sábado, 23 de outubro de 2010

Ligue os pontos.


Olha, meu amor, sinto dizer que acabou. Sinto muito, sinto tanto, sinto de um tamanho muito maior que meus 164 centímetros. Você apareceu de repente e arrebatou minhas defesas sem precisar de muito esforço. Ontem havia ao meu lado uma imagem pontilhada, do tipo “ligue os pontos”, que sempre pareceu enigmática e complicada demais para que gastasse meu tempo tentando resolver. Quando criança, costumava ser boa nisso; minha mãe desenhava os pontinhos e, seguindo o tracejado, eu os transformava em paisagens, cogumelos com portinhas e nuvens de algodão-doce. Nada disso era difícil. Esse amontoado de pontinhos amorfos que sempre me acompanhou, no entanto, era complexo demais para ser elucidado. Pensei que fosse levá-los comigo para o caixão, sem jamais descobrir qual deveria ter sido sua forma.
E então chegou você. Não acredito em contos de fada, muito pouco em amor. Acredito em cavalos brancos – sem magia –, mas príncipes são seres tão lendários e irreais quanto vampiros. Então não, não vou entupir este texto de firulas e dizer que você chegou enfiado em uma camisa de babados, calça embalada à vácuo, botas de mosqueteiro e o cabelo balançando ao vento, montado em um cavalo de crina luminosa. Ah não, isso é um punhado de baboseiras e se visse algo assim eu sentaria para rir. Não, você chegou muito mais belo e real. Veio em suas calças jeans surradas, blusa de fio e cabelos que, infelizmente, não conheci quando compridos. E com uma barba que fez falta na única vez em que vi seu rosto liso. Veio a pé me fazendo companhia, outras vezes me dando carona em um carro que tem tanto de você que toda a cidade sabe que é seu. Chegou pegando subitamente um pedaço do meu coração para você e levando o resto aos poucos, pacientemente. Hoje há mais de mim em suas mãos do que ambos gostaríamos.
Ontem havia pontinhos voando espalhados ao meu lado; hoje até uma criança de três anos poderia ligá-los com uma canetinha colorida. Todos viraram luminosos como vaga-lumes e escolheram suas posições; abandonaram a confusão embaralhada e definiram um padrão que se parece com os desenhos tracejados de minha mãe, exceto que, desta vez, não há cogumelo algum. Desta vez há uma forma humana com seu corpo e suas feições. Desta vez há você, só esperando que eu brinque de traçar os pontos. Seu contorno luminoso me segue dia e noite e ocupa tanto meu coração que me surpreende ainda haver espaço para o sangue bombear. É como uma panela com água em ebulição; uma água doce com gosto de amor. Com açúcar e com afeto, parafraseando Chico Buarque.
Vou te contar, amor, que ver aquela bolinha de papel preto amassado de repente se transformar em você fez meu mundo virar de cabeça para baixo e o estômago embrulhar violentamente. Antes era confortável, sem imagem, sem desenho, sem apego. E agora é como um soco no abdome a cada manhã em que abro os olhos. Há dias em que tudo que queria era poder dormir novamente. Mas você roubou de mim o coração, os pontinhos, a paz e também o sono. Pegou sozinho uma caneta e riscou seus traços como quem diz: “se você não me pintar ao seu lado, eu mesmo pintarei”. Tudo bem mas, ei, você esqueceu de um detalhe. Esqueceu de preencher o que agora é seu contorno já traçado. Me deixou com sua forma de centro vazio, não colocou nada de sentimento, nada de você que pudesse torná-lo mais substancial. E eu posso te amar, posso passear de mãos dadas com o contorno vazio, posso querer que borracha nenhuma te apague daqui, mas não posso amar por nós dois. Se você tivesse um pontilhado meu, ele estaria preenchido com meu coração e tudo que de mais verdadeiro posso oferecer. Mas você nem quis ver meu desenho, aquele monte de pontinhos tristes que só queria um pouco do seu abraço. Você preferiu deixar a forma ao seu lado sem figura para caber qualquer pessoa. Eu poderia pegar minha própria caneta e me traçar segurando sua mão com cuidado, mas de nada adiantaria. Você enxergaria baratas, não vaga-lumes.
