quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Se você estivesse aqui, importaria.

Primeira tequila. Não foi para essa mixaria que saí de casa hoje. Viro o copo pensando em você e em tudo o que não tive oportunidade nem coragem para dizer, tudo o que não pude esclarecer depois que te falaram asneiras infundadas sobre mim. Nós poderíamos ter sentado lado a lado e conversado sobre o que você quisesse; futebol, cinema ou até meter a boca no absurdo que o mundo virou. Poderíamos discutir sobre nossas crenças ou, no meu caso, a falta delas. Você poderia fazer aquela cara de preocupação, franzindo um pouco a testa e me deixando apaixonada, e eu poderia te fazer rir dizendo que tudo daria certo no fim. Nem me importaria por não acreditar nisso, desde que você acreditasse.
Segunda tequila. Você poderia repetir que não pretende se casar, porque casar para viver brigando não faz sentido. Eu concordaria sem pestanejar, já que nunca consegui olhar no espelho e me imaginar dentro de um vestido branco, com véu e grinalda, muito menos botar uma aliança dourada no dedo anular. Nossa amiga nos acusaria de estarmos falando besteiras e diria que no fim das contas teríamos uma penca de filhos cada um. Credo. Você poderia dizer que não quer namorar e eu ficaria quieta para não admitir que cheguei a pintar esse quadro duas, três ou vinte vezes em minha cabeça. Apenas esboçaria um sorriso porque qualquer parcela de você já basta. Você brincaria que seria melhor virar assexuado e eu me obrigaria a rir imaginando o desperdício que seria você ficar sozinho e me deixar sozinha, louquinha por você.
Terceira tequila. Nessa hora eu me pegaria pensando em como você é lindo e perceberia, corando as maçãs do rosto, que meus olhos estavam vidrados e uma baba imaginária quase escorria pelo canto da minha boca. Observaria com cautela você olhando ao redor, analisando as mulheres do bistrô. Mas eu poderia engolir o mal-estar que isso me causa e ignorar o estômago que embrulha de medo de que você encontre alguém muito mais interessante que eu.
Quarta tequila. Aprumo-me na cadeira querendo melhorar a postura e tentando imaginar qual o aspecto do meu rosto. O garçom certamente reparou que não sou a mulher mais feliz do bar, nem a segunda mais feliz, nem a décima terceira, caso haja treze mulheres aqui. Sorrio para ele, numa tentativa de disfarce que obviamente não funciona. Nesse momento você diria que certos empecilhos em relação a mim poderiam te levar ao inferno, e eu responderia que céu e inferno não existem. Sou descrente convicta de tudo o que não é palpável, talvez porque a vida tenha me ensinado a ser assim. Lembro-me que, quando criança, acreditava piamente em tudo que me diziam. Agora não mais.
Quinta tequila. Estou querendo um abraço apertado e se você estivesse aqui poderia me envolver em seus braços firmes de pele macia. Eu enterraria a cabeça no seu ombro e tentaria sentir seu cheiro só para me lembrar que nasci sem nervo olfatório. Um alívio, uma coisa a menos para amar em você. Gostaria de tocar seus dedos frios, muito mais suaves do que os meus desajeitados, mas não me atreveria; manteria as mãos seguras e quietas, uma servindo de apoio à cabeça - que começa a pesar - e outra pousada desajeitadamente no colo. Sinto meu olhar se perdendo enquanto vislumbro o banco vazio onde você deveria estar. Alguém passou por aqui algumas horas atrás e perguntou se poderia me fazer companhia, mas nem me dei ao trabalho de responder. Se você estivesse aqui, poderia me perguntar se sou mesmo tão fanática pelo Corinthians e eu diria que sim, que tenho bandeira, chinelo, camiseta e papel de parede no notebook. Você pareceria incrédulo e eu tentaria decifrar se isso é bom ou ruim porque talvez você ache que eu deveria ser mais feminina. E me assalta o pensamento de que você pode não estar aqui porque não sou magra o suficiente e você não se sentiria à vontade ao lado de uma porca gorda. Ou talvez seja culpa dessa minha mania de falar asneiras, de mexer no cabelo quando estou inquieta, de ficar nervosa como uma adolescente que encontra seu ídolo ou desse dom de estragar os momentos bonitos com um comentário desnecessário, provavelmente dito em uma voz que soa aguda demais.
