terça-feira, 29 de junho de 2010

Estilhacem mil vezes meu coração.

Um cinza tranquilo e ameno pinta o céu como um quadro abstrato e isso não é nada que me deprima ou reduza à introspecção - subestimada, por sinal - como faz com maioria das pessoas. Não, prefiro mesmo sentir os grossos pingos de chuva ricocheteando na pele e afundar meus pés em poças d’água. Ou, no mínimo, observar o caminho cadente de uma gota na vidraça da janela enquanto tomo meu café. Momentos como estes costumam durar pouco, assim como quase tudo o que é bom. Depois da sensação de liberdade, sempre vem o peso da responsabilidade. Volto à vida real para ver à minha espera um xérox da faculdade falando sobre poluição do meio ambiente, uma caneca de chá e um amigo inteligente sentado em uma cadeira desconfortável no lado da mesa oposto ao meu. Em um instante o silêncio absoluto e no outro o estilhaçar de uma garrafa de Heineken. Um desavisado que chegou, não viu e derrubou. Simples assim, complexo assim.
Era só uma garrafa quebrada, caramba. Por que diabos tamanha comoção? Não deveria ser um choque ver os cacos de vidro escuro no chão. Se para algumas pessoas é tão fácil partir sentimentos em minúsculos pedaços e fazer com que lágrimas vertam de olhos alheios repletos de amor, que dirá esbarrar em uma garrafa e desperdiçar seu álcool? O surpreendente é como 90% das pessoas lamenta mais por algo acessível a qualquer um - literalmente qualquer um - que tenha alguns trocados amassados no bolso e saiba onde ir do que pela fragilidade de algo verdadeiro – muitas vezes também esparramado pelo chão; todas as vezes de forma muito mais dolorosa e cruel - que não está à venda em nenhum boteco de esquina.
Talvez essa aquiescência pelo mais simples seja consequência do medo. Talvez as pessoas prefiram uma cerveja justamente por ela não trazer nenhuma inovação, medo ou incerteza. Ou talvez só prefiram a mediocridade de uma vida sem riscos, sem o perigo delicioso de doar seu coração à alguém, de sentir-se vivo. A covardia está mais ao alcance das mãos do que aquilo que se esconde por trás dela. O que toda essa gente não consegue enxergar é que o sabor de uma Heineken será sempre o apreciável sabor de uma Heineken, é claro. Mas sempre o mesmo. Eternamente igual. Enquanto isso, o sabor de um sentimento é único e, uma vez provado, implacável.
O copo estará inevitavelmente vazio no fim da noite, o frasco não terá para sempre a última gota, nem todo dia haverá uma companhia para tomar a saideira. Já um afeto não se esvai em um estalar de dedos, mesmo quando toda a cidade dorme e você está sozinho numa mesa escura de um bar qualquer; ou ao menos não deveria. Hoje não duvido de mais nada. Mas quem sabe esses 10% que creem nisso ainda não tenham descoberto onde está escondida toda a felicidade majestosa de uma bebida e o motivo de ela valer muito mais que um coração. Se esse for o caso, ainda prefiro o risco de rir e chorar por algo que não tem limite de estoque, que não provoca vômito nem coma, mas que embriaga sem teor alcoólico algum, apenas com a legitimidade de um momento. Prefiro continuar olhando para o chão cheio de cacos de um vidro verde e espesso e dar uma gargalhada ao invés de chorar por uma poção amarela que promete maravilhas e, no fim, é só mais uma ressaca para a listinha de histórias com os amigos.
As facilidades da vida estão aí para quem quiser tomá-las nos braços, da mesma forma que olhar para o fundo de um copo vazio refletindo seu ser é muito mais simples do que olhar nos olhos de alguém e enxergar tudo o que pode vir a ser e tudo o que se quer. Quanto a mim? Prefiro a cor singular, o piscar natural, o formato delineado, a franqueza e a profundidade de um olhar. Prefiro cinco segundos que parecem uma eternidade. Prefiro memorizar detalhes que só eu lembrarei. Escolho qualquer breve momento em que nenhuma palavra precise ser dita antes de sequer considerar escolher meia hora de uma algazarra bêbada e completamente inútil.
 
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