terça-feira, 5 de outubro de 2010

Saudade de adulto, coração de criança.

Alguém me disse que saudade é um prato que se come quente - muito quente - para ver se acaba logo. Otária que sou, entrei na vibe da velocidade e, sabe o quê? Acabei queimando a língua e não consegui comer mais nenhuma garfada. A saudade ficou ali, intacta, rindo da minha cara enquanto eu engolia litros de água para acalmar a ardência das células morrendo na boca. E por não ser um sentimento egoísta, quando percebe que vai conseguir machucar bastante, pra valer, a saudade chama toda a turma para a festa, porque aí sim a folia está armada. Meu coração vira um clube e, quanto mais tristeza carrega, mais decoração, luzes coloridas e gelo seco se instalam para o lado negro dos sentimentos. Logo chegam a angústia, a ansiedade e o desassossego para fazer parte da chacota, invadindo o local como penetras sem moral e trazendo consigo uma trupe gigante. Na porta não há seguranças, nem ninguém cobrando os tickets; dessa vez tá tudo liberado. Bebedeira, gritaria, avacalhação. Um tuntz-tuntz fenomenal tomou conta do meu peito e pensei que fosse a dor da desilusão, taquicardia emocional, quando na verdade era a galerinha da pesada acabando com meu sono e sanidade e deixando cacos de vidro espalhados pelo chão. Garrafas quebradas, drogas, putaria. A saudade comanda sua turma inescrupulosa, berrando "manda ver moçada, hoje a parada é nossa!". Sou dona da propriedade, sim, mas nada posso fazer quando o aluguel foi pago por uma noite inteira. Devo resignar-me e esperar que os ânimos esfriem e o festerê desenfreado acabe. Sou polícia que chega querendo botar banca, falando grosso e mandando todo mundo ir embora no mesmo minuto, achando que o cassetete mete medo em alguém; vem então a saudade e diz "se manda daqui, mermão, porque a gente tem alvará pra uma noite inteira de som alto e não ligamos a mínima se a vizinhança tá reclamando". Sou mãe de adolescente rebelde que liga avisando que está na hora de voltar pra casa, só para ouvir um "vê se me erra, mãe, a noite é uma criança". Porque, aqui no peito, sou mesmo uma criança sem você, uma criança abandonada que precisa aprender a se virar porque não vê uma mão estendida. Uma desprezada criança sofrendo de bullying na escola porque é um pouco diferente do convencional. Gorda demais, magra demais, quieta demais, espontânea demais. Vítima de indiferença. Arrasada pela sociedade opressora que exila quem está fora do padrão. Sou, então, uma criança fora do padrão aos seus olhos, olhos malvados mas ainda vistos com tanta doçura por esse meu coração que demora a aprender as consequências de seus atos infantis.
Não, coração, você não tem mais tamanho para isso, deve deixar de ser imaturo e acompanhar com a razão o crescimento de sua massa corpórea. Deve abandonar essa criança boba que ainda existe em você, que não cansa de sofrer os mesmos resultados de seus atos impensados. E apanha, apanha, apanha. É varinha, é chinelo, é toalha molhada debaixo do chuveiro. Apanha até ficar cheio de hematomas, mas é burro demais pra aprender. Burro demais pra ver que, desse jeito, vai morrer espancado pelo pouco caso, menosprezo e desgosto. Sempre pensando que, "ai", está apanhando, está doendo muito muito muito, mas amanhã vai sarar. Amanhã um gelo e uma pomada darão jeito nos ferimentos, um analgésico para a dor e pronto, tudo vai embora. Sempre querendo começar de novo, calando a voz da sabedoria que avisa que já é hora de deixar tudo isso para trás, que não há mais forças suficientes para resistir. Cólera, temor, melancolia. Tudo se fechando como um cinto apertado demais, estrangulador, mas sempre procurando por mais um espacinho que não esteja coberto de cicatrizes, algum pequeno canto que possa abrigar uma nova tentativa. "Olha só, aqui ainda cabe, você pode ficar aqui", diz sorridente o coração estúpido. E "tchi-pá"; é o som do chicote ferindo com sua ponta insensível novamente. Você é mesmo uma criança sem dignidade, não é mesmo coração? Não aguenta sem uma ferida aberta, sem um rasguinho no couro pra costurar, pra fechar os pontos dia após dia, com lentidão e sem anestesia. Sempre sangrando e limpando o maldito sangue, ardendo com água oxigenada. Seu passatempo é observar a cicatrização, o amontoado de células se juntando numa diapedese mal executada, formando o calombinho branco que permanece para o resto da vida. Masoquista, louco, insano. Quando você vai parar, coração? Quando vai perceber que não há mais espaço algum para cicatrizes, que tudo já está tomado de dor e de feridas que nunca irão se fechar, criando pus numa infecção generalizada? Você já virou uma massa disforme, graças à quantidade de linhas enrugadas e brancas que se formaram em sua superfície, mas os cortes mais profundos são eternos. Não há linha de sutura que aguente, não há ponto que seja firme o suficiente para unir as duas pontas do machucado. Não vai parar de sangrar e você, coração, criança burra, ainda procura por mais. Chega, estou avisando, você não pode arcar com mais pauladas; na próxima não será aceito em seu hospitalzinho medíocre.
Shhh, dorme coração. O barulho aí dentro está infernal, a festa vai longe, há muita comida e bebida à disposição da saudade e sua turma. Não há nada que você possa fazer, mas é hora de criança pequena deitar e dormir. Insônia, horror, apreensão. Agora não adianta, coração; você quis tanto uma história bonita e algo pra sonhar, mas conseguiu apenas mais um pesadelo para suas intermináveis noites maldormidas. Vá contar carneirinhos, se isso ajudar, mas trate de dormir agora. Se você não deixa de ser criança, deve ser tratado como tal, e crianças não tem permissão para permanecerem acordadas até altas horas da noite. Amanhã você pode brincar, pode levar sua peteca e sua bola para o jardim e se divertir, porque é isso que você faz, não é? Não passa de um pirralho afobado que vê a bola correndo em direção à rua e sai numa loucura desenfreada para buscá-la antes que seja atingida por um carro. E é você, então, que termina embaixo dos pneus, esmagado, reduzido a pó, sobrevivendo por tempo o bastante para ver sua bolinha colorida sendo levada para longe nos braços de outro coração, possivelmente um menos idiota. Pode chorar agora, otário, você não obedeceu aos limites do jardim, desobedeceu às regras, perdeu seu brinquedo e ainda vai apanhar por tudo isso. Mas a culpa é toda sua e de mais ninguém. Foi você quem não quis ouvir os os bons conselhos e foi você também quem não quis crescer, quem preferiu continuar na fase pré-escolar eternamente. Agora é tarde, pequenino, e quando der por conta você terá perdido os anos em que poderia ser maduro, mas ainda conservar aquele algo infantil, aquela pitada que dá graça à vida. Quando menos esperar você saltará da infância para a senilidade e não terá chance de deixar para trás um legado inteligente. Sua bagagem será burrada atrás de burrada, todas andando numa fila indiana como boas escoteiras.
Durma, coração, a festa há de acabar em breve. Em pouco tempo a saudade irá embora, bem como a maioria dos presentes. Ficarão apenas alguns retardatários, como a frustração e o abatimento, mas com estes você pode sobreviver, são quietos e toleráveis. Tudo vai estar silencioso novamente, até que a saudade cure sua ressaca e resolva patrocinar outra festa. Ela é bicho importante por estas bandas, não dá pra negar um aluguel, sabe como é. Mas você será avisado com antecedência, terá tempo de sobra para procurar uns tampões de ouvido ou um mp3. E caso, ainda assim, não consiga esconder os gritos vindos da festa ou de sua vizinha laringe, aí então você pode se sentir um lixo por ter escolhido viver todo esse fel que arrebatou sua alegria. Como uma boa samaritana, tento sufocar os ruídos atribulados do desespero e das lágrimas, mas nem tudo é tão simples. Você faz a bagunça e quem tem que pegar o esfregão e limpar sua merda todos os dias sou eu, andando por aí com um baita sorriso imaculadamente fixado no rosto, acenando para o mundo como se ninguém fosse mais feliz e as nuvens fossem mesmo de algodão. É a sua bosta toda e eu não sou psicóloga, estou ficando exausta de botar as mãos na massa por você. Da próxima vez que ferrar com tudo, vai se virar sozinho. Aguentará a festa e não terá sossego, será obrigado a sangrar, inflamar e inchar na frente de quem te ama, sofrendo quietinho e magoando quem menos merece ser magoado, fazendo chorar as poucas pessoas que se importam com sua saúde. Chega de subir em árvores só para se desequilibrar e levar tombos que viram chacota de quem vê. Eu lavarei minhas mãos, porque 21 anos esfregando com uma esponjinha toda a sua sujeira é tempo demais. Cansei de receber as olheiras enquanto você descansa com uma máscara de pepino nos olhos. Te vira, coração, ou cresce e aprende a trocar suas próprias fraldas porque o resto deste corpo está frustrado e decepcionado demais para continuar suportando sua birra e empáfia de criança mimada que não desiste de querer e tentar e sofrer e morrer um pouquinho a cada giro do relógio. Este corpo clama por silêncio; chega de festas, chega de atropelamentos, de brinquedos chegando em caixas bonitas embrulhadas em papel celofane e indo embora espatifados ou roubados, deixando para trás apenas a fita de cetim da embalagem como lembrança. Chega, por favor, coração, importe-se um pouco com o resto de mim e aquiete o que te impele a ser infantil, tão crente, tão sofrivelmente adaptado a receber nada em troca de muito. Não queira mais ser assim, coração, não queira mais levar essa vida de mão estendida como oferta e chutes na bunda e tapas na cara como recompensa. E se não conseguir resistir, se só tiver fraqueza estocada em seu ser, nenhuma réstia de força, e inclinar-se mais uma vez, algum dia, aos arroubos do amor, saiba que será sua última vez, porque este corpo não mais aguentará as consequências danosas e vis do que você não sabe administrar. O fardo será somente seu.

A festa acabou. Tudo está quieto agora, exceto pelos grilos cantarolando seu cri cri cri sem fim. Restos de comida e sujeira se amontoam em cada canto, mas a saudade está repousando em um divã de marfim. E matando por dentro. Até mesmo dormindo ela corrói. A saudade de você é horrível, mas ainda mais amarga é a de acreditar que a culpa não é desse meu jeito de ser que bota tudo a perder, que só consegue ser menos e não mais. A saudade de não ser um incômodo, um pegajoso e chato carrapato alheio ou um calo que só é suportado por não haver outra opção. A saudade de não viver de utopias e de não querer, sempre sempre sempre, trocar meu coração de criança por um de metal para que eu possa controlar suas decisões, enterrando o antigo no buraco mais fundo que meus braços me permitirem cavar. Essas saudades destroem muito mais, derretem e enlouquecem, dormem mas não descansam, estão sempre de vigília para ficar repassando na memória tudo que vivi e perdi, vivi e perdi, vivi e perdi incontáveis vezes. A festa acaba, a turma vai embora, mas fica a saudade e toda a dor velada que ela é capaz de causar com sua maestria de personalidade de sucesso com doutorado e PhD. Opressora, orgulhosa. E meu coração criança, que não consegue passar da primeira série, dorme um sono intranquilo, sempre à espera da próxima surra.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Tudo de que precisamos, minha doce amiga, para que um sentimento se agigante ou mesmo se eternize dentro de nós é que contra ele lutemos bravamente...!
GK

Francisco Mallmann disse...

Lindo! Sensível, nostálgico... amei!
Aliás, aproveito para agradecer a visita!
Seus textos são ótimos!

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