Sexta tequila. Fecho os olhos por um instante e sua imagem aparece como uma fotografia muito nítida. Olho em volta, mas só enxergo gente desinteressante. Como diria Leoni, "depois de você os outros são os outros e só". Ninguém aqui para falar sobre como avicultura é um saco ou sobre como se aprende, com o tempo, a disfarçar uma bebedeira. Se estivesse aqui, você poderia implicar com meu jeito espontâneo de falar que me rende horas pensando coisas do tipo "por que eu disse aquilo?". Ao fechar os olhos quase senti sua presença e sua voz grave me dizendo que está com sono e que tudo que queria era tirar a camisa e dormir. Mas não passa de recordação do que já aconteceu. Você não está aqui agora. Estou sozinha, mergulhando em pensamentos e em doses de José Cuervo com punhados de sal e limão.
Sétima tequila. Abaixo a cabeça e prendo-a entre as mãos porque tenho a sensação de que ela vai sair andando por aí. Quando volto a erguê-la o garçom está me observando preocupado, indeciso entre servir a próxima dose ou chamar o gerente do bistrô. Esqueço-me dele. Cadê você para me abraçar e estralar minhas costas, depois rir porque sou descoordenada e não consigo fazer o mesmo com as suas?
Oitava tequila. Já não quero mais sal e limão. Gostaria de estar em casa porque agora as coisas começam a ficar um pouco turvas. Se você estivesse aqui chamaria meu nome, me daria carona e nem ficaria bravo caso eu esquecesse de agradecer. Mas estou só e não sei como vou embora, muito menos como abrirei o cadeado sem você para ficar me vigiando. O curioso é que, exceto a leve zonzeira, não sinto mais nada. Nem a maldita esperança foi embora. Ah, como eu queria que ao menos ela tivesse pago a conta e se mandado.
Nona tequila. Quantas vezes olhei para a porta do bistrô? Dez? Quinze? Trinta? Cada vulto lá fora poderia ser o seu e tenho impressão de que não perdi nenhum deles. Rio sozinha, pensando que essa é uma maneira diferente de passar as noites. Digo, quantas pessoas perdem cerca de quatro horas esticando um minúsculo copo de dose em direção ao garçom e observando sombras passeando na rua, atrás do vidro embaçado de uma porta? É como uma televisão em tamanho real, onde tudo é preto e branco e a imagem é sempre a mesma. Minha televisão particular. Em preto e branco, exatamente como eu, a Srta. Desprovida de Cores.
Décima tequila. Foram mesmo só dez? Posso ter me confundido no meio do caminho e esquecido de contar uma ou duas. Não importa, nada importa. Caiu em mim agora - como um bloco de toneladas de cimento me esmagando - a verdade cruel que esteve ao meu lado desde que sentei nesse banquinho estofado: você não virá. Não sabe onde eu estou e, mesmo que soubesse, ainda assim não viria. Vesti a saia brilhante e o salto alto que você costumava adorar, mas dessa vez só quem viu o modelito foi o pobre garçom desnorteado que já não sabe mais o que fazer com a doida que apareceu do nada e não vai embora nunca. Não posso ir, sinto muito garçom. Não quero. A escuridão e o silêncio de casa me apertam como se as paredes se movessem uma de encontro à outra, marchando para uma colisão inevitável da qual não consigo fugir. Preciso sair desse lugar, já basta meu coração comprimido pela dor do banco vazio. Não, o banco não está vazio; ainda há a tal da verdade cruel, além de um tantinho de saudade que mais parece uma bola de neve aumentando em sua queda sem fim.
Mato a décima primeira tequila, pago a conta e agradeço ao garçom pela paciência. Se estivesse aqui agora, você poderia me oferecer seu braço para que eu tivesse onde me ancorar, ou me puxar pela mão como naquele dia em que você me conquistou. Mas você não está aqui, lembro-me sacudindo a cabeça com violência. O vento gelado da rua esbofeteia meu rosto, secando as lágrimas que escorrem cheias de vontade própria, deixando rastros de pele meio ressecada nas bochechas. Vou caminhando para casa, os saltos fazendo "toc toc" pelo caminho silencioso, retumbando em meus ouvidos como duas pistolas no momento do tiro. Não consigo parar de chorar e isso me faz rir incessantemente. Imagino quão louca devo parecer, rindo e chorando sozinha como uma condenada que acabou de achar uma fuga do manicômio onde estava internada, exceto pelo fato de que nesses lugares eles não te darão, jamais, sapatos de salto agulha para calçar porque alguém pode acordar com o pescoço aberto e a jugular cortada pela metade. Ainda assim, estou certa de que à minha imagem só falta a camisa de força para ser convincente.
