domingo, 22 de agosto de 2010

Mais caro do que meu saldo no banco.

Passei a tarde cercada por pessoas legais, mas nunca antes me senti tão sozinha. Pedi licença duas ou três vezes para ir ao banheiro sob o pretexto de que o tererê tinha enchido minha bexiga, mas o que estava cheio mesmo era meu peito. Cheio de angústia, de tristeza, de vontade de tomar um remédio e dormir por vinte e quatro horas seguidas para ver se acordaria com uma sensação diferente. Perdi a noção do tempo enquanto chorava sentada na privada fechada, pedaços de dor saindo a cada vez. E então me recompunha externamente - deixando a ferida aberta onde só eu posso ver -, pingava um colírio nos olhos, remexia no cabelo e descia a escadas com o remelexo aliviado de quem acabou de fazer um xixi que estivera segurando por muito tempo.
Gosto desse meu jeito todo de enganar. Seria mais difícil sair do banheiro ainda mergulhada em lágrimas, sentar em um dos colchões estendidos na sala e ter de explicar a todos o que não sei explicar a mim mesma. Ter de encarar um olhar entre os vinte demais e dizer "não é por você que estou chorando, juro" e sentir mais lágrimas jorrando junto com a mentira. É mais fácil parecer feliz, dar risada e me esticar no sofá da sua casa como se me sentisse perfeitamente confortável. É muito mais simples ficar observando seis ou sete pessoas se divertindo e achando que estou no mesmo clima. Complicado seria explicar por A mais B qual a razão de doer tanto só por enxergar com outro alguém quem nunca foi meu. O mundo só entende dor quando ela vem de relacionamentos longos; o paradigma é que só é possível sofrer por alguém que se conhece há muito tempo. É fácil fingir, garanto, principalmente quando os paradigmas não se aplicam a você. Quando dominei a arte de ser um porto seguro para meus sentimentos, todos acabaram acreditando que meu coração é intacto e não uma peça em frangalhos, dessas cortadas por açougueiros de filmes de terror. Difícil é sentar numa ponta da sala e ver, de canto de olho para não dar bandeira, o quase amor deitadinho com outra nos braços, falando baixinho no ouvido dela qualquer coisa banal. Eu não me importaria de ouvir coisas banais, garanto. Mas fiquei ali, sozinha, enxergando o que por um triz poderia ter sido meu. Estagnei num canto do sofá comprido, ouvindo as gargalhadas de todos assistindo ao filme dos Simpsons, enquanto na minha cabeça só rodava um filme tremendamente triste. Deve ser isso que chamam de infinito particular: cinema privativo, com sala VIP, mas sem pipoca ou copo gigante de Coca-Cola.
Quem dera fosse fácil enganar a mim mesma com a destreza com que engano aos demais. Não queria ficar me perguntando repetidas vezes o que fiz de errado agora, ou por quê você me deu a mão em um minuto e no seguinte passou de braço grudado com outra. Não queria sentir os olhos arderem na tentativa de reprimir as lágrimas, nem a dor lancinante no peito por algo que nem mesmo começou. Não permito jamais que vejam minha face humilhada, esbofeteada pela rejeição, mas aqui dentro rastejo pisoteada e em prantos. Não consigo ir embora porque sou a perfeita idiota que não desaprende a sofrer. Uso minha visão como um chicote estalando em minhas costas, assistindo a felicidade alheia que por um curto espaço de tempo poderia ter sido minha. Mas, diabos, é impossível evitar a incompreensão quando no fundo sei que nem tive tempo para cometer algum erro. Quando o jogo começou tiraram o time de campo antes que eu pudesse fazer um gol contra. Então por que sinto como se tivesse perdido de goleada? Como se você tivesse marcado uns oito gols e eu fosse a perna de pau que nem deveria ter sido escalada. Você age como um técnico arrependido de sua decisão. Diz, apontando o indicador, "você, entre jogar", mas muda de ideia quando estou aquecendo, balança a cabeça e cospe "não, não, deixa pra lá, volta pro banco porque não é você que vai jogar". E eu volto, com a cabeça baixa e sem entender como funcionam as regras do jogo ou a falta delas.
