segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Curinga desempregado.

Ás, dois, três. Valete, dama, rei. Treze cartas, quatro naipes. Cinquenta e duas possibilidades de fazer parte do baralho legítimo, das cartas reais e adoradas. Cinquenta e duas possibilidades e, ainda assim, sou a quinquagésima terceira: o curinga. A única carta descartável, que serve apenas para alguns poucos jogos. O curinga e sua nulidade. O curinga e sua obrigação de fazer o monarca rir, dançando para lá e para cá com os penduricalhos de seu chapéu gigante e destrambelhado. Quando há um buraco no jogo, uma carta faltando, o jogador usa o curinga. Quando o naipe em suas mãos é diferente do que a canastra exige, o jogador usa o curinga. E só. Este é seu fim, caro Joker. De bobo da corte à tapa buracos, você manda assustadoramente bem. Faz-se merecedor de aplausos sarcásticos.
O curinga sabe que não passa de uma opção temporária. Não deve se envolver com ninguém porque sua estadia será breve, não haverá jamais tempo para cativar a carta amada, seja ela qual for. Não haverão meios para mostrar a ela como é grande o coração que se esconde atrás da figura de palhaço colorido e sorriso dissimulado. Ele sabe. Sabe que ficará na jogada por duas ou três rodadas, até que apareça a carta certa. Aquela que será apresentada com orgulho, sorriso nos lábios e um sonoro e apaixonado "é ela". Aí, então, o jogador tira o curinga e sua feiura do meio da bela canastra, porque não combina. A nova carta entra na parada, substituindo e encaixando perfeitamente porque é a verdadeira. Ela ganhará não só o jogo, mas também o amor. A máxima "sorte no jogo, azar no amor" não se aplica à vida do curinga, que será largado em um canto qualquer até que outra carta desapareça ou demore a chegar com sua bunda perfeita e conversinha fácil. Operação de resgate, pesca sem isca. Abriu uma vaguinha e o tapa buracos está lá novamente, tentando caber. Tentando desesperadamente se ajustar para ser feliz. Tudo para depois ser descartado como lixo e ter seus resquícios de dignidade chutados sem piedade por um pé calçado em chuteira profissional, que é para doer mais.
Houve um tempo em que quis ser a dama, o ás ou qualquer outro número desde que fosse para permanecer na vida de alguém. Para ser legítima. Para sentir o gostinho de ter um naipe só meu. Desejei a segurança de estar em um universo particular, ocupando o espaço anteriormente vazio do coração de alguém e transformando esse coração em nada menos que meu mundo, a caixinha onde o baralho dorme quando os boêmios descansam. Naquele tempo eu sonhava em chegar com mala, naipe e tapete de boas-vindas, anunciando toda prosa que chegara para ficar e enxergando felicidade plácida no rosto daquele que ganhara meu amor. Sonhava em pedir demissão do cargo de idiota que deve fazer palhaçadas para o senhorio e sair pelas ruas à procura de um emprego melhor. Por muito tempo acreditei que poderia aprender a ser outro tipo de carta, a realizar outros feitos no baralho, a mudar a sorte de um jogador para sempre. Mas não existe telecurso 2000 para deixar de ser curinga. O tempo todo buscando um lugarzinho fora da caixa, uma maneira de mudar a situação de ser o dedo tapando o buraco da barragem enquanto o cimento não chega. Maquiando, espremendo, dobrando para caber em canastras que não foram feitas para mim. Sofrendo a cada desilusão, a cada tentativa frustrada de me moldar em um rosto de dama para conseguir ficar onde os curingas não são hóspedes bem recebidos.