Chego em casa com pedaços microscópicos de gelo no cabelo, olhos inchados e vermelhos como duas bolas de tênis e faces mais vermelhas do que um copo de Bloody Mary. Será que o gosto salgado das lágrimas me deixou com um sabor tão ruim quanto o do drink? Mais uma vez: não importa. Só quem vai sentir se eu estiver com sabor desgostoso de Bloody Mary é o travesseiro, o infeliz que sempre acorda com manchas de maquiagem depois de noites como essas. O sono bateu, trazendo consigo um sopro de alívio; pior seria deitar, manter os olhos abertos e ficar pensando mais trezentas coisas sobre você e tudo que poderia ter sido diferente.
Agora, já no conforto do pijama e embolada no edredom, estou oficialmente encerrando a noite. Posso continuar me martirizando amanhã, mas por hora estou farta e com os olhos quase tão pesados quanto o coração. O último pensamento que me ocorre é que, se estivesse aqui, você poderia me puxar para perto, abraçar-me e dormir no lugar vazio ao meu lado. Neste momento, no entanto, a mesma verdade cruel que me fez companhia no bistrô já tomou este espaço que poderia ser seu. Se estivesse aqui você poderia me fazer adormecer com um tênue sorriso nos lábios ao invés destas lágrimas que ardem, incham e contorcem. Mas a verdade crua e impiedosa é que... Não importa.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fast-food lifestyle.

O estilo fast-food dominou as ruas das cidades. É comida recheada de gordura trans, prontinha para entupir nossas artérias; é academia portátil, que jura dar choquinhos onde quer que a gente vá, mas não queima nada do que aquele hambúrguer duplo cheio de maionese depositou na minha bunda. Picles, pão, molho de mostarda. Tudo fabricado e embalado como comida de plástico, dessas que a gente dá para as bonecas quando é criança. Você paga e recebe uma caixinha minúscula como se fosse um grande prêmio. E as fritas vêm de brinde, junto com um copo gigante de refrigerante aguado. Segundo um professor da faculdade, o ensino agora também é fast-food - livros com receitas prontas para os universitários estudarem somente nas vésperas das provas -, mas só quem ainda prefere as refeições completas vai ser um profissional de sucesso no futuro.
O meu amor, para não ser passado para trás, saiu correndo como uma maria-vai-com-as-outras, mesquinha e abobada, e resolveu virar fast-food também. Tinha todo aquele glamour de cozinha francesa, mas preferiu cair na mesmice do pão com salada sem nutrientes e carne de proveniência duvidosa. Você, meu amor, poderia ser o que bem entendesse ao meu paladar. Com esse jeito todo de mignon ao molho madeira ou quiche de alho-poró, conquistou cada vontade minha, cada pedacinho de fome que ronca em meu estômago durante o dia. Eu gosto mesmo é de uma salada bem temperadinha, com pedaços de frango grelhado e tomatinho cereja, regada à azeite de oliva, dessas que vêm em cumbuquinhas brancas. "Eu tenho isso no menu", disse você, com um sorriso de abrir o apetite. Eu amei o seu cardápio e tudo em você desde o início. Cheguei mesmo a ultrapassar o limite do cartão de crédito só para poder bancar seus pratos dispendiosos. E, de repente, você modificou todo o estabelecimento que eu pensava conhecer e tornou-se um fast-food de primeira, angariando dezenas de novas consumidoras. Ou talvez eu tenha pago por fatias de picanha, carinho e sinceridade, e tenha sido enganada com pedaços grotescos de músculo, desprezo e indiferença. Talvez o brilho das suas letras coloridas no cartaz tenha me impedido de ver o tipo de restaurante que você realmente é.
