domingo, 8 de agosto de 2010

Vida plastificada tem final feliz.

Revirando as páginas do meu passado, me peguei pensando nos tempos em que brincava de Barbie. Já naquela época eu gostava de ser sozinha, de sentar em frente à casa de madeira tamanho família e imaginar histórias comoventes. Fugia das conversinhas fúteis que outras meninas inventavam, colocando suas bonecas para tomar chá o dia inteiro e discorrer sobre filhinhas e roupas novas. Isso torrava a pouca paciência que eu tinha. Eu queria mesmo era brincar sozinha para poder criar dramalhões mexicanos e ensinar àquelas mulheres em miniatura que a vida não é tão fácil como o mundo pintava para elas e que nascer com a cabeleira magnífica não as impediria de sofrer posteriormente. Eu, uma criança, ensinando como mulheres de plástico - que hoje passam dos quarenta anos - deveriam sobreviver às tempestades da vida. Não havia Maria nem Joana. Se eu queria vidas plastificadas intensas, deveria começar pelos nomes. Dorothy, Catarina, Julieta, Tristessa, Audrey, Ofélia e Pandora. Kenn também não era Kenn; era Romeu, Tristão, Hamlet e Heathcliff, ainda que eu não pronunciasse tudo como deveria.
Me arrependo hoje de ter causado tanto sofrimento às bonecas. Elas sempre foram impecáveis, nunca ficaram carecas nem foram riscadas. Mas, em sua maioria, tinham os corações partidos. Não que tudo fosse ruim, mas todos os momentos bons que viviam só serviam para que sofressem terríveis decepções mais tarde e passassem dias chorando em seus pequenos quartos cor-de-rosa. Se as lágrimas pudessem rolar de verdade, acredito que todas teriam morrido desidratadas.
Ainda assim, minha alma infantil acreditava em finais felizes. Então, como nos filmes românticos, todo o pesar era recompensado em seu devido tempo, quando as coisas se acertavam e tudo terminava em um grandioso casamento, com decoração de flores verdadeiras. Ah, a ingenuidade. Hoje sinto vontade de desencaixotar minhas companheiras de infância, segurá-las no colo e dizer que sinto muito pelas mentiras que contei sem saber, que fui uma péssima mentora, que mostrei a elas um mundo de contos de fadas e que, não, finais felizes não existem. Por mais que eu detonasse alguns de seus dias, sempre havia uma luz no fim no túnel e todas eram capazes de correr até essa luz. Sinto-me uma grande farsa e me pergunto se tudo que tanto me atormenta hoje é consequência e castigo por todo o sofrimento que infligi. Tenho vontade de gritar para que elas e os seres humanos reais me escutem, para corrigir e dizer que não há droga de luz em lugar algum, a vida é mesmo esse breu sem fim. "Acordem, abram os olhos para o fato de que nada vai ficar bem, ao contrário do que dizem os otimistas". É o que quero berrar. Ao invés de abrir a boca, no entanto, calo-me. Calo-me porque, talvez, encaixotadas há tantos anos, Dorothy, Catarina, Julieta, Tristessa, Audrey, Ofélia e Pandora estejam bem, vivendo suas vidinhas exatamente como as deixei pela última vez. É possível que no dia em que resolvi deixar essa fase para trás tenha congelado a existência das bonecas e suas esperanças.
Pego as caixas no colo e sorrio. Melhor assim. Não quero ser eu a causa de descrença, tristeza e desconfiança. Não quero que elas se tornem iguais a mim; nem elas nem ninguém. Continuem todas em seus caminhos belos e felizes, pois não serei eu a dar uns tapas em suas bochechas e dizer "oi, isso tudo é fantasia, esqueçam". E então, com um pincel atômico, escrevo "THE END" em todas as caixas que restam, com letras garrafais. Como na última página dos livros mais felizes. Ou mais tristes. Quem há de saber?

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Por estranho que soe, querida amiga, e digo-te que reflita a respeito, não, fases não ficam para trás. São, ao contrário, todas e cada uma delas, assimiladas e incorporadas de um modo que para sempre sigam conosco, o que afinal é amadurecer. E quanto a Dorothy, Catarina, Julieta, Tristessa, Audrey, Ofélia e Pandora, digo-te ainda, jamais nenhuma foi encaixotada. Estão todas, isso sim, garanto, bem diante dos teus olhos sempre que tu olhas no espelho, ou, talvez até mais claramente, quando os mantens abertos no escuro.
GK

Jose Antonio disse...

Jo, transformar o sofrimento, a dor no peito, em literatura é para poucos e você tem esse dom. Como é bom ler o que você escreve! Provoca a reflexão sobre a percepção da vida. A propósito de transformar a dor e a tristeza em literatura, neste momento, lembro de dois grandes autores: Cristovão Tezza com "O Filho Eterno" e Isabel Allende com "Paula". Ambos escrevem sobre os próprios filhos e... emocionam! Um abraço do seu fã e leitor que está se despedindo de Manaus. Parabéns, obrigado e até...
J.A.R.

 
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