terça-feira, 28 de setembro de 2010

Fast-food lifestyle.

O estilo fast-food dominou as ruas das cidades. É comida recheada de gordura trans, prontinha para entupir nossas artérias; é academia portátil, que jura dar choquinhos onde quer que a gente vá, mas não queima nada do que aquele hambúrguer duplo cheio de maionese depositou na minha bunda. Picles, pão, molho de mostarda. Tudo fabricado e embalado como comida de plástico, dessas que a gente dá para as bonecas quando é criança. Você paga e recebe uma caixinha minúscula como se fosse um grande prêmio. E as fritas vêm de brinde, junto com um copo gigante de refrigerante aguado. Segundo um professor da faculdade, o ensino agora também é fast-food - livros com receitas prontas para os universitários estudarem somente nas vésperas das provas -, mas só quem ainda prefere as refeições completas vai ser um profissional de sucesso no futuro.
O meu amor, para não ser passado para trás, saiu correndo como uma maria-vai-com-as-outras, mesquinha e abobada, e resolveu virar fast-food também. Tinha todo aquele glamour de cozinha francesa, mas preferiu cair na mesmice do pão com salada sem nutrientes e carne de proveniência duvidosa. Você, meu amor, poderia ser o que bem entendesse ao meu paladar. Com esse jeito todo de mignon ao molho madeira ou quiche de alho-poró, conquistou cada vontade minha, cada pedacinho de fome que ronca em meu estômago durante o dia. Eu gosto mesmo é de uma salada bem temperadinha, com pedaços de frango grelhado e tomatinho cereja, regada à azeite de oliva, dessas que vêm em cumbuquinhas brancas. "Eu tenho isso no menu", disse você, com um sorriso de abrir o apetite. Eu amei o seu cardápio e tudo em você desde o início. Cheguei mesmo a ultrapassar o limite do cartão de crédito só para poder bancar seus pratos dispendiosos. E, de repente, você modificou todo o estabelecimento que eu pensava conhecer e tornou-se um fast-food de primeira, angariando dezenas de novas consumidoras. Ou talvez eu tenha pago por fatias de picanha, carinho e sinceridade, e tenha sido enganada com pedaços grotescos de músculo, desprezo e indiferença. Talvez o brilho das suas letras coloridas no cartaz tenha me impedido de ver o tipo de restaurante que você realmente é.
Você também me tornou uma rede de fast-food, junto com os outros caras que passaram por mim em tardes no shopping e pararam para comprar alguma coisa, um milk-shake de baunilha com flocos crocantes de Ovomaltine, talvez. Soa apetitoso, mas no fim você descobre que não mata a fome nem supre as necessidades do seu organismo. Você tentou o milk-shake e um tal de hambúrguer com um queijo diferente, dizendo que eu não sou do tipo mussarela comum que se encontra em qualquer mercado. Eu me encantei e mandei logo meu coração de brinde no lugar das fritas. Prato cheio, bandeja repleta de caixinhas e com um copão enorme com aqueles canudos dobráveis bonitinhos que fazem sucesso no verão. Você encheu a pança, só para depois decidir que eu não caio muito bem no seu estômago. Não, o fast-food não te fez bem; saciou por algumas horas, chegando até a estufar a barriga, mas à noite a fome bateu de novo e você não tinha mais vontade de pão com alguma coisa. Foi procurar outro ambiente, alguma coisa mais saudável, mais original e de digestão mais fácil, porque eu ainda estava meio empacada no seu trato digestório. No fim você descobriu que aquela foto do queijo parmesão cremoso decorando o hambúrguer era uma jogada de marketing e que eu sou mesmo uma mussarela de mercado, sem graça nenhuma e nem mesmo pitadinhas de sal.
Chega de tentar ser restaurante fino, com bifê de massas, saladas e carne grelhada. Desde quando abandonei as papinhas de neném tenho tentado crescer como um lugar excepcional e único, e tudo que alcancei foi uma franquia barata que não tem sequer aquelas tortinhas de sobremesa. Cansei de escrever as opções do dia abaixo da minha fachada de restaurante saudável só para ouvir todo mundo perguntar se não tem um combo de hambúrguer, fritas e refri que possa ser empacotado para viagem. Com resignação eu engulo o "NÃO, não tem, eu sou um restaurante requintado, não tá vendo não?" e sirvo o que o cliente quer. Estou farta de passar horas na cozinha, me esmerando em seus pratos prediletos, para mais tarde jogar tudo no lixo porque você preferiu jantar um omelete no boteco da esquina. Depois de tanto tempo tentando maquiar minha estrutura, estou abandonando a estrada. Por mais que eu tente e queira, com todas as forças que me restam, ser mais do que um MacDonald's de fim de semana em sua vida, é assim que você me vê. Incessantemente procurei aprender com grandes chefes de cozinha os segredos da boa culinária, só tentando mascarar o que só eu não conseguia enxergar: independente de qual prato eu prepare e de quanto carinho adicione no tempero, no fundo sou um fast-food que serve alimentos que exigirão um grande gole de sal de frutas depois para ajudar a aliviar a má digestão. E ninguém aguenta esse tipo de refeição por muito tempo. Enjoa. Estraga seu organismo. Apodrece.
