quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O sequestro da felicidade.


Esta manhã saltei da cama com o pé direito, só pra não dar motivo para superstição me pegar. Escovei os dentes andando pela casa de camisola e não dei a mínima para a cara amassada no espelho. Procurei uma roupa colorida para andar por aí com alegria estampada no corpo. Saia florida balançando ao vento, cabelos ricocheteando no rosto, óculos de sol gigante refletindo a luz do dia. Olhares curiosos ao redor, do tipo “o que aconteceu com ela?”, olá daqui, bom dia dali. Afoguei minha própria voz que perguntava “é mesmo, o que aconteceu com você?”. Alguém me perguntou onde estava a mulher serena de sempre. Respondi com um sorriso, sabendo que por serena queriam dizer quieta demais. “Sei lá, deixei a introspectiva em casa hoje”, respondi.
Hoje eu decidi rir. Rir como uma criança brincando de dar susto. Como um comediante que ri antes de terminar a própria piada. Resolvi, é isso, hoje vou rir. Pelo menos para saber como é a sensação de passar um dia inteiro gargalhando. Precisava de uma razão engraçada e... Bem, resolvi rir de você. Hoje eu vou rir de você e não há nada que possa ser feito. Só por hoje você é minha piada e não mais meu caso triste. Amanhã não sei o que será, mas nesse exato momento não passa de um rabisco abstrato e engraçado. Não mexa comigo agora, rapaz, porque você não verá minha face confusa e dolorosa. Ah, não. Você verá meus lábios se franzindo, tentando segurar um risinho debochado. E depois me assistirá explodir em uma gargalhada muito alta, cheia de vida e frescor.
No final da tarde fica frio, mas os sorrisos me aquecem. Devo mesmo estar parecendo uma boba, achando graça de tudo, mas quer saber? Não me importo. Hoje é assim que vai ser. Não me venha com “para com isso” porque estou me sentindo uma criança sem limites e posso colocar as mãos nas bochechas, mostrar a língua e sair cantarolando “lero-lero”. Deixei todo o amargo da vida guardado em casa até a hora de voltar e trouxe para a rua apenas o doce mais doce. E você, azedo como sempre, não combina com meu doce mais doce que chocolate. Se fosse o azedinho de um morango, tudo bem, mas você é como limão estragado e vai me amargar.
Vou embora, rindo sozinha e parecendo uma louca, mas uma louca feliz e não a louca à beira da morte que você me faz parecer. Visto a jaqueta porque só os sorrisos já não bastam, mas tudo bem. Imaginar seu rosto mergulhado na ignorância, sem saber o que diabos aconteceu para causar uma mudança tão drástica me faz rir ainda mais. Dá-me vontade de saltitar e, como hoje não me importo com nada, saltito até o joelho – meu velho joelho estragado - doer. Aos olhos alheios devo estar parecendo uma paquita que fugiu de um manicômio, mas eu poderia gritar ao mundo um convite para saltitarem ao meu lado. Se pareço uma paquita, vamos todos procurar as botas brancas, então, e seguir até a nave da Xuxa. Até me imagino com uma multidão correndo e cantando atrás de mim, como num comercial da Coca-Cola. São comerciais felizes, ainda que eu deteste o refrigerante.
Então, ainda saltitando, chego em casa. A lua alta é só o que tinge a noite escura, com uma ou duas estrelas pinceladas por aí. No instante em que fecho a porta, sinto toda a alegria vazar por meus poros numa fuga desenfreada, como se afirmasse não ser minha. Corre para longe como um refém que escapa de um sequestro. Ok, nada mais justo, eu tinha mesmo sequestrado a felicidade e agora ela já estava livre para voltar ao mundo ao qual verdadeiramente pertencia. Talvez isso seja muito cruel; não foi um sequestro, foi só um empréstimo de algumas horas. Junto com ela, vai embora também a sensação de leveza e de tudo que é bom. Instantaneamente o gosto doce que me acompanhou durante o dia dá lugar ao amargo de sempre. Faço uma careta de desgosto. No espelho não enxergo mais estampas coloridas na roupa e as poucas ainda presentes parecem muito deslocadas. Melhor prender o cabelo. Enquanto tiro a maquiagem, vejo uma máscara indo embora pelo ralo da pia do banheiro. Não uma máscara de pepino de madame, mas algo que apenas os tristes que não querem ser tristes têm. Minha máscara feliz tem vida própria. Me acompanha durante o dia, mostra-se plausível à multidão, convence o mundo de que essa alma está carregada de tudo que é lindo. Mas me abandona à noite, dizendo não aguentar mais. Deixa-me sozinha e vai pela escuridão afora festar, comemorar sua liberdade. Em meu rosto fica só a opacidade, o lado verdadeiro de mim, as bochechas vermelhas, os olhos sem brilho e os lábios fechados, cansados de sorrir. Deve ser por isso que tenho tanto medo de palhaços; eles fingem uma felicidade que não têm e, quando encaro minhas próprias feições dissimuladas, descubro que não passo de um palhaço de circo: rosto maquiado, pintado como um quadro de comédia, só esperando pelo nariz grande e vermelho.
Mas tudo bem, hoje não vou chorar. Hoje eu senti, lá no fundo, um calorzinho real que há tempos não dava as caras por aqui. Foi, enfim, um dia para sorrir, e ainda que não termine com um sorriso, também não terminará em lágrimas. Hoje eu quis, mais do que tudo, convencer não apenas a plateia dessa pequena cidade de hipócritas onde moro, mas também a mim. Quis incutir em minha mente que a felicidade era real, que você não machuca mais, que sua falta não dói em cada cantinho meu. Quis acreditar que tudo era verdadeiro, do sorriso ao gostinho doce. Mas, sejamos francos, minha parte doce foi embora no momento em que você também virou as costas. Minha parte doce está na sua mochila, esquecida junto aos seus sentimentos por mim. Eu quis rir de você, das suas bobagens, de tudo que você usou como desculpa para não me querer mais. Mas a verdade é que, no escuro do quarto, quando não é preciso representar, suas desculpas matam, dia após dia, minha vontade de acordar, vestir uma roupa florida e sorrir de verdade, tentando sentir qualquer sabor que não seja tão desesperadamente amargo na boca. Porque nada disso é necessário; suas desculpas são apenas desculpas e ambos sabemos que a verdade é ainda mais triste. Aqui, no escuro, na solidão, sem a máscara e sem o nariz de palhaço, resta-me apenas esperar o sono chegar e levar embora a visão das suas costas – sempre tão belas - ficando a cada noite mais distantes de mim.

3 comentários:

jose alvaro fernandes disse...

Voce é genial...Sem o chip da melancolia, melhor ainda...Deixa a vida te levar, ela é leve, você verá!!!!!!!

Guto disse...

quem me dera estar aí pra ver esse dia do avesso UIHAIUEHAIEUIUAIEUIAUHE
mas não pra zombar, e sim rir contigo, fazer tudo parecer leve, ou melhor, SER leve!
você sabe que merece cada dia de alegria, da verdadeira, dessa que preenche as lacunas do corpo, igual botox! UIAHUIEHAIUEHA

saudades minha pequena grande escritora! :**

Gugu Keller disse...

Josi...
Quando viramos as costas para o espelho, mesmo sem o ver sabemos que a pessoa ali também nos as vira. Mas, se nos voltamos para o confirmar, é estranho ver que novamente ela nos olha de frente...
GK

 
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