Não vou abandonar seu contorno em uma ruela qualquer; não pense que quando digo adeus estou dizendo que não te quero ou não te amo. É, ao contrário, amor e querer demais, quando tudo que vem de você chega em quantidades de menos. Não vou mentir que, se quiser, posso sentir apenas um nada absoluto. Gugu Keller me disse, certa vez, que “tudo de que precisamos para que um sentimento se agigante ou mesmo se eternize dentro de nós é que contra ele lutemos bravamente”. Ele tem razão. Tentei por muito tempo negar à minha própria consciência o quanto ela já estava tomada por você. Tentei fechar os olhos, esfregá-los com força, estapear a cara tentando te esquecer. Procurei não me importar com a maldita frase “esquece isso, cara” mas, quer saber? Não existe nada mais estúpido para ser dito a um coração preso nas garras de outro alguém. É como aconselhar a um preso que ele pare de sonhar com a liberdade.
Então, a partir de agora, digo sim. Sim, eu estou aqui morrendo aos poucos por ver em cada faceta de nosso caleidoscópio um motivo a mais para ir embora. Sim, eu amei cada detalhe seu como achei que nunca seria capaz. Sim, esses mesmos detalhes me martirizam à noite em meus sonhos e durante o dia flutuando em minha mente. Está martelando, sim, o pesar de ver que você se importa tão pouco, que eu fui apenas mais uma peça aleatória do seu efeito dominó. Uma pecinha lá do meio, derrubada por outras tantas que chegam avassaladoramente. Sim, martela ainda mais o fato de eu, por outro lado, me importar a ponto de não saber viver sem carregar esse peso por aí como uma nuvem chuvosa particular, sempre trovejando acima de mim. E todo esse martelar daqui, martelar dali, acabou martelando seus pontos em mim, grudando em minha pele tudo que nós vivemos. Debaixo de toda essa roupa, ando pelas ruas cravejada de pontinhos que, agora, são pregos eternos. Sangrando, infeccionando, fazendo casquinha e sangrando novamente. Pregos que desenharam sua forma em mim, para que eu jamais possa esquecer. Sem cicatrização. Sem analgésico o bastante para tantas feridas abertas.
Sim, é tudo isso mesmo, mas é nada disso também. Porque, embora esteja marcada por nossas lembranças e cercada por sentimentos que jamais se afastarão, estou dizendo adeus. Levo comigo um tracejado completo de você, e deixo contigo meu punhado de pontinhos amorfos. Você faz deles o que bem entender. Pode jogá-los fora, pode brincar como se fossem massinha de modelar, pode desprezá-los ou lançá-los longe com uma raquete. Só não os quero em minha bagagem porque desde o início pertencem a você e assisti-los morrendo, pouco a pouco, é mais do que meu corpo pregado pode suportar.
Isso é um adeus. Estou virando as costas e partindo antes que você mesmo o faça. Olharei para trás, sim, centenas de vezes, algumas na esperança de que você esteja tentando me alcançar, outras apenas para te ver ao longe. Estou indo embora fisicamente, mas deixando a parte mais viva de mim aqui, em seus braços. Vou andar devagar, caso você queira recuperar a distância entre nós. Se for me esquecer, tenha como última imagem aquela em que precisei me lembrar constantemente de não te abraçar para sempre. Mas se, por acaso, mudar de ideia e criar ao seu lado um contorno com meu formato, pode ligar os pontos e eu voltarei correndo o mais rápido que puder. Se decidir me amar, estarei esperando em algum ponto da estrada, para onde você pode vir de jeans surrado e blusa de fio. Pode vir com barba ou sem barba, tanto faz, basta vir e me envolver em seus braços como se nada houvesse existido antes, como se fosse esse nosso primeiro encontro. Pode vir a hora que quiser, do jeito que quiser. Apenas poupe-me do cavalo branco pois nossa vida nunca foi um conto de fadas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Para Tânia.


