tudo que afasta as doenças e tristezas do meu corpo. Vou pisando com cautela no campo minado em que nós vivemos, evitando uma bomba enquanto dou de cara com outra. Você tem o dom de minar tudo por algumas horas. Expectativas, amor, tudo. Fica aflorada só a decepção. Mas quando você volta, com voz suave e abraço apertado, eu sempre topo retornar às trincheiras do nosso querer. É assim, não adianta. Olha só tudo que a distância tem me causado. Tudo que a saudade de você me traz. Não dá para viver assim, escondida em edredons dia e noite, passando colírio para curar a ardência dos olhos, tomando remédio para amenizar as dores. Não dá. Decidi que vou esperar, levando aos trancos e barrancos até você voltar. E quando estiver novamente pressionando minha boca contra a sua, jogo os remédios fora e vou jogar boliche com minha mãe, ou comprar um vestido novo. E se você não quiser assim, se a distância temporária virar definitiva, se minha ausência não lhe doer nem um pouquinho sequer, vou pensar em algo mais. Em outro jeito de ser feliz. Porque não quero minhas mãos fechadas para sempre, nem me acostumar com a enxaqueca. Não quero meus olhos apagados, quero que eles brilhem e sejam a luz de alguém. E se for sua, prometo piscar menos, só uma ou duas vezes por minuto, para você jamais cair na escuridão. Prometo tudo. Tudo para que você nunca mais precise partir.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fiozinho de areia branca.

Uma lágrima explodiu na coberta macia em tons de algodão-doce. Uma mancha a mais de rímel e sombra. Talvez a vigésima delas ou a trigésima lágrima. E quando a vontade de limpar os borrões desapareceu junto com os resquícios da vontade de erguer a cabeça percebi que, desde que você apareceu, não houve um só dia em que eu fosse completamente feliz. Você faz a tristeza parecer bonita e eu me encanto por tudo que deveria mandar embora pelo ralo. Minha dor é daquelas que um poeta tomaria por princípio e um neurologista adoraria estudar. É límpida, clássica, regada a copos de álcool e amargura, misturados com goles de café amargo e amor. Porque tudo que vem de você é ambíguo demais; extasia e derruba, acaricia e chicoteia. Reparei, também, que já não me lembro como chegamos ao ponto em que nos encontramos agora: tão separados um do outro, mas ainda tão cheios de nós. Incompletos em nossa distância, mas sem jamais permitir que nossas exatidões se encontrem como deveriam. Você me quer, mas quer o mundo todo também. Eu te quero e te quero e só e basta. Você sonha com noites badaladas, drinks e mulheres. Eu sonho com você. Você com um drink, você sem drink. Tanto faz, desde que seja você. E você também almeja um futuro glorioso, enquanto eu almejo um futuro simples e cheio de você.
Se amor é mesmo o que os escritores teimam em engrandecer não é amor o que sinto, porque algo tão bonito não causaria jamais tanta dor. E enquanto penso nos milhões de hematomas e infecções que minha alma carrega, você chega, me aperta, me espreme e arranca de mim todo suspiro e raciocínio que ainda preservo. Quando penso em dizer que chega, é o bastante, não suporto mais te amar pela metade e te ter pelas beiradas, você me puxa mais para perto e dorme segurando minha cintura com dedos firmes de posse. Porque ambos sabemos que sou sua, ainda que você não seja meu. E me esqueço do que pretendia dizer, do fim que já começava a apalpar, porque não há nada como respirar sua nuca e ouvir sua respiração regular e sonolenta. A vida vira vida de verdade quando, madrugada adentro, sinto seu abraço forte mostrando que ainda está ali, que ainda não é hora de partir.
Por mais que eu queira odiar cada grama do seu corpo quando você me trata como uma peça decorativa inútil exposta no canto da sala - elefante indiano ou peso de porta - não posso. Adapto-me a ser estatueta para poder me entupir de tudo que faz parte da sua vida. E, largada em uma quina qualquer, levo cotoveladas que destroem a porcelana, mas sempre vem você com uma fita adesiva nas mãos, colando os caquinhos para que eu possa aguentar mais um pouco e não desista de esperar. Cada fissura em minha estrutura, cada parte trincada que tenta inutilmente se recompor para não estilhaçar de uma vez, cada pedacinho calculadamente remontado procura sobreviver às adversidades só para não sucumbir aos tombos e ir parar no lixo. Mas por mais que meu coração decorativo se esforce amargamente para encontrar dignidade e te odiar, pelo menos um pouquinho, não tem jeito. Porque quando estou prestes a desmoronar de tanto sofrer, de tantos nãos, de tanta falta de respostas, você reaparece me tomando nos braços e mandando embora a pontapés qualquer pergunta, empecilho ou barreira de impedimento. E dorme comigo e não quer nem saber. Não temos tempo para essas coisas, o relógio está correndo como o coelho branco que diz “é tarde, é tarde”. Nossos dias contados não merecem dúvidas ou pensamentos díspares.
