quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Se você estivesse aqui, importaria.

Primeira tequila. Não foi para essa mixaria que saí de casa hoje. Viro o copo pensando em você e em tudo o que não tive oportunidade nem coragem para dizer, tudo o que não pude esclarecer depois que te falaram asneiras infundadas sobre mim. Nós poderíamos ter sentado lado a lado e conversado sobre o que você quisesse; futebol, cinema ou até meter a boca no absurdo que o mundo virou. Poderíamos discutir sobre nossas crenças ou, no meu caso, a falta delas. Você poderia fazer aquela cara de preocupação, franzindo um pouco a testa e me deixando apaixonada, e eu poderia te fazer rir dizendo que tudo daria certo no fim. Nem me importaria por não acreditar nisso, desde que você acreditasse.
Segunda tequila. Você poderia repetir que não pretende se casar, porque casar para viver brigando não faz sentido. Eu concordaria sem pestanejar, já que nunca consegui olhar no espelho e me imaginar dentro de um vestido branco, com véu e grinalda, muito menos botar uma aliança dourada no dedo anular. Nossa amiga nos acusaria de estarmos falando besteiras e diria que no fim das contas teríamos uma penca de filhos cada um. Credo. Você poderia dizer que não quer namorar e eu ficaria quieta para não admitir que cheguei a pintar esse quadro duas, três ou vinte vezes em minha cabeça. Apenas esboçaria um sorriso porque qualquer parcela de você já basta. Você brincaria que seria melhor virar assexuado e eu me obrigaria a rir imaginando o desperdício que seria você ficar sozinho e me deixar sozinha, louquinha por você.
Terceira tequila. Nessa hora eu me pegaria pensando em como você é lindo e perceberia, corando as maçãs do rosto, que meus olhos estavam vidrados e uma baba imaginária quase escorria pelo canto da minha boca. Observaria com cautela você olhando ao redor, analisando as mulheres do bistrô. Mas eu poderia engolir o mal-estar que isso me causa e ignorar o estômago que embrulha de medo de que você encontre alguém muito mais interessante que eu.
Quarta tequila. Aprumo-me na cadeira querendo melhorar a postura e tentando imaginar qual o aspecto do meu rosto. O garçom certamente reparou que não sou a mulher mais feliz do bar, nem a segunda mais feliz, nem a décima terceira, caso haja treze mulheres aqui. Sorrio para ele, numa tentativa de disfarce que obviamente não funciona. Nesse momento você diria que certos empecilhos em relação a mim poderiam te levar ao inferno, e eu responderia que céu e inferno não existem. Sou descrente convicta de tudo o que não é palpável, talvez porque a vida tenha me ensinado a ser assim. Lembro-me que, quando criança, acreditava piamente em tudo que me diziam. Agora não mais.
Quinta tequila. Estou querendo um abraço apertado e se você estivesse aqui poderia me envolver em seus braços firmes de pele macia. Eu enterraria a cabeça no seu ombro e tentaria sentir seu cheiro só para me lembrar que nasci sem nervo olfatório. Um alívio, uma coisa a menos para amar em você. Gostaria de tocar seus dedos frios, muito mais suaves do que os meus desajeitados, mas não me atreveria; manteria as mãos seguras e quietas, uma servindo de apoio à cabeça - que começa a pesar - e outra pousada desajeitadamente no colo. Sinto meu olhar se perdendo enquanto vislumbro o banco vazio onde você deveria estar. Alguém passou por aqui algumas horas atrás e perguntou se poderia me fazer companhia, mas nem me dei ao trabalho de responder. Se você estivesse aqui, poderia me perguntar se sou mesmo tão fanática pelo Corinthians e eu diria que sim, que tenho bandeira, chinelo, camiseta e papel de parede no notebook. Você pareceria incrédulo e eu tentaria decifrar se isso é bom ou ruim porque talvez você ache que eu deveria ser mais feminina. E me assalta o pensamento de que você pode não estar aqui porque não sou magra o suficiente e você não se sentiria à vontade ao lado de uma porca gorda. Ou talvez seja culpa dessa minha mania de falar asneiras, de mexer no cabelo quando estou inquieta, de ficar nervosa como uma adolescente que encontra seu ídolo ou desse dom de estragar os momentos bonitos com um comentário desnecessário, provavelmente dito em uma voz que soa aguda demais.
Sexta tequila. Fecho os olhos por um instante e sua imagem aparece como uma fotografia muito nítida. Olho em volta, mas só enxergo gente desinteressante. Como diria Leoni, "depois de você os outros são os outros e só". Ninguém aqui para falar sobre como avicultura é um saco ou sobre como se aprende, com o tempo, a disfarçar uma bebedeira. Se estivesse aqui, você poderia implicar com meu jeito espontâneo de falar que me rende horas pensando coisas do tipo "por que eu disse aquilo?". Ao fechar os olhos quase senti sua presença e sua voz grave me dizendo que está com sono e que tudo que queria era tirar a camisa e dormir. Mas não passa de recordação do que já aconteceu. Você não está aqui agora. Estou sozinha, mergulhando em pensamentos e em doses de José Cuervo com punhados de sal e limão.
Sétima tequila. Abaixo a cabeça e prendo-a entre as mãos porque tenho a sensação de que ela vai sair andando por aí. Quando volto a erguê-la o garçom está me observando preocupado, indeciso entre servir a próxima dose ou chamar o gerente do bistrô. Esqueço-me dele. Cadê você para me abraçar e estralar minhas costas, depois rir porque sou descoordenada e não consigo fazer o mesmo com as suas?