Você também me tornou uma rede de fast-food, junto com os outros caras que passaram por mim em tardes no shopping e pararam para comprar alguma coisa, um milk-shake de baunilha com flocos crocantes de Ovomaltine, talvez. Soa apetitoso, mas no fim você descobre que não mata a fome nem supre as necessidades do seu organismo. Você tentou o milk-shake e um tal de hambúrguer com um queijo diferente, dizendo que eu não sou do tipo mussarela comum que se encontra em qualquer mercado. Eu me encantei e mandei logo meu coração de brinde no lugar das fritas. Prato cheio, bandeja repleta de caixinhas e com um copão enorme com aqueles canudos dobráveis bonitinhos que fazem sucesso no verão. Você encheu a pança, só para depois decidir que eu não caio muito bem no seu estômago. Não, o fast-food não te fez bem; saciou por algumas horas, chegando até a estufar a barriga, mas à noite a fome bateu de novo e você não tinha mais vontade de pão com alguma coisa. Foi procurar outro ambiente, alguma coisa mais saudável, mais original e de digestão mais fácil, porque eu ainda estava meio empacada no seu trato digestório. No fim você descobriu que aquela foto do queijo parmesão cremoso decorando o hambúrguer era uma jogada de marketing e que eu sou mesmo uma mussarela de mercado, sem graça nenhuma e nem mesmo pitadinhas de sal.
Chega de tentar ser restaurante fino, com bifê de massas, saladas e carne grelhada. Desde quando abandonei as papinhas de neném tenho tentado crescer como um lugar excepcional e único, e tudo que alcancei foi uma franquia barata que não tem sequer aquelas tortinhas de sobremesa. Cansei de escrever as opções do dia abaixo da minha fachada de restaurante saudável só para ouvir todo mundo perguntar se não tem um combo de hambúrguer, fritas e refri que possa ser empacotado para viagem. Com resignação eu engulo o "NÃO, não tem, eu sou um restaurante requintado, não tá vendo não?" e sirvo o que o cliente quer. Estou farta de passar horas na cozinha, me esmerando em seus pratos prediletos, para mais tarde jogar tudo no lixo porque você preferiu jantar um omelete no boteco da esquina. Depois de tanto tempo tentando maquiar minha estrutura, estou abandonando a estrada. Por mais que eu tente e queira, com todas as forças que me restam, ser mais do que um MacDonald's de fim de semana em sua vida, é assim que você me vê. Incessantemente procurei aprender com grandes chefes de cozinha os segredos da boa culinária, só tentando mascarar o que só eu não conseguia enxergar: independente de qual prato eu prepare e de quanto carinho adicione no tempero, no fundo sou um fast-food que serve alimentos que exigirão um grande gole de sal de frutas depois para ajudar a aliviar a má digestão. E ninguém aguenta esse tipo de refeição por muito tempo. Enjoa. Estraga seu organismo. Apodrece.
Você tem razão, amor, em guardar seu dinheiro para algo melhor. A dor de ser rechaçada é absurdamente cortante; espreme e dilata, só para depois espremer de novo. Mas eu entendo. Essa confusão de caixinha de hambúrguer, número um aqui, número dois completo lá, número três sem refrigerante, isso tudo não é para você, nem para ninguém que eu amo. Eu quero você bem e minha tabela de nutrientes não é porcaria nenhuma, não vai te sustentar por mais que duas semanas. Você sabia disso quando sumiu, mas eu não quis ver o óbvio. Quis continuar acreditando que dessa vez eu poderia ser um pequeno restaurante italiano com vasinho de flor no centro das mesas, toalhas vermelhas e verdes e menu especial. Quis tanto ouvir você pedir o prato cheio de amor que tenho preparado dia após dia, mas tudo que escutei foi "um milk-shake de 500ml pra mim, moça", aos berros. Agora eu entendi. Não adianta tentar adaptar, tentar fazer umas reformas aqui e acolá. Quem nasceu fast-food não vira outro tipo de restaurante com o passar do tempo. A tristeza de querer ser saudável, com croutons e queijo branco, e não passar de um punhado de colesterol em forma de sanduíche - do qual você só vai lembrar caso sua bile resolva voltar cheia de raiva -, essa tristeza é excruciante. Depois de tantos anos tentando ser algo melhor, você me deu esperanças para tentar uma última vez. Mas a reforma é trabalhosa demais, cara demais, demorada demais. No fim das contas, você pediu um hambúrguer mesmo, virou as costas e foi embora procurar um lugar onde pudesse sentar e receber tudo na mesa, com guardanapo de colo e prataria chique.