O mundo virou uma ampulheta quando você segurou minha mão pela primeira vez e proclamou que me queria com voz grave e sussurrada. Desde então a areia tem descido de um cone de vidro ao outro, grão após grão, sem jamais parar. O eterno fiozinho de areia branca caindo, o divisor de águas que comanda nossas ações e diz o que teremos tempo de viver ou não. Você me trouxe embora, alimentou minha inteligência com conversas sadias em um lugar onde todos os papos são tão inúteis quanto comédias românticas, procurou decifrar o sim escondido em máscaras de talvez. Esperou, tentou se convencer de que tudo ficaria bem, indeciso entre avançar um passo e experimentar minhas consequências ou manter para sempre a tensão não dissipada entre nós. E decidiu, talvez alterado pelo álcool, que a tensão não era aceitável. Agarrou meu pulso e me puxou para um canto, botou a mão em minha nuca e disse que me queria sem poder esperar mais e que todo o resto fosse à merda. E eu, que já estava entregue em cerca de mil maneiras, ainda tentei resistir, procurando por uma resposta interna, alguma defesa ainda erguida em meu organismo, mas todas as barreiras tinham sido destruídas. E quando dei por mim esmagada entre seus braços em uma parede fria, contrastando com a pele febril, sentindo sua proximidade insensata e ouvindo sua respiração entrecortada, tomei o exemplo e larguei também a escopeta imaginária que segurava. Não tenho vocação para Lara Croft quando todo o seu corpo me comprime. Não posso bancar o carinha do “Duro de Matar” quando suas mãos firmes me fazem esquecer que existe mundo além de segurar seus cabelos. O caminho de quilômetros que nos separava reduziu-se imediatamente ao que na escala geométrica chamariam de milímetros. E, de repente, não havia mais milímetro algum, só lábios colados e cheiros e burburinhos ao redor. Desde então a areia fina corre apressada para o vidro mais baixo, cada vez mais veloz e mais voraz, devorando nossos planos malditos e acelerando o contar de tique-taques do relógio. Já tentei abrir o mecanismo e congelar um pouco as horas, mas o tempo, ah, o tempo... Não aceita afrontas, nem júri, nem nada. O tempo é o cara mais mandão que eu conheço. É assim e pronto. E do pouco que temos em nossas mãos, tempo não é uma de nossas posses.
Temos urgência, temos medo, temos apenas nossas apostas. Não adianta tentar costurar tecido rasgado, mas aqui estou com linha e agulha na mão consertando cada novo corte em nosso couro, nos músculos, feridas na pele. Cada nova abertura no brim que nos envolve é um pouco menos de você para mim e um pouco mais de saudade do que tínhamos. Um dia desses ainda largo tudo e dirijo para longe. Para um lugar onde não exista você, nem suas idas e vindas ou nossos encontros suaves e desencontros frios. Para onde você não seja meu mundo e o mundo não se resuma a você. Para qualquer lugar, desde que não haja ampulhetas, nem relógios, nem fim. Onde sua foto me lembre de como eu te amo, mas não do quanto você ama todo mundo. Um lugar, enfim, onde você seja mais do que uma dor constante e menos do que minha força para caminhar.
Enquanto os mapas não marcam xis em um lugar como esse, continuo parada no canto da sala, obediente e "embibelozada". Olhando em volta, vendo tudo, sofrendo tudo, querendo pontos e recebendo vírgulas. Continuo borrando a coberta noite após noite e vezenquando até durante o dia. Não seco nunca, nem dreno minha dor, porque quando você some ela é a única coisa que resta. E por ser o que sobra de você, agarro-a com toda a força, ainda que a cada pressão ela se mostre um pouco mais violenta. Durmo de conchinha com a dor que tem seu cheiro mas não seu toque. Abraço-a com dificuldade, lembrando de como era fácil o seu encaixe entre meus braços em noites frias. E penso que tudo bem, vou sobreviver. Vou conseguir limpar a coberta, despir a porcelana, caminhar sobre meus próprios pés e mandar a dor catar coquinhos. Vou conseguir esquecer de tudo que nós temos de forma tão incompleta e do quanto amo esse seu jeito de misto-quente, meio meu, meio de todo mundo. Presunto, queijo e pão.
Penso que chegará o dia em que vou morder nossa situação e sentir que o gosto nem é tão bom assim, que não vale a pena deixar quilos de maquiagem molhada pela cama, nem queimar a língua tentando aproveitar o máximo de você. Vou passar por cima de tudo quando a areia terminar sua descida vertiginosa na ampulheta e você for embora, e então não vai passar de uma lombada na estrada. E o carro vai voar por cima, a queda vai ser brusca, vai machucar a lataria, mas vai ficar tudo certo. Vamos desacelerar, abrir a janela, botar a cara pra fora enfiada em um óculos de sol e cantar alto, muito alto, “if it makes you happy it can’t be that baaaaad”. E quando estivermos voltando a viver, vamos pisar no acelerador e aceitar as consequências mais uma vez, voar por outras lombadas, aterrissar em outras rodovias, girar o mundo em para-choques destroçados. Vamos nos doer, vamos nos lembrar, vamos ter nossos tempos contados novamente. Novas cobertas serão choradas, novas nucas serão vividas. Mas aquele borrãozinho, aquele que nenhum alvejante tirou, ficará para sempre. Vez ou outra ele irá doer novamente como nenhum outro borrão maior doeu. Porque certas coisas não podem ser passadas para trás como lombadas. Certas coisas são muito mais do que isso. São pontes levadiças.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A verdade sobre os contos de fadas.

Anelise é uma dessas espécies diminutas de bochechas rosadas, ondas douradas nos cabelos e olhos azuis grandes e pedintes. Não sou fã de crianças, mas admito que resistir ao rostinho de amor misturado com pele de pêssego de minha prima as vezes é impossível. Quando a senhorita charme em miniatura chegou toda serelepe, cheia de presilhas em trancinhas, sentando ao meu lado na cama e pedindo que lhe contasse uma história, fui compelida por uma paixão repentina que me fez largar William Faulkner, jogar longe os fones de ouvido tocando sinfonias clássicas, tirar os óculos de lente e vasculhar a cabeça à procura de um conto de fadas. Há mais de quinze anos não acredito neles, com suas princesas insatisfeitas que acabam sendo felizes para sempre com um belo príncipe apaixonado, mas sem um trabalho dignificante ou vontade própria, mas aquela criaturinha sentada ao meu lado não precisava de ceticismo; seus olhinhos brilhantes pediam por algo puro e cheio de esperança em cada sopro do vento. Ela teria tempo para aprender, mais tarde, como a vida real é muito mais fria e sem magia. Prometi-me que, caso fosse necessário, eu mesma a tomaria pela mão e mostraria os caminhos tortuosos que somos obrigados a viver. Por enquanto, aqueles dedos minúsculos que seguravam os meus mereciam um pouco da mentira que deixa a vida mais bonita.