Oitava tequila. Já não quero mais sal e limão. Gostaria de estar em casa porque agora as coisas começam a ficar um pouco turvas. Se você estivesse aqui chamaria meu nome, me daria carona e nem ficaria bravo caso eu esquecesse de agradecer. Mas estou só e não sei como vou embora, muito menos como abrirei o cadeado sem você para ficar me vigiando. O curioso é que, exceto a leve zonzeira, não sinto mais nada. Nem a maldita esperança foi embora. Ah, como eu queria que ao menos ela tivesse pago a conta e se mandado.
Nona tequila. Quantas vezes olhei para a porta do bistrô? Dez? Quinze? Trinta? Cada vulto lá fora poderia ser o seu e tenho impressão de que não perdi nenhum deles. Rio sozinha, pensando que essa é uma maneira diferente de passar as noites. Digo, quantas pessoas perdem cerca de quatro horas esticando um minúsculo copo de dose em direção ao garçom e observando sombras passeando na rua, atrás do vidro embaçado de uma porta? É como uma televisão em tamanho real, onde tudo é preto e branco e a imagem é sempre a mesma. Minha televisão particular. Em preto e branco, exatamente como eu, a Srta. Desprovida de Cores.
Décima tequila. Foram mesmo só dez? Posso ter me confundido no meio do caminho e esquecido de contar uma ou duas. Não importa, nada importa. Caiu em mim agora - como um bloco de toneladas de cimento me esmagando - a verdade cruel que esteve ao meu lado desde que sentei nesse banquinho estofado: você não virá. Não sabe onde eu estou e, mesmo que soubesse, ainda assim não viria. Vesti a saia brilhante e o salto alto que você costumava adorar, mas dessa vez só quem viu o modelito foi o pobre garçom desnorteado que já não sabe mais o que fazer com a doida que apareceu do nada e não vai embora nunca. Não posso ir, sinto muito garçom. Não quero. A escuridão e o silêncio de casa me apertam como se as paredes se movessem uma de encontro à outra, marchando para uma colisão inevitável da qual não consigo fugir. Preciso sair desse lugar, já basta meu coração comprimido pela dor do banco vazio. Não, o banco não está vazio; ainda há a tal da verdade cruel, além de um tantinho de saudade que mais parece uma bola de neve aumentando em sua queda sem fim.
Mato a décima primeira tequila, pago a conta e agradeço ao garçom pela paciência. Se estivesse aqui agora, você poderia me oferecer seu braço para que eu tivesse onde me ancorar, ou me puxar pela mão como naquele dia em que você me conquistou. Mas você não está aqui, lembro-me sacudindo a cabeça com violência. O vento gelado da rua esbofeteia meu rosto, secando as lágrimas que escorrem cheias de vontade própria, deixando rastros de pele meio ressecada nas bochechas. Vou caminhando para casa, os saltos fazendo "toc toc" pelo caminho silencioso, retumbando em meus ouvidos como duas pistolas no momento do tiro. Não consigo parar de chorar e isso me faz rir incessantemente. Imagino quão louca devo parecer, rindo e chorando sozinha como uma condenada que acabou de achar uma fuga do manicômio onde estava internada, exceto pelo fato de que nesses lugares eles não te darão, jamais, sapatos de salto agulha para calçar porque alguém pode acordar com o pescoço aberto e a jugular cortada pela metade. Ainda assim, estou certa de que à minha imagem só falta a camisa de força para ser convincente.
Chego em casa com pedaços microscópicos de gelo no cabelo, olhos inchados e vermelhos como duas bolas de tênis e faces mais vermelhas do que um copo de Bloody Mary. Será que o gosto salgado das lágrimas me deixou com um sabor tão ruim quanto o do drink? Mais uma vez: não importa. Só quem vai sentir se eu estiver com sabor desgostoso de Bloody Mary é o travesseiro, o infeliz que sempre acorda com manchas de maquiagem depois de noites como essas. O sono bateu, trazendo consigo um sopro de alívio; pior seria deitar, manter os olhos abertos e ficar pensando mais trezentas coisas sobre você e tudo que poderia ter sido diferente.
Agora, já no conforto do pijama e embolada no edredom, estou oficialmente encerrando a noite. Posso continuar me martirizando amanhã, mas por hora estou farta e com os olhos quase tão pesados quanto o coração. O último pensamento que me ocorre é que, se estivesse aqui, você poderia me puxar para perto, abraçar-me e dormir no lugar vazio ao meu lado. Neste momento, no entanto, a mesma verdade cruel que me fez companhia no bistrô já tomou este espaço que poderia ser seu. Se estivesse aqui você poderia me fazer adormecer com um tênue sorriso nos lábios ao invés destas lágrimas que ardem, incham e contorcem. Mas a verdade crua e impiedosa é que... Não importa.

4 comentários:

Úrsula disse...

Caramba, adorei esse texto! De verdade! O seu jeito de escrever me agradou muito, você consegue ser intensa e tem um leve sarcasmo que eu acho um charme em qual E obrigada pelo comentário lá no meu blog, gostei muito :) Beijosss

Úrsula disse...

em qualquer texto*** heh não terminei a frase

Gugu Keller disse...

Josi...
Procuro, tanto quanto posso, assumir meus sentimentos, mesmos os mais torpes ou mesquinhos. E o digo porque neste momento me sinto um perfeito egoísta. Sim, egoísta a ponto de bendizer a tua dor apenas pelo fato de ver o quanto ela te faz produzir coisas tão emocionantemente belas...!
E, quanto a alguém escrever duas ou três linhas por vc, me aguarde! Não sei se estará à altura de te fazer marejar os olhos, ainda mais sendo a poetisa que é, mas me aguarde!
Bjs de quem te quer muito!
GK

Lucia M. Ghaendt-Möezbert disse...

Adorei o texto, a impressão que o final deixa é... "Não importa, mas eu gostaria muito que importasse!". Gostei muito, mesmo. Seguindo.

 
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