quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Amor sem primavera não alcança outono.


Você chegou como uma brisa inesperada em um dia quente de verão. Refrescou minha mente, aqueceu meu corpo, congelou minha face em um sorriso bobo, estampou seu nome em minha testa com letras de neon. Foi o recomeço, a nova tentativa quando pensei não ter mais coragem de tentar. Eu quis apostar em você e em suas mentiras mascaradas de verdades, em seu jeito ora menino demais, ora homem demais. Apostei com as últimas fichas de confiança e paixão que possuía nesse cassino clandestino que é minha alma, cheia de jogos sempre perdidos e garçons carregando bandejas com whisky para sentimentos solitários disfarçados de velhos jogadores beberrões. Você foi o croupier, mas também as fichas da jogada. Disse, alto e ressonante em meu peito, mas cochichando no ouvido: faça sua aposta! E foi o que fiz, com severa obediência; apostei e saí ganhando. Penso que essa talvez seja a tal sorte de principiante, que traz uma chuva de ilusão de que tudo continuará dando certo. Royal Straight Flush, Four of a kind, Full House; no andar da carruagem arrisquei tudo o que tinha, não sobrou nada inteiro para tentar outra vez em algum cassino diferente. Todo jogador deveria reconhecer o momento de parar, virar as costas e ir embora, deixando cartas e fichas para trás e carregando consigo o pouco que ganhou. Mas eu não soube enxergar a hora certa e agora estou de alma e bolsos vazios, coração amargurado e devendo a mim mesma restituições de dignidade.Você chegou como um verão e partiu como um inverno. Passou com seu calor febril, trazendo promessas de réveillon, carnaval, praia, maresia e cerveja geladinha com amigos, como qualquer outro verão promete. Cenas de comercial meramente ilustrativas para conquistar a clientela, hoje eu sei. Trouxe as noites bonitas, o clima quente dos chinelos e bermudas, os dias ensolarados em que moças e rapazes esbeltos desfilam pela orla de praias ao redor do mundo. Todas essas sensações vieram em você, a alegria da estação mais quente do ano, a delícia de pisar em grama geladinha e refrescar os pés e, de vez em quando, molhar o corpo todo em uma chuva de verão revigorante. Você trouxe o verão em seu olhar e as chuvas de verão em seu sorriso. E eu, que sempre preferi tudo que fosse de congelar até os ossos, vi-me torcendo para que o equinócio de primavera jamais chegasse, para que perdurasse aqui toda a liberdade que exala do seu corpo e todo o frescor que emana de suas palavras.
O equinócio de primavera não chegou, realmente. Em seu lugar veio o solstício de inverno e, com ele, sua partida silenciosa. Foi quando saltei violentamente entre dois climas tão díspares que entendi, com olhos marejados de lágrimas, que você não passou de uma brisa de verão que chega já de malas prontas com destino a outro hemisfério. Seu adeus não dito arrancou de mim a leveza do verão, instaurando em seu lugar o peso das noites frias e solitárias. Cobertas pesadas, mais de cinco, para tentar aquecer o que antes só precisava de você. Pés petrificados, tremedeiras, nariz vermelho e lábios roxos. Na cama o lugar ao lado está sempre vazio e gelado demais, par perfeito para meu coração abandonado nas geleiras da Patagônia. Nada de mares do Caribe para você, mulher, apenas gelo atrás de gelo. Minha boca, antes úmida de alegria, agora expele fumacinhas enquanto o queixo treme. Deve ser assim, então, a solidão que ninguém soube jamais definir: fria como o inverno. Na pintura onde antes havia dias coloridos de azul claro e raios solares vibrantes, há agora apenas o acinzentado opaco e a névoa opressora das noites de terror. Árvores mortas, solidão. Geadas da madrugada, solidão. Nevasca, solidão. O frio que você deixou não há aquecedor que mande embora. É um vento invernal aqui dentro, lágrimas dolorosamente geladas percorrendo toda a grande circulação, substituindo o sangue quente e congelando lentamente até trincar de tanta dor. Uma delas transborda, mas acaba petrificada em minha bochecha esquerda. Que direito tenho eu de chorar, quando nada fiz ao ver você partir e levar o verão para outra qualquer? Você não vê, porque o verão não se importa com os pesadelos invernais, mas essas lágrimas congelantes estão formando blocos de gelo espalhados difusamente em meu corpo. O verão não se acomoda, sua energia o leva sempre para carnavais que ainda não conheceu. O inverno, no entanto, foi se firmando à minha volta como uma cúpula rígida que não pode ser quebrada nem transpassada, mais firme a cada passo seu para longe de mim. Eu só quis o seu calor e agora estou imersa na sofreguidão gelada que mais ninguém pode esquentar.
Você enxerga o erro de cálculo em nosso calendário? Nós tivemos duas estações, quando deveríamos ter passado por quatro. Vivemos as estações dos começos esbaforidos e fins fracassados e pulamos as estações dos “durantes” felizes que podem alterar a última cena de uma história. Sem primavera nem outono, só o calor exagerado do verão e o frio demasiado do inverno. Pulamos a etapa das canções em campos floridos ou dos passeios entre folhas secas. Só quem vive as duas estações mais verdadeiras e menos extremistas são os agraciados pela reciprocidade, pelo final sem fim, pelas fotos de casal nas prateleiras da estante ao lado da TV. É preciso viver o amor primaveril, sem a empolgação de veraneio, para chegar ao caminhar de mãos dadas do outono. Mas você só quis o começo de mim, a ponta do iceberg, quando eu estava disposta a oferecer tudo que o oceano esconde.
Eu torci errado, enfim. Deveria ter ansiado pelo equinócio de primavera. Quis parar minha vida no verão para ter você para sempre, enquanto a primavera poderia ter nos envolvido em seus laços invisíveis. Tive um verão com frescobol e carrinho de picolé, mas o outono dos filmes aconchegantes passou batido. Quando você decidiu que eu não merecia mais seu olhar, foi muito mais que um fechar de pálpebras. Foi um vidro opressor que encarcerou minha alma mutilada em algum lugar onde curativos não podem ser feitos. Sou agora um daqueles bibelôs de lojinhas vagabundas a partir de 1,99, uma daquelas pequenas redomas de vidro que, quando chacoalhadas, tumultuam zilhões de partículas brancas que simulam neve. Eu não simulo nada, mas se você me chacoalhar, só tem neve mesmo aqui. Coberta por um vidro blindado que não se quebra jamais. E no centro desse bibelô ficou meu coração que - antes quente e acelerado pelo seu verão - não passa agora de uma estatueta de gelo que, curiosamente, nunca derrete. Aqui e ali caem umas gotinhas quando penso em você e então não é mais gelo, é sangue do mais efervescente. Como em um oceano, você bateu seu navio no monstruoso iceberg que eu sou. Grande, forte, imponente. É a parte que o mundo todo vê. A parte que só atinge e nunca é atingida. Que perde blocos de gelo, mas não está nem aí. Mas o restante submerso - muito mais real, que sofre, sente e ama - está enclausurado na podridão dos mares de náufragos. Solitário. E ali permanecerá, cansado de tentar emergir.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...
Não raro o hemisfério ideal é sempre o outro. E quando enfim é o momento exato do equinócio, temos indecisos um pé de cada lado...!
GK

 
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