Desde que tomou conhecimento do blog, Tânia tem me pedido pra escrever um texto feliz. Ela diz que gosta do que eu escrevo, mas que quer muito muito muito ler umas linhas cheinhas de felicidade. É porque Tânia é minha amiga e não gosta da tristeza que vê em mim. Digo para ela: “ei, uma hora isso tudo passa, não se preocupa”, mas ela não acredita; ô menina sem sossego! Tudo bem, eu também não acreditaria em mim se me ouvisse sendo tão otimista. Tânia mora comigo e já sabe que minhas risadas nem sempre são verdadeiras e que meu silêncio diz muito mais que as baboseiras que eu possa vir a falar.
Tânia é uma das poucas pessoas que não vê só meus sorrisos; não sei por quê, mas a danada conseguiu conquistar minhas lágrimas também. Pobrezinha, quando menos espera vê uma loira descabelada soluçando em sua frente. E ainda que eu não divida com ela todos os problemas e pensamentos que poluem meu cérebro, certamente o que ela sabe é muito mais do que eu esperaria que alguém soubesse um dia. Tânia sempre tem uma solução pra tudo, ainda que os planos nunca passem da fase “arquitetando uma ideia”. Tudo nas palavras dela soa simples, mas no fundo a gente sabe que não é e acaba desistindo de tentar fingir que é. Assim, complicado. É um tal de chora e tenta e no fim não tenta nada.
Tânia mora no quarto ao lado e quando me vê deitada na cama, num esforço monstro de esconder a tristeza, vem correndo como quem vai executar um salto duplo, joga-se em mim gritando “montinho!” e se esparrama ao meu lado pronta pra me fazer rir. Num dia desses ela resolveu dar uma lambida no meu cabelo pra que eu parasse de pensar no que estava me entristecendo. E não é que a técnica funcionou? Porque aí eu deixei de pensar no triste pra pensar no “eeeeeeca”. Tânia é engraçada, decora músicas tão bem quanto um analfabeto lê um livro e faz caras e bocas que merecem um prêmio, tudo isso regado à tererê e amendoim japonês. Muito amendoim japonês.
Seu nome deveria ser Paciência, sobrenome “dos Complexos”. Dona Paciência dos Complexos. Primeiro porque ela me aguenta, simples assim. Depois porque vive se achando muito mais do que realmente é; mais gorda, mais feia, mais burra, quando na verdade é linda em todos os sentidos. Tânia ama a palavra grotesco - até hoje não entendo por quais motivos, - e também se esbalda de rir quando eu falo “crianças pestes”. Vai entender, não é? Procuramos há tanto tempo um nome para nossa república, mas acho que no fim deveríamos simplesmente chamá-la de Hospício ou Manicômio, porque de loucura não nos falta nada.
Mas a realidade é que não sei escrever sobre quem me faz bem. Ironia ou não, as únicas pessoas por quem perdi horas digitando, apagando e reformulando, foram as que menos mereceram. Porque, Tânia, veja bem, escrever é minha maneira de expulsar os tormentos e aqueles que os provocaram. Ou pelo menos na teoria, já que no fim não expulso nada. Então, minha amiga, como você espera que eu fale sobre você e para você, quando tudo que faz é me trazer felicidade?
É essa, penso eu, a maneira mais próxima que meu coração fechado e meus modos reservados encontram de dizer que te amo, nega (mesmo que você me faça engordar demais)!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Paleta de cores.

