sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Paleta de cores.

Quero pintar a parede do quarto. De vermelho como a cor da humilhação ou de preto como o dia sem sol após a decepção. E mancha aqui, mancha ali, manchas alérgicas pelo corpo, manchas eternas e feias na alma. Quero pintar a parede do quarto com tinta vermelha como o rubor das faces quando você me olha ou com tinta preta apenas um pouco mais escura do que seus cabelos. Tem uma foto sua grudada com super bonder em algum cantinho perto da minha cama. Tem uma foto sua grudada com super bonder no meu coração. Tentei arrancar a primeira, mas a tinta descascou; tentei arrancar do peito, mas o amor não deixou. Olha só pra mim, quão patética me tornei, perdendo meu tempo com rimas baratas sem charme de poeta. Vou passar o rolo com tinta vermelha na sua imagem na parede, te esconder embaixo de uma camada grossa de cor escura e te deixar guardado ali para sempre. E você vai enxergar o mundo através de uma tela avermelhada como uma inflamação cheia de sangue nos olhos e vai entender como é difícil. Porque meu mundo se pinta de escarlate cada vez que você faz o que faz comigo. Não vermelho de tapete hollywoodiano, mas de vergonha, de arrependimento, de sangue colorindo as bochechas e circulando rápido demais, tão rápido que em algum lugar do cosmos alguém com superaudição consegue ouvir minhas artérias pulsarem. E depois fica tudo preto aqui no meu universo, preto como a tristeza, como o túnel sem luz, como o por-favor-não-faz-isso-comigo. Aqui e ali reluzem partículas coloridas de gente que sorri e me faz feliz. Mas aí vem você e deixa tudo preto de novo. Sempre assim, branco e preto, com pinceladas de vermelho. Porque branco é a mistura de todas as cores, assim como todas as nuances que só eu enxergo em você, como todos os seus tons que me completam e que me completariam ainda que eu fosse cega. Mas preto é ausência de cor. E depois de uma tempestade colorida de você, intensa, bela e fugaz, sempre sobra só o nada. Sobro eu me perguntando por quê tem que ser assim, por quê você me colore como o desenho de um livrinho infantil só para depois passar um corretivo e me deixar de novo descolorida, sem vida, sem vontade de erguer a cabeça. Cor por cor você leva embora meus tons alegres, deixando para trás um amontoado de misturas de aquarela que não deram certo.
Dessa vez voltei pra casa com bolhas nos pés porque quis usar o sapato que lhe agrada. Agora elas doem, gritam por clemência a cada passo que dou, me fazendo lembrar de uma noite que eu preferiria esquecer. Uma noite em que vesti meu tubinho verde-musgo, meia-calça, salto altíssimo, meu melhor brinco e a melhor maquiagem só para te ver procurando por alguém melhor do que eu. Não precisa procurar tanto assim, meu amor, não é difícil encontrar. Pode ser aquela morena, aquela loira, aquela ruiva; qualquer uma delas vai servir. Qualquer uma vai te encantar mais do que eu te encanto. E então, quando você estiver bêbado ou cansado demais, vai lembrar que eu existo e que estou em algum lugar da mesma festa que você, sozinha, esperando. Vai deitar a cabeça no meu ombro, segurar minha mão, pedir meu carinho sem necessariamente usar palavras. E quem vai te levar embora, segurando seu peso quantificado pelo álcool, e te botar pra dormir, serei eu e não uma das melhores que eu. Porque meu nível de estupidez é alto a esse ponto, alto o suficiente para permitir que eu te assista fazer cena a noite inteira e ainda assim te queira mais do que tudo no fim. Sou a débil que finge aproveitar a festa, imita a felicidade, disfarça a solidão e mostra a todos que não está nem aí, mas que na verdade só queria sentar em uma dessas cadeiras de plástico e chorar como se todos ao redor fossem cabeças de repolho que não se lembrariam de algo tão depreciativo no dia seguinte. Ao invés disso, no entanto, fico em pé a noite toda para não ceder à tristeza, criando bolhas nos pés e calos na dor silenciosa. As bolhas ainda doem, mas com os calos estou acostumando. A espera dos instantes em que você se aproximará de mim é a corda bamba que me sustenta e não me deixa chamar um táxi e ir embora sozinha. Mas, meu bem, essa corda está um tanto quanto gasta e em alguns pontos não há mais do que a espessura de um fio de náilon. Bastaria um corte de tesoura. Só um corte e seria o fim. O fim desse "nós" tão estranho que me confunde e magoa. O fim de tudo que você me obriga a ver, ouvir, sentir e sofrer em silêncio. Mas seria também o fim do calorzinho que se espalha em mim quando você está perto. Seria o fim dos abraços que me doem de tanta saudade um segundo após terminarem. Não mais espera por respostas que nunca vêm, mas também não mais euforia quando elas chegam um pouco atrasadas, dizendo que se perderam no caminho, por isso tardaram a aparecer. Fico eu nessa indecisão, tesoura em uma mão e corda nova na outra, tentando decidir se emendo as partes estragadas com nós fortes ou se corto a linha imaginária que nos prende de uma vez. Estou atada até os ossos por laços que espremem para dar a você cada gota de afeto meu. Na contramão estão seus laços frouxos, dos quais você se livra, some, depois volta a amarrar de maneira flexível para escapar quando quiser. E eu fico sozinha, esperando você voltar, porque meus nós são resistentes demais e meu apego é ainda maior que sua ausência. Mas no fim, amor, quando tudo que temos são nós, não resta muito para acalentar a esperança; só podemos escolher entre desfazê-los para sempre ou suportar seu aperto feroz. Não se desfaz um nó sem dor. Não se reatam as pontas sem amor. Não se transforma um nó embaralhado em um laço bonito de cetim. Você era meu presente, envolvido em fita azul com bordados prateados. E eu consegui transformar laços frágeis em nós profundos, transbordando gostar até pelos espacinhos mais minúsculos. E agora estou aqui, sem conseguir segurar essa onda imensa que arrebenta no meu peito, mas também incapaz de surfar com destreza. E você aí, sequinho, sequinho, sem onda, sem nós, sem nada a não ser uma leve correnteza que leva a todas as direções. Eu estou de braços abertos só esperando você escolher o córrego sinuoso que te traria à mim. Mas lá vai você, escolhendo outros caminhos a cada dia, cada vez mais longe de mim, e não há vento que te faça mudar de ideia a não ser o vento da bebedeira no final da noite.
Estou tentando dizer chega, colocar um ponto final em uma história cheia de reticências. Estou querendo escrever o meu “the end” em um livro que não sei como termina. Uma página escrita, quatro ou cinco vazias, outra página escrita. Palavras cada vez mais escassas. Nosso livro vai ficando comprido, uma verdadeira enciclopédia, mas já é possível contar nos dedos quantos foram nossos últimos momentos bonitos. Não tenho força, meu amor, pra pegar a caneta, escrever “fim”, fechar o livro e guardá-lo na estante. Fico revirando dolorosas páginas em branco, relendo os trechos já escritos que tanto me emocionam. Eu só queria um pouco de coragem para deixar de ser o ponto de interrogação e me transformar no ponto final. Mas, ah, suas reticências são sedutoras demais para serem abandonadas.
Eu queria mesmo pintar a parede do quarto e deixar sua fotografia embaixo da tinta. Esconder seus olhos, seus traços, sua barba. Esconder você de mim para proteger-me de você. Ou algo assim. Poderia pintar, repintar, e quem sabe até colocar um daqueles adesivos de árvores japonesas. De você, restariam apenas as linhas do retângulo que marca a fotografia. Eu queria, ah, como eu queria. Mas que besteira, não? Absurdo imaginar que te esconder embaixo de uma película vermelha ou preta me traria alguma paz. A verdade é que, ao deitar para dormir, o quarto inteiro desapareceria na escuridão, dissipar-se-ia nas sombras, exceto as linhas da sua foto. Meus dedos correriam por elas, querendo tanto ver seu rosto antes do sono chegar que uma coceira fantasma não seria de admirar. E, no desespero, não ficaria surpresa de acordar qualquer manhã encarando uma parede vermelha com um enorme espaço descascado, revelando uma fotografia emoldurada em tinta seca rasgada. É inútil pintar minhas paredes enquanto meu coração ainda estiver sendo colorido por você. Abdico da tinta, da fuga, da procura de outras cores que não as suas. Vou deixar que a sua brancura de mil tons me ame quando quiser, e sua ausência negra instale-se quando bem entender. Pra mim chega de tentar fechar o livro, de pintar paredes, de respirar embaixo d’água. Um pouco mais de você para mim, por favor, e bota na conta que eu pago mais tarde com minha solidão. Abro mão de ser a mulher esperta que vai embora enquanto ainda há remédio para a dor. Abro mão disso tudo porque de nada vale enxergar um mundo de cores se elas não forem as suas. Vou esperar pela próxima página, vou calçar o mesmo par de sapatos e torturar as mesmas bolhas só para ter de novo um pouquinho do seu arco-íris; não vou renegar a chuva que vem depois do sol, porque é a união de ambos que me traz você. E tudo bem se no final não existir pote de ouro nem duendes. Eu nunca acreditei nisso, afinal.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...
É definitivamente interessante, querida amiga, como teus tão densos textos sempre me remetem a alguma trilha sonora dos anos 80... Sim! Desta vez não pude deixar de pensar em "Acrilic on Canvas", canção do Legião, do legendário álbum "Dois", que nunca foi das mais tocadas mas que para mim é uma das melhores...! Estou agora escrevendo este pequeno comentário ao som dela! É, tem tudo a ver!
PS... Adoro jogar, como vc fez, não sei se conscientemente, com os três sentidos da palavra "nós"...! Ficou lindo, lindo, lindo!
PS2... Confesso que, quando leio teus textos, não consigo deixar de ficar pensando... "Quem será afinal esse estúpido, que tem todo esse precioso tesouro para si e nem percebe o quanto é infinitamente rico?!?"
GK

 
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