Sinto que o juiz apitou o término do primeiro tempo antes da hora. Torço para que dessa vez tenha machucado o suficiente para nunca mais poder entrar em campo, para me aposentar e só assistir às partidas na telinha da TV. Mas, como o joelho de um jogador, meu coração esperneia que ainda não é o momento de desistir. Por que, céus, eu não aprendo de uma vez por todas a não dar bola para quem chega sussurrando que eu sou linda, inteligente e diferente das outras mulheres? Por que não me ouço quando uso com os outros meu discurso de "essas coisas tipo amor não existem" ou "não estou afim de me envolver com ninguém"? Se é tão fácil fazer o mundo crer na minha lábia, por que é tão árduo o trabalho de me convencer? Sou inteligente o bastante para saber que as palavras que digo em voz alta são as únicas que deveria levar em conta ao invés dessa babaquice toda que sinto aqui no peito.
Ontem à noite, no final de uma festa melancólica, um amigo me perguntou se fiquei triste de te ver passando de mãos dadas com outra, sentando ao meu lado com outra, indo embora com outra. Eu ri. Ri, dei um tapinha nos ombros do meu amigo e brandi um sorriso cheio de animação enquanto dizia "você tá brincando, né? Até parece que esse tipo de coisa me abala! Não é como se eu estivesse apaixonada por ele". E ele respondeu "ufa, ainda bem", respirando aliviado por mim enquanto tudo o que eu podia fazer era trancar a respiração para não chorar, para não mostrar a ele que sim, eu estava triste; sim, estava inconsolavelmente abalada e precisava como nunca de um ombro amigo. Quase mandei tudo para o inferno. Pensei seriamente em soltar o soluço atravessado na garganta, sentar no meio-fio e chorar como uma criança que deixou o doce cair na terra. Porque eu deixei meu coração cair na terra e servir de tapete para os outros não sujarem os pés. Queria ser o quintal da casa de alguém, podado e bem cuidado, e tudo que consegui foi ser a rua que passa em frente, servindo de passagem. E numa dessas passagens alguém acabou dançando sapateado no que já eram pedaços do meu coração estraçalhado. Quis olhar para meu amigo e dizer "preciso de ajuda, tá doendo tanto ser rejeitada assim que não sei mais o que fazer", mas ao invés disso mantive o sorriso besta e a pose inabalável. De que adiantaria dizer alguma coisa? Nem mesmo um grande amigo entenderia se eu dissesse que aqueles soluços doloridos eram por você e nosso caso abstrato.
Não vou fazer papel de boba. Por fora mantenho a carcaça alegre que responde às humilhações com uma risada de "tudo bem, não tem problema". Não vou pedir abraços a ninguém. Não vou te olhar com cara de quem queria estar no lugar da outra que está dormindo ao seu lado enquanto passa o filme pirata e com áudio péssimo dos Simpsons. Não vou te deixar ver que, por trás do abraço firme com que seguro uma almofada, está a vontade de mandar essa outra embora porque ela está no lugar que você sugeriu que seria meu. Não vou admitir que não consigo mais sustentar seu olhar porque dói lembrar de você me encarando e segurando disfarçadamente minha mão, fazendo meu braço inteiro formigar e meu coração bater tão forte no peito que tive medo de que você pudesse ouvi-lo. Não vou te deixar saber que desde o primeiro segundo em que chegou perto de mim eu me importei como se soubesse que tinha nas mãos um cara de ouro. E que, por medo de mil coisas, resolvi deixar para a próxima vez, achando que haveria uma. E houve. Tive mais medo ainda porque cada palavra sua começou a ter um efeito maldito em mim e eu me deixei levar por seus dedos entrelaçados aos meus dentro do bolso da minha saia. E na vez seguinte reprimi um sorriso quando reconheci sua mão macia inesperadamente segurando a minha com o toque suave mais uma vez. Eu estava flutuando alto e talvez esse tenha sido meu erro porque a queda foi dura demais quando, ainda sentindo minha mão esquerda e a sua direita juntas, vi a sua esquerda com a direita de outra pessoa. Mas você não vai saber disso. Não vai saber que eu ainda estaria aqui te esperando se você quisesse me abraçar mais uma vez, me cumprimentar com um quase beijo novamente, me levar para casa depois de uma festa, sentar ao meu lado e rir de mim como se ainda estivéssemos criando algo bonito. Vou suprimir minhas expectativas e esperanças como se elas nunca tivessem existido. Vou negar se alguém perguntar se está doendo e vou sorrir se você me olhar com esses olhos tão carinhosos e tão bonitos em conjunto com a barba por fazer. Vou abrir um grande sorriso ensolarado, ainda que aqui dentro tudo não passe de uma tempestade monstruosa. Eu achei que você valia ouro e vou sorrir porque agora tenho certeza de que apesar de tudo estava certa, mesmo que eu não tenha cacife para bancar os seus quilates. Deve ser por isso que eu sempre acabo com as pratarias falsificadas, os tais folheados a ouro que descascam e ficam pretos, deixando uma marca escura de ácido úrico na pele. Talvez você tenha percebido, enfim, que eu não tenho porte nem conta bancária para merecer o pingente de ouro verdadeiro que é você. No meio das minhas besteiras e desastres, da minha súplica silenciosa por um pouco de carinho, do meu olhar perdido e solitário, você deve ter enxergado a bagunça inútil que eu sou, a caixinha de camelô com espuma pobre que não serve para guardar uma joia.
Vou mesmo mentir que nada disso me machuca, que a barreira que tanto digo ter construído contra essas coisas realmente existe. Só não enganarei a mim mesma, mas quem sabe o tempo possa apagar tudo o que poderia ter sido e todas as imagens que passam incessantemente em minha cabeça, mesmo quando estou dormindo. Você mexeu comigo, me girou 360 graus. Mas tudo bem, sério.Você é de ouro legítimo e eu fico feliz por ter vivido um quase alguma coisa com alguém como você, quando tudo que tive até hoje foi o nada com as bijuterias auto-descartáveis. Você está certo em mudar de planos, em abraçar outras pessoas - talvez algum verdadeiro porta-joias -, em enxergar meu lado tão podre, porque nem eu desejaria a você um destino tão sem graça quanto eu. Só não pergunte nunca se estou bem ou como vai minha vida porque talvez eu não consiga mais te enganar. Não me abrace apertado, não me ofereça os morangos do seu bolo e muito menos sua companhia. E, por favor, peço de joelhos que não me estenda mais sua mão, que não segure a minha como se quisesse guardá-la entre as suas. Eu entendi tudo, mas estou no limiar da dor. Não faça isso comigo, pois já não uso mais pulseiras, nem brincos e colares, nem nada, apenas esperando por alguém de verdade como você. E, quando se espera em vão, qualquer faísca brilhante funciona como um raio que atinge seu destino com precisão. Você tem faíscas brilhantes demais e eu não consigo mais ser o local do trovão depois que o raio já caiu em outro lugar.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O ponto de partida dos eternos começos.

Estou cansada dessa coisa louca de me deixar levar pelas emoções, me envolver, acreditar, chegar em casa com os olhos brilhando de alegria, saltitando a ponto de esbarrar nos móveis, jogar o salto para o alto e pular na cama só esperando um sonho bom. Estou cansada de acordar no dia seguinte com um peso no peito, com a sensação de que tive mesmo um sonho bom, mas que tudo não passou disso. Ninguém vive só de sonhos. Cansei de passar da alegria ao medo; medo de não ser suficiente, de causar decepção ou ser decepcionada, de agir errado e falar besteiras das quais me arrependo depois. Cansei de jogos, de olhares planejados, de tentativas frustradas. Cansei.
Jurei a mim mesma que não deixaria nada começar novamente. Tinha, com convicção, garantido ao meu coração que não daria a ele novos motivos para saltar em ritmo frenético e descompassado. Não, eu não abriria margem para nada disso porque o desgaste emocional de ver algo começando e, antes mesmo de virar sólido, evaporar-se no ar... Ah, esse desgaste é gigantesco. Não tenho mais forças suficientes para me dar ao luxo de perder as que ainda restam. Não tenho mais cacife para assistir alguém ir embora e fingir que não me importo. Não tenho mais disposição para me encantar e não causar encanto, para acreditar no começo e os outros no fim. Jurei que fecharia os olhos para as singelas possibilidades que viessem a surgir e que não suspiraria por mais ninguém.
No entanto, como se a vida armasse truques para me prender em armadilhas bem montadas, algo aconteceu. Uma caminhada, um olhar, um abraço, uma conversa sem pretensão alguma e, de repente, com todas as pretensões do mundo. É difícil manter uma promessa quando o único desafiado é você, quando a única pessoa traída em caso de falha é você mesmo. É difícil impedir um começo quando ele vem de onde menos se espera. Em uma noite sem sentido, sem nada especial, alguém me trouxe embora após uma festa, me acompanhou até o portão, esperou que eu abrisse o cadeado e disse: "Eu te quero, mas não sei o que fazer". Como um dedo pressionando o gatilho, mil projéteis percorreram meu corpo e me impediram de responder, pinicando cada célula minha. Em um minuto eu estava apenas chegando em casa, no seguinte não conseguia sequer inspirar. Queria dizer: "Ei, preciso oxigenar o cérebro para viver, não me faça não saber respirar", mas tudo que saiu foi um débil e confuso "como assim?".
E começou. Inevitavelmente algo começou, como se aquelas palavras suaves fossem o estopim de uma corrida. Quis bater a cabeça no portão, xingando-me de idiota irrecuperável. Quis me esbofetear até perder a noção do tempo ou ter uma amnésia e me esquecer do que acabara de presenciar. Quis entrar em casa, fechar a porta e não abri-la nunca mais. Mas, ao mesmo tempo, quis me jogar entre os travesseiros, sorrir e pegar no sono revivendo o que acabara de ouvir. Quis desesperadamente acreditar que era verdade, e não só a largada de uma corrida que acaba nos cem metros. Mas o momento passou. Chegou veloz como um fogo de artifício e, quando estava pronto para estourar, falhou. E os olhares na terra, voltados para o céu, permaneceram em muxoxos de "quase" e "e se...".
Quem dera se no dia seguinte tudo houvesse terminado. Quem dera fosse começo e fim no mesmo instante. Bom seria se meu coração não fosse o estúpido que não sabe manter a compostura. Mais uma vez, no entanto, estava só começando. Agora sinto novamente meu estômago se torcendo e virando uma massa disforme só com a menção de um nome. Meu peito dispara, quase saindo pela boca, e o sorriso inútil vem aos lábios por reflexo, antes que eu possa raciocinar. Saltei do nada para o tudo num piscar de olhos. Vejo o que não via antes, mas preferia continuar cega para isso. Não quero gostar de ninguém, exceto talvez aprender a gostar um pouco de mim mesma. Gostar é muito complexo, mas com pesar admito que adoro complexidades. Ainda assim, continuo cansada e não sei dizer o que pesa mais. Não posso dizer sim a uma ilusão, mas não consigo calar essa voz que sussurra "ele vale a pena". Não consigo amarrar um pano na boca dessa voz interior, mas sei que ela está errada, sei que tudo que devo fazer é esquecer, pois nada de bom pode vir de um impulso como esse. Nada virá, a não ser tempestades e noites em claro.
Impossível negar o sentimento bom que se apossou de mim por algumas horas, ou dizer que fiquei indiferente a ele. Mentiria se dissesse que não estremeço só de lembrar ou que não ando suspirando por aí, esperando encontrá-lo em cada esquina. Porque, para mim, começou. Mas para ele? Dizer que já teve fim seria um tremendo eufemismo.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Guerra perdida.

Ser forte tem um preço por vezes impagável. Você vai botando na conta, deixando para pagar no mês que vem ou no próximo e quando se toca a força não existe mais. É preciso então partir para o plano B e fingir-se de forte para que não pisoteiem o que resta da sua alma em frangalhos. Fingir-se de forte é como arrematar um leilão cujo valor está muito além da sua conta bancária. É um caminho sem retorno, um erro sem desculpa para seu caráter. Mas traz segurança e vicia. Ser forte vicia, fingir-se de forte também. Estampar na cara a frieza que você não possui, andar altiva e cheia de leveza quando tudo que queria era estar embaixo de uma coberta no escuro do quarto; garantir a todos que você é uma fortaleza, que nada pode te oprimir ou deprimir. E que nada te abate, porque nessa batalha o tanque de guerra é você e se alguém atravessar seu caminho será facilmente eliminado da sua vida. Aos poucos é possível até mesmo acreditar nisso.
Até quando reaparece a única pessoa imune aos seus mísseis. Aquele que passa sem medo em frente à sua mira - a mira do grande e falso tanque de guerra - e dá risada porque sabe que é invencível. Nesse momento você se lembra de que não é forte, de que o tempo todo esteve apenas fingindo porque era o máximo que podia pagar. E se outra pessoa chegar no mesmo instante, você vai virar o rosto e sorrir, dizendo que tudo está bem e sempre estará. Porque, afinal, você é a tal fortaleza, o tal tanque de guerra, não é mesmo? E quem pode contra um tanque de guerra?
Ele pode. E sabe disso. Assim como você sabe. Quando nenhuma guerra pode ser travada, ser tanque ou fortaleza é inútil. Você vira novamente o mero soldado que tem na manga apenas duas cartas para escolher. Ou despir a farda, abandonar o campo e voltar para casa inteiro, ignorando quem quer que esteja deixando para trás, ou encarar a situação, levar um tiro no peito e cair de joelhos ali mesmo. Mas é impossível ir embora quando se deseja desesperadamente ficar. Quando sua pouca força se concentra nisso. Quando um olhar e nenhuma palavra é necessária para explicar os saltos estratosféricos no seu peito. Quando não se quer mais ser forte, apenas por alguns minutos. Então você escolhe ficar e sabe que se morrer terá sido na honra da batalha. Esqueça. Não haverá glória alguma. Foi estupidez e tarde demais você percebe que deveria ter ido embora enquanto era tempo.
Agora, deitada no chão, não há mais tempo algum. Você está entregue novamente, perdeu mais uma luta, levou mais um tiro. E mais uma vez não foi um tiro fatal. Ainda existe vida em você e, por mais escassa que seja, é o suficiente para te obrigar a levantar alguns dias depois, sacudir a poeira do corpo e deixar para trás o torpor e as malditas dores que se espalham pelo corpo depois dos tiros da decepção.
Meio cambaleante, você anda rumo ao horizonte, voltando para seu caminho com a farda nos ombros e o peito enfaixado cicatrizando lenta e dolorosamente. E você chora, pois sabe que a marca da cicatriz branca que agora faz companhia às outras não será a última. Haverão outras, vindas da mesma espingarda. Sempre da mesma. Mas antes disso há um mundo inteiro ao redor para ser convencido de que você nunca deixou de ser a força em pessoa. Esse é seu foco mais uma vez. Exceto quando ele reaparece.

domingo, 8 de agosto de 2010

Vida plastificada tem final feliz.

Revirando as páginas do meu passado, me peguei pensando nos tempos em que brincava de Barbie. Já naquela época eu gostava de ser sozinha, de sentar em frente à casa de madeira tamanho família e imaginar histórias comoventes. Fugia das conversinhas fúteis que outras meninas inventavam, colocando suas bonecas para tomar chá o dia inteiro e discorrer sobre filhinhas e roupas novas. Isso torrava a pouca paciência que eu tinha. Eu queria mesmo era brincar sozinha para poder criar dramalhões mexicanos e ensinar àquelas mulheres em miniatura que a vida não é tão fácil como o mundo pintava para elas e que nascer com a cabeleira magnífica não as impediria de sofrer posteriormente. Eu, uma criança, ensinando como mulheres de plástico - que hoje passam dos quarenta anos - deveriam sobreviver às tempestades da vida. Não havia Maria nem Joana. Se eu queria vidas plastificadas intensas, deveria começar pelos nomes. Dorothy, Catarina, Julieta, Tristessa, Audrey, Ofélia e Pandora. Kenn também não era Kenn; era Romeu, Tristão, Hamlet e Heathcliff, ainda que eu não pronunciasse tudo como deveria.
Me arrependo hoje de ter causado tanto sofrimento às bonecas. Elas sempre foram impecáveis, nunca ficaram carecas nem foram riscadas. Mas, em sua maioria, tinham os corações partidos. Não que tudo fosse ruim, mas todos os momentos bons que viviam só serviam para que sofressem terríveis decepções mais tarde e passassem dias chorando em seus pequenos quartos cor-de-rosa. Se as lágrimas pudessem rolar de verdade, acredito que todas teriam morrido desidratadas.
Ainda assim, minha alma infantil acreditava em finais felizes. Então, como nos filmes românticos, todo o pesar era recompensado em seu devido tempo, quando as coisas se acertavam e tudo terminava em um grandioso casamento, com decoração de flores verdadeiras. Ah, a ingenuidade. Hoje sinto vontade de desencaixotar minhas companheiras de infância, segurá-las no colo e dizer que sinto muito pelas mentiras que contei sem saber, que fui uma péssima mentora, que mostrei a elas um mundo de contos de fadas e que, não, finais felizes não existem. Por mais que eu detonasse alguns de seus dias, sempre havia uma luz no fim no túnel e todas eram capazes de correr até essa luz. Sinto-me uma grande farsa e me pergunto se tudo que tanto me atormenta hoje é consequência e castigo por todo o sofrimento que infligi. Tenho vontade de gritar para que elas e os seres humanos reais me escutem, para corrigir e dizer que não há droga de luz em lugar algum, a vida é mesmo esse breu sem fim. "Acordem, abram os olhos para o fato de que nada vai ficar bem, ao contrário do que dizem os otimistas". É o que quero berrar. Ao invés de abrir a boca, no entanto, calo-me. Calo-me porque, talvez, encaixotadas há tantos anos, Dorothy, Catarina, Julieta, Tristessa, Audrey, Ofélia e Pandora estejam bem, vivendo suas vidinhas exatamente como as deixei pela última vez. É possível que no dia em que resolvi deixar essa fase para trás tenha congelado a existência das bonecas e suas esperanças.
Pego as caixas no colo e sorrio. Melhor assim. Não quero ser eu a causa de descrença, tristeza e desconfiança. Não quero que elas se tornem iguais a mim; nem elas nem ninguém. Continuem todas em seus caminhos belos e felizes, pois não serei eu a dar uns tapas em suas bochechas e dizer "oi, isso tudo é fantasia, esqueçam". E então, com um pincel atômico, escrevo "THE END" em todas as caixas que restam, com letras garrafais. Como na última página dos livros mais felizes. Ou mais tristes. Quem há de saber?

domingo, 1 de agosto de 2010

Prato do dia.

Cheio do mesmo charme de sempre, ele me convidou para jantar. Foi, na verdade, uma intimação, e não um convite, visto que ele sabia que a resposta seria sim. Entre dois seres orgulhosos, eu sempre acabo perdendo.
Tomei um banho, dois, três. Não para ficar cheirosa, mas para me acalmar. Não funcionou. Revirei o guarda-roupa em busca de algo que me deixasse à altura dele. Besteira. Não há estilista no mundo capaz de criar uma vestimenta suficiente para tanto. Ainda que eu me sentisse bem, ele me diminuiria gradualmente até que eu estivesse do tamanho de um ratinho de laboratório perto de um elefante africano. Mas elefantes têm medo de ratos e ele não tem medo de mim. Nem medo, nem nada. Só poder. Escolhi um pretinho básico, justo demais para o tamanho que eu enxergava no espelho. Um dia atrás eu poderia ter gostado da imagem, mas esse é o caos que ele causa em mim; distorce meu reflexo, contorce meu rosto em dor dissimulada, afana minha autoestima.
Uma base aqui para esconder as marcas do sofrimento. Um blush para sanar a palidez que surgira em meu rosto desde o telefonema. Por que ele tinha que telefonar quando uma mensagem ou telegrama ou qualquer coisa que me privasse de sua voz seria mais generosa? Os calafrios que vinham feito ondas sobre mim tinham tudo a ver com seu "alô". Sombra carregada nos olhos e rímel para levantar a expressão. Um batom leve e, pronto, já estava mascarada. Não perdia meu tempo me produzindo para impressioná-lo, mas sim para dizer a mim mesma que ele não enxergava tudo, que a verdadeira mulher em mim ficava dormindo enquanto ele conversava com uma máscara fria e sorridente. Ainda com a paleta de maquiagem nas mãos, dei uma gargalhada alta. A quem eu estava enganando? Poderia passar massa corrida na cara e ele ainda saberia me manipular. Calcei os sapatos altíssimos - para crescer fisicamente enquanto meu espírito se encolhia cada vez mais - e parti.
