sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Um pouco de mouse no meu coração.

Comprei um mouse em formato de coração, em acrílico vermelho. Ele fica piscando azul, violeta, verde e rosa, no ritmo dos batimentos cardíacos, depois acelera numa taquicardia colorida. O tal mouse foi lançado para o dia dos namorados, então só consigo imaginar que esse bate bate bate rapidinho seja do tipo "te vi, meu amor, e meu coração acelerou". Eu gastei uma graninha sem nem saber dessa tecnologia toda, só por ter achado o modelo bonitinho. Gosto de coisas de coração, talvez para suprir a deficiência do meu.
Agora fico olhando para o mouse piscando sem parar aqui do meu lado, de uma maneira tão sincronizada que é quase hipnotizante. Criei respeito pelo mouse, tão sincero em seus ataques emocionados. Desenvolvi tanta admiração por ele que não consigo usá-lo, apenas o deixo repousando em uma porta USB, enquanto na outra fica meu pequeno mouse monstrengo de sempre. Tenho medo de que aproveitar-me dele para dar uns cliques seja uma afronta à sua honestidade. Tenho receio de que essa carapaça firme de plástico seja só enganação, de que no fundo ele seja um coração fraco e frágil, talvez até cheio de machucados e feridas, que alguém guardou em um mouse e colocou na estante para vender. Se for assim, como posso encostar nele, correndo o risco de vê-lo desmantelar-se com a pressão do meu indicador?
E se, no fim das contas, o mouse de coração for mais coração do que mouse? E se, assim como eu, ele apenas aprendeu a usar algo para se esconder do que lhe fere? Eu uso roupas bacanas e meu sorriso falso, ele veste um pouco de acrílico vermelho e umas luzinhas coloridas. Empatamos. Ei, amigo, pelo jeito você - o mero mouse que mora ao lado do meu notebook - será o primeiro a me entender. Somos iguais, não somos? Quem é feliz de verdade não precisa de tanta cor para ser visto, muito menos andar por aí parecendo um pinheirinho de natal sem estrela. Nós sabemos disso mas, para nossa sorte, a maioria desconhece esse raciocínio. Será que estão vendendo corações por aí, mascarados de mouses, e eu não sabia? Bonitos, novos, resistentes e prontos para transplante.
O mouse finge que não se importa, que não liga para onde está clicando e onde vai acabar chegando, se em um site sobre esportes ou política. O mouse em formato de coração era coração e aprendeu a ser mouse. A vida deve ter ensinado e ele foi esperto como eu não fui. Deve ter pensado: "ser coração dói, eu quero mais é ser mouse mesmo". Quem fez isso? Também prefiro ser um mouse, moço, posso entrar na fila? Porque inteligente mesmo é quem leva a vida no jeito mouse de ser, sem nada para se preocupar a não ser chegar a um endereço eletrônico qualquer. Sem dor, sem decepção, sem nada. Sem vida, mas é o preço a se pagar.
Talvez eu também precise aprender a ser um pouco mouse. Brilhar com um pouco de cor, permitir alguns cliques sem saber em que site vamos parar, ter um cabo USB para descarregar as tristezas e transferir para outro lugar tudo o que me dói e me corrói. Ou talvez eu só precise, assim como o coração em formato de mouse que apareceu na minha vida, fechar o meu próprio em uma cuba de acrílico para que ele fique protegido de pancadas e esquecido com o tempo. Posso até comprar umas luzinhas coloridas para ele não cair na completa escuridão. E o acrílico pode ser vermelho ou transparente e com qualquer formato que seja desde que, assim, meu coração aprenda a ser mais mouse e menos coração.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Josiana...
Quantos anos vc disse que tem mesmo??? 22???
Nossa, é inacreditável!!!
Se aos 22, vc escreve algo desse nível, o que será quando estiver mais madura??? Decerto, para continuar a ler coisas tão belas e tocantes, o meu coração igualmente precisará de uma cuba de acrílico como proteção... Apenas as luzinhas não serão necessárias... Tuas palavras, como já fazem, e cada vez mais por óbvio assim será, trarão com elas sempre um novo sol...!
GK

 
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