“Era uma vez uma linda garotinha com cachos dourados como os seus e olhos azuis da cor do oceano...” – comecei. Ela sorriu ao constatar que a tal garotinha era igualzinha à sua imagem. Pediu se o nome poderia ser Anelise também e respondi que, já que a história era muito, muito feliz, poderia sim. Construí castelos, mas não contei que quase sempre eles são feitos só de areia e derrubados pelas ventanias. Criei uma bruxa má, de nariz torto e pele meio verde como a bruxa malvada do oeste que amedronta Dorothy e seus companheiros, mas não falei que de todas as bruxas já inventadas, a vida é a mais assustadora. Inventei romances com beijinhos de esquimó, pequenos corações apaixonados, braços minúsculos que se apoiam e sorrisos tão grandes que fazem os olhos ficarem espremidos. Inventei tudo o que não existe. Tudo o que torna nossas crenças completamente infundadas. Tudo o que acabamos, no fim, descobrindo ser uma grande e absurda mentira. Mas não expliquei - ainda que a verdade me sufocasse, pedindo para sair – que beijinhos de esquimó quase nunca tem graça, que braços alheios não devem ser usados como muletas, que os sorrisos ficam cansados no fim da tarde e que corações são apenas músculos que não se apaixonam coisa nenhuma. Não desmenti as valsas dos aclamados contos de fadas, nem os príncipes perfeitos, nem a vida apática e fútil das princesinhas, cujo único objetivo no final do livro é casar, virar mãe e viver com a barriga grudada no fogão.
Para minha própria surpresa, consegui chegar ao final da história sem deslizar pelas alamedas da desilusão. Só quando ouvi o “e viveram felizes para sempre” saindo de minha boca, ainda que de forma não convincente, pude respirar aliviada e, de certa forma, até realizada por não ser eu a estragar os sonhos de uma criança, quando sua fé em finais felizes é o que de mais bonito ela possui. Talvez, com o passar do tempo, Anelise e muitas outras crianças espalhadas pelo mundo entendam que a verdade nua e crua é que contos de fadas são grandes pedaços de merda mergulhados em ilusão. Que finais felizes não passam de hipocrisia. Que nossos erros tortos são, embora dolorosos, os detalhes que mudam uma vida. Que perfeição não existe e que o máximo que nos aproximamos disso é quando somos a parte bonita e meio errada de alguém. Que podemos passar uma eternidade procurando e jamais encontrarmos esse alguém ou, ainda pior, encontrarmos e não sermos encontrados. E que amor, amor sim é um conto de fadas hipócrita. Um grande pedaço de merda – o maior deles - mergulhado em ilusão.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Curinga desempregado.

Ás, dois, três. Valete, dama, rei. Treze cartas, quatro naipes. Cinquenta e duas possibilidades de fazer parte do baralho legítimo, das cartas reais e adoradas. Cinquenta e duas possibilidades e, ainda assim, sou a quinquagésima terceira: o curinga. A única carta descartável, que serve apenas para alguns poucos jogos. O curinga e sua nulidade. O curinga e sua obrigação de fazer o monarca rir, dançando para lá e para cá com os penduricalhos de seu chapéu gigante e destrambelhado. Quando há um buraco no jogo, uma carta faltando, o jogador usa o curinga. Quando o naipe em suas mãos é diferente do que a canastra exige, o jogador usa o curinga. E só. Este é seu fim, caro Joker. De bobo da corte à tapa buracos, você manda assustadoramente bem. Faz-se merecedor de aplausos sarcásticos.
O curinga sabe que não passa de uma opção temporária. Não deve se envolver com ninguém porque sua estadia será breve, não haverá jamais tempo para cativar a carta amada, seja ela qual for. Não haverão meios para mostrar a ela como é grande o coração que se esconde atrás da figura de palhaço colorido e sorriso dissimulado. Ele sabe. Sabe que ficará na jogada por duas ou três rodadas, até que apareça a carta certa. Aquela que será apresentada com orgulho, sorriso nos lábios e um sonoro e apaixonado "é ela". Aí, então, o jogador tira o curinga e sua feiura do meio da bela canastra, porque não combina. A nova carta entra na parada, substituindo e encaixando perfeitamente porque é a verdadeira. Ela ganhará não só o jogo, mas também o amor. A máxima "sorte no jogo, azar no amor" não se aplica à vida do curinga, que será largado em um canto qualquer até que outra carta desapareça ou demore a chegar com sua bunda perfeita e conversinha fácil. Operação de resgate, pesca sem isca. Abriu uma vaguinha e o tapa buracos está lá novamente, tentando caber. Tentando desesperadamente se ajustar para ser feliz. Tudo para depois ser descartado como lixo e ter seus resquícios de dignidade chutados sem piedade por um pé calçado em chuteira profissional, que é para doer mais.
