segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Curinga desempregado.

Ás, dois, três. Valete, dama, rei. Treze cartas, quatro naipes. Cinquenta e duas possibilidades de fazer parte do baralho legítimo, das cartas reais e adoradas. Cinquenta e duas possibilidades e, ainda assim, sou a quinquagésima terceira: o curinga. A única carta descartável, que serve apenas para alguns poucos jogos. O curinga e sua nulidade. O curinga e sua obrigação de fazer o monarca rir, dançando para lá e para cá com os penduricalhos de seu chapéu gigante e destrambelhado. Quando há um buraco no jogo, uma carta faltando, o jogador usa o curinga. Quando o naipe em suas mãos é diferente do que a canastra exige, o jogador usa o curinga. E só. Este é seu fim, caro Joker. De bobo da corte à tapa buracos, você manda assustadoramente bem. Faz-se merecedor de aplausos sarcásticos.
O curinga sabe que não passa de uma opção temporária. Não deve se envolver com ninguém porque sua estadia será breve, não haverá jamais tempo para cativar a carta amada, seja ela qual for. Não haverão meios para mostrar a ela como é grande o coração que se esconde atrás da figura de palhaço colorido e sorriso dissimulado. Ele sabe. Sabe que ficará na jogada por duas ou três rodadas, até que apareça a carta certa. Aquela que será apresentada com orgulho, sorriso nos lábios e um sonoro e apaixonado "é ela". Aí, então, o jogador tira o curinga e sua feiura do meio da bela canastra, porque não combina. A nova carta entra na parada, substituindo e encaixando perfeitamente porque é a verdadeira. Ela ganhará não só o jogo, mas também o amor. A máxima "sorte no jogo, azar no amor" não se aplica à vida do curinga, que será largado em um canto qualquer até que outra carta desapareça ou demore a chegar com sua bunda perfeita e conversinha fácil. Operação de resgate, pesca sem isca. Abriu uma vaguinha e o tapa buracos está lá novamente, tentando caber. Tentando desesperadamente se ajustar para ser feliz. Tudo para depois ser descartado como lixo e ter seus resquícios de dignidade chutados sem piedade por um pé calçado em chuteira profissional, que é para doer mais.
Houve um tempo em que quis ser a dama, o ás ou qualquer outro número desde que fosse para permanecer na vida de alguém. Para ser legítima. Para sentir o gostinho de ter um naipe só meu. Desejei a segurança de estar em um universo particular, ocupando o espaço anteriormente vazio do coração de alguém e transformando esse coração em nada menos que meu mundo, a caixinha onde o baralho dorme quando os boêmios descansam. Naquele tempo eu sonhava em chegar com mala, naipe e tapete de boas-vindas, anunciando toda prosa que chegara para ficar e enxergando felicidade plácida no rosto daquele que ganhara meu amor. Sonhava em pedir demissão do cargo de idiota que deve fazer palhaçadas para o senhorio e sair pelas ruas à procura de um emprego melhor. Por muito tempo acreditei que poderia aprender a ser outro tipo de carta, a realizar outros feitos no baralho, a mudar a sorte de um jogador para sempre. Mas não existe telecurso 2000 para deixar de ser curinga. O tempo todo buscando um lugarzinho fora da caixa, uma maneira de mudar a situação de ser o dedo tapando o buraco da barragem enquanto o cimento não chega. Maquiando, espremendo, dobrando para caber em canastras que não foram feitas para mim. Sofrendo a cada desilusão, a cada tentativa frustrada de me moldar em um rosto de dama para conseguir ficar onde os curingas não são hóspedes bem recebidos.
Esse tempo acabou. Agora entendo que, uma vez curinga, curinga para sempre. Acostumei-me a ser expulsa de corações que pensava ter ocupado por mais tempo do que a data de vencimento do contrato de aluguel. Habituei-me a ser despejada com todas as tralhas caindo ao meu redor, não por falta de pagamento, mas por não ser a moradora ideal. Quis mais do que tudo ser uma carta diferente, única, de naipe vermelho ou preto, mas tudo que alcancei foi a figura de curinga, a escória das cartas, o descartável. Hoje já desisti. Ainda machuca olhar no espelho e enxergar esse desenho colorido e infame que amedronta alguns e é inútil para outros. Ainda dói ostentar esse sorriso monstruoso, reverberando nas canastras alheias, quando uma pequena lágrima escorre pelo canto de um olho. Mas pelo menos, há muito tempo, não latejam mais os músculos dentro de caixinhas apertadas demais para esse tamanho todo de curinga. Porque quando você não cabe em lugar algum e sua mão não se encaixa em nenhuma outra, a vida é solitária. Solidão, no entanto, é uma das coisas mais belas que um curinga pode provar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A nossa tempestade.


Ao fundo um professor explica processos sinápticos, mas não presto atenção porque estou focada demais em manter as vísceras em seus lugares corretos. Na falta de ar-condicionado a porta da sala ficou aberta para que os alunos não derretam no calor da pequena Palotina. Não é minha culpa se me perco em devaneios olhando para fora quando deveria enxergar estritamente o quadro cheio de desenhos neuronais. Ou é. Tanto faz. O fato é que agora um alarme cerebral berra violentamente em meus sentidos só porque você passou no corredor ali fora. Não posso abrir a boca porque sairá um barulho misturando sirene de viatura policial e gritos de “segurem aquele coração!”, enquanto o dito cujo rola para longe em sua pulsação tremendamente exagerada. Já sinto a acidez do estômago chegando à garganta, querendo ir embora também.
Todo esse caos só porque você passou. Não durou mais que três segundos. Suficiente. Três segundos são mais do que o necessário para que eu enxergue o mundo em você. Tão seguro, tão firme em seus passos, atitudes e feições. Firme nos músculos... Ah, esses músculos. Como diabos devo prestar atenção nas tais células de Schwann quando tem um filme sobre você – e seus músculos – passando em slow motion bem na frente dos meus olhos? Está em cartaz: “Ele é o cara”, estrelando o homem dos músculos mais proporcionalmente bem desenhados. É seu último lançamento, acrescentado recentemente à filmografia em expansão. Conta a história de um cara que poderia ter o universo aos seus pés, mas preferiu ser o universo de uma só mulher. O romance de um cara que não sabia o quanto era amado, mas que sabia que, independente de quanto sentimento estivesse envolvido, mais cedo ou mais tarde teria um fim inevitável. Uma história sobre o cara dos músculos incríveis, da barba incrível, da personalidade incrível, que faria suas malas em uma data qualquer coisa menos incrível.
Bainha de mielina, blá blá blá. Você passou ali e eu fiquei babando aqui, um nível acima das cabeças pensantes que estudam os problemas da desmielinização. Estúpida, foi só uma olhadinha, coisa de uma piscadela, e deixo de ser a mulher de sempre para virar uma adolescente sonhadora, do tipo que me faz querer vomitar a bolacha de aveia do café-da-manhã. Você caminha todo lindo, o peito onde eu adoro dormir tão estufado quanto um balão de gás hélio. E eu quase deitada por cima da carteira, derrubada na postura corcunda de quem não aguenta o próprio peso. Com cara despreocupada, beliscando o lábio inferior com o polegar e o dedo médio, mania inconveniente.
Um fluxo de imagens compete por um lugar no meu cérebro. Levanto vagarosamente, ignorando os olhares curiosos, e vou de encontro a você, que me espera ancorado no batente da porta. Seguro sua nuca com delicadeza e você agarra meus cabelos, puxando-me com vontade para um beijo cuja música de fundo é o professor discorrendo, agora, sobre líquido cefalorraquidiano. O primeiro dos delírios. Fico puta quando alguém me arranca, com um cutucão, de meu pequeno sonho de olhos abertos, perguntando-me por quê o sorriso na cara por uma matéria tão chata. E de repente não estou mais puta e nem há professor cuspindo sem vontade algo sobre meninges do encéfalo. A música agora é um rock’n’roll do AC/DC e o som de nossas risadas enquanto corremos e sujamos as barras de nossas calças com o marrom da terra que cobre as ruas de Palotina. Não temos destino certo, nem objetivo, mas fluímos como duas nuvens passageiras, prontas para envolver o mundo em tempestades bonitas, porém perigosas. E isso é o segundo delírio.
Todas as mil fábulas que se formam em minha mente são melhores do que a original. Porque, na original, nada disso acontece. Nem beijo, nem sorriso, nem correria com “you shook me all night long”. Na original eu deveria estar prestando atenção na aula da faculdade, mas estava olhando para fora. E então você passou pela porta, em direção ao banheiro do bloco novo, me viu, sorriu e piscou. Eu te vi e só, mais nada. O coração acelerou, tudo virou silêncio e névoa como parte da ansiedade e do suor frio que sua presença traz. Mas, embora ninguém tenha percebido, um sorriso realmente tomou conta de meus lábios. Porque, originalmente, ainda que nossas tempestades atinjam tão somente duas vidas, elas não deixam de ser os espetáculos mais magníficos da natureza. Flórida, você perdeu. Fique com seus raios e trovões, porque nós temos uma bela de uma chuva de granizos para viver bem aqui.

domingo, 14 de novembro de 2010

O desenho final.


Em algum lugar do mundo uma criança desenha um coração partido. Ela é muito nova para saber, mas seus traços meio tortos, coloridos com indiferença, contam ao universo uma história realista demais. Seu lápis vermelho de ponta gasta traça duas metades gordinhas de um típico coração infantil, sem ligamentos para mantê-lo unido. O lado interno está serrilhado. De outro cômodo a mãe enxerga a pequena criatura - toda bochechas e cabelos dourados – delinear seu destino em uma folha sulfite, sem nada poder fazer. O impulso lhe diz para sair correndo, tomar o lápis e ralhar com a menina, fazendo-a prometer jamais desenhar um coração em pedaços novamente. Mas a criança é jovem demais para compreender desesperos incontidos. Além do mais, o que está feito, está feito; um desenho terminado é como uma palavra dita: não se volta atrás, uma vez expelido pela alma, pertence ao mundo. A mãe é sensata o bastante para compreender qual deve ser seu próximo ato. Pode guardar as duas metades do coração no fundo de uma gaveta esquecida e torcer para que seu efeito seja o retardatário que chega quando a festa já terminou e não há mais importância, ou ainda que – perdido entre tantos outros papéis – perca sua força. Mas ela aprendeu, à base de tombos brutais, que artimanhas são inúteis. A menina desenhou um coração partido, um coração partido a menina terá. Sua segunda opção é jogar aquela obra tremida pela janela da casa e deixar que o vento a leve para onde quiser. Ninguém conhecerá seu destino. Ela pode voar por continentes inteiros ou parar na casa ao lado; impossível predizer. Mas alguém encontrará a folha, suja e amassada pelas intempéries do tempo. Uma folha amarelada com duas partes de um mesmo coração rabiscadas claramente pelas mãos descoordenadas de uma criança. E então, como num jogo de dados onde não se sabe qual será a próxima pedra, outra pessoa será atingida pelo poder do desenho infantil. Outro alguém terá, inevitavelmente, seu coração partido. Rasgar não resolve, apenas estilhaça o coração ainda mais ferozmente. Não adianta cuspir, não adianta correr na direção contrária. A folha dos corações partidos é implacável como uma grande mão que aponta para os sofredores. Ela escolhe: você, você e mais você. Não retrocede, não negocia, não aceita corrupção.
A mãe cogita jogar o desenho pela janela, é claro, mesmo sabendo quão terrível é transferir a um desconhecido a tristeza que deveria ser de sua filha. Mas é isso que costumam chamar de proteção materna, não? Com pesar ela pensa, uma última vez, como teria sido mais fácil se sua pequena tivesse desenhado um coração inteiro, intacto, rechonchudo e brilhoso. Nada precisaria ser feito, a mão-folha se encarregaria de recepcionar a felicidade. Mas o mundo não é fácil. Toda pessoa, em algum momento de sua infância, há de desenhar um coração. Não porque seja a figura mais bela para ser reproduzida, nem tampouco a mais real. Não é uma escolha consciente, embora se mascare assim. É a decisão daquela mão invisível que aponta, que ri com escárnio enquanto usa as pontas dos dedos para selecionar quem será amado e quem padecerá no caminho das desilusões. Quem terá a sensação ridícula de bolhas em formato de corações voando sobre a cabeça, e quem verá essas bolhas estourando e doendo uma a uma, deixando um vácuo onde deveria estar alguém. É essa mão que escolhe que desenho cada de um de nós fará, ainda na tenra idade da incompreensão. É essa mão que nos diz se desenharemos um coração inteiro e sorridente ou um coração monstrengo dividido em pedaços desiguais.
E, porque não tem alternativas nem meios para lutar, a mãe decide tentar algo diferente. Não quer assistir sua filha chegando em casa com lágrimas nos olhos porque seu amor a abandonou. Não deseja vê-la padecendo por dias a fio no sofá, com a cara esmagada sobre uma almofada. Não quer imaginar quem causará mal à sua macaquinha quando ela se tornar uma mulher. Mas também não pode carregar nas costas o peso de acabar com o coração de um desconhecido. Ela caminha lentamente, então, até a pequena cômoda ao lado da cama, abre a gaveta onde ficam guardados os aviamentos e tira de lá agulha e linha vermelha grossa. Um fio de lã, para garantir. Prepara um nozinho em uma ponta e volta à sala. A criança pegou no sono, lápis e folhas espalhados ao seu redor. Ela senta, segura o desenho com mãos mais trêmulas do que gostaria e perde-se em devaneios por alguns instantes, antes de começar seu trabalho cuidadoso. Com calma e delicadeza, afunda a agulha na porção mais baixa da folha, no ápice do lado direito do coração. Puxando a lã pelo buraquinho feito, perfura o lado esquerdo e transpassa o fio até a folha enrugar um pouco no centro. É o primeiro ligamento do coração partido e a mãe percebe que seu plano tem chances de dar certo. Ponto após ponto ela costura as duas metades rabiscadas como se fossem pedaços de um tecido rasgado. Puxa daqui, repuxa dali. Não demora muito para que ela prepare um segundo nozinho e corte o fio restante. A mãe fez o seu melhor. Costurou tudo, preencheu tudo que era vazio, protegeu sua filha do jeito mais bonito que podia. Depois de guardar o desenho, agora unido, em uma gaveta onde jamais será encontrado, resta apenas esperar pelos caprichos da vida e torcer para que a costura seja resistente. Ela leva a menina para a cama e dá um beijo suave em sua testa cheia do suor do sono infantil, mas ainda leva mais de cinco minutos antes de parar de admirar a criatura que mais ama no mundo, apagar a luz e ir dormir. Ela acredita, com todas as forças, que sua ideia pode funcionar.
Mas a mão-folha, em outro lugar do mundo, ri. Sem parar, sem conseguir respirar com tanta diversão. Bobinha, pensa, nem seu amor de mãe pode salvar o coração de uma criança predestinada a sofrer. A costura ficou bonita, forte, rígida. A menina será uma fortaleza por muito tempo. Mas sempre haverá, em seu destino, uma encruzilhada onde a escolha será dolorosa, onde o amor não será recompensador, onde a vida padecerá na falta de esperança. E a mão-folha apenas ri porque já fez sua escolha e já apontou seu dedo odioso. Ri porque a garotinha será capaz de amar, mas nunca conseguirá escolher corretamente a quem oferecer seu coração. Ri porque tudo tem seu tempo e o tempo da menina chegará, pela primeira vez, aos vinte e um anos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Onde meias encardidas não importam.

O chão do banheiro é sempre gelado demais. No inverno só dá para aguentar usando pantufas de patas de monstro. No verão ando sem chinelo pela casa até alguém ralhar comigo avisando que minhas meias nunca mais serão brancas. Tenho uma gaveta abarrotada de meias encardidas, mas não consigo jogar os pares fora só para precisar comprar outros. E daí se minhas meias são meio marronzinhas – eu penso –, minha alma também é encardida pra cacete e ninguém nunca deu um pio sequer a respeito. Meia gasta não pode ficar, tem que ir para o lixo. Se tiver um furo no dedão então, é um abominável ser que voltou das caçambas dos caminhões de lixo. Mas alma pode. Com alma gasta, furada e encardida ninguém se importa. Eu gosto das meias velhas, provavelmente muito mais do que da alma amarelada e cheia de rugas que vive aqui dizendo ser minha.
O chão do banheiro é sempre gelado demais, menos hoje. Hoje, sentada aqui, olhando para o box de vidro, não sinto nada. Nem as lajotas, nem cheiro de privada, nem nada além da mágoa chorosa e do cheiro de rejeição. Em algum momento levantei, encarei minhas olheiras, tomei um pouco de água da torneira e voltei a sentar. Existe um mundo fora das paredes de um banheiro pequeno, mas hoje ele não me parece interessante. Hoje me enfiei em calças de pijama coloridas, suéter grande demais, uma das meias velhas, e sentei no chão do banheiro com uma caneca de chá sem açúcar nas mãos e cabelos tão desgrenhados que provocariam ânsia em qualquer cabeleireiro. E o chá esfriou, os cabelos continuaram uma bagunça e eu continuei sentada no chão do banheiro gelado. Pensando. "Despensando". Pensando novamente. Chorando um pouquinho. Chorando o que dez pessoas não choram juntas em um mês. Não bebendo o chá. Engolindo só golfadas de melancolia. E deixando meus olhos com a aparência de quem apanhou do Jack Bauer, aquele cara que detona qualquer parada em 24 horas e que minha mãe adora. Mas tô cagando pra minha aparência, embora não esteja sentada no vaso. Quando eu sair daqui vou procurar uma roupa estilosa, vou usar maquiagens da M.A.C e da Lancôme para tentar parecer bonita e vou me chamar de porca por ter uma bunda tão grande e cheia de celulites. Depois vou querer arrancar o excesso de barriga com uma faca afiada, antes de resolver apenas ir para a academia fazer os malditos abdominais. Juro que depois vou pensar em tudo isso, mas por enquanto quero só as lajotas, o silêncio branco do banheiro, meu chá sem gosto e um livro do Woody Allen. Gosto daqui, talvez mais do que do meu quarto. Poderia colocar uma plaquinha com meu nome, chamar esse lugar de meu. Mas penso que as outras moradoras da casa não gostariam da ideia quando precisassem mijar. Mijar, sim, porque eu nunca aprendi a falar com tanta feminilidade quanto uma dama que diz "fazer pipi".
Não, hoje não tô pra ninguém. Não quero essa merda de “credo, levanta daí mulher, ergue essa cabeça”. Deixa eu curtir minha fossa, meu sofrimento de filme triste, daqueles que a gente continua chorando mesmo quando já terminou há horas. Daqueles que são tão bem planejados pra fazer a indústria dos lenços de papel lucrar que até a música dos créditos finais é triste de doer. Só me deixa. Só isso. Eu estou aqui, não tenho bisturi nem gilete por perto, vai ficar tudo bem. Mas estou doendo e preciso do banheiro para chorar ouvindo Seether cantar Careless whisper, ou Renato Russo e RPM dizendo sabiamente que “aquele beijo era mesmo o fim”. E como na música, meu desejo se perdeu de mim. Foi sozinho buscar o que queria e agora quem sofre com a certeza de que tudo foi errado demais sou eu. Palmas para o desejo, vai voltar acuado pedindo desculpas - tarde demais - para um coração rejeitado - demais - por amar - demais. Tudo demais, demais, demais.
Nada de conversas. Nada de abraços. Não gosto de ser tocada e não sou uma verdadeira fã do convite branco com letras prateadas que diz “tadinha, você parece tanto precisar de ajuda, abra-se comigo”. Quero ficar sozinha, trancada no banheiro, chorando as pitangas e me concentrando apenas em mim. Chega de altruísmo, ao menos por algumas horas; de viver pelos outros, de ser feliz e leve como uma pluma quando o peso que carrego é o de um piano de cauda. Nesse exato momento meu maior objetivo é ser egoísta para não precisar ser atriz, para não ter que ser simpática com ninguém quando metade de todo o meu glicogênio vira energia só pra me manter em pé, andando numa linha reta sem cair quando penso em tudo que me corrói por dentro. É verdade, sou meio estraçalhada mesmo. Tem pedaços de mim caindo por aí enquanto caminho, como flocos de isopor barato se soltando com o vento. Com a pressão certa, viro um montinho esmigalhado. Mas esse isopor tem um papelão quase resistente no centro. E enquanto estou me esfacelando, ainda sobra alguma coisa no fundo, um sopro de vida que é mais do que suficiente para que eu cole sozinha as partes de mim que consigo juntar. E se não faço isso nesse exato momento, é por saber que as cicatrizes ficarão muito maiores se eu passar fita isolante enquanto ainda estiver molhando de lágrimas todos os poros. Não gruda direito, não tem jeito. Então me deixa aqui nesse banheiro, sozinha, que é melhor. Estou vivendo das mesmas lembranças repetitivas porque são as mais bonitas que colecionei. São elas que ficam latejando como um calo incômodo, mas suspirando de paixão. São meu alimento. Elas e esse chá sem açúcar. Estou esgotada, minhas fontes de energia fizeram greve e agora, se eu sair daqui, vou tombar em qualquer canto e o mundo vai assistir meu desespero.
Quando eu fugir desse torpor dolorosamente palpitante e voltar a sentir as lajotas frias, tudo vai ficar bem. Quando eu sair do banheiro, com os cabelos molhados por um banho recente e o rosto empelotado de inchaços,  mas ainda assim contorcido num sorriso, as coisas voltarão ao normal. A casa vai respirar novamente, minhas meias encardidas podem voltar a ser o centro das atenções e o sofá pode parecer novamente o lugar certo para essa bunda horrorosa sentar, ao invés do piso branco com rejuntes. Quando eu jogar fora esse chá tão amargo que mais parece saído de mim e colocar em seu lugar um bom tanto de suco bem gelado, as coisas vão mudar. Quando eu catar mais alguns pedaços espalhados do que costumava ser minha dignidade intacta e tiver cola suficiente pra juntar tudo sem que fique parecendo uma montagem de primário escolar, minha respiração ficará mais forte e pronto. Mas por enquanto quero viver assim, meio parasita sem ter quem parasitar. Meio vírus que sobrevive ao ambiente, mas não se replica sem uma célula viva como hospedeira. Ninguém quer uma bola de saudade e soluços como companhia e eu não quero botar minha tristeza como dama de companhia de ninguém. É um acordo. Enquanto estou molenga, febril e apática, fico sozinha com as lajotas e as meias encardidas, sem ter que usar uma dublê burra e sorridente para convencer os espectadores. Quando endurecer o que ainda não criou paredes de cimento e souber remexer em minhas lembranças não como um véu suave, mas como uma casca grossa de laranja, aí então escolherei ter companhia. Vai ser assim. Eu e o banheiro por enquanto, eu e o mundo mais tarde.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amor sem primavera não alcança outono.


Você chegou como uma brisa inesperada em um dia quente de verão. Refrescou minha mente, aqueceu meu corpo, congelou minha face em um sorriso bobo, estampou seu nome em minha testa com letras de neon. Foi o recomeço, a nova tentativa quando pensei não ter mais coragem de tentar. Eu quis apostar em você e em suas mentiras mascaradas de verdades, em seu jeito ora menino demais, ora homem demais. Apostei com as últimas fichas de confiança e paixão que possuía nesse cassino clandestino que é minha alma, cheia de jogos sempre perdidos e garçons carregando bandejas com whisky para sentimentos solitários disfarçados de velhos jogadores beberrões. Você foi o croupier, mas também as fichas da jogada. Disse, alto e ressonante em meu peito, mas cochichando no ouvido: faça sua aposta! E foi o que fiz, com severa obediência; apostei e saí ganhando. Penso que essa talvez seja a tal sorte de principiante, que traz uma chuva de ilusão de que tudo continuará dando certo. Royal Straight Flush, Four of a kind, Full House; no andar da carruagem arrisquei tudo o que tinha, não sobrou nada inteiro para tentar outra vez em algum cassino diferente. Todo jogador deveria reconhecer o momento de parar, virar as costas e ir embora, deixando cartas e fichas para trás e carregando consigo o pouco que ganhou. Mas eu não soube enxergar a hora certa e agora estou de alma e bolsos vazios, coração amargurado e devendo a mim mesma restituições de dignidade.Você chegou como um verão e partiu como um inverno. Passou com seu calor febril, trazendo promessas de réveillon, carnaval, praia, maresia e cerveja geladinha com amigos, como qualquer outro verão promete. Cenas de comercial meramente ilustrativas para conquistar a clientela, hoje eu sei. Trouxe as noites bonitas, o clima quente dos chinelos e bermudas, os dias ensolarados em que moças e rapazes esbeltos desfilam pela orla de praias ao redor do mundo. Todas essas sensações vieram em você, a alegria da estação mais quente do ano, a delícia de pisar em grama geladinha e refrescar os pés e, de vez em quando, molhar o corpo todo em uma chuva de verão revigorante. Você trouxe o verão em seu olhar e as chuvas de verão em seu sorriso. E eu, que sempre preferi tudo que fosse de congelar até os ossos, vi-me torcendo para que o equinócio de primavera jamais chegasse, para que perdurasse aqui toda a liberdade que exala do seu corpo e todo o frescor que emana de suas palavras.
O equinócio de primavera não chegou, realmente. Em seu lugar veio o solstício de inverno e, com ele, sua partida silenciosa. Foi quando saltei violentamente entre dois climas tão díspares que entendi, com olhos marejados de lágrimas, que você não passou de uma brisa de verão que chega já de malas prontas com destino a outro hemisfério. Seu adeus não dito arrancou de mim a leveza do verão, instaurando em seu lugar o peso das noites frias e solitárias. Cobertas pesadas, mais de cinco, para tentar aquecer o que antes só precisava de você. Pés petrificados, tremedeiras, nariz vermelho e lábios roxos. Na cama o lugar ao lado está sempre vazio e gelado demais, par perfeito para meu coração abandonado nas geleiras da Patagônia. Nada de mares do Caribe para você, mulher, apenas gelo atrás de gelo. Minha boca, antes úmida de alegria, agora expele fumacinhas enquanto o queixo treme. Deve ser assim, então, a solidão que ninguém soube jamais definir: fria como o inverno. Na pintura onde antes havia dias coloridos de azul claro e raios solares vibrantes, há agora apenas o acinzentado opaco e a névoa opressora das noites de terror. Árvores mortas, solidão. Geadas da madrugada, solidão. Nevasca, solidão. O frio que você deixou não há aquecedor que mande embora. É um vento invernal aqui dentro, lágrimas dolorosamente geladas percorrendo toda a grande circulação, substituindo o sangue quente e congelando lentamente até trincar de tanta dor. Uma delas transborda, mas acaba petrificada em minha bochecha esquerda. Que direito tenho eu de chorar, quando nada fiz ao ver você partir e levar o verão para outra qualquer? Você não vê, porque o verão não se importa com os pesadelos invernais, mas essas lágrimas congelantes estão formando blocos de gelo espalhados difusamente em meu corpo. O verão não se acomoda, sua energia o leva sempre para carnavais que ainda não conheceu. O inverno, no entanto, foi se firmando à minha volta como uma cúpula rígida que não pode ser quebrada nem transpassada, mais firme a cada passo seu para longe de mim. Eu só quis o seu calor e agora estou imersa na sofreguidão gelada que mais ninguém pode esquentar.
Você enxerga o erro de cálculo em nosso calendário? Nós tivemos duas estações, quando deveríamos ter passado por quatro. Vivemos as estações dos começos esbaforidos e fins fracassados e pulamos as estações dos “durantes” felizes que podem alterar a última cena de uma história. Sem primavera nem outono, só o calor exagerado do verão e o frio demasiado do inverno. Pulamos a etapa das canções em campos floridos ou dos passeios entre folhas secas. Só quem vive as duas estações mais verdadeiras e menos extremistas são os agraciados pela reciprocidade, pelo final sem fim, pelas fotos de casal nas prateleiras da estante ao lado da TV. É preciso viver o amor primaveril, sem a empolgação de veraneio, para chegar ao caminhar de mãos dadas do outono. Mas você só quis o começo de mim, a ponta do iceberg, quando eu estava disposta a oferecer tudo que o oceano esconde.
Eu torci errado, enfim. Deveria ter ansiado pelo equinócio de primavera. Quis parar minha vida no verão para ter você para sempre, enquanto a primavera poderia ter nos envolvido em seus laços invisíveis. Tive um verão com frescobol e carrinho de picolé, mas o outono dos filmes aconchegantes passou batido. Quando você decidiu que eu não merecia mais seu olhar, foi muito mais que um fechar de pálpebras. Foi um vidro opressor que encarcerou minha alma mutilada em algum lugar onde curativos não podem ser feitos. Sou agora um daqueles bibelôs de lojinhas vagabundas a partir de 1,99, uma daquelas pequenas redomas de vidro que, quando chacoalhadas, tumultuam zilhões de partículas brancas que simulam neve. Eu não simulo nada, mas se você me chacoalhar, só tem neve mesmo aqui. Coberta por um vidro blindado que não se quebra jamais. E no centro desse bibelô ficou meu coração que - antes quente e acelerado pelo seu verão - não passa agora de uma estatueta de gelo que, curiosamente, nunca derrete. Aqui e ali caem umas gotinhas quando penso em você e então não é mais gelo, é sangue do mais efervescente. Como em um oceano, você bateu seu navio no monstruoso iceberg que eu sou. Grande, forte, imponente. É a parte que o mundo todo vê. A parte que só atinge e nunca é atingida. Que perde blocos de gelo, mas não está nem aí. Mas o restante submerso - muito mais real, que sofre, sente e ama - está enclausurado na podridão dos mares de náufragos. Solitário. E ali permanecerá, cansado de tentar emergir.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O sequestro da felicidade.


Esta manhã saltei da cama com o pé direito, só pra não dar motivo para superstição me pegar. Escovei os dentes andando pela casa de camisola e não dei a mínima para a cara amassada no espelho. Procurei uma roupa colorida para andar por aí com alegria estampada no corpo. Saia florida balançando ao vento, cabelos ricocheteando no rosto, óculos de sol gigante refletindo a luz do dia. Olhares curiosos ao redor, do tipo “o que aconteceu com ela?”, olá daqui, bom dia dali. Afoguei minha própria voz que perguntava “é mesmo, o que aconteceu com você?”. Alguém me perguntou onde estava a mulher serena de sempre. Respondi com um sorriso, sabendo que por serena queriam dizer quieta demais. “Sei lá, deixei a introspectiva em casa hoje”, respondi.
Hoje eu decidi rir. Rir como uma criança brincando de dar susto. Como um comediante que ri antes de terminar a própria piada. Resolvi, é isso, hoje vou rir. Pelo menos para saber como é a sensação de passar um dia inteiro gargalhando. Precisava de uma razão engraçada e... Bem, resolvi rir de você. Hoje eu vou rir de você e não há nada que possa ser feito. Só por hoje você é minha piada e não mais meu caso triste. Amanhã não sei o que será, mas nesse exato momento não passa de um rabisco abstrato e engraçado. Não mexa comigo agora, rapaz, porque você não verá minha face confusa e dolorosa. Ah, não. Você verá meus lábios se franzindo, tentando segurar um risinho debochado. E depois me assistirá explodir em uma gargalhada muito alta, cheia de vida e frescor.
No final da tarde fica frio, mas os sorrisos me aquecem. Devo mesmo estar parecendo uma boba, achando graça de tudo, mas quer saber? Não me importo. Hoje é assim que vai ser. Não me venha com “para com isso” porque estou me sentindo uma criança sem limites e posso colocar as mãos nas bochechas, mostrar a língua e sair cantarolando “lero-lero”. Deixei todo o amargo da vida guardado em casa até a hora de voltar e trouxe para a rua apenas o doce mais doce. E você, azedo como sempre, não combina com meu doce mais doce que chocolate. Se fosse o azedinho de um morango, tudo bem, mas você é como limão estragado e vai me amargar.
Vou embora, rindo sozinha e parecendo uma louca, mas uma louca feliz e não a louca à beira da morte que você me faz parecer. Visto a jaqueta porque só os sorrisos já não bastam, mas tudo bem. Imaginar seu rosto mergulhado na ignorância, sem saber o que diabos aconteceu para causar uma mudança tão drástica me faz rir ainda mais. Dá-me vontade de saltitar e, como hoje não me importo com nada, saltito até o joelho – meu velho joelho estragado - doer. Aos olhos alheios devo estar parecendo uma paquita que fugiu de um manicômio, mas eu poderia gritar ao mundo um convite para saltitarem ao meu lado. Se pareço uma paquita, vamos todos procurar as botas brancas, então, e seguir até a nave da Xuxa. Até me imagino com uma multidão correndo e cantando atrás de mim, como num comercial da Coca-Cola. São comerciais felizes, ainda que eu deteste o refrigerante.
Então, ainda saltitando, chego em casa. A lua alta é só o que tinge a noite escura, com uma ou duas estrelas pinceladas por aí. No instante em que fecho a porta, sinto toda a alegria vazar por meus poros numa fuga desenfreada, como se afirmasse não ser minha. Corre para longe como um refém que escapa de um sequestro. Ok, nada mais justo, eu tinha mesmo sequestrado a felicidade e agora ela já estava livre para voltar ao mundo ao qual verdadeiramente pertencia. Talvez isso seja muito cruel; não foi um sequestro, foi só um empréstimo de algumas horas. Junto com ela, vai embora também a sensação de leveza e de tudo que é bom. Instantaneamente o gosto doce que me acompanhou durante o dia dá lugar ao amargo de sempre. Faço uma careta de desgosto. No espelho não enxergo mais estampas coloridas na roupa e as poucas ainda presentes parecem muito deslocadas. Melhor prender o cabelo. Enquanto tiro a maquiagem, vejo uma máscara indo embora pelo ralo da pia do banheiro. Não uma máscara de pepino de madame, mas algo que apenas os tristes que não querem ser tristes têm. Minha máscara feliz tem vida própria. Me acompanha durante o dia, mostra-se plausível à multidão, convence o mundo de que essa alma está carregada de tudo que é lindo. Mas me abandona à noite, dizendo não aguentar mais. Deixa-me sozinha e vai pela escuridão afora festar, comemorar sua liberdade. Em meu rosto fica só a opacidade, o lado verdadeiro de mim, as bochechas vermelhas, os olhos sem brilho e os lábios fechados, cansados de sorrir. Deve ser por isso que tenho tanto medo de palhaços; eles fingem uma felicidade que não têm e, quando encaro minhas próprias feições dissimuladas, descubro que não passo de um palhaço de circo: rosto maquiado, pintado como um quadro de comédia, só esperando pelo nariz grande e vermelho.
Mas tudo bem, hoje não vou chorar. Hoje eu senti, lá no fundo, um calorzinho real que há tempos não dava as caras por aqui. Foi, enfim, um dia para sorrir, e ainda que não termine com um sorriso, também não terminará em lágrimas. Hoje eu quis, mais do que tudo, convencer não apenas a plateia dessa pequena cidade de hipócritas onde moro, mas também a mim. Quis incutir em minha mente que a felicidade era real, que você não machuca mais, que sua falta não dói em cada cantinho meu. Quis acreditar que tudo era verdadeiro, do sorriso ao gostinho doce. Mas, sejamos francos, minha parte doce foi embora no momento em que você também virou as costas. Minha parte doce está na sua mochila, esquecida junto aos seus sentimentos por mim. Eu quis rir de você, das suas bobagens, de tudo que você usou como desculpa para não me querer mais. Mas a verdade é que, no escuro do quarto, quando não é preciso representar, suas desculpas matam, dia após dia, minha vontade de acordar, vestir uma roupa florida e sorrir de verdade, tentando sentir qualquer sabor que não seja tão desesperadamente amargo na boca. Porque nada disso é necessário; suas desculpas são apenas desculpas e ambos sabemos que a verdade é ainda mais triste. Aqui, no escuro, na solidão, sem a máscara e sem o nariz de palhaço, resta-me apenas esperar o sono chegar e levar embora a visão das suas costas – sempre tão belas - ficando a cada noite mais distantes de mim.
 
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