terça-feira, 10 de agosto de 2010

Guerra perdida.

Ser forte tem um preço por vezes impagável. Você vai botando na conta, deixando para pagar no mês que vem ou no próximo e quando se toca a força não existe mais. É preciso então partir para o plano B e fingir-se de forte para que não pisoteiem o que resta da sua alma em frangalhos. Fingir-se de forte é como arrematar um leilão cujo valor está muito além da sua conta bancária. É um caminho sem retorno, um erro sem desculpa para seu caráter. Mas traz segurança e vicia. Ser forte vicia, fingir-se de forte também. Estampar na cara a frieza que você não possui, andar altiva e cheia de leveza quando tudo que queria era estar embaixo de uma coberta no escuro do quarto; garantir a todos que você é uma fortaleza, que nada pode te oprimir ou deprimir. E que nada te abate, porque nessa batalha o tanque de guerra é você e se alguém atravessar seu caminho será facilmente eliminado da sua vida. Aos poucos é possível até mesmo acreditar nisso.
Até quando reaparece a única pessoa imune aos seus mísseis. Aquele que passa sem medo em frente à sua mira - a mira do grande e falso tanque de guerra - e dá risada porque sabe que é invencível. Nesse momento você se lembra de que não é forte, de que o tempo todo esteve apenas fingindo porque era o máximo que podia pagar. E se outra pessoa chegar no mesmo instante, você vai virar o rosto e sorrir, dizendo que tudo está bem e sempre estará. Porque, afinal, você é a tal fortaleza, o tal tanque de guerra, não é mesmo? E quem pode contra um tanque de guerra?
Ele pode. E sabe disso. Assim como você sabe. Quando nenhuma guerra pode ser travada, ser tanque ou fortaleza é inútil. Você vira novamente o mero soldado que tem na manga apenas duas cartas para escolher. Ou despir a farda, abandonar o campo e voltar para casa inteiro, ignorando quem quer que esteja deixando para trás, ou encarar a situação, levar um tiro no peito e cair de joelhos ali mesmo. Mas é impossível ir embora quando se deseja desesperadamente ficar. Quando sua pouca força se concentra nisso. Quando um olhar e nenhuma palavra é necessária para explicar os saltos estratosféricos no seu peito. Quando não se quer mais ser forte, apenas por alguns minutos. Então você escolhe ficar e sabe que se morrer terá sido na honra da batalha. Esqueça. Não haverá glória alguma. Foi estupidez e tarde demais você percebe que deveria ter ido embora enquanto era tempo.
Agora, deitada no chão, não há mais tempo algum. Você está entregue novamente, perdeu mais uma luta, levou mais um tiro. E mais uma vez não foi um tiro fatal. Ainda existe vida em você e, por mais escassa que seja, é o suficiente para te obrigar a levantar alguns dias depois, sacudir a poeira do corpo e deixar para trás o torpor e as malditas dores que se espalham pelo corpo depois dos tiros da decepção.
Meio cambaleante, você anda rumo ao horizonte, voltando para seu caminho com a farda nos ombros e o peito enfaixado cicatrizando lenta e dolorosamente. E você chora, pois sabe que a marca da cicatriz branca que agora faz companhia às outras não será a última. Haverão outras, vindas da mesma espingarda. Sempre da mesma. Mas antes disso há um mundo inteiro ao redor para ser convencido de que você nunca deixou de ser a força em pessoa. Esse é seu foco mais uma vez. Exceto quando ele reaparece.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

O mais assustador nas tantas guerras que inevitável e continuamente travamos vida afora é percebermos que, no final das contas, somos sempre nós mesmos quem está do outro lado.
GK

 
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