domingo, 14 de novembro de 2010

O desenho final.


Em algum lugar do mundo uma criança desenha um coração partido. Ela é muito nova para saber, mas seus traços meio tortos, coloridos com indiferença, contam ao universo uma história realista demais. Seu lápis vermelho de ponta gasta traça duas metades gordinhas de um típico coração infantil, sem ligamentos para mantê-lo unido. O lado interno está serrilhado. De outro cômodo a mãe enxerga a pequena criatura - toda bochechas e cabelos dourados – delinear seu destino em uma folha sulfite, sem nada poder fazer. O impulso lhe diz para sair correndo, tomar o lápis e ralhar com a menina, fazendo-a prometer jamais desenhar um coração em pedaços novamente. Mas a criança é jovem demais para compreender desesperos incontidos. Além do mais, o que está feito, está feito; um desenho terminado é como uma palavra dita: não se volta atrás, uma vez expelido pela alma, pertence ao mundo. A mãe é sensata o bastante para compreender qual deve ser seu próximo ato. Pode guardar as duas metades do coração no fundo de uma gaveta esquecida e torcer para que seu efeito seja o retardatário que chega quando a festa já terminou e não há mais importância, ou ainda que – perdido entre tantos outros papéis – perca sua força. Mas ela aprendeu, à base de tombos brutais, que artimanhas são inúteis. A menina desenhou um coração partido, um coração partido a menina terá. Sua segunda opção é jogar aquela obra tremida pela janela da casa e deixar que o vento a leve para onde quiser. Ninguém conhecerá seu destino. Ela pode voar por continentes inteiros ou parar na casa ao lado; impossível predizer. Mas alguém encontrará a folha, suja e amassada pelas intempéries do tempo. Uma folha amarelada com duas partes de um mesmo coração rabiscadas claramente pelas mãos descoordenadas de uma criança. E então, como num jogo de dados onde não se sabe qual será a próxima pedra, outra pessoa será atingida pelo poder do desenho infantil. Outro alguém terá, inevitavelmente, seu coração partido. Rasgar não resolve, apenas estilhaça o coração ainda mais ferozmente. Não adianta cuspir, não adianta correr na direção contrária. A folha dos corações partidos é implacável como uma grande mão que aponta para os sofredores. Ela escolhe: você, você e mais você. Não retrocede, não negocia, não aceita corrupção.
A mãe cogita jogar o desenho pela janela, é claro, mesmo sabendo quão terrível é transferir a um desconhecido a tristeza que deveria ser de sua filha. Mas é isso que costumam chamar de proteção materna, não? Com pesar ela pensa, uma última vez, como teria sido mais fácil se sua pequena tivesse desenhado um coração inteiro, intacto, rechonchudo e brilhoso. Nada precisaria ser feito, a mão-folha se encarregaria de recepcionar a felicidade. Mas o mundo não é fácil. Toda pessoa, em algum momento de sua infância, há de desenhar um coração. Não porque seja a figura mais bela para ser reproduzida, nem tampouco a mais real. Não é uma escolha consciente, embora se mascare assim. É a decisão daquela mão invisível que aponta, que ri com escárnio enquanto usa as pontas dos dedos para selecionar quem será amado e quem padecerá no caminho das desilusões. Quem terá a sensação ridícula de bolhas em formato de corações voando sobre a cabeça, e quem verá essas bolhas estourando e doendo uma a uma, deixando um vácuo onde deveria estar alguém. É essa mão que escolhe que desenho cada de um de nós fará, ainda na tenra idade da incompreensão. É essa mão que nos diz se desenharemos um coração inteiro e sorridente ou um coração monstrengo dividido em pedaços desiguais.
E, porque não tem alternativas nem meios para lutar, a mãe decide tentar algo diferente. Não quer assistir sua filha chegando em casa com lágrimas nos olhos porque seu amor a abandonou. Não deseja vê-la padecendo por dias a fio no sofá, com a cara esmagada sobre uma almofada. Não quer imaginar quem causará mal à sua macaquinha quando ela se tornar uma mulher. Mas também não pode carregar nas costas o peso de acabar com o coração de um desconhecido. Ela caminha lentamente, então, até a pequena cômoda ao lado da cama, abre a gaveta onde ficam guardados os aviamentos e tira de lá agulha e linha vermelha grossa. Um fio de lã, para garantir. Prepara um nozinho em uma ponta e volta à sala. A criança pegou no sono, lápis e folhas espalhados ao seu redor. Ela senta, segura o desenho com mãos mais trêmulas do que gostaria e perde-se em devaneios por alguns instantes, antes de começar seu trabalho cuidadoso. Com calma e delicadeza, afunda a agulha na porção mais baixa da folha, no ápice do lado direito do coração. Puxando a lã pelo buraquinho feito, perfura o lado esquerdo e transpassa o fio até a folha enrugar um pouco no centro. É o primeiro ligamento do coração partido e a mãe percebe que seu plano tem chances de dar certo. Ponto após ponto ela costura as duas metades rabiscadas como se fossem pedaços de um tecido rasgado. Puxa daqui, repuxa dali. Não demora muito para que ela prepare um segundo nozinho e corte o fio restante. A mãe fez o seu melhor. Costurou tudo, preencheu tudo que era vazio, protegeu sua filha do jeito mais bonito que podia. Depois de guardar o desenho, agora unido, em uma gaveta onde jamais será encontrado, resta apenas esperar pelos caprichos da vida e torcer para que a costura seja resistente. Ela leva a menina para a cama e dá um beijo suave em sua testa cheia do suor do sono infantil, mas ainda leva mais de cinco minutos antes de parar de admirar a criatura que mais ama no mundo, apagar a luz e ir dormir. Ela acredita, com todas as forças, que sua ideia pode funcionar.
Mas a mão-folha, em outro lugar do mundo, ri. Sem parar, sem conseguir respirar com tanta diversão. Bobinha, pensa, nem seu amor de mãe pode salvar o coração de uma criança predestinada a sofrer. A costura ficou bonita, forte, rígida. A menina será uma fortaleza por muito tempo. Mas sempre haverá, em seu destino, uma encruzilhada onde a escolha será dolorosa, onde o amor não será recompensador, onde a vida padecerá na falta de esperança. E a mão-folha apenas ri porque já fez sua escolha e já apontou seu dedo odioso. Ri porque a garotinha será capaz de amar, mas nunca conseguirá escolher corretamente a quem oferecer seu coração. Ri porque tudo tem seu tempo e o tempo da menina chegará, pela primeira vez, aos vinte e um anos.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

E a mãe, crendo, creiam, que para a filha é o melhor, não hesita em a agulha transpassar o coração por uma mera questão de aparência...!
GK

Dafni Melisinas disse...

Você me emociona.Simplesmente,me emociona.

 
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