domingo, 22 de agosto de 2010

Mais caro do que meu saldo no banco.

Passei a tarde cercada por pessoas legais, mas nunca antes me senti tão sozinha. Pedi licença duas ou três vezes para ir ao banheiro sob o pretexto de que o tererê tinha enchido minha bexiga, mas o que estava cheio mesmo era meu peito. Cheio de angústia, de tristeza, de vontade de tomar um remédio e dormir por vinte e quatro horas seguidas para ver se acordaria com uma sensação diferente. Perdi a noção do tempo enquanto chorava sentada na privada fechada, pedaços de dor saindo a cada vez. E então me recompunha externamente - deixando a ferida aberta onde só eu posso ver -, pingava um colírio nos olhos, remexia no cabelo e descia a escadas com o remelexo aliviado de quem acabou de fazer um xixi que estivera segurando por muito tempo.
Gosto desse meu jeito todo de enganar. Seria mais difícil sair do banheiro ainda mergulhada em lágrimas, sentar em um dos colchões estendidos na sala e ter de explicar a todos o que não sei explicar a mim mesma. Ter de encarar um olhar entre os vinte demais e dizer "não é por você que estou chorando, juro" e sentir mais lágrimas jorrando junto com a mentira. É mais fácil parecer feliz, dar risada e me esticar no sofá da sua casa como se me sentisse perfeitamente confortável. É muito mais simples ficar observando seis ou sete pessoas se divertindo e achando que estou no mesmo clima. Complicado seria explicar por A mais B qual a razão de doer tanto só por enxergar com outro alguém quem nunca foi meu. O mundo só entende dor quando ela vem de relacionamentos longos; o paradigma é que só é possível sofrer por alguém que se conhece há muito tempo. É fácil fingir, garanto, principalmente quando os paradigmas não se aplicam a você. Quando dominei a arte de ser um porto seguro para meus sentimentos, todos acabaram acreditando que meu coração é intacto e não uma peça em frangalhos, dessas cortadas por açougueiros de filmes de terror. Difícil é sentar numa ponta da sala e ver, de canto de olho para não dar bandeira, o quase amor deitadinho com outra nos braços, falando baixinho no ouvido dela qualquer coisa banal. Eu não me importaria de ouvir coisas banais, garanto. Mas fiquei ali, sozinha, enxergando o que por um triz poderia ter sido meu. Estagnei num canto do sofá comprido, ouvindo as gargalhadas de todos assistindo ao filme dos Simpsons, enquanto na minha cabeça só rodava um filme tremendamente triste. Deve ser isso que chamam de infinito particular: cinema privativo, com sala VIP, mas sem pipoca ou copo gigante de Coca-Cola.
Quem dera fosse fácil enganar a mim mesma com a destreza com que engano aos demais. Não queria ficar me perguntando repetidas vezes o que fiz de errado agora, ou por quê você me deu a mão em um minuto e no seguinte passou de braço grudado com outra. Não queria sentir os olhos arderem na tentativa de reprimir as lágrimas, nem a dor lancinante no peito por algo que nem mesmo começou. Não permito jamais que vejam minha face humilhada, esbofeteada pela rejeição, mas aqui dentro rastejo pisoteada e em prantos. Não consigo ir embora porque sou a perfeita idiota que não desaprende a sofrer. Uso minha visão como um chicote estalando em minhas costas, assistindo a felicidade alheia que por um curto espaço de tempo poderia ter sido minha. Mas, diabos, é impossível evitar a incompreensão quando no fundo sei que nem tive tempo para cometer algum erro. Quando o jogo começou tiraram o time de campo antes que eu pudesse fazer um gol contra. Então por que sinto como se tivesse perdido de goleada? Como se você tivesse marcado uns oito gols e eu fosse a perna de pau que nem deveria ter sido escalada. Você age como um técnico arrependido de sua decisão. Diz, apontando o indicador, "você, entre jogar", mas muda de ideia quando estou aquecendo, balança a cabeça e cospe "não, não, deixa pra lá, volta pro banco porque não é você que vai jogar". E eu volto, com a cabeça baixa e sem entender como funcionam as regras do jogo ou a falta delas.
