segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Solidão de sábado à noite.


Solidão de sábado à noite dói mais que solidão de segunda, quinta ou qualquer outro dia da semana. Domingos podem ser deprimentes, mas solidão de sábado à noite? Essa é corrosiva. Vai rasgando a alma em pedaços como ácido e deixando em frangalhos os sentimentos. É cruel e impiedosa; chega com tudo e não vai embora por nada. Dizem que todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite. Mas quando as horas no relógio passam tiquetaqueando em completa ausência e saudade, quando tudo que se espera de um sábado à noite é solidão, aí então você descobre o verdadeiro significado da palavra dor.
A solidão de sábado à noite é igualzinha a você. Vai chegando de mansinho, conquistando cada pedacinho do território do meu coração e me deixando meio boba só de pensar em nós. Arranca os matinhos do chão, limpa o terreno, faz o sol brilhar alto e monta acampamento para se instalar. Deixa tudo bonitinho, só para depois fincar uma bandeira e dizer que conseguiu. “Essa área agora é minha, sou o dono da terra”, diz você. Ou não diz, mas que pensa, ah, isso pensa. E eu sabia o tempo todo que você ia desbravar meu coração só para depois colocá-lo em algum canto escuro do seu quarto, pegando poeira e apodrecendo. Eu sabia, e mesmo assim deixei que você ficasse, só para ver as velas do seu barco indo embora depois.
Assim como o pequeno príncipe é dono de um mundinho só dele, você virou dono desse estranho mundinho que é meu coração. E assim como o pequeno príncipe queria conhecer outros lugares, você quer conhecer outros corações. Ou outros beijos, apenas. Outros carinhos e abraços. Outros tantos e incontáveis. E eu fico aqui, sendo só sua, porque você enterrou sua bandeira de posse bem fundo em minha alma. Sou como um país anexo ao reino que você comanda; esquecido, deixado de lado porque o reino todo é muito mais interessante e cheio de súditas sorridentes. Você não precisa de mim, mas fincou sua bandeira mesmo assim e agora quem fica à mercê da solidão de sábado à noite sou eu. Tudo bem se você quer conhecer melhor o seu reino, eu entendo. Não precisa lembrar de mim nem vir cortar o matagal que está crescendo no abandono mas, por favor, venha ao menos tirar a bandeira daqui para que eu deixe de ser só sua, para que eu saiba que o problema não é você querer todo mundo, como minha estúpida esperança crê, mas sim não me querer.
Não precisa vir limpar a bagunça que você deixou e que me fez virar. Não estou pedindo que venha me ajudar a recolher os cacos do meu coração e cole cada pedacinho com super bonder. Talvez eu possa fazer isso sozinha. Ou não, mas posso sobreviver com o coração partido. Só não posso seguir com essa sofreguidão que me abate, congela meu rosto em uma careta de tristeza que não posso disfarçar, me leva para um lado e para o outro sem que eu saiba ao menos aonde estou indo. Não posso mais com essa dor de te buscar em cada esquina, de sair de casa só pra ver se você passa do outro lado da rua, ainda que eu não vá nem mesmo acenar. Não suporto mais ir a festas mesquinhas só esperando te encontrar, olhar para a entrada a cada dois minutos para ver se você está chegando, rir sem achar graça só para o tempo passar, fechar os olhos desejando ver sua imagem ao abri-los. Não quero mais ficar esperando um abraço, um olhar, um olá ou qualquer coisa, por mais ínfima que seja. Essa escassez de gestos seus me deixa febril, ver você passando de costas e fazendo pouco caso da minha existência me adoece de tristeza.
Mas não se preocupe, meu bem, não vou te perturbar. O dicionário diz que a palavra incômodo refere-se a importunar e desgostar, e ainda que há tempos eu baixe a cabeça para não lhe causar aborrecimento ao me ver, sei que na palavra incômodo poderia estar uma foto minha como definição. “Muito prazer, meu nome é Incômodo”, eu me apresentaria. Não preciso falar como uma bobinha nem agir como uma idiota para te importunar, basta minha presença. Sentir seu desconforto ao me ver é o que de mais triste aconteceu em minha vida, mas não vou segurar sua camisa nem dizer “por favor, eu não quero ser seu desgosto”. Não vou dar uns tapas na sua cara pra te fazer acordar, nem gritar no seu ouvido que não foi assim que você disse que seria. Não vou te falar da minha decepção, de como eu achei que você era um cara diferente e do golpe brutal que senti quando descobri que é igual aos outros. Não vou jogar meus destroços em sua porta torcendo para que você os recolha com cuidado mas sabendo que irão parar no lixo em frente à sua casa. Não serei seu incômodo, prometo, ainda que você não consiga me ver de outra maneira.
Hoje, por mais que a saudade me mate, não mata tanto quanto matou no sábado à noite. Quando você enterrou os resquícios de esperança que me restavam na sexta, fadou meu sábado à solidão e à tristeza desenfreada. Não há filme que baste para passar as horas longas demais, nem lenço que permaneça seco, nem pote de doce de leite argentino que amaine a dor. E eu tentei. Tentei mais do que tudo, quis mais do que tudo. Quis estar ao seu lado, quis você ao meu lado. Quis não estar só, nem te deixar só, fosse sábado à noite ou outra noite qualquer. Quis acreditar que você poderia me querer por quatro ou cinco sábados, e não apenas um. Eu quis, tentei e falhei. E hoje dói, intensa e profundamente. Hoje não tem você, tem apenas a solidão; no próximo sábado também. Para sempre solidão. Hoje resta apenas a promessa e a certeza de que essa dor ficará ainda pior no domingo, quando eu podia estar voltando de você com um sorriso no rosto, como há três ou quatro domingos atrás, ao invés de ficar sentada no sofá com o olhar perdido, pensando em onde e com quem você está. Hoje é só o que habita meu peito devastado: a dor e a sua bandeira, flamejando como se o vento acariciasse o tecido. Porque em algum sábado anterior a esse você plantou uma semente diferente em meu peito, uma semente de companhia, conforto e reciprocidade. E eu acreditei que pelo menos o seu sorriso duraria por mais que algumas horas. Em algum momento de um passado não tão distante eu tinha você ao meu lado. E era sábado à noite.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Jo...
Fico pensando no que é pior num sábado assim... A solidão solitária, silenciosa, de quem literalmente está só? Ou a barulhenta, iluminada e movimentada, repleta de vozes e pessoas, com exceção daquela que ainda assim, e assim talvez até mais, insiste em dolorosa e insensivelmente a provocar?
GK

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration