quarta-feira, 7 de julho de 2010

Doce, amargo, amanhecido.

Ontem saí para comprar pastel de feira, desses quentinhos, crocantes e cheios de vento. Gastei dez reais em pastel, enchi o bucho mesmo e ainda sobrou. Para fazer um requentê no dia seguinte, embrulhei todos os restos no pacote pardo e larguei em qualquer canto da mesa, como se larga a chave de casa. Não seria melhor colocar cuidadosamente em um potinho? Não. Quer dizer, até seria. Mas sou esquisita e gosto de pastel amanhecido.
Coisas amanhecidas estão para mim como tristeza está para Heathcliff. Pastel frio e borrachudo, pão macio de um ou dois dias atrás, sobras do meio-dia de terça no almoço de quarta. E os amores... Ah, os amores! Nada como um amor amanhecido; um amor, um beijo, um abraço aconchegante. Poder olhar para o lado e saber exatamente quem estará lá. Conhecer cada linha, cada expressão e cada sabor daquele que segura sua mão. Enquanto tantas pessoas procuram o novo, o inusitado, eu fico aqui desejando ardentemente a mesma pessoa dia após dia. O problema é que quando você não se interessa por mais ninguém e não há reciprocidade, o mundo fica desinteressante e solitário. É como comer uma torta de limão que sua avó faz, mas jamais a da padaria da esquina. Você sabe que ama torta de limão, mas não arrisca provar suas variações e eventualmente se decepcionar.
Repito sempre, talvez na esperança de que você crie superpoderes e ouça meus pensamentos, que eu não preciso ter pressa porque o nosso dia há de chegar. Insisto e persisto nos sabores amanhecidos, deixando para trás o diferente sem nem ao menos um piscar de olhos. Insisto, porque meu coração é uma criança levada que precisa de uns safanões para aprender a não pregar peças em mim. Persisto nessa indiferença, nessa sede de você que não cessa, mas que nenhum outro sacia. E quando percebo que a memória do seu sabor começa a escapar de minhas garras, fecho os olhos, as mãos, tudo que possa se movimentar, e concentro todas as minhas energias em reviver nossos momentos, um após o outro, para sentir de novo o doce, o salgado, o azedo e tudo de você.
O que se há de fazer quando você gosta do amanhecido, mas o amanhecido gosta do recém saído do forno? Esperar. Porque não adianta provar outros gostos apenas por meras tentativas; você pode acabar vomitando. Então eu espero, espero que meu doce preferido, extinto das prateleiras da minha vida há tanto tempo, volte para mim, com preços que eu possa pagar. 

1 comentários:

Michelle disse...

Josiana adorei!!!
Eles são muito bons!
Sabe que não sei se tenho mais medo do 'amanhecido' ou do 'novo' viu...
Beijos!

 
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Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
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