Houve um tempo em que quis ser a dama, o ás ou qualquer outro número desde que fosse para permanecer na vida de alguém. Para ser legítima. Para sentir o gostinho de ter um naipe só meu. Desejei a segurança de estar em um universo particular, ocupando o espaço anteriormente vazio do coração de alguém e transformando esse coração em nada menos que meu mundo, a caixinha onde o baralho dorme quando os boêmios descansam. Naquele tempo eu sonhava em chegar com mala, naipe e tapete de boas-vindas, anunciando toda prosa que chegara para ficar e enxergando felicidade plácida no rosto daquele que ganhara meu amor. Sonhava em pedir demissão do cargo de idiota que deve fazer palhaçadas para o senhorio e sair pelas ruas à procura de um emprego melhor. Por muito tempo acreditei que poderia aprender a ser outro tipo de carta, a realizar outros feitos no baralho, a mudar a sorte de um jogador para sempre. Mas não existe telecurso 2000 para deixar de ser curinga. O tempo todo buscando um lugarzinho fora da caixa, uma maneira de mudar a situação de ser o dedo tapando o buraco da barragem enquanto o cimento não chega. Maquiando, espremendo, dobrando para caber em canastras que não foram feitas para mim. Sofrendo a cada desilusão, a cada tentativa frustrada de me moldar em um rosto de dama para conseguir ficar onde os curingas não são hóspedes bem recebidos.
Esse tempo acabou. Agora entendo que, uma vez curinga, curinga para sempre. Acostumei-me a ser expulsa de corações que pensava ter ocupado por mais tempo do que a data de vencimento do contrato de aluguel. Habituei-me a ser despejada com todas as tralhas caindo ao meu redor, não por falta de pagamento, mas por não ser a moradora ideal. Quis mais do que tudo ser uma carta diferente, única, de naipe vermelho ou preto, mas tudo que alcancei foi a figura de curinga, a escória das cartas, o descartável. Hoje já desisti. Ainda machuca olhar no espelho e enxergar esse desenho colorido e infame que amedronta alguns e é inútil para outros. Ainda dói ostentar esse sorriso monstruoso, reverberando nas canastras alheias, quando uma pequena lágrima escorre pelo canto de um olho. Mas pelo menos, há muito tempo, não latejam mais os músculos dentro de caixinhas apertadas demais para esse tamanho todo de curinga. Porque quando você não cabe em lugar algum e sua mão não se encaixa em nenhuma outra, a vida é solitária. Solidão, no entanto, é uma das coisas mais belas que um curinga pode provar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A nossa tempestade.


Ao fundo um professor explica processos sinápticos, mas não presto atenção porque estou focada demais em manter as vísceras em seus lugares corretos. Na falta de ar-condicionado a porta da sala ficou aberta para que os alunos não derretam no calor da pequena Palotina. Não é minha culpa se me perco em devaneios olhando para fora quando deveria enxergar estritamente o quadro cheio de desenhos neuronais. Ou é. Tanto faz. O fato é que agora um alarme cerebral berra violentamente em meus sentidos só porque você passou no corredor ali fora. Não posso abrir a boca porque sairá um barulho misturando sirene de viatura policial e gritos de “segurem aquele coração!”, enquanto o dito cujo rola para longe em sua pulsação tremendamente exagerada. Já sinto a acidez do estômago chegando à garganta, querendo ir embora também.
Todo esse caos só porque você passou. Não durou mais que três segundos. Suficiente. Três segundos são mais do que o necessário para que eu enxergue o mundo em você. Tão seguro, tão firme em seus passos, atitudes e feições. Firme nos músculos... Ah, esses músculos. Como diabos devo prestar atenção nas tais células de Schwann quando tem um filme sobre você – e seus músculos – passando em slow motion bem na frente dos meus olhos? Está em cartaz: “Ele é o cara”, estrelando o homem dos músculos mais proporcionalmente bem desenhados. É seu último lançamento, acrescentado recentemente à filmografia em expansão. Conta a história de um cara que poderia ter o universo aos seus pés, mas preferiu ser o universo de uma só mulher. O romance de um cara que não sabia o quanto era amado, mas que sabia que, independente de quanto sentimento estivesse envolvido, mais cedo ou mais tarde teria um fim inevitável. Uma história sobre o cara dos músculos incríveis, da barba incrível, da personalidade incrível, que faria suas malas em uma data qualquer coisa menos incrível.
Bainha de mielina, blá blá blá. Você passou ali e eu fiquei babando aqui, um nível acima das cabeças pensantes que estudam os problemas da desmielinização. Estúpida, foi só uma olhadinha, coisa de uma piscadela, e deixo de ser a mulher de sempre para virar uma adolescente sonhadora, do tipo que me faz querer vomitar a bolacha de aveia do café-da-manhã. Você caminha todo lindo, o peito onde eu adoro dormir tão estufado quanto um balão de gás hélio. E eu quase deitada por cima da carteira, derrubada na postura corcunda de quem não aguenta o próprio peso. Com cara despreocupada, beliscando o lábio inferior com o polegar e o dedo médio, mania inconveniente.
Um fluxo de imagens compete por um lugar no meu cérebro. Levanto vagarosamente, ignorando os olhares curiosos, e vou de encontro a você, que me espera ancorado no batente da porta. Seguro sua nuca com delicadeza e você agarra meus cabelos, puxando-me com vontade para um beijo cuja música de fundo é o professor discorrendo, agora, sobre líquido cefalorraquidiano. O primeiro dos delírios. Fico puta quando alguém me arranca, com um cutucão, de meu pequeno sonho de olhos abertos, perguntando-me por quê o sorriso na cara por uma matéria tão chata. E de repente não estou mais puta e nem há professor cuspindo sem vontade algo sobre meninges do encéfalo. A música agora é um rock’n’roll do AC/DC e o som de nossas risadas enquanto corremos e sujamos as barras de nossas calças com o marrom da terra que cobre as ruas de Palotina. Não temos destino certo, nem objetivo, mas fluímos como duas nuvens passageiras, prontas para envolver o mundo em tempestades bonitas, porém perigosas. E isso é o segundo delírio.