Sinto que o juiz apitou o término do primeiro tempo antes da hora. Torço para que dessa vez tenha machucado o suficiente para nunca mais poder entrar em campo, para me aposentar e só assistir às partidas na telinha da TV. Mas, como o joelho de um jogador, meu coração esperneia que ainda não é o momento de desistir. Por que, céus, eu não aprendo de uma vez por todas a não dar bola para quem chega sussurrando que eu sou linda, inteligente e diferente das outras mulheres? Por que não me ouço quando uso com os outros meu discurso de "essas coisas tipo amor não existem" ou "não estou afim de me envolver com ninguém"? Se é tão fácil fazer o mundo crer na minha lábia, por que é tão árduo o trabalho de me convencer? Sou inteligente o bastante para saber que as palavras que digo em voz alta são as únicas que deveria levar em conta ao invés dessa babaquice toda que sinto aqui no peito.
Ontem à noite, no final de uma festa melancólica, um amigo me perguntou se fiquei triste de te ver passando de mãos dadas com outra, sentando ao meu lado com outra, indo embora com outra. Eu ri. Ri, dei um tapinha nos ombros do meu amigo e brandi um sorriso cheio de animação enquanto dizia "você tá brincando, né? Até parece que esse tipo de coisa me abala! Não é como se eu estivesse apaixonada por ele". E ele respondeu "ufa, ainda bem", respirando aliviado por mim enquanto tudo o que eu podia fazer era trancar a respiração para não chorar, para não mostrar a ele que sim, eu estava triste; sim, estava inconsolavelmente abalada e precisava como nunca de um ombro amigo. Quase mandei tudo para o inferno. Pensei seriamente em soltar o soluço atravessado na garganta, sentar no meio-fio e chorar como uma criança que deixou o doce cair na terra. Porque eu deixei meu coração cair na terra e servir de tapete para os outros não sujarem os pés. Queria ser o quintal da casa de alguém, podado e bem cuidado, e tudo que consegui foi ser a rua que passa em frente, servindo de passagem. E numa dessas passagens alguém acabou dançando sapateado no que já eram pedaços do meu coração estraçalhado. Quis olhar para meu amigo e dizer "preciso de ajuda, tá doendo tanto ser rejeitada assim que não sei mais o que fazer", mas ao invés disso mantive o sorriso besta e a pose inabalável. De que adiantaria dizer alguma coisa? Nem mesmo um grande amigo entenderia se eu dissesse que aqueles soluços doloridos eram por você e nosso caso abstrato.
Não vou fazer papel de boba. Por fora mantenho a carcaça alegre que responde às humilhações com uma risada de "tudo bem, não tem problema". Não vou pedir abraços a ninguém. Não vou te olhar com cara de quem queria estar no lugar da outra que está dormindo ao seu lado enquanto passa o filme pirata e com áudio péssimo dos Simpsons. Não vou te deixar ver que, por trás do abraço firme com que seguro uma almofada, está a vontade de mandar essa outra embora porque ela está no lugar que você sugeriu que seria meu. Não vou admitir que não consigo mais sustentar seu olhar porque dói lembrar de você me encarando e segurando disfarçadamente minha mão, fazendo meu braço inteiro formigar e meu coração bater tão forte no peito que tive medo de que você pudesse ouvi-lo. Não vou te deixar saber que desde o primeiro segundo em que chegou perto de mim eu me importei como se soubesse que tinha nas mãos um cara de ouro. E que, por medo de mil coisas, resolvi deixar para a próxima vez, achando que haveria uma. E houve. Tive mais medo ainda porque cada palavra sua começou a ter um efeito maldito em mim e eu me deixei levar por seus dedos entrelaçados aos meus dentro do bolso da minha saia. E na vez seguinte reprimi um sorriso quando reconheci sua mão macia inesperadamente segurando a minha com o toque suave mais uma vez. Eu estava flutuando alto e talvez esse tenha sido meu erro porque a queda foi dura demais quando, ainda sentindo minha mão esquerda e a sua direita juntas, vi a sua esquerda com a direita de outra pessoa. Mas você não vai saber disso. Não vai saber que eu ainda estaria aqui te esperando se você quisesse me abraçar