Esse tempo acabou. Agora entendo que, uma vez curinga, curinga para sempre. Acostumei-me a ser expulsa de corações que pensava ter ocupado por mais tempo do que a data de vencimento do contrato de aluguel. Habituei-me a ser despejada com todas as tralhas caindo ao meu redor, não por falta de pagamento, mas por não ser a moradora ideal. Quis mais do que tudo ser uma carta diferente, única, de naipe vermelho ou preto, mas tudo que alcancei foi a figura de curinga, a escória das cartas, o descartável. Hoje já desisti. Ainda machuca olhar no espelho e enxergar esse desenho colorido e infame que amedronta alguns e é inútil para outros. Ainda dói ostentar esse sorriso monstruoso, reverberando nas canastras alheias, quando uma pequena lágrima escorre pelo canto de um olho. Mas pelo menos, há muito tempo, não latejam mais os músculos dentro de caixinhas apertadas demais para esse tamanho todo de curinga. Porque quando você não cabe em lugar algum e sua mão não se encaixa em nenhuma outra, a vida é solitária. Solidão, no entanto, é uma das coisas mais belas que um curinga pode provar.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A nossa tempestade.


Ao fundo um professor explica processos sinápticos, mas não presto atenção porque estou focada demais em manter as vísceras em seus lugares corretos. Na falta de ar-condicionado a porta da sala ficou aberta para que os alunos não derretam no calor da pequena Palotina. Não é minha culpa se me perco em devaneios olhando para fora quando deveria enxergar estritamente o quadro cheio de desenhos neuronais. Ou é. Tanto faz. O fato é que agora um alarme cerebral berra violentamente em meus sentidos só porque você passou no corredor ali fora. Não posso abrir a boca porque sairá um barulho misturando sirene de viatura policial e gritos de “segurem aquele coração!”, enquanto o dito cujo rola para longe em sua pulsação tremendamente exagerada. Já sinto a acidez do estômago chegando à garganta, querendo ir embora também.
Todo esse caos só porque você passou. Não durou mais que três segundos. Suficiente. Três segundos são mais do que o necessário para que eu enxergue o mundo em você. Tão seguro, tão firme em seus passos, atitudes e feições. Firme nos músculos... Ah, esses músculos. Como diabos devo prestar atenção nas tais células de Schwann quando tem um filme sobre você – e seus músculos – passando em slow motion bem na frente dos meus olhos? Está em cartaz: “Ele é o cara”, estrelando o homem dos músculos mais proporcionalmente bem desenhados. É seu último lançamento, acrescentado recentemente à filmografia em expansão. Conta a história de um cara que poderia ter o universo aos seus pés, mas preferiu ser o universo de uma só mulher. O romance de um cara que não sabia o quanto era amado, mas que sabia que, independente de quanto sentimento estivesse envolvido, mais cedo ou mais tarde teria um fim inevitável. Uma história sobre o cara dos músculos incríveis, da barba incrível, da personalidade incrível, que faria suas malas em uma data qualquer coisa menos incrível.
Bainha de mielina, blá blá blá. Você passou ali e eu fiquei babando aqui, um nível acima das cabeças pensantes que estudam os problemas da desmielinização. Estúpida, foi só uma olhadinha, coisa de uma piscadela, e deixo de ser a mulher de sempre para virar uma adolescente sonhadora, do tipo que me faz querer vomitar a bolacha de aveia do café-da-manhã. Você caminha todo lindo, o peito onde eu adoro dormir tão estufado quanto um balão de gás hélio. E eu quase deitada por cima da carteira, derrubada na postura corcunda de quem não aguenta o próprio peso. Com cara despreocupada, beliscando o lábio inferior com o polegar e o dedo médio, mania inconveniente.
Um fluxo de imagens compete por um lugar no meu cérebro. Levanto vagarosamente, ignorando os olhares curiosos, e vou de encontro a você, que me espera ancorado no batente da porta. Seguro sua nuca com delicadeza e você agarra meus cabelos, puxando-me com vontade para um beijo cuja música de fundo é o professor discorrendo, agora, sobre líquido cefalorraquidiano. O primeiro dos delírios. Fico puta quando alguém me arranca, com um cutucão, de meu pequeno sonho de olhos abertos, perguntando-me por quê o sorriso na cara por uma matéria tão chata. E de repente não estou mais puta e nem há professor cuspindo sem vontade algo sobre meninges do encéfalo. A música agora é um rock’n’roll do AC/DC e o som de nossas risadas enquanto corremos e sujamos as barras de nossas calças com o marrom da terra que cobre as ruas de Palotina. Não temos destino certo, nem objetivo, mas fluímos como duas nuvens passageiras, prontas para envolver o mundo em tempestades bonitas, porém perigosas. E isso é o segundo delírio.