Todas as mil fábulas que se formam em minha mente são melhores do que a original. Porque, na original, nada disso acontece. Nem beijo, nem sorriso, nem correria com “you shook me all night long”. Na original eu deveria estar prestando atenção na aula da faculdade, mas estava olhando para fora. E então você passou pela porta, em direção ao banheiro do bloco novo, me viu, sorriu e piscou. Eu te vi e só, mais nada. O coração acelerou, tudo virou silêncio e névoa como parte da ansiedade e do suor frio que sua presença traz. Mas, embora ninguém tenha percebido, um sorriso realmente tomou conta de meus lábios. Porque, originalmente, ainda que nossas tempestades atinjam tão somente duas vidas, elas não deixam de ser os espetáculos mais magníficos da natureza. Flórida, você perdeu. Fique com seus raios e trovões, porque nós temos uma bela de uma chuva de granizos para viver bem aqui.

domingo, 14 de novembro de 2010

O desenho final.


Em algum lugar do mundo uma criança desenha um coração partido. Ela é muito nova para saber, mas seus traços meio tortos, coloridos com indiferença, contam ao universo uma história realista demais. Seu lápis vermelho de ponta gasta traça duas metades gordinhas de um típico coração infantil, sem ligamentos para mantê-lo unido. O lado interno está serrilhado. De outro cômodo a mãe enxerga a pequena criatura - toda bochechas e cabelos dourados – delinear seu destino em uma folha sulfite, sem nada poder fazer. O impulso lhe diz para sair correndo, tomar o lápis e ralhar com a menina, fazendo-a prometer jamais desenhar um coração em pedaços novamente. Mas a criança é jovem demais para compreender desesperos incontidos. Além do mais, o que está feito, está feito; um desenho terminado é como uma palavra dita: não se volta atrás, uma vez expelido pela alma, pertence ao mundo. A mãe é sensata o bastante para compreender qual deve ser seu próximo ato. Pode guardar as duas metades do coração no fundo de uma gaveta esquecida e torcer para que seu efeito seja o retardatário que chega quando a festa já terminou e não há mais importância, ou ainda que – perdido entre tantos outros papéis – perca sua força. Mas ela aprendeu, à base de tombos brutais, que artimanhas são inúteis. A menina desenhou um coração partido, um coração partido a menina terá. Sua segunda opção é jogar aquela obra tremida pela janela da casa e deixar que o vento a leve para onde quiser. Ninguém conhecerá seu destino. Ela pode voar por continentes inteiros ou parar na casa ao lado; impossível predizer. Mas alguém encontrará a folha, suja e amassada pelas intempéries do tempo. Uma folha amarelada com duas partes de um mesmo coração rabiscadas claramente pelas mãos descoordenadas de uma criança. E então, como num jogo de dados onde não se sabe qual será a próxima pedra, outra pessoa será atingida pelo poder do desenho infantil. Outro alguém terá, inevitavelmente, seu coração partido. Rasgar não resolve, apenas estilhaça o coração ainda mais ferozmente. Não adianta cuspir, não adianta correr na direção contrária. A folha dos corações partidos é implacável como uma grande mão que aponta para os sofredores. Ela escolhe: você, você e mais você. Não retrocede, não negocia, não aceita corrupção.
A mãe cogita jogar o desenho pela janela, é claro, mesmo sabendo quão terrível é transferir a um desconhecido a tristeza que deveria ser de sua filha. Mas é isso que costumam chamar de proteção materna, não? Com pesar ela pensa, uma última vez, como teria sido mais fácil se sua pequena tivesse desenhado um coração inteiro, intacto, rechonchudo e brilhoso. Nada precisaria ser feito, a mão-folha se encarregaria de recepcionar a felicidade. Mas o mundo não é fácil. Toda pessoa, em algum momento de sua infância, há de desenhar um coração. Não porque seja a figura mais bela para ser reproduzida, nem tampouco a mais real. Não é uma escolha consciente, embora se mascare assim. É a decisão daquela mão invisível que aponta, que ri com escárnio enquanto usa as pontas dos dedos para selecionar quem será amado e quem padecerá no caminho das desilusões. Quem terá a sensação ridícula de bolhas em formato de corações voando sobre a cabeça, e quem verá essas bolhas estourando e doendo uma a uma, deixando um vácuo onde deveria estar alguém. É essa mão que escolhe que desenho cada de um de nós fará, ainda na tenra idade da incompreensão. É essa mão que nos diz se desenharemos um coração inteiro e sorridente ou um coração monstrengo dividido em pedaços desiguais.