Você tem razão, amor, em guardar seu dinheiro para algo melhor. A dor de ser rechaçada é absurdamente cortante; espreme e dilata, só para depois espremer de novo. Mas eu entendo. Essa confusão de caixinha de hambúrguer, número um aqui, número dois completo lá, número três sem refrigerante, isso tudo não é para você, nem para ninguém que eu amo. Eu quero você bem e minha tabela de nutrientes não é porcaria nenhuma, não vai te sustentar por mais que duas semanas. Você sabia disso quando sumiu, mas eu não quis ver o óbvio. Quis continuar acreditando que dessa vez eu poderia ser um pequeno restaurante italiano com vasinho de flor no centro das mesas, toalhas vermelhas e verdes e menu especial. Quis tanto ouvir você pedir o prato cheio de amor que tenho preparado dia após dia, mas tudo que escutei foi "um milk-shake de 500ml pra mim, moça", aos berros. Agora eu entendi. Não adianta tentar adaptar, tentar fazer umas reformas aqui e acolá. Quem nasceu fast-food não vira outro tipo de restaurante com o passar do tempo. A tristeza de querer ser saudável, com croutons e queijo branco, e não passar de um punhado de colesterol em forma de sanduíche - do qual você só vai lembrar caso sua bile resolva voltar cheia de raiva -, essa tristeza é excruciante. Depois de tantos anos tentando ser algo melhor, você me deu esperanças para tentar uma última vez. Mas a reforma é trabalhosa demais, cara demais, demorada demais. No fim das contas, você pediu um hambúrguer mesmo, virou as costas e foi embora procurar um lugar onde pudesse sentar e receber tudo na mesa, com guardanapo de colo e prataria chique.
De todo mundo que vi indo embora, você foi quem mais estraçalhou meu coração. Eu achei que você, tão diferente de tantos caras que andam por aí, poderia enxergar minha alma de restaurante aconchegante, onde o chefe de cozinha senta desolado esperando a hora em que alguém vá pedir um de seus pratos elaborados. Pensei que você não seria mais um a escolher fazer seu pedido no drive-thru e ir embora à toda velocidade. Esse golpe me levou à falência e, a partir de agora, não tem mais salada, nem macarrão, nem hambúrguer, nem nada. Estou trancando as portas e quando você passar por aqui vai encontrar uma placa dizendo "fechado por tempo indeterminado" em letras garrafais. Talvez eu coloque, ao lado, uma foto sua indo embora, só para que você saiba que poderia mudar tudo isso com uma palavra, com uma escolha de cardápio diferente. Para que você saiba que eu acreditava que poderia ser outro tipo de restaurante em sua vida, se você permitisse. E que estou fechando, mas sempre haverá uma janela acidentalmente aberta para você, caso mude de ideia. Só peço que não volte a estacionar aqui se for para correr apressado, balançando uma nota de vinte reais e pedindo pelo número cinco completo porque não tenho mais suporte para isso. Não me obrigue a decorar o desenho das suas costas me abandonando mais uma vez. Se assim for, deixe-me de portas trancadas, ainda que a saudade mate parte de mim e a decepção mate a outra metade restante.
Você me enxergou como uma rede de fast-food, e escolheu ser fast-food para todas as outras quando eu te queria como o mais fascinante dos restaurantes. Escolheu receber quinze reais por seus pratos sem valor, quando eu pagaria o que fosse necessário para provar uma entrada de torradinhas com patê que fosse. Escolheu se render a esse tipo de vida que domina as massas populacionais, escolheu me renegar e rir da minha incapacidade de ser algo melhor. Mas eu ainda vejo em você todo o lado maravilhoso e o quanto eu poderia me esforçar para estar à sua altura, ainda que você seja um renomado bistrô francês e eu apenas o tal restaurante italiano rústico. Mas eu sei que, embora hoje esteja fritando hambúrgueres para qualquer pessoa, em algum lugar da sua cozinha você faz uma salada magnífica, cujo gosto insiste em não me deixar em paz. E parte de mim acredita que a sobremesa que você prometeu um dia, dessas que vêm em pratos de porcelana, é digna de toda a espera que me fez fechar as portas até você voltar.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...
Juro que não é premeditado, mas o fato é que teus textos sempre me remetem a alguma canção e essa coisa de fast-food me fez lembrar daquele velho verso do Lobão... "E a gente ainda paga por isso!"
De todo modo, espero que tua alma-restaurante ainda se abra ao menos uma única vez para um cansado viajante paulista, que certamente se contentará se houver no cardápio um abraço daqueles bem quentes, sinceros e apertados...
GK

Sujeito Oculto disse...

Adorei a forma como escreve! Excelente! Uma pitada de ironia com toda a dor do coração... não seria assim mesmo a vida?
Bom, nos vemos por aí, porque sem outra opção serei sua seguidora! (Ainda bem que faltam opções no meu menu!)
Bom fim de semana, Tainá!

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration