sábado, 23 de outubro de 2010

Ligue os pontos.


Olha, meu amor, sinto dizer que acabou. Sinto muito, sinto tanto, sinto de um tamanho muito maior que meus 164 centímetros. Você apareceu de repente e arrebatou minhas defesas sem precisar de muito esforço. Ontem havia ao meu lado uma imagem pontilhada, do tipo “ligue os pontos”, que sempre pareceu enigmática e complicada demais para que gastasse meu tempo tentando resolver. Quando criança, costumava ser boa nisso; minha mãe desenhava os pontinhos e, seguindo o tracejado, eu os transformava em paisagens, cogumelos com portinhas e nuvens de algodão-doce. Nada disso era difícil. Esse amontoado de pontinhos amorfos que sempre me acompanhou, no entanto, era complexo demais para ser elucidado. Pensei que fosse levá-los comigo para o caixão, sem jamais descobrir qual deveria ter sido sua forma.
E então chegou você. Não acredito em contos de fada, muito pouco em amor. Acredito em cavalos brancos – sem magia –, mas príncipes são seres tão lendários e irreais quanto vampiros. Então não, não vou entupir este texto de firulas e dizer que você chegou enfiado em uma camisa de babados, calça embalada à vácuo, botas de mosqueteiro e o cabelo balançando ao vento, montado em um cavalo de crina luminosa. Ah não, isso é um punhado de baboseiras e se visse algo assim eu sentaria para rir. Não, você chegou muito mais belo e real. Veio em suas calças jeans surradas, blusa de fio e cabelos que, infelizmente, não conheci quando compridos. E com uma barba que fez falta na única vez em que vi seu rosto liso. Veio a pé me fazendo companhia, outras vezes me dando carona em um carro que tem tanto de você que toda a cidade sabe que é seu. Chegou pegando subitamente um pedaço do meu coração para você e levando o resto aos poucos, pacientemente. Hoje há mais de mim em suas mãos do que ambos gostaríamos.
Ontem havia pontinhos voando espalhados ao meu lado; hoje até uma criança de três anos poderia ligá-los com uma canetinha colorida. Todos viraram luminosos como vaga-lumes e escolheram suas posições; abandonaram a confusão embaralhada e definiram um padrão que se parece com os desenhos tracejados de minha mãe, exceto que, desta vez, não há cogumelo algum. Desta vez há uma forma humana com seu corpo e suas feições. Desta vez há você, só esperando que eu brinque de traçar os pontos. Seu contorno luminoso me segue dia e noite e ocupa tanto meu coração que me surpreende ainda haver espaço para o sangue bombear. É como uma panela com água em ebulição; uma água doce com gosto de amor. Com açúcar e com afeto, parafraseando Chico Buarque.
Vou te contar, amor, que ver aquela bolinha de papel preto amassado de repente se transformar em você fez meu mundo virar de cabeça para baixo e o estômago embrulhar violentamente. Antes era confortável, sem imagem, sem desenho, sem apego. E agora é como um soco no abdome a cada manhã em que abro os olhos. Há dias em que tudo que queria era poder dormir novamente. Mas você roubou de mim o coração, os pontinhos, a paz e também o sono. Pegou sozinho uma caneta e riscou seus traços como quem diz: “se você não me pintar ao seu lado, eu mesmo pintarei”. Tudo bem mas, ei, você esqueceu de um detalhe. Esqueceu de preencher o que agora é seu contorno já traçado. Me deixou com sua forma de centro vazio, não colocou nada de sentimento, nada de você que pudesse torná-lo mais substancial. E eu posso te amar, posso passear de mãos dadas com o contorno vazio, posso querer que borracha nenhuma te apague daqui, mas não posso amar por nós dois. Se você tivesse um pontilhado meu, ele estaria preenchido com meu coração e tudo que de mais verdadeiro posso oferecer. Mas você nem quis ver meu desenho, aquele monte de pontinhos tristes que só queria um pouco do seu abraço. Você preferiu deixar a forma ao seu lado sem figura para caber qualquer pessoa. Eu poderia pegar minha própria caneta e me traçar segurando sua mão com cuidado, mas de nada adiantaria. Você enxergaria baratas, não vaga-lumes.