mais uma vez, me cumprimentar com um quase beijo novamente, me levar para casa depois de uma festa, sentar ao meu lado e rir de mim como se ainda estivéssemos criando algo bonito. Vou suprimir minhas expectativas e esperanças como se elas nunca tivessem existido. Vou negar se alguém perguntar se está doendo e vou sorrir se você me olhar com esses olhos tão carinhosos e tão bonitos em conjunto com a barba por fazer. Vou abrir um grande sorriso ensolarado, ainda que aqui dentro tudo não passe de uma tempestade monstruosa. Eu achei que você valia ouro e vou sorrir porque agora tenho certeza de que apesar de tudo estava certa, mesmo que eu não tenha cacife para bancar os seus quilates. Deve ser por isso que eu sempre acabo com as pratarias falsificadas, os tais folheados a ouro que descascam e ficam pretos, deixando uma marca escura de ácido úrico na pele. Talvez você tenha percebido, enfim, que eu não tenho porte nem conta bancária para merecer o pingente de ouro verdadeiro que é você. No meio das minhas besteiras e desastres, da minha súplica silenciosa por um pouco de carinho, do meu olhar perdido e solitário, você deve ter enxergado a bagunça inútil que eu sou, a caixinha de camelô com espuma pobre que não serve para guardar uma joia.
Vou mesmo mentir que nada disso me machuca, que a barreira que tanto digo ter construído contra essas coisas realmente existe. Só não enganarei a mim mesma, mas quem sabe o tempo possa apagar tudo o que poderia ter sido e todas as imagens que passam incessantemente em minha cabeça, mesmo quando estou dormindo. Você mexeu comigo, me girou 360 graus. Mas tudo bem, sério.Você é de ouro legítimo e eu fico feliz por ter vivido um quase alguma coisa com alguém como você, quando tudo que tive até hoje foi o nada com as bijuterias auto-descartáveis. Você está certo em mudar de planos, em abraçar outras pessoas - talvez algum verdadeiro porta-joias -, em enxergar meu lado tão podre, porque nem eu desejaria a você um destino tão sem graça quanto eu. Só não pergunte nunca se estou bem ou como vai minha vida porque talvez eu não consiga mais te enganar. Não me abrace apertado, não me ofereça os morangos do seu bolo e muito menos sua companhia. E, por favor, peço de joelhos que não me estenda mais sua mão, que não segure a minha como se quisesse guardá-la entre as suas. Eu entendi tudo, mas estou no limiar da dor. Não faça isso comigo, pois já não uso mais pulseiras, nem brincos e colares, nem nada, apenas esperando por alguém de verdade como você. E, quando se espera em vão, qualquer faísca brilhante funciona como um raio que atinge seu destino com precisão. Você tem faíscas brilhantes demais e eu não consigo mais ser o local do trovão depois que o raio já caiu em outro lugar.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Amiga...
Fico tão abismado com o teu jeito de escrever que sempre que te leio fico pensando em perguntar quem afinal é você... Mas desta vez a coisa chegou num ponto em que já cogito querer saber "o quê" afinal vc é... Como pode fazer o que faz com as palavras? E eu, que me achava um escritor... Ah, quem me dera saber destilar sentimentos assim... E, tirando que vc tem muito mais esse dom, como somos parecidos em essência...! Digo-o porque, se eu tivesse como, certamente teria escrito esse exato mesmo texto, já que sinto, te juro, amiúde, todas essas mesmas coisas de que vc fala... E lamento, é claro, por essa tua tristeza, mas, por outro lado, se quer saber, é tão lindo o que vc sabe tirar dela, que não dá para negar o quanto ela torna-se bem-vinda para quem tem a sorte de viajar nas tuas linhas...
Vc conhece uma música do Barão Vermelho chamada "Down em Mim"? Em caso negativo, procure! Tem o clima perfeito para esse teu texto! Eu o reli a ouvindo! Sim, casam-se com perfeição! Dá só uma olhada nesse verso...
"Da privada eu vou dar com a minha cara de babaca pintada no espelho
E me lembrar sorrindo que o banheiro é a igreja de todos os bêbados"
Beijos, Josiana!
Vc é uma poetisa em prosa!
GK

 
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