Quero pintar a parede do quarto. De vermelho como a cor da humilhação ou de preto como o dia sem sol após a decepção. E mancha aqui, mancha ali, manchas alérgicas pelo corpo, manchas eternas e feias na alma. Quero pintar a parede do quarto com tinta vermelha como o rubor das faces quando você me olha ou com tinta preta apenas um pouco mais escura do que seus cabelos. Tem uma foto sua grudada com super bonder em algum cantinho perto da minha cama. Tem uma foto sua grudada com super bonder no meu coração. Tentei arrancar a primeira, mas a tinta descascou; tentei arrancar do peito, mas o amor não deixou. Olha só pra mim, quão patética me tornei, perdendo meu tempo com rimas baratas sem charme de poeta. Vou passar o rolo com tinta vermelha na sua imagem na parede, te esconder embaixo de uma camada grossa de cor escura e te deixar guardado ali para sempre. E você vai enxergar o mundo através de uma tela avermelhada como uma inflamação cheia de sangue nos olhos e vai entender como é difícil. Porque meu mundo se pinta de escarlate cada vez que você faz o que faz comigo. Não vermelho de tapete hollywoodiano, mas de vergonha, de arrependimento, de sangue colorindo as bochechas e circulando rápido demais, tão rápido que em algum lugar do cosmos alguém com superaudição consegue ouvir minhas artérias pulsarem. E depois fica tudo preto aqui no meu universo, preto como a tristeza, como o túnel sem luz, como o por-favor-não-faz-isso-comigo. Aqui e ali reluzem partículas coloridas de gente que sorri e me faz feliz. Mas aí vem você e deixa tudo preto de novo. Sempre assim, branco e preto, com pinceladas de vermelho. Porque branco é a mistura de todas as cores, assim como todas as nuances que só eu enxergo em você, como todos os seus tons que me completam e que me completariam ainda que eu fosse cega. Mas preto é ausência de cor. E depois de uma tempestade colorida de você, intensa, bela e fugaz, sempre sobra só o nada. Sobro eu me perguntando por quê tem que ser assim, por quê você me colore como o desenho de um livrinho infantil só para depois passar um corretivo e me deixar de novo descolorida, sem vida, sem vontade de erguer a cabeça. Cor por cor você leva embora meus tons alegres, deixando para trás um amontoado de misturas de aquarela que não deram certo.
Dessa vez voltei pra casa com bolhas nos pés porque quis usar o sapato que lhe agrada. Agora elas doem, gritam por clemência a cada passo que dou, me fazendo lembrar de uma noite que eu preferiria esquecer. Uma noite em que vesti meu tubinho verde-musgo, meia-calça, salto altíssimo, meu melhor brinco e a melhor maquiagem só para te ver procurando por alguém melhor do que eu. Não precisa procurar tanto assim, meu amor, não é difícil encontrar. Pode ser aquela morena, aquela loira, aquela ruiva; qualquer uma delas vai servir. Qualquer uma vai te encantar mais do que eu te encanto. E então, quando você estiver bêbado ou cansado demais, vai lembrar que eu existo e que estou em algum lugar da mesma festa que você, sozinha, esperando. Vai deitar a cabeça no meu ombro, segurar minha mão, pedir meu carinho sem necessariamente usar palavras. E quem vai te levar embora, segurando seu peso quantificado pelo álcool, e te botar pra dormir, serei eu e não uma das melhores que eu. Porque meu nível de estupidez é alto a esse ponto, alto o suficiente para permitir que eu te assista fazer cena a noite inteira e ainda assim te queira mais do que tudo no fim. Sou a débil que finge aproveitar a festa, imita a felicidade, disfarça a solidão e mostra a todos que não está nem aí, mas que na verdade só queria sentar em uma dessas cadeiras de plástico e chorar como se todos ao redor fossem cabeças de repolho que não se lembrariam de algo tão depreciativo no dia seguinte. Ao invés disso, no entanto, fico em pé a noite toda para não ceder à tristeza, criando bolhas nos pés e calos na dor silenciosa. As bolhas ainda doem, mas com os calos estou acostumando. A espera dos instantes em que você se aproximará de mim é a corda bamba que me sustenta e não me deixa chamar um táxi e ir embora sozinha. Mas, meu bem, essa corda está um tanto quanto gasta e em alguns pontos não há mais do que a espessura de um fio de náilon. Bastaria um corte de tesoura. Só um corte e seria o fim. O fim desse "nós" tão estranho que me confunde e magoa. O fim de tudo que você me obriga a ver, ouvir, sentir e sofrer em silêncio. Mas seria também o fim do calorzinho que se espalha em mim quando você está perto. Seria o fim dos abraços que me doem de tanta saudade um segundo após terminarem. Não mais espera por respostas que nunca vêm, mas também não mais euforia quando elas chegam um pouco atrasadas, dizendo que se perderam no caminho, por isso tardaram a aparecer. Fico eu nessa indecisão, tesoura em uma mão e corda nova na outra, tentando decidir se emendo as partes estragadas com nós fortes ou se corto a linha imaginária que nos prende de uma vez. Estou atada até os ossos por laços que espremem para dar a você cada gota de afeto meu. Na contramão estão seus laços frouxos, dos quais você se livra, some, depois volta a amarrar de maneira flexível para escapar quando quiser. E eu fico sozinha, esperando você voltar, porque meus nós são resistentes demais e meu apego é ainda maior que sua ausência. Mas no fim, amor, quando tudo que temos são nós, não resta muito para acalentar a esperança; só podemos escolher entre desfazê-los para sempre ou suportar seu aperto feroz. Não se desfaz um nó sem dor. Não se reatam as pontas sem amor. Não se transforma um nó embaralhado em um laço bonito de cetim. Você era meu presente, envolvido em fita azul com bordados prateados. E eu consegui transformar laços frágeis em nós profundos, transbordando gostar até pelos espacinhos mais minúsculos. E agora estou aqui, sem conseguir segurar essa onda imensa que arrebenta no meu peito, mas também incapaz de surfar com destreza. E você aí, sequinho, sequinho, sem onda, sem nós, sem nada a não ser uma leve correnteza que leva a todas as direções. Eu estou de braços abertos só esperando você escolher o córrego sinuoso que te traria à mim. Mas lá vai você, escolhendo outros caminhos a cada dia, cada vez mais longe de mim, e não há vento que te faça mudar de ideia a não ser o vento da bebedeira no final da noite.
Estou tentando dizer chega, colocar um ponto final em uma história cheia de reticências. Estou querendo escrever o meu “the end” em um livro que não sei como termina. Uma página escrita, quatro ou cinco vazias, outra página escrita. Palavras cada vez mais escassas. Nosso livro vai ficando comprido, uma verdadeira enciclopédia, mas já é possível contar nos dedos quantos foram nossos últimos momentos bonitos. Não tenho força, meu amor, pra pegar a caneta, escrever “fim”, fechar o livro e guardá-lo na estante. Fico revirando dolorosas páginas em branco, relendo os trechos já escritos que tanto me emocionam. Eu só queria um pouco de coragem para deixar de ser o ponto de interrogação e me transformar no ponto final. Mas, ah, suas reticências são sedutoras demais para serem abandonadas.
Eu queria mesmo pintar a parede do quarto e deixar sua fotografia embaixo da tinta. Esconder seus olhos, seus traços, sua barba. Esconder você de mim para proteger-me de você. Ou algo assim. Poderia pintar, repintar, e quem sabe até colocar um daqueles adesivos de árvores japonesas. De você, restariam apenas as linhas do retângulo que marca a fotografia. Eu queria, ah, como eu queria. Mas que besteira, não? Absurdo imaginar que te esconder embaixo de uma película vermelha ou preta me traria alguma paz. A verdade é que, ao deitar para dormir, o quarto inteiro desapareceria na escuridão, dissipar-se-ia nas sombras, exceto as linhas da sua foto. Meus dedos correriam por elas, querendo tanto ver seu rosto antes do sono chegar que uma coceira fantasma não seria de admirar. E, no desespero, não ficaria surpresa de acordar qualquer manhã encarando uma parede vermelha com um enorme espaço descascado, revelando uma fotografia emoldurada em tinta seca rasgada. É inútil pintar minhas paredes enquanto meu coração ainda estiver sendo colorido por você. Abdico da tinta, da fuga, da procura de outras cores que não as suas. Vou deixar que a sua brancura de mil tons me ame quando quiser, e sua ausência negra instale-se quando bem entender. Pra mim chega de tentar fechar o livro, de pintar paredes, de respirar embaixo d’água. Um pouco mais de você para mim, por favor, e bota na conta que eu pago mais tarde com minha solidão. Abro mão de ser a mulher esperta que vai embora enquanto ainda há remédio para a dor. Abro mão disso tudo porque de nada vale enxergar um mundo de cores se elas não forem as suas. Vou esperar pela próxima página, vou calçar o mesmo par de sapatos e torturar as mesmas bolhas só para ter de novo um pouquinho do seu arco-íris; não vou renegar a chuva que vem depois do sol, porque é a união de ambos que me traz você. E tudo bem se no final não existir pote de ouro nem duendes. Eu nunca acreditei nisso, afinal.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Saudade de adulto, coração de criança.

Alguém me disse que saudade é um prato que se come quente - muito quente - para ver se acaba logo. Otária que sou, entrei na vibe da velocidade e, sabe o quê? Acabei queimando a língua e não consegui comer mais nenhuma garfada. A saudade ficou ali, intacta, rindo da minha cara enquanto eu engolia litros de água para acalmar a ardência das células morrendo na boca. E por não ser um sentimento egoísta, quando percebe que vai conseguir machucar bastante, pra valer, a saudade chama toda a turma para a festa, porque aí sim a folia está armada. Meu coração vira um clube e, quanto mais tristeza carrega, mais decoração, luzes coloridas e gelo seco se instalam para o lado negro dos sentimentos. Logo chegam a angústia, a ansiedade e o desassossego para fazer parte da chacota, invadindo o local como penetras sem moral e trazendo consigo uma trupe gigante. Na porta não há seguranças, nem ninguém cobrando os tickets; dessa vez tá tudo liberado. Bebedeira, gritaria, avacalhação. Um tuntz-tuntz fenomenal tomou conta do meu peito e pensei que fosse a dor da desilusão, taquicardia emocional, quando na verdade era a galerinha da pesada acabando com meu sono e sanidade e deixando cacos de vidro espalhados pelo chão. Garrafas quebradas, drogas, putaria. A saudade comanda sua turma inescrupulosa, berrando "manda ver moçada, hoje a parada é nossa!". Sou dona da propriedade, sim, mas nada posso fazer quando o aluguel foi pago por uma noite inteira. Devo resignar-me e esperar que os ânimos esfriem e o festerê desenfreado acabe. Sou polícia que chega querendo botar banca, falando grosso e mandando todo mundo ir embora no mesmo minuto, achando que o cassetete mete medo em alguém; vem então a saudade e diz "se manda daqui, mermão, porque a gente tem alvará pra uma noite inteira de som alto e não ligamos a mínima se a vizinhança tá reclamando". Sou mãe de adolescente rebelde que liga avisando que está na hora de voltar pra casa, só para ouvir um "vê se me erra, mãe, a noite é uma criança". Porque, aqui no peito, sou mesmo uma criança sem você, uma criança abandonada que precisa aprender a se virar porque não vê uma mão estendida. Uma desprezada criança sofrendo de bullying na escola porque é um pouco diferente do convencional. Gorda demais, magra demais, quieta demais, espontânea demais. Vítima de indiferença. Arrasada pela sociedade opressora que exila quem está fora do padrão. Sou, então, uma criança fora do padrão aos seus olhos, olhos malvados mas ainda vistos com tanta doçura por esse meu coração que demora a aprender as consequências de seus atos infantis.
Não, coração, você não tem mais tamanho para isso, deve deixar de ser imaturo e acompanhar com a razão o crescimento de sua massa corpórea. Deve abandonar essa criança boba que ainda existe em você, que não cansa de sofrer os mesmos resultados de seus atos impensados. E apanha, apanha, apanha. É varinha, é chinelo, é toalha molhada debaixo do chuveiro. Apanha até ficar cheio de hematomas, mas é burro demais pra aprender. Burro demais pra ver que, desse jeito, vai morrer espancado pelo pouco caso, menosprezo e desgosto. Sempre pensando que, "ai", está apanhando, está doendo muito muito muito, mas amanhã vai sarar. Amanhã um gelo e uma pomada darão jeito nos ferimentos, um analgésico para a dor e pronto, tudo vai embora. Sempre querendo começar de novo, calando a voz da sabedoria que avisa que já é hora de deixar tudo isso para trás, que não há mais forças suficientes para resistir. Cólera, temor, melancolia. Tudo se fechando como um cinto apertado demais, estrangulador, mas sempre procurando por mais um espacinho que não esteja coberto de cicatrizes, algum pequeno canto que possa abrigar uma nova tentativa. "Olha só, aqui ainda cabe, você pode ficar aqui", diz sorridente o coração estúpido. E "tchi-pá"; é o som do chicote ferindo com sua ponta insensível novamente. Você é mesmo uma criança sem dignidade, não é mesmo coração? Não aguenta sem uma ferida aberta, sem um rasguinho no couro pra costurar, pra fechar os pontos dia após dia, com lentidão e sem anestesia. Sempre sangrando e limpando o maldito sangue, ardendo com água oxigenada. Seu passatempo é observar a cicatrização, o amontoado de células se juntando numa diapedese mal executada, formando o calombinho branco que permanece para o resto da vida. Masoquista, louco, insano. Quando você vai parar, coração? Quando vai perceber que não há mais espaço algum para cicatrizes, que tudo já está tomado de dor e de feridas que nunca irão se fechar, criando pus numa infecção generalizada? Você já virou uma massa disforme, graças à quantidade de linhas enrugadas e brancas que se formaram em sua superfície, mas os cortes mais profundos são eternos. Não há linha de sutura que aguente, não há ponto que seja firme o suficiente para unir as duas pontas do machucado. Não vai parar de sangrar e você, coração, criança burra, ainda procura por mais. Chega, estou avisando, você não pode arcar com mais pauladas; na próxima não será aceito em seu hospitalzinho medíocre.
Shhh, dorme coração. O barulho aí dentro está infernal, a festa vai longe, há muita comida e bebida à disposição da saudade e sua turma. Não há nada que você possa fazer, mas é hora de criança pequena deitar e dormir. Insônia, horror, apreensão. Agora não adianta, coração; você quis tanto uma história bonita e algo pra sonhar, mas conseguiu apenas mais um pesadelo para suas intermináveis noites maldormidas. Vá contar carneirinhos, se isso ajudar, mas trate de dormir agora. Se você não deixa de ser criança, deve ser tratado como tal, e crianças não tem permissão para permanecerem acordadas até altas horas da noite. Amanhã você pode brincar, pode levar sua peteca e sua bola para o jardim e se divertir, porque é isso que você faz, não é? Não passa de um pirralho afobado que vê a bola correndo em direção à rua e sai numa loucura desenfreada para buscá-la antes que seja atingida por um carro. E é você, então, que termina embaixo dos pneus, esmagado, reduzido a pó, sobrevivendo por tempo o bastante para ver sua bolinha colorida sendo levada para longe nos braços de outro coração, possivelmente um menos idiota. Pode chorar agora, otário, você não obedeceu aos limites do jardim, desobedeceu às regras, perdeu seu brinquedo e ainda vai apanhar por tudo isso. Mas a culpa é toda sua e de mais ninguém. Foi você quem não quis ouvir os os bons conselhos e foi você também quem não quis crescer, quem preferiu continuar na fase pré-escolar eternamente. Agora é tarde, pequenino, e quando der por conta você terá perdido os anos em que poderia ser maduro, mas ainda conservar aquele algo infantil, aquela pitada que dá graça à vida. Quando menos esperar você saltará da infância para a senilidade e não terá chance de deixar para trás um legado inteligente. Sua bagagem será burrada atrás de burrada, todas andando numa fila indiana como boas escoteiras.
Durma, coração, a festa há de acabar em breve. Em pouco tempo a saudade irá embora, bem como a maioria dos presentes. Ficarão apenas alguns retardatários, como a frustração e o abatimento, mas com estes você pode sobreviver, são quietos e toleráveis. Tudo vai estar silencioso novamente, até que a saudade cure sua ressaca e resolva patrocinar outra festa. Ela é bicho importante por estas bandas, não dá pra negar um aluguel, sabe como é. Mas você será avisado com antecedência, terá tempo de sobra para procurar uns tampões de ouvido ou um mp3. E caso, ainda assim, não consiga esconder os gritos vindos da festa ou de sua vizinha laringe, aí então você pode se sentir um lixo por ter escolhido viver todo esse fel que arrebatou sua alegria. Como uma boa samaritana, tento sufocar os ruídos atribulados do desespero e das lágrimas, mas nem tudo é tão simples. Você faz a bagunça e quem tem que pegar o esfregão e limpar sua merda todos os dias sou eu, andando por aí com um baita sorriso imaculadamente fixado no rosto, acenando para o mundo como se ninguém fosse mais feliz e as nuvens fossem mesmo de algodão. É a sua bosta toda e eu não sou psicóloga, estou ficando exausta de botar as mãos na massa por você. Da próxima vez que ferrar com tudo, vai se virar sozinho. Aguentará a festa e não terá sossego, será obrigado a sangrar, inflamar e inchar na frente de quem te ama, sofrendo quietinho e magoando quem menos merece ser magoado, fazendo chorar as poucas pessoas que se importam com sua saúde. Chega de subir em árvores só para se desequilibrar e levar tombos que viram chacota de quem vê. Eu lavarei minhas mãos, porque 21 anos esfregando com uma esponjinha toda a sua sujeira é tempo demais. Cansei de receber as olheiras enquanto você descansa com uma máscara de pepino nos olhos. Te vira, coração, ou cresce e aprende a trocar suas próprias fraldas porque o resto deste corpo está frustrado e decepcionado demais para continuar suportando sua birra e empáfia de criança mimada que não desiste de querer e tentar e sofrer e morrer um pouquinho a cada giro do relógio. Este corpo clama por silêncio; chega de festas, chega de atropelamentos, de brinquedos chegando em caixas bonitas embrulhadas em papel celofane e indo embora espatifados ou roubados, deixando para trás apenas a fita de cetim da embalagem como lembrança. Chega, por favor, coração, importe-se um pouco com o resto de mim e aquiete o que te impele a ser infantil, tão crente, tão sofrivelmente adaptado a receber nada em troca de muito. Não queira mais ser assim, coração, não queira mais levar essa vida de mão estendida como oferta e chutes na bunda e tapas na cara como recompensa. E se não conseguir resistir, se só tiver fraqueza estocada em seu ser, nenhuma réstia de força, e inclinar-se mais uma vez, algum dia, aos arroubos do amor, saiba que será sua última vez, porque este corpo não mais aguentará as consequências danosas e vis do que você não sabe administrar. O fardo será somente seu.

A festa acabou. Tudo está quieto agora, exceto pelos grilos cantarolando seu cri cri cri sem fim. Restos de comida e sujeira se amontoam em cada canto, mas a saudade está repousando em um divã de marfim. E matando por dentro. Até mesmo dormindo ela corrói. A saudade de você é horrível, mas ainda mais amarga é a de acreditar que a culpa não é desse meu jeito de ser que bota tudo a perder, que só consegue ser menos e não mais. A saudade de não ser um incômodo, um pegajoso e chato carrapato alheio ou um calo que só é suportado por não haver outra opção. A saudade de não viver de utopias e de não querer, sempre sempre sempre, trocar meu coração de criança por um de metal para que eu possa controlar suas decisões, enterrando o antigo no buraco mais fundo que meus braços me permitirem cavar. Essas saudades destroem muito mais, derretem e enlouquecem, dormem mas não descansam, estão sempre de vigília para ficar repassando na memória tudo que vivi e perdi, vivi e perdi, vivi e perdi incontáveis vezes. A festa acaba, a turma vai embora, mas fica a saudade e toda a dor velada que ela é capaz de causar com sua maestria de personalidade de sucesso com doutorado e PhD. Opressora, orgulhosa. E meu coração criança, que não consegue passar da primeira série, dorme um sono intranquilo, sempre à espera da próxima surra.
 
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