Não vou abandonar seu contorno em uma ruela qualquer; não pense que quando digo adeus estou dizendo que não te quero ou não te amo. É, ao contrário, amor e querer demais, quando tudo que vem de você chega em quantidades de menos. Não vou mentir que, se quiser, posso sentir apenas um nada absoluto. Gugu Keller me disse, certa vez, que “tudo de que precisamos para que um sentimento se agigante ou mesmo se eternize dentro de nós é que contra ele lutemos bravamente”. Ele tem razão. Tentei por muito tempo negar à minha própria consciência o quanto ela já estava tomada por você. Tentei fechar os olhos, esfregá-los com força, estapear a cara tentando te esquecer. Procurei não me importar com a maldita frase “esquece isso, cara” mas, quer saber? Não existe nada mais estúpido para ser dito a um coração preso nas garras de outro alguém. É como aconselhar a um preso que ele pare de sonhar com a liberdade.
Então, a partir de agora, digo sim. Sim, eu estou aqui morrendo aos poucos por ver em cada faceta de nosso caleidoscópio um motivo a mais para ir embora. Sim, eu amei cada detalhe seu como achei que nunca seria capaz. Sim, esses mesmos detalhes me martirizam à noite em meus sonhos e durante o dia flutuando em minha mente. Está martelando, sim, o pesar de ver que você se importa tão pouco, que eu fui apenas mais uma peça aleatória do seu efeito dominó. Uma pecinha lá do meio, derrubada por outras tantas que chegam avassaladoramente. Sim, martela ainda mais o fato de eu, por outro lado, me importar a ponto de não saber viver sem carregar esse peso por aí como uma nuvem chuvosa particular, sempre trovejando acima de mim. E todo esse martelar daqui, martelar dali, acabou martelando seus pontos em mim, grudando em minha pele tudo que nós vivemos. Debaixo de toda essa roupa, ando pelas ruas cravejada de pontinhos que, agora, são pregos eternos. Sangrando, infeccionando, fazendo casquinha e sangrando novamente. Pregos que desenharam sua forma em mim, para que eu jamais possa esquecer. Sem cicatrização. Sem analgésico o bastante para tantas feridas abertas.
Sim, é tudo isso mesmo, mas é nada disso também. Porque, embora esteja marcada por nossas lembranças e cercada por sentimentos que jamais se afastarão, estou dizendo adeus. Levo comigo um tracejado completo de você, e deixo contigo meu punhado de pontinhos amorfos. Você faz deles o que bem entender. Pode jogá-los fora, pode brincar como se fossem massinha de modelar, pode desprezá-los ou lançá-los longe com uma raquete. Só não os quero em minha bagagem porque desde o início pertencem a você e assisti-los morrendo, pouco a pouco, é mais do que meu corpo pregado pode suportar.
Isso é um adeus. Estou virando as costas e partindo antes que você mesmo o faça. Olharei para trás, sim, centenas de vezes, algumas na esperança de que você esteja tentando me alcançar, outras apenas para te ver ao longe. Estou indo embora fisicamente, mas deixando a parte mais viva de mim aqui, em seus braços. Vou andar devagar, caso você queira recuperar a distância entre nós. Se for me esquecer, tenha como última imagem aquela em que precisei me lembrar constantemente de não te abraçar para sempre. Mas se, por acaso, mudar de ideia e criar ao seu lado um contorno com meu formato, pode ligar os pontos e eu voltarei correndo o mais rápido que puder. Se decidir me amar, estarei esperando em algum ponto da estrada, para onde você pode vir de jeans surrado e blusa de fio. Pode vir com barba ou sem barba, tanto faz, basta vir e me envolver em seus braços como se nada houvesse existido antes, como se fosse esse nosso primeiro encontro. Pode vir a hora que quiser, do jeito que quiser. Apenas poupe-me do cavalo branco pois nossa vida nunca foi um conto de fadas.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Querida Josi...
Com os olhos rasos d'água por vc ter citado a mim neste teu novo belo e intenso desabafo, digo-te que, mesmo que esse teu amor tão lindo nunca seja correspondido como vc merece, ao menos um dia, tenho certeza, vc olhará para trás e se sentirá de algum modo feliz por já ter amado alguém com tanta coragem!
Beijos e muita, muita, muita admiração!
GK

Mia disse...

Que puta texto. Desespero que comove, que impulsiona e faz parar pra pensar entre a respiração afobada diante da beleza do texto.
Parabéns, adorei teu canto.

 
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