E, porque não tem alternativas nem meios para lutar, a mãe decide tentar algo diferente. Não quer assistir sua filha chegando em casa com lágrimas nos olhos porque seu amor a abandonou. Não deseja vê-la padecendo por dias a fio no sofá, com a cara esmagada sobre uma almofada. Não quer imaginar quem causará mal à sua macaquinha quando ela se tornar uma mulher. Mas também não pode carregar nas costas o peso de acabar com o coração de um desconhecido. Ela caminha lentamente, então, até a pequena cômoda ao lado da cama, abre a gaveta onde ficam guardados os aviamentos e tira de lá agulha e linha vermelha grossa. Um fio de lã, para garantir. Prepara um nozinho em uma ponta e volta à sala. A criança pegou no sono, lápis e folhas espalhados ao seu redor. Ela senta, segura o desenho com mãos mais trêmulas do que gostaria e perde-se em devaneios por alguns instantes, antes de começar seu trabalho cuidadoso. Com calma e delicadeza, afunda a agulha na porção mais baixa da folha, no ápice do lado direito do coração. Puxando a lã pelo buraquinho feito, perfura o lado esquerdo e transpassa o fio até a folha enrugar um pouco no centro. É o primeiro ligamento do coração partido e a mãe percebe que seu plano tem chances de dar certo. Ponto após ponto ela costura as duas metades rabiscadas como se fossem pedaços de um tecido rasgado. Puxa daqui, repuxa dali. Não demora muito para que ela prepare um segundo nozinho e corte o fio restante. A mãe fez o seu melhor. Costurou tudo, preencheu tudo que era vazio, protegeu sua filha do jeito mais bonito que podia. Depois de guardar o desenho, agora unido, em uma gaveta onde jamais será encontrado, resta apenas esperar pelos caprichos da vida e torcer para que a costura seja resistente. Ela leva a menina para a cama e dá um beijo suave em sua testa cheia do suor do sono infantil, mas ainda leva mais de cinco minutos antes de parar de admirar a criatura que mais ama no mundo, apagar a luz e ir dormir. Ela acredita, com todas as forças, que sua ideia pode funcionar.
Mas a mão-folha, em outro lugar do mundo, ri. Sem parar, sem conseguir respirar com tanta diversão. Bobinha, pensa, nem seu amor de mãe pode salvar o coração de uma criança predestinada a sofrer. A costura ficou bonita, forte, rígida. A menina será uma fortaleza por muito tempo. Mas sempre haverá, em seu destino, uma encruzilhada onde a escolha será dolorosa, onde o amor não será recompensador, onde a vida padecerá na falta de esperança. E a mão-folha apenas ri porque já fez sua escolha e já apontou seu dedo odioso. Ri porque a garotinha será capaz de amar, mas nunca conseguirá escolher corretamente a quem oferecer seu coração. Ri porque tudo tem seu tempo e o tempo da menina chegará, pela primeira vez, aos vinte e um anos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Onde meias encardidas não importam.

O chão do banheiro é sempre gelado demais. No inverno só dá para aguentar usando pantufas de patas de monstro. No verão ando sem chinelo pela casa até alguém ralhar comigo avisando que minhas meias nunca mais serão brancas. Tenho uma gaveta abarrotada de meias encardidas, mas não consigo jogar os pares fora só para precisar comprar outros. E daí se minhas meias são meio marronzinhas – eu penso –, minha alma também é encardida pra cacete e ninguém nunca deu um pio sequer a respeito. Meia gasta não pode ficar, tem que ir para o lixo. Se tiver um furo no dedão então, é um abominável ser que voltou das caçambas dos caminhões de lixo. Mas alma pode. Com alma gasta, furada e encardida ninguém se importa. Eu gosto das meias velhas, provavelmente muito mais do que da alma amarelada e cheia de rugas que vive aqui dizendo ser minha.
O chão do banheiro é sempre gelado demais, menos hoje. Hoje, sentada aqui, olhando para o box de vidro, não sinto nada. Nem as lajotas, nem cheiro de privada, nem nada além da mágoa chorosa e do cheiro de rejeição. Em algum momento levantei, encarei minhas olheiras, tomei um pouco de água da torneira e voltei a sentar. Existe um mundo fora das paredes de um banheiro pequeno, mas hoje ele não me parece interessante. Hoje me enfiei em calças de pijama coloridas, suéter grande demais, uma das meias velhas, e sentei no chão do banheiro com uma caneca de chá sem açúcar nas mãos e cabelos tão desgrenhados que provocariam ânsia em qualquer cabeleireiro. E o chá esfriou, os cabelos continuaram uma bagunça e eu continuei sentada no chão do banheiro gelado. Pensando. "Despensando". Pensando novamente. Chorando um pouquinho. Chorando o que dez pessoas não choram juntas em um mês. Não bebendo o chá. Engolindo só golfadas de melancolia. E deixando meus olhos com a aparência de quem apanhou do Jack Bauer, aquele cara que detona qualquer parada em 24 horas e que minha mãe adora. Mas tô cagando pra minha aparência, embora não esteja sentada no vaso. Quando eu sair daqui vou procurar uma roupa estilosa, vou usar maquiagens da M.A.C e da Lancôme para tentar parecer bonita e vou me chamar de porca por ter uma bunda tão grande e cheia de celulites. Depois vou querer arrancar o excesso de barriga com uma faca afiada, antes de resolver apenas ir para a academia fazer os malditos abdominais. Juro que depois vou pensar em tudo isso, mas por enquanto quero só as lajotas, o silêncio branco do banheiro, meu chá sem gosto e um livro do Woody Allen. Gosto daqui, talvez mais do que do meu quarto. Poderia colocar uma plaquinha com meu nome, chamar esse lugar de meu. Mas penso que as outras moradoras da casa não gostariam da ideia quando precisassem mijar. Mijar, sim, porque eu nunca aprendi a falar com tanta feminilidade quanto uma dama que diz "fazer pipi".