De todo mundo que vi indo embora, você foi quem mais estraçalhou meu coração. Eu achei que você, tão diferente de tantos caras que andam por aí, poderia enxergar minha alma de restaurante aconchegante, onde o chefe de cozinha senta desolado esperando a hora em que alguém vá pedir um de seus pratos elaborados. Pensei que você não seria mais um a escolher fazer seu pedido no drive-thru e ir embora à toda velocidade. Esse golpe me levou à falência e, a partir de agora, não tem mais salada, nem macarrão, nem hambúrguer, nem nada. Estou trancando as portas e quando você passar por aqui vai encontrar uma placa dizendo "fechado por tempo indeterminado" em letras garrafais. Talvez eu coloque, ao lado, uma foto sua indo embora, só para que você saiba que poderia mudar tudo isso com uma palavra, com uma escolha de cardápio diferente. Para que você saiba que eu acreditava que poderia ser outro tipo de restaurante em sua vida, se você permitisse. E que estou fechando, mas sempre haverá uma janela acidentalmente aberta para você, caso mude de ideia. Só peço que não volte a estacionar aqui se for para correr apressado, balançando uma nota de vinte reais e pedindo pelo número cinco completo porque não tenho mais suporte para isso. Não me obrigue a decorar o desenho das suas costas me abandonando mais uma vez. Se assim for, deixe-me de portas trancadas, ainda que a saudade mate parte de mim e a decepção mate a outra metade restante.
Você me enxergou como uma rede de fast-food, e escolheu ser fast-food para todas as outras quando eu te queria como o mais fascinante dos restaurantes. Escolheu receber quinze reais por seus pratos sem valor, quando eu pagaria o que fosse necessário para provar uma entrada de torradinhas com patê que fosse. Escolheu se render a esse tipo de vida que domina as massas populacionais, escolheu me renegar e rir da minha incapacidade de ser algo melhor. Mas eu ainda vejo em você todo o lado maravilhoso e o quanto eu poderia me esforçar para estar à sua altura, ainda que você seja um renomado bistrô francês e eu apenas o tal restaurante italiano rústico. Mas eu sei que, embora hoje esteja fritando hambúrgueres para qualquer pessoa, em algum lugar da sua cozinha você faz uma salada magnífica, cujo gosto insiste em não me deixar em paz. E parte de mim acredita que a sobremesa que você prometeu um dia, dessas que vêm em pratos de porcelana, é digna de toda a espera que me fez fechar as portas até você voltar.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Solidão de sábado à noite.


Solidão de sábado à noite dói mais que solidão de segunda, quinta ou qualquer outro dia da semana. Domingos podem ser deprimentes, mas solidão de sábado à noite? Essa é corrosiva. Vai rasgando a alma em pedaços como ácido e deixando em frangalhos os sentimentos. É cruel e impiedosa; chega com tudo e não vai embora por nada. Dizem que todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Mas quando as horas no relógio passam tiquetaqueando em completa ausência e saudade, quando tudo que se espera de um sábado à noite é solidão, aí então você descobre o verdadeiro significado da palavra dor.
A solidão de sábado à noite é igualzinha a você. Vai chegando de mansinho, conquistando cada pedacinho do território do meu coração e me deixando meio boba só de pensar em nós. Arranca os matinhos do chão, limpa o terreno, faz o sol brilhar alto e monta acampamento para se instalar. Deixa tudo bonitinho, só para depois fincar uma bandeira e dizer que conseguiu. “Essa área agora é minha, sou o dono da terra”, diz você. Ou não diz, mas que pensa, ah, isso pensa. E eu sabia o tempo todo que você ia desbravar meu coração só para depois colocá-lo em algum canto escuro do seu quarto, pegando poeira e apodrecendo. Eu sabia, e mesmo assim deixei que você ficasse, só para ver as velas do seu barco indo embora depois.