Todas as mil fábulas que se formam em minha mente são melhores do que a original. Porque, na original, nada disso acontece. Nem beijo, nem sorriso, nem correria com “you shook me all night long”. Na original eu deveria estar prestando atenção na aula da faculdade, mas estava olhando para fora. E então você passou pela porta, em direção ao banheiro do bloco novo, me viu, sorriu e piscou. Eu te vi e só, mais nada. O coração acelerou, tudo virou silêncio e névoa como parte da ansiedade e do suor frio que sua presença traz. Mas, embora ninguém tenha percebido, um sorriso realmente tomou conta de meus lábios. Porque, originalmente, ainda que nossas tempestades atinjam tão somente duas vidas, elas não deixam de ser os espetáculos mais magníficos da natureza. Flórida, você perdeu. Fique com seus raios e trovões, porque nós temos uma bela de uma chuva de granizos para viver bem aqui.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O sequestro da felicidade.


Esta manhã saltei da cama com o pé direito, só pra não dar motivo para superstição me pegar. Escovei os dentes andando pela casa de camisola e não dei a mínima para a cara amassada no espelho. Procurei uma roupa colorida para andar por aí com alegria estampada no corpo. Saia florida balançando ao vento, cabelos ricocheteando no rosto, óculos de sol gigante refletindo a luz do dia. Olhares curiosos ao redor, do tipo “o que aconteceu com ela?”, olá daqui, bom dia dali. Afoguei minha própria voz que perguntava “é mesmo, o que aconteceu com você?”. Alguém me perguntou onde estava a mulher serena de sempre. Respondi com um sorriso, sabendo que por serena queriam dizer quieta demais. “Sei lá, deixei a introspectiva em casa hoje”, respondi.
Hoje eu decidi rir. Rir como uma criança brincando de dar susto. Como um comediante que ri antes de terminar a própria piada. Resolvi, é isso, hoje vou rir. Pelo menos para saber como é a sensação de passar um dia inteiro gargalhando. Precisava de uma razão engraçada e... Bem, resolvi rir de você. Hoje eu vou rir de você e não há nada que possa ser feito. Só por hoje você é minha piada e não mais meu caso triste. Amanhã não sei o que será, mas nesse exato momento não passa de um rabisco abstrato e engraçado. Não mexa comigo agora, rapaz, porque você não verá minha face confusa e dolorosa. Ah, não. Você verá meus lábios se franzindo, tentando segurar um risinho debochado. E depois me assistirá explodir em uma gargalhada muito alta, cheia de vida e frescor.
No final da tarde fica frio, mas os sorrisos me aquecem. Devo mesmo estar parecendo uma boba, achando graça de tudo, mas quer saber? Não me importo. Hoje é assim que vai ser. Não me venha com “para com isso” porque estou me sentindo uma criança sem limites e posso colocar as mãos nas bochechas, mostrar a língua e sair cantarolando “lero-lero”. Deixei todo o amargo da vida guardado em casa até a hora de voltar e trouxe para a rua apenas o doce mais doce. E você, azedo como sempre, não combina com meu doce mais doce que chocolate. Se fosse o azedinho de um morango, tudo bem, mas você é como limão estragado e vai me amargar.