Toquei sua campainha com dedos trêmulos e dificuldade para respirar. Cada inspiração me tomava porções de energia que eu sabia que precisaria mais tarde, quando fosse mandada embora. Ele abriu a porta, vestindo seu melhor sorriso e uma roupa qualquer. Quase me fez acreditar que estava realmente feliz por me ver. Que eu não era só mais uma. Quase.
Um aroma estranho tomou conta do ar. Levemente adocicado, enjoativo. Enquanto me concentrava em manter a respiração regular, ele beijou minha face e voltou para a cozinha, deixando-me só na imensidão da sala de jantar. Retornou trazendo a forma responsável pelo cheiro, agora tão intenso que me senti nauseada. Ou talvez tenha sido ele, me olhando interrogativamente, que tenha me deixado com ânsia de vômito. De um jeito ou de outro, aquele cheiro trazia consigo algo malévolo, algo que me impelia a tirar os sapatos e correr para longe dali. No entanto, sentei-me obedientemente na cadeira que ele segurava afastada para mim. Um perfeito cavalheiro, não fosse pela alma imunda.
Quando provei a torta com tenros pedaços de carne, um misto de agonia e profunda tristeza se espalhou por cada milímetro do meu corpo. Era um sabor diferente. Passava por doce, amargo, azedo, salgado e um gosto metálico que lembrava sangue. Mas o mais hipnotizante era a quantidade de sensações que aquela torta causava. Quase esqueci que ele estava ali em algum lugar, até que olhei em seus olhos. O castanho vivo e brincalhão que tanto amei estava fixo em mim, mas parecia não me ver. Acompanhavam os lábios sorridentes, cheios de uma vil satisfação. O que poderia ser tão engraçado?
"Você não percebe, não é?", ele perguntou. Não, eu não percebia. A confusão começou a me alarmar. Inquieta, não tive coragem de abrir a boca, mas senti algo escorrendo por meu queixo. Não era molho; era sangue. A piada fora longe demais desta vez. Pronta para ir embora, levantei-me e caí vertiginosamente de encontro ao chão. Antes que eu pudesse perguntar se fora envenenada, ele me olhou com ar divertido e disse: "Não, meu bem, não coloquei veneno em nossa comida. Aliás, nem sequer cozinhei. Só precisei picar a carne macia em pequenos pedaços; ela já chegou até mim temperada. Tem um sabor adocicado vindo da timidez e do jeito de menina. É bastante amarga, graças às decepções, mas ainda não se torna intragável. Um azedinho de ironia e cinismo que a vida ensinou. Por fim, tudo banhado no salgado das lágrimas e polvilhado com queijo prato. Delicioso, não?".
E, então, com desespero, entendi. Minhas mãos ensanguentadas tocaram meu peito, mas não havia nada ali além de um buraco escuro por onde vazava o gosto metalizado de sangue que eu sentira antes. Percebi que lentamente parava de respirar, a visão ficava embaçada e os músculos muito pesados. Encostei a cabeça na parede e olhei para ele, a última imagem que eu levaria comigo. Agora eu sabia porquê sentira, desde o convite, que esta seria uma noite pior do que as outras. Agora entendia porquê tivera vontade de fugir a cada instante em que aqueles olhos apaixonantes pousavam em mim. Agora eu via...
Não havia quadro negro anunciando em giz, nem placa, nem menu, mas o prato do dia era meu coração, picado em pedacinhos minúsculos. Sabe-se lá há quanto tempo ele vinha cortando lascas e voltando a afiar sua faca para então, numa grande noite, servir tudo com um vinho tinto seco e rir, rir descaradamente por ter saído vencedor, por ter arrancado cada centímetro de meu coração e tudo que ele carregou por tanto tempo. Agora eu compreendia porque aquele amor nunca parara de doer, o motivo de aquelas pontadas serem incessantes. E, em um último ato de glória, ele me fez experimentar meu próprio sofrimento para que eu soubesse que, quando nada restasse, ele ainda teria uma torta inteira de mim para devorar.
 
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