Assim como o pequeno príncipe é dono de um mundinho só dele, você virou dono desse estranho mundinho que é meu coração. E assim como o pequeno príncipe queria conhecer outros lugares, você quer conhecer outros corações. Ou outros beijos, apenas. Outros carinhos e abraços. Outros tantos e incontáveis. E eu fico aqui, sendo só sua, porque você enterrou sua bandeira de posse bem fundo em minha alma. Sou como um país anexo ao reino que você comanda; esquecido, deixado de lado porque o reino todo é muito mais interessante e cheio de súditas sorridentes. Você não precisa de mim, mas fincou sua bandeira mesmo assim e agora quem fica à mercê da solidão de sábado à noite sou eu. Tudo bem se você quer conhecer melhor o seu reino, eu entendo. Não precisa lembrar de mim nem vir cortar o matagal que está crescendo no abandono mas, por favor, venha ao menos tirar a bandeira daqui para que eu deixe de ser só sua, para que eu saiba que o problema não é você querer todo mundo, como minha estúpida esperança crê, mas sim não me querer.
Não precisa vir limpar a bagunça que você deixou e que me fez virar. Não estou pedindo que venha me ajudar a recolher os cacos do meu coração e cole cada pedacinho com super bonder. Talvez eu possa fazer isso sozinha. Ou não, mas posso sobreviver com o coração partido. Só não posso seguir com essa sofreguidão que me abate, congela meu rosto em uma careta de tristeza que não posso disfarçar, me leva para um lado e para o outro sem que eu saiba ao menos aonde estou indo. Não posso mais com essa dor de te buscar em cada esquina, de sair de casa só pra ver se você passa do outro lado da rua, ainda que eu não vá nem mesmo acenar. Não suporto mais ir a festas mesquinhas só esperando te encontrar, olhar para a entrada a cada dois minutos para ver se você está chegando, rir sem achar graça só para o tempo passar, fechar os olhos desejando ver sua imagem ao abri-los. Não quero mais ficar esperando um abraço, um olhar, um olá ou qualquer coisa, por mais ínfima que seja. Essa escassez de gestos seus me deixa febril, ver você passando de costas e fazendo pouco caso da minha existência me adoece de tristeza.
Mas não se preocupe, meu bem, não vou te perturbar. O dicionário diz que a palavra incômodo refere-se a importunar e desgostar, e ainda que há tempos eu baixe a cabeça para não lhe causar aborrecimento ao me ver, sei que na palavra incômodo poderia estar uma foto minha como definição. “Muito prazer, meu nome é Incômodo”, eu me apresentaria. Não preciso falar como uma bobinha nem agir como uma idiota para te importunar, basta minha presença. Sentir seu desconforto ao me ver é o que de mais triste aconteceu em minha vida, mas não vou segurar sua camisa nem dizer “por favor, eu não quero ser seu desgosto”. Não vou dar uns tapas na sua cara pra te fazer acordar, nem gritar no seu ouvido que não foi assim que você disse que seria. Não vou te falar da minha decepção, de como eu achei que você era um cara diferente e do golpe brutal que senti quando descobri que é igual aos outros. Não vou jogar meus destroços em sua porta torcendo para que você os recolha com cuidado mas sabendo que irão parar no lixo em frente à sua casa. Não serei seu incômodo, prometo, ainda que você não consiga me ver de outra maneira.
Hoje, por mais que a saudade me mate, não mata tanto quanto matou no sábado à noite. Quando você enterrou os resquícios de esperança que me restavam na sexta, fadou meu sábado à solidão e à tristeza desenfreada. Não há filme que baste para passar as horas longas demais, nem lenço que permaneça seco, nem pote de doce de leite argentino que amaine a dor. E eu tentei. Tentei mais do que tudo, quis mais do que tudo. Quis estar ao seu lado, quis você ao meu lado. Quis não estar só, nem te deixar só, fosse sábado à noite ou outra noite qualquer. Quis acreditar que você poderia me querer por quatro ou cinco sábados, e não apenas um. Eu quis, tentei e falhei. E hoje dói, intensa e profundamente. Hoje não tem você, tem apenas a solidão; no próximo sábado também. Para sempre solidão. Hoje resta apenas a promessa e a certeza de que essa dor ficará ainda pior no domingo, quando eu podia estar voltando de você com um sorriso no rosto, como há três ou quatro domingos atrás, ao invés de ficar sentada no sofá com o olhar perdido, pensando em onde e com quem você está. Hoje é só o que habita meu peito devastado: a dor e a sua bandeira, flamejando como se o vento acariciasse o tecido. Porque em algum sábado anterior a esse você plantou uma semente diferente em meu peito, uma semente de companhia, conforto e reciprocidade. E eu acreditei que pelo menos o seu sorriso duraria por mais que algumas horas. Em algum momento de um passado não tão distante eu tinha você ao meu lado. E era sábado à noite.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um pouco de mouse no meu coração.

