sexta-feira, 2 de julho de 2010

Lágrimas secas.

Com a solidão que estou sentindo agora eu não contava. Não era o que eu esperava quando vi seus olhos pela primeira vez, uma chama de certeza e confusão disseminando-se em meu corpo. Nem sequer imaginava que um dia pudesse alcançar a situação em que me encontro agora: sozinha, quebrada, seca por dentro. Logo eu, que outrora tantas lágrimas derramei por quem tão pouco valia, agora estou seca, drenada até a última gota. E dói. Você não sabe, mas não ser hábil para chorar dói, principalmente porque essa era a única escapatória que eu conhecia para fugir da dor. Lágrima após lágrima, travesseiros molhados de tristeza e manchados por alguma maquiagem escura, maçãs do rosto vermelhas sustentando olhos inchados... Tudo isso varria, aos poucos, todo o desespero para longe; a enxaqueca era um pequeno preço que eu aceitava pagar pelo alívio da agonia. Mas, e agora? E quando a tristeza é tão imensurável que chorar se torna inútil? Tento convencer meu corpo de que algumas lágrimas não fariam mal. "Lembra-se de como elas funcionavam como remédio após algum tempo?", eu digo, mas ele sabe muito bem que não adianta. Nossos sistemas não são burros e a resposta que recebo do meu é sempre a mesma: "se vira, estou cansado e seco e dessa vez não posso ajudar".
E então eu me viro. Levanto a cabeça para encarar os dias, tentando ignorar a solidão em que me encontro, o vazio que você deixou. Não vou mentir, já tentei suprir sua falta em outro abraço. Mas também não vou mentir dizendo que adiantou. Exceto isto, todo o resto dos meus dias é uma mentira; os sorrisos, as conversas, o "tudo ótimo, e contigo?". A verdade é que as pessoas perderam a habilidade de enxergar o que os olhos dizem. Ainda bem pois, não fosse assim, todos veriam a grande farsa de felicidade que sou. Sempre animada, fazendo piadinhas ridículas só para vestir a fantasia de bobona sem sentimentos. Por enquanto meu sorriso tem funcionado para sustentar minhas palavras animadas e vazias, mas algo me diz que você não cairia nessa história. Você, que sempre me achou depressiva e tão pouco digna da sua companhia, você eu não conseguiria enganar. Porque é justamente de você que vem a amplitude da minha solidão. É de você e eu já não consigo arrancar esse buraco do peito, tão encravado ficou teu nome nele. É de ti que sinto saudades, do seu toque gentil e cauteloso, das palavras doces que tanta certeza eu tinha que eram mentiras, mas ansiava amarguradamente por acreditar serem verdades.
Hoje, aonde quer que eu vá, há um banco vazio ao meu lado. E mesmo que alguém o ocupe temporariamente, esse lugar é seu, o que me torna completamente incapaz de olhar com afeto para qualquer outro que não seja você. E, de toda a minha dor, esta é a pior, a de carregar a certeza de que você não vai voltar, ninguém conseguirá tomar seu lugar em mim e, como dois e dois são quatro, eu seguirei carregando esta solidão e o teu nome pelos caminhos da minha vida.

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