segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Onde meias encardidas não importam.

O chão do banheiro é sempre gelado demais. No inverno só dá para aguentar usando pantufas de patas de monstro. No verão ando sem chinelo pela casa até alguém ralhar comigo avisando que minhas meias nunca mais serão brancas. Tenho uma gaveta abarrotada de meias encardidas, mas não consigo jogar os pares fora só para precisar comprar outros. E daí se minhas meias são meio marronzinhas – eu penso –, minha alma também é encardida pra cacete e ninguém nunca deu um pio sequer a respeito. Meia gasta não pode ficar, tem que ir para o lixo. Se tiver um furo no dedão então, é um abominável ser que voltou das caçambas dos caminhões de lixo. Mas alma pode. Com alma gasta, furada e encardida ninguém se importa. Eu gosto das meias velhas, provavelmente muito mais do que da alma amarelada e cheia de rugas que vive aqui dizendo ser minha.
O chão do banheiro é sempre gelado demais, menos hoje. Hoje, sentada aqui, olhando para o box de vidro, não sinto nada. Nem as lajotas, nem cheiro de privada, nem nada além da mágoa chorosa e do cheiro de rejeição. Em algum momento levantei, encarei minhas olheiras, tomei um pouco de