Comprei um mouse em formato de coração, em acrílico vermelho. Ele fica piscando azul, violeta, verde e rosa, no ritmo dos batimentos cardíacos, depois acelera numa taquicardia colorida. O tal mouse foi lançado para o dia dos namorados, então só consigo imaginar que esse bate bate bate rapidinho seja do tipo "te vi, meu amor, e meu coração acelerou". Eu gastei uma graninha sem nem saber dessa tecnologia toda, só por ter achado o modelo bonitinho. Gosto de coisas de coração, talvez para suprir a deficiência do meu.
Agora fico olhando para o mouse piscando sem parar aqui do meu lado, de uma maneira tão sincronizada que é quase hipnotizante. Criei respeito pelo mouse, tão sincero em seus ataques emocionados. Desenvolvi tanta admiração por ele que não consigo usá-lo, apenas o deixo repousando em uma porta USB, enquanto na outra fica meu pequeno mouse monstrengo de sempre. Tenho medo de que aproveitar-me dele para dar uns cliques seja uma afronta à sua honestidade. Tenho receio de que essa carapaça firme de plástico seja só enganação, de que no fundo ele seja um coração fraco e frágil, talvez até cheio de machucados e feridas, que alguém guardou em um mouse e colocou na estante para vender. Se for assim, como posso encostar nele, correndo o risco de vê-lo desmantelar-se com a pressão do meu indicador?
E se, no fim das contas, o mouse de coração for mais coração do que mouse? E se, assim como eu, ele apenas aprendeu a usar algo para se esconder do que lhe fere? Eu uso roupas bacanas e meu sorriso falso, ele veste um pouco de acrílico vermelho e umas luzinhas coloridas. Empatamos. Ei, amigo, pelo jeito você - o mero mouse que mora ao lado do meu notebook - será o primeiro a me entender. Somos iguais, não somos? Quem é feliz de verdade não precisa de tanta cor para ser visto, muito menos andar por aí parecendo um pinheirinho de natal sem estrela. Nós sabemos disso mas, para nossa sorte, a maioria desconhece esse raciocínio. Será que estão vendendo corações por aí, mascarados de mouses, e eu não sabia? Bonitos, novos, resistentes e prontos para transplante.
O mouse finge que não se importa, que não liga para onde está clicando e onde vai acabar chegando, se em um site sobre esportes ou política. O mouse em formato de coração era coração e aprendeu a ser mouse. A vida deve ter ensinado e ele foi esperto como eu não fui. Deve ter pensado: "ser coração dói, eu quero mais é ser mouse mesmo". Quem fez isso? Também prefiro ser um mouse, moço, posso entrar na fila? Porque inteligente mesmo é quem leva a vida no jeito mouse de ser, sem nada para se preocupar a não ser chegar a um endereço eletrônico qualquer. Sem dor, sem decepção, sem nada. Sem vida, mas é o preço a se pagar.
Talvez eu também precise aprender a ser um pouco mouse. Brilhar com um pouco de cor, permitir alguns cliques sem saber em que site vamos parar, ter um cabo USB para descarregar as tristezas e transferir para outro lugar tudo o que me dói e me corrói. Ou talvez eu só precise, assim como o coração em formato de mouse que apareceu na minha vida, fechar o meu próprio em uma cuba de acrílico para que ele fique protegido de pancadas e esquecido com o tempo. Posso até comprar umas luzinhas coloridas para ele não cair na completa escuridão. E o acrílico pode ser vermelho ou transparente e com qualquer formato que seja desde que, assim, meu coração aprenda a ser mais mouse e menos coração.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ei, pluga o amplificador.

Voltando para casa vi um lagarto afugentar um gato no meio do matagal. Ouvi a grama sendo esmagada e o ricochetear dos rabos nas folhas secas. É só mais um dos sons que eu escuto. Ouço tudo, todo dia. Cada sopro de brisa, cada pingo de chuva estourando nos cascalhos, cada grilo e cada formiga. Ouço a sofreguidão do vento que me arrepia, as estrelas caindo, o choro triste da noite. Escuto cada pulsar do meu peito, cada chiado de dor que ele emite em pedidos de socorro. Ouço tudo, exceto o que queria ouvir.
