quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Ei, pluga o amplificador.

Voltando para casa vi um lagarto afugentar um gato no meio do matagal. Ouvi a grama sendo esmagada e o ricochetear dos rabos nas folhas secas. É só mais um dos sons que eu escuto. Ouço tudo, todo dia. Cada sopro de brisa, cada pingo de chuva estourando nos cascalhos, cada grilo e cada formiga. Ouço a sofreguidão do vento que me arrepia, as estrelas caindo, o choro triste da noite. Escuto cada pulsar do meu peito, cada chiado de dor que ele emite em pedidos de socorro. Ouço tudo, exceto o que queria ouvir.
Nas rádios tudo que toca é funk pancadão e aquela tal música que só diz "pan pan americano" o tempo todo. Nos meus fones de ouvido ressoa - em volume prejudicial - a melancolia suave que preenche cada giro do cérebro. Como uma âncora, ouço as frases profundas de Chico Buarque e Seu Jorge, ou mesmo de uma banda de rock, e deixo de tentar ouvir por alguns segundos o seu som que nunca vem. Como uma capa protetora, os pequenos fones me isolam do mundo e da dor que me cerca. Até que algum refrão me atinge em cheio, fazendo brotar lágrimas no olhos. No fundo, no fundo, fico é tentando transpor a música e aguçar a audição pra tentar te ouvir. E tudo isso pra quê? Só pra perceber que, no fim, tudo em você já é silêncio. Pra cair na real de que todos os sons que eu tanto busco, amo e quero, são apenas lembranças do que já ouvi um dia. Pra saber que noite e dia eu procuro por barulhos que não mais ouvirei. Pra ver que agora não tem mais o barulho do seu sorriso quando você chega perto de mim ou roça seu braço no meu. Agora só há o ruído do nada, do "deixa pra lá". Pra tentar e tentar cada vez mais desesperadamente ouvir uma respiração sua, um suspiro sequer, qualquer coisa que eternize pedaços de você em mim.
Eu, que tanto amava ouvir cada barulho seu, agora estou jogada no meio do silêncio vazio. Não, não tem mais barulho de abraço, nem de beijo, nem de mão na mão. Não, acabou o barulho de brincadeira, de conversa inteligente, de gargalhada. Não, não tem mais barulho nenhum pra você. Mais nada. Nem som de coração pulsando quando deita no peito pra dormir, nem resmungos incompreensíveis, nem som de aconchego pra cochilar, nem som de carinho no cabelo. Nada. Tudo agora é silêncio. Eu gostava tanto de ouvir você, de sentir você, de escutar sua voz cheia de sono pela manhã... Eu gostava tanto dos seus barulhos.
Mas com esforço sobrenatural ainda posso te ouvir. Não sua voz, porque agora, quando passa por mim, você me priva de qualquer palavra. Mas, por mais que tente me deixar esquecida no vazio adormecido, eu ainda posso ouvir tudo de você que ficou guardado em mim. Seu piscar de olhos, seus passos uniformes, seu jeito de rir, de beber, de segurar a latinha de cerveja, de olhar para o lado; seu jeito de fazer barulho. Todo o seu charme ao segurar minha mão e me puxar de encontro a você, dizendo que eu sei que você me quer. Eu não sou louca não, meu bem. Apenas aprendi a ouvir e relembrar as únicas coisas que você não poderia impedir nem tirar de mim. Eu te aprendi, e aposto que nunca ninguém vai te aprender assim. Mas você não me aprendeu, e não quer nem tentar. Não adianta nem berrar, eu sei, porque nem assim você vai me ouvir. Eu sei disso e não sou mesmo de berrar. Não quero te assustar, vou ficar quietinha. Nem ai, nem oi, nem por favor, nem fica comigo. Vou ficar quietinha, porque o som da minha voz pode me atrapalhar ao tentar te ouvir. E quem sabe, no meio dessa quietude plena, minha voz esganiçada acabe te fazendo falta, nem que seja um tantinho só. Quem sabe você resolva querer me ouvir ou me aprender como eu te aprendi. E aí então, quem sabe, você me deixe ouvir seu carro chegando, sua batida na porta, seu sorriso e tudo tudo tudo de novo, todos os sons que eu tanto espero dia após dia. Eu estou sempre pronta, usando meus fones de ouvido, mas deixando uma brecha pra conseguir te ouvir.
Tudo bem se isso não acontecer. Tudo bem se eu não ouvir mais nós dois e nossos barulhos. Mas se eu pudesse pedir só uma coisa, uma coisinha de nada, pediria que você colocasse um alto-falante em seu corpo, só pra poder voltar a te ouvir daquele mesmo jeito, ainda que você virasse as costas e fosse embora. Eu poderia gravar os seus sons no meu pen drive, deixar de lado Chico Buarque e Seu Jorge e sair por aí escutando você. Eu estaria sorrindo, chorando, tanto faz. Porque ouvindo você, todo o mundo perde o sentido.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Amiga...
Quem dera aquela minha musa, aquela de quem tu disseste quem dera musa qual tu fosses para alguém, tivesse ouvidos assim para algum ao menos dos meus tantos sons, sempre de todos os modos na direção dela ao máximo amplificados... Quem dera, ah, quem dera...
Por outro lado, confesso, lendo essas novas linhas do teu tão sedutor estilo de poetisa em prosa, impossível fica conter a curiosidade... Quem seria o felizardo infelizardo de mais esse caso clássico de pérolas aos porcos?
GK

 
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