domingo, 1 de agosto de 2010

Prato do dia.

Cheio do mesmo charme de sempre, ele me convidou para jantar. Foi, na verdade, uma intimação, e não um convite, visto que ele sabia que a resposta seria sim. Entre dois seres orgulhosos, eu sempre acabo perdendo.
Tomei um banho, dois, três. Não para ficar cheirosa, mas para me acalmar. Não funcionou. Revirei o guarda-roupa em busca de algo que me deixasse à altura dele. Besteira. Não há estilista no mundo capaz de criar uma vestimenta suficiente para tanto. Ainda que eu me sentisse bem, ele me diminuiria gradualmente até que eu estivesse do tamanho de um ratinho de laboratório perto de um elefante africano. Mas elefantes têm medo de ratos e ele não tem medo de mim. Nem medo, nem nada. Só poder. Escolhi um pretinho básico, justo demais para o tamanho que eu enxergava no espelho. Um dia atrás eu poderia ter gostado da imagem, mas esse é o caos que ele causa em mim; distorce meu reflexo, contorce meu rosto em dor dissimulada, afana minha autoestima.
Uma base aqui para esconder as marcas do sofrimento. Um blush para sanar a palidez que surgira em meu rosto desde o telefonema. Por que ele tinha que telefonar quando uma mensagem ou telegrama ou qualquer coisa que me privasse de sua voz seria mais generosa? Os calafrios que vinham feito ondas sobre mim tinham tudo a ver com seu "alô". Sombra carregada nos olhos e rímel para levantar a expressão. Um batom leve e, pronto, já estava mascarada. Não perdia meu tempo me produzindo para impressioná-lo, mas sim para dizer a mim mesma que ele não enxergava tudo, que a verdadeira mulher em mim ficava dormindo enquanto ele conversava com uma máscara fria e sorridente. Ainda com a paleta de maquiagem nas mãos, dei uma gargalhada alta. A quem eu estava enganando? Poderia passar massa corrida na cara e ele ainda saberia me manipular. Calcei os sapatos altíssimos - para crescer fisicamente enquanto meu espírito se encolhia cada vez mais - e parti.
Toquei sua campainha com dedos trêmulos e dificuldade para respirar. Cada inspiração me tomava porções de energia que eu sabia que precisaria mais tarde, quando fosse mandada embora. Ele abriu a porta, vestindo seu melhor sorriso e uma roupa qualquer. Quase me fez acreditar que estava realmente feliz por me ver. Que eu não era só mais uma. Quase.
Um aroma estranho tomou conta do ar. Levemente adocicado, enjoativo. Enquanto me concentrava em manter a respiração regular, ele beijou minha face e voltou para a cozinha, deixando-me só na imensidão da sala de jantar. Retornou trazendo a forma responsável pelo cheiro, agora tão intenso que me senti nauseada. Ou talvez tenha sido ele, me olhando interrogativamente, que tenha me deixado com ânsia de vômito. De um jeito ou de outro, aquele cheiro trazia consigo algo malévolo, algo que me impelia a tirar os sapatos e correr para longe dali. No entanto, sentei-me obedientemente na cadeira que ele segurava afastada para mim. Um perfeito cavalheiro, não fosse pela alma imunda.
Quando provei a torta com tenros pedaços de carne, um misto de agonia e profunda tristeza se espalhou por cada milímetro do meu corpo. Era um sabor diferente. Passava por doce, amargo, azedo, salgado e um gosto metálico que lembrava sangue. Mas o mais hipnotizante era a quantidade de sensações que aquela torta causava. Quase esqueci que ele estava ali em algum lugar, até que olhei em seus olhos. O castanho vivo e brincalhão que tanto amei estava fixo em mim, mas parecia não me ver. Acompanhavam os lábios sorridentes, cheios de uma vil satisfação. O que poderia ser tão engraçado?
"Você não percebe, não é?", ele perguntou. Não, eu não percebia. A confusão começou a me alarmar. Inquieta, não tive coragem de abrir a boca, mas senti algo escorrendo por meu queixo. Não era molho; era sangue. A piada fora longe demais desta vez. Pronta para ir embora, levantei-me e caí vertiginosamente de encontro ao chão. Antes que eu pudesse perguntar se fora envenenada, ele me olhou com ar divertido e disse: "Não, meu bem, não coloquei veneno em nossa comida. Aliás, nem sequer cozinhei. Só precisei picar a carne macia em pequenos pedaços; ela já chegou até mim temperada. Tem um sabor adocicado vindo da timidez e do jeito de menina. É bastante amarga, graças às decepções, mas ainda não se torna intragável. Um azedinho de ironia e cinismo que a vida ensinou. Por fim, tudo banhado no salgado das lágrimas e polvilhado com queijo prato. Delicioso, não?".
E, então, com desespero, entendi. Minhas mãos ensanguentadas tocaram meu peito, mas não havia nada ali além de um buraco escuro por onde vazava o gosto metalizado de sangue que eu sentira antes. Percebi que lentamente parava de respirar, a visão ficava embaçada e os músculos muito pesados. Encostei a cabeça na parede e olhei para ele, a última imagem que eu levaria comigo. Agora eu sabia porquê sentira, desde o convite, que esta seria uma noite pior do que as outras. Agora entendia porquê tivera vontade de fugir a cada instante em que aqueles olhos apaixonantes pousavam em mim. Agora eu via...
Não havia quadro negro anunciando em giz, nem placa, nem menu, mas o prato do dia era meu coração, picado em pedacinhos minúsculos. Sabe-se lá há quanto tempo ele vinha cortando lascas e voltando a afiar sua faca para então, numa grande noite, servir tudo com um vinho tinto seco e rir, rir descaradamente por ter saído vencedor, por ter arrancado cada centímetro de meu coração e tudo que ele carregou por tanto tempo. Agora eu compreendia porque aquele amor nunca parara de doer, o motivo de aquelas pontadas serem incessantes. E, em um último ato de glória, ele me fez experimentar meu próprio sofrimento para que eu soubesse que, quando nada restasse, ele ainda teria uma torta inteira de mim para devorar.

2 comentários:

Michelle disse...

Olá Josiana!
Só passei pra dizer que gostei muitos dos seus textos! Vocês escreve muito bem! Já estou seguindo! Posso linkar no meu blog?
Beijos!

Gugu Keller disse...

Olha, minha amiga...
Juro que não é para te bajular que o repito, mas é de fato espantoso o quanto escreves bem para alguém da tua idade... Quanto ao conteúdo, "Prato do Dia" é simplesmente um poema disfarçado em prosa, sutil, provocante, simbólico, enigmático, e, quanto à forma, sobretudo no que tange à perfeição da tua pontuação, quesito em que tantos o tempo todo se perdem por aí, dás através dele uma verdadeira aula! Quisera eu saber bater palmas por escrito...!
GK

 
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