Nas rádios tudo que toca é funk pancadão e aquela tal música que só diz "pan pan americano" o tempo todo. Nos meus fones de ouvido ressoa - em volume prejudicial - a melancolia suave que preenche cada giro do cérebro. Como uma âncora, ouço as frases profundas de Chico Buarque e Seu Jorge, ou mesmo de uma banda de rock, e deixo de tentar ouvir por alguns segundos o seu som que nunca vem. Como uma capa protetora, os pequenos fones me isolam do mundo e da dor que me cerca. Até que algum refrão me atinge em cheio, fazendo brotar lágrimas no olhos. No fundo, no fundo, fico é tentando transpor a música e aguçar a audição pra tentar te ouvir. E tudo isso pra quê? Só pra perceber que, no fim, tudo em você já é silêncio. Pra cair na real de que todos os sons que eu tanto busco, amo e quero, são apenas lembranças do que já ouvi um dia. Pra saber que noite e dia eu procuro por barulhos que não mais ouvirei. Pra ver que agora não tem mais o barulho do seu sorriso quando você chega perto de mim ou roça seu braço no meu. Agora só há o ruído do nada, do "deixa pra lá". Pra tentar e tentar cada vez mais desesperadamente ouvir uma respiração sua, um suspiro sequer, qualquer coisa que eternize pedaços de você em mim.
Eu, que tanto amava ouvir cada barulho seu, agora estou jogada no meio do silêncio vazio. Não, não tem mais barulho de abraço, nem de beijo, nem de mão na mão. Não, acabou o barulho de brincadeira, de conversa inteligente, de gargalhada. Não, não tem mais barulho nenhum pra você. Mais nada. Nem som de coração pulsando quando deita no peito pra dormir, nem resmungos incompreensíveis, nem som de aconchego pra cochilar, nem som de carinho no cabelo. Nada. Tudo agora é silêncio. Eu gostava tanto de ouvir você, de sentir você, de escutar sua voz cheia de sono pela manhã... Eu gostava tanto dos seus barulhos.
Mas com esforço sobrenatural ainda posso te ouvir. Não sua voz, porque agora, quando passa por mim, você me priva de qualquer palavra. Mas, por mais que tente me deixar esquecida no vazio adormecido, eu ainda posso ouvir tudo de você que ficou guardado em mim. Seu piscar de olhos, seus passos uniformes, seu jeito de rir, de beber, de segurar a latinha de cerveja, de olhar para o lado; seu jeito de fazer barulho. Todo o seu charme ao segurar minha mão e me puxar de encontro a você, dizendo que eu sei que você me quer. Eu não sou louca não, meu bem. Apenas aprendi a ouvir e relembrar as únicas coisas que você não poderia impedir nem tirar de mim. Eu te aprendi, e aposto que nunca ninguém vai te aprender assim. Mas você não me aprendeu, e não quer nem tentar. Não adianta nem berrar, eu sei, porque nem assim você vai me ouvir. Eu sei disso e não sou mesmo de berrar. Não quero te assustar, vou ficar quietinha. Nem ai, nem oi, nem por favor, nem fica comigo. Vou ficar quietinha, porque o som da minha voz pode me atrapalhar ao tentar te ouvir. E quem sabe, no meio dessa quietude plena, minha voz esganiçada acabe te fazendo falta, nem que seja um tantinho só. Quem sabe você resolva querer me ouvir ou me aprender como eu te aprendi. E aí então, quem sabe, você me deixe ouvir seu carro chegando, sua batida na porta, seu sorriso e tudo tudo tudo de novo, todos os sons que eu tanto espero dia após dia. Eu estou sempre pronta, usando meus fones de ouvido, mas deixando uma brecha pra conseguir te ouvir.
Tudo bem se isso não acontecer. Tudo bem se eu não ouvir mais nós dois e nossos barulhos. Mas se eu pudesse pedir só uma coisa, uma coisinha de nada, pediria que você colocasse um alto-falante em seu corpo, só pra poder voltar a te ouvir daquele mesmo jeito, ainda que você virasse as costas e fosse embora. Eu poderia gravar os seus sons no meu pen drive, deixar de lado Chico Buarque e Seu Jorge e sair por aí escutando você. Eu estaria sorrindo, chorando, tanto faz. Porque ouvindo você, todo o mundo perde o sentido.
 
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