Vou embora, rindo sozinha e parecendo uma louca, mas uma louca feliz e não a louca à beira da morte que você me faz parecer. Visto a jaqueta porque só os sorrisos já não bastam, mas tudo bem. Imaginar seu rosto mergulhado na ignorância, sem saber o que diabos aconteceu para causar uma mudança tão drástica me faz rir ainda mais. Dá-me vontade de saltitar e, como hoje não me importo com nada, saltito até o joelho – meu velho joelho estragado - doer. Aos olhos alheios devo estar parecendo uma paquita que fugiu de um manicômio, mas eu poderia gritar ao mundo um convite para saltitarem ao meu lado. Se pareço uma paquita, vamos todos procurar as botas brancas, então, e seguir até a nave da Xuxa. Até me imagino com uma multidão correndo e cantando atrás de mim, como num comercial da Coca-Cola. São comerciais felizes, ainda que eu deteste o refrigerante.
Então, ainda saltitando, chego em casa. A lua alta é só o que tinge a noite escura, com uma ou duas estrelas pinceladas por aí. No instante em que fecho a porta, sinto toda a alegria vazar por meus poros numa fuga desenfreada, como se afirmasse não ser minha. Corre para longe como um refém que escapa de um sequestro. Ok, nada mais justo, eu tinha mesmo sequestrado a felicidade e agora ela já estava livre para voltar ao mundo ao qual verdadeiramente pertencia. Talvez isso seja muito cruel; não foi um sequestro, foi só um empréstimo de algumas horas. Junto com ela, vai embora também a sensação de leveza e de tudo que é bom. Instantaneamente o gosto doce que me acompanhou durante o dia dá lugar ao amargo de sempre. Faço uma careta de desgosto. No espelho não enxergo mais estampas coloridas na roupa e as poucas ainda presentes parecem muito deslocadas. Melhor prender o cabelo. Enquanto tiro a maquiagem, vejo uma máscara indo embora pelo ralo da pia do banheiro. Não uma máscara de pepino de madame, mas algo que apenas os tristes que não querem ser tristes têm. Minha máscara feliz tem vida própria. Me acompanha durante o dia, mostra-se plausível à multidão, convence o mundo de que essa alma está carregada de tudo que é lindo. Mas me abandona à noite, dizendo não aguentar mais. Deixa-me sozinha e vai pela escuridão afora festar, comemorar sua liberdade. Em meu rosto fica só a opacidade, o lado verdadeiro de mim, as bochechas vermelhas, os olhos sem brilho e os lábios fechados, cansados de sorrir. Deve ser por isso que tenho tanto medo de palhaços; eles fingem uma felicidade que não têm e, quando encaro minhas próprias feições dissimuladas, descubro que não passo de um palhaço de circo: rosto maquiado, pintado como um quadro de comédia, só esperando pelo nariz grande e vermelho.
Mas tudo bem, hoje não vou chorar. Hoje eu senti, lá no fundo, um calorzinho real que há tempos não dava as caras por aqui. Foi, enfim, um dia para sorrir, e ainda que não termine com um sorriso, também não terminará em lágrimas. Hoje eu quis, mais do que tudo, convencer não apenas a plateia dessa pequena cidade de hipócritas onde moro, mas também a mim. Quis incutir em minha mente que a felicidade era real, que você não machuca mais, que sua falta não dói em cada cantinho meu. Quis acreditar que tudo era verdadeiro, do sorriso ao gostinho doce. Mas, sejamos francos, minha parte doce foi embora no momento em que você também virou as costas. Minha parte doce está na sua mochila, esquecida junto aos seus sentimentos por mim. Eu quis rir de você, das suas bobagens, de tudo que você usou como desculpa para não me querer mais. Mas a verdade é que, no escuro do quarto, quando não é preciso representar, suas desculpas matam, dia após dia, minha vontade de acordar, vestir uma roupa florida e sorrir de verdade, tentando sentir qualquer sabor que não seja tão desesperadamente amargo na boca. Porque nada disso é necessário; suas desculpas são apenas desculpas e ambos sabemos que a verdade é ainda mais triste. Aqui, no escuro, na solidão, sem a máscara e sem o nariz de palhaço, resta-me apenas esperar o sono chegar e levar embora a visão das suas costas – sempre tão belas - ficando a cada noite mais distantes de mim.
 
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