Não, hoje não tô pra ninguém. Não quero essa merda de “credo, levanta daí mulher, ergue essa cabeça”. Deixa eu curtir minha fossa, meu sofrimento de filme triste, daqueles que a gente continua chorando mesmo quando já terminou há horas. Daqueles que são tão bem planejados pra fazer a indústria dos lenços de papel lucrar que até a música dos créditos finais é triste de doer. Só me deixa. Só isso. Eu estou aqui, não tenho bisturi nem gilete por perto, vai ficar tudo bem. Mas estou doendo e preciso do banheiro para chorar ouvindo Seether cantar Careless whisper, ou Renato Russo e RPM dizendo sabiamente que “aquele beijo era mesmo o fim”. E como na música, meu desejo se perdeu de mim. Foi sozinho buscar o que queria e agora quem sofre com a certeza de que tudo foi errado demais sou eu. Palmas para o desejo, vai voltar acuado pedindo desculpas - tarde demais - para um coração rejeitado - demais - por amar - demais. Tudo demais, demais, demais.
Nada de conversas. Nada de abraços. Não gosto de ser tocada e não sou uma verdadeira fã do convite branco com letras prateadas que diz “tadinha, você parece tanto precisar de ajuda, abra-se comigo”. Quero ficar sozinha, trancada no banheiro, chorando as pitangas e me concentrando apenas em mim. Chega de altruísmo, ao menos por algumas horas; de viver pelos outros, de ser feliz e leve como uma pluma quando o peso que carrego é o de um piano de cauda. Nesse exato momento meu maior objetivo é ser egoísta para não precisar ser atriz, para não ter que ser simpática com ninguém quando metade de todo o meu glicogênio vira energia só pra me manter em pé, andando numa linha reta sem cair quando penso em tudo que me corrói por dentro. É verdade, sou meio estraçalhada mesmo. Tem pedaços de mim caindo por aí enquanto caminho, como flocos de isopor barato se soltando com o vento. Com a pressão certa, viro um montinho esmigalhado. Mas esse isopor tem um papelão quase resistente no centro. E enquanto estou me esfacelando, ainda sobra alguma coisa no fundo, um sopro de vida que é mais do que suficiente para que eu cole sozinha as partes de mim que consigo juntar. E se não faço isso nesse exato momento, é por saber que as cicatrizes ficarão muito maiores se eu passar fita isolante enquanto ainda estiver molhando de lágrimas todos os poros. Não gruda direito, não tem jeito. Então me deixa aqui nesse banheiro, sozinha, que é melhor. Estou vivendo das mesmas lembranças repetitivas porque são as mais bonitas que colecionei. São elas que ficam latejando como um calo incômodo, mas suspirando de paixão. São meu alimento. Elas e esse chá sem açúcar. Estou esgotada, minhas fontes de energia fizeram greve e agora, se eu sair daqui, vou tombar em qualquer canto e o mundo vai assistir meu desespero.
Quando eu fugir desse torpor dolorosamente palpitante e voltar a sentir as lajotas frias, tudo vai ficar bem. Quando eu sair do banheiro, com os cabelos molhados por um banho recente e o rosto empelotado de inchaços,  mas ainda assim contorcido num sorriso, as coisas voltarão ao normal. A casa vai respirar novamente, minhas meias encardidas podem voltar a ser o centro das atenções e o sofá pode parecer novamente o lugar certo para essa bunda horrorosa sentar, ao invés do piso branco com rejuntes. Quando eu jogar fora esse chá tão amargo que mais parece saído de mim e colocar em seu lugar um bom tanto de suco bem gelado, as coisas vão mudar. Quando eu catar mais alguns pedaços espalhados do que costumava ser minha dignidade intacta e tiver cola suficiente pra juntar tudo sem que fique parecendo uma montagem de primário escolar, minha respiração ficará mais forte e pronto. Mas por enquanto quero viver assim, meio parasita sem ter quem parasitar. Meio vírus que sobrevive ao ambiente, mas não se replica sem uma célula viva como hospedeira. Ninguém quer uma bola de saudade e soluços como companhia e eu não quero botar minha tristeza como dama de companhia de ninguém. É um acordo. Enquanto estou molenga, febril e apática, fico sozinha com as lajotas e as meias encardidas, sem ter que usar uma dublê burra e sorridente para convencer os espectadores. Quando endurecer o que ainda não criou paredes de cimento e souber remexer em minhas lembranças não como um véu suave, mas como uma casca grossa de laranja, aí então escolherei ter companhia. Vai ser assim. Eu e o banheiro por enquanto, eu e o mundo mais tarde.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amor sem primavera não alcança outono.


Você chegou como uma brisa inesperada em um dia quente de verão. Refrescou minha mente, aqueceu meu corpo, congelou minha face em um sorriso bobo, estampou seu nome em minha testa com letras de neon. Foi o recomeço, a nova tentativa quando pensei não ter mais coragem de tentar. Eu quis apostar em você e em suas mentiras mascaradas de verdades, em seu jeito ora menino demais, ora homem demais. Apostei com as últimas fichas de confiança e paixão que possuía nesse cassino clandestino que é minha alma, cheia de jogos sempre perdidos e garçons carregando bandejas com whisky para sentimentos solitários disfarçados de velhos jogadores beberrões. Você foi o croupier, mas também as fichas da jogada. Disse, alto e ressonante em meu peito, mas cochichando no ouvido: faça sua aposta! E foi o que fiz, com severa obediência; apostei e saí ganhando. Penso que essa talvez seja a tal sorte de principiante, que traz uma chuva de ilusão de que tudo continuará dando certo. Royal Straight Flush, Four of a kind, Full House; no andar da carruagem arrisquei tudo o que tinha, não sobrou nada inteiro para tentar outra vez em algum cassino diferente. Todo jogador deveria reconhecer o momento de parar, virar as costas e ir embora, deixando cartas e fichas para trás e carregando consigo o pouco que ganhou. Mas eu não soube enxergar a hora certa e agora estou de alma e bolsos vazios, coração amargurado e devendo a mim mesma restituições de dignidade.Você chegou como um verão e partiu como um inverno. Passou com seu calor febril, trazendo promessas de réveillon, carnaval, praia, maresia e cerveja geladinha com amigos, como qualquer outro verão promete. Cenas de comercial meramente ilustrativas para conquistar a clientela, hoje eu sei. Trouxe as noites bonitas, o clima quente dos chinelos e bermudas, os dias ensolarados em que moças e rapazes esbeltos desfilam pela orla de praias ao redor do mundo. Todas essas sensações vieram em você, a alegria da estação mais quente do ano, a delícia de pisar em grama geladinha e refrescar os pés e, de vez em quando, molhar o corpo todo em uma chuva de verão revigorante. Você trouxe o verão em seu olhar e as chuvas de verão em seu sorriso. E eu, que sempre preferi tudo que fosse de congelar até os ossos, vi-me torcendo para que o equinócio de primavera jamais chegasse, para que perdurasse aqui toda a liberdade que exala do seu corpo e todo o frescor que emana de suas palavras.
O equinócio de primavera não chegou, realmente. Em seu lugar veio o solstício de inverno e, com ele, sua partida silenciosa. Foi quando saltei violentamente entre dois climas tão díspares que entendi, com olhos marejados de lágrimas, que você não passou de uma brisa de verão que chega já de malas prontas com destino a outro hemisfério. Seu adeus não dito arrancou de mim a leveza do verão, instaurando em seu lugar o peso das noites frias e solitárias. Cobertas pesadas, mais de cinco, para tentar aquecer o que antes só precisava de você. Pés petrificados, tremedeiras, nariz vermelho e lábios roxos. Na cama o lugar ao lado está sempre vazio e gelado demais, par perfeito para meu coração abandonado nas geleiras da Patagônia. Nada de mares do Caribe para você, mulher, apenas gelo atrás de gelo. Minha boca, antes úmida de alegria, agora expele fumacinhas enquanto o queixo treme. Deve ser assim, então, a solidão que ninguém soube jamais definir: fria como o inverno. Na pintura onde antes havia dias coloridos de azul claro e raios solares vibrantes, há agora apenas o acinzentado opaco e a névoa opressora das noites de terror. Árvores mortas, solidão. Geadas da madrugada, solidão. Nevasca, solidão. O frio que você deixou não há aquecedor que mande embora. É um vento invernal aqui dentro, lágrimas dolorosamente geladas percorrendo toda a grande circulação, substituindo o sangue quente e congelando lentamente até trincar de tanta dor. Uma delas transborda, mas acaba petrificada em minha bochecha esquerda. Que direito tenho eu de chorar, quando nada fiz ao ver você partir e levar o verão para outra qualquer? Você não vê, porque o verão não se importa com os pesadelos invernais, mas essas lágrimas congelantes estão formando blocos de gelo espalhados difusamente em meu corpo. O verão não se acomoda, sua energia o leva sempre para carnavais que ainda não conheceu. O inverno, no entanto, foi se firmando à minha volta como uma cúpula rígida que não pode ser quebrada nem transpassada, mais firme a cada passo seu para longe de mim. Eu só quis o seu calor e agora estou imersa na sofreguidão gelada que mais ninguém pode esquentar.
Você enxerga o erro de cálculo em nosso calendário? Nós tivemos duas estações, quando deveríamos ter passado por quatro. Vivemos as estações dos começos esbaforidos e fins fracassados e pulamos as estações dos “durantes” felizes que podem alterar a última cena de uma história. Sem primavera nem outono, só o calor exagerado do verão e o frio demasiado do inverno. Pulamos a etapa das canções em campos floridos ou dos passeios entre folhas secas. Só quem vive as duas estações mais verdadeiras e menos extremistas são os agraciados pela reciprocidade, pelo final sem fim, pelas fotos de casal nas prateleiras da estante ao lado da TV. É preciso viver o amor primaveril, sem a empolgação de veraneio, para chegar ao caminhar de mãos dadas do outono. Mas você só quis o começo de mim, a ponta do iceberg, quando eu estava disposta a oferecer tudo que o oceano esconde.
Eu torci errado, enfim. Deveria ter ansiado pelo equinócio de primavera. Quis parar minha vida no verão para ter você para sempre, enquanto a primavera poderia ter nos envolvido em seus laços invisíveis. Tive um verão com frescobol e carrinho de picolé, mas o outono dos filmes aconchegantes passou batido. Quando você decidiu que eu não merecia mais seu olhar, foi muito mais que um fechar de pálpebras. Foi um vidro opressor que encarcerou minha alma mutilada em algum lugar onde curativos não podem ser feitos. Sou agora um daqueles bibelôs de lojinhas vagabundas a partir de 1,99, uma daquelas pequenas redomas de vidro que, quando chacoalhadas, tumultuam zilhões de partículas brancas que simulam neve. Eu não simulo nada, mas se você me chacoalhar, só tem neve mesmo aqui. Coberta por um vidro blindado que não se quebra jamais. E no centro desse bibelô ficou meu coração que - antes quente e acelerado pelo seu verão - não passa agora de uma estatueta de gelo que, curiosamente, nunca derrete. Aqui e ali caem umas gotinhas quando penso em você e então não é mais gelo, é sangue do mais efervescente. Como em um oceano, você bateu seu navio no monstruoso iceberg que eu sou. Grande, forte, imponente. É a parte que o mundo todo vê. A parte que só atinge e nunca é atingida. Que perde blocos de gelo, mas não está nem aí. Mas o restante submerso - muito mais real, que sofre, sente e ama - está enclausurado na podridão dos mares de náufragos. Solitário. E ali permanecerá, cansado de tentar emergir.
 
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