terça-feira, 13 de julho de 2010

Entre goles e gritos.

Escuridão. Não enxergo muita coisa além da garrafa de vodka quase vazia que tenho nas mãos. Um assombro me assalta quando percebo que minha única companhia está acabando, mas "tudo bem" - penso - "tenho mais três garrafas cheias". Bebo mais um gole, um bem longo para ver se a ardência volta. É bom sentir a garganta queimando, tornando-se a única sensação percorrendo todo o meu corpo. Depois de horas bebendo sem cessar, no entanto, nada queima. Aliás, nada sente porra nenhuma. Sei que essa era a intenção, mas ainda falta conseguir parar de pensar em você. Quanto terei de beber para apagar sua imagem da minha mente, nem que seja apenas por uma noite?
Sorvo mais um gole direto do gargalo, não preciso de copo ou de guardanapo, pois não tenho ninguém para reparar se sou uma perfeita dama ou não. Sentada meio torta em minha cama, com os olhos injetados pelo efeito do álcool e inchados de tanto chorar, viro o restante da vodka, parte dela descendo lenta e venenosamente por minha garganta, parte escorrendo pelos cantos da boca. Não choro mais agora. Não nos últimos quinze ou vinte minutos. Ou serão horas? O tempo esvaiu-se de mim, mas é melhor assim.
Jogo a garrafa vazia no chão, ao lado da primeira. Os estilhaços voam por todos os lados do quarto, pequenas partículas de vidro tilintando quando encontram o chão. É o único som do ambiente. É o único som que cala sua voz ressonante em minha cabeça, tão docemente decorada que parece ter sido gravada em mim como uma fita cassete antiga que não consigo destruir. O vidro partindo-se ao meio funciona por alguns instantes como um disco de vinil sendo trocado de lado. É rock pesado quando sua voz era uma melodia clássica e apaixonante.
Quando começo a rir sozinha percebo quão longe foi minha loucura. Preciso de mais uma garrafa. Deve ser suficiente para dormir, imagino. Droga de resistência ao álcool. Levanto-me meio cambaleante, tentando firmar os pés no chão, as solas tão dormentes que já não sinto os cacos de vidro perfurando a pele. Não é necessário acender a luz; apesar de estar trôpega e desnorteada, minhas mãos já sabem que caminho tatear.
Volto para a cama já no terceiro gole. Preciso te apagar de mim, preciso fazer você sumir, preciso arrancar cada lembrança sua, nem que para isso tenha que desmaiar. Sinto outro acesso de lágrimas chegando. Quanto tempo mais levará até que eu esteja completamente seca? Não sei que horas são, mas sinto-me inquieta agora. Tanta bebida me deixou com dor de cabeça. Ou terá sido você? Se até meu coração agoniza por ti, por que não seria a cabeça outro efeito teu? Efeito teu. Soa bem. Drogas tem efeitos. Você tem efeito. Eu deveria ter optado pelas drogas e não por você quando tive chance.
Seguro a cabeça entre minhas mãos agitadas tentando cessar a dor, esmagando meus pensamentos. Já não me importo se estou um lixo, despenteada e com borrões pretos de maquiagem abaixo dos olhos. Já não me importo com mais nada. E justamente do nada vem o desespero. Perceber que você tirou de mim a importância que eu dava às pequenas coisas, às pessoas, a mim mesma, me consome. Uma raiva crescente vai se apoderando vagarosamente de todo o meu corpo, até que seja tão grandiosa que preciso gritar para não explodir. Não quero explodir. Não quero chamar a atenção de ninguém. Não, não, não. Mas não tem jeito. Os gritos vêm por conta própria, ou porque não consigo sufocá-los ou porque a vodka tornou-os mais rápidos. E sua voz sussurra em meu ouvido que eu virei uma criança manhosa. E ri. Ri do meu desespero, como tantas vezes fez. Eu queria ter forças para te mandar à merda. Queria querer te mandar à merda. Queria que essa raiva fosse de você e não de mim.
Para me calar viro a garrafa ainda cheia e tomo incontáveis grandes goles de uma só vez. Minhas mãos tremem, a angústia está me comendo viva e dói tão intensamente que por alguns segundos penso que não vou aguentar. Entre um grito e outro lanço a garrafa de encontro à parede e não dou a mínima para a sujeira. Cansei de beber. Só quero deitar por alguns minutos...

Tudo está quieto agora. Não grito mais, nem sua voz conversa comigo. Não há um cochicho seu sequer. Sinto-me completamente vazia, tão acostumada estava a te ouvir o dia inteiro pregando peças à minha sanidade. Mas é um vazio gostoso que nunca mais havia encontrado depois de te conhecer. É bom estar vazia assim. Fecho os olhos, mas também não vejo você. Tudo está escuro agora. Tudo está quieto agora. Tudo está como eu queria que estivesse. Como se você não tivesse existido nem me machucado tantas vezes e de maneira tão irreversível.
Escuro, quieto e sem você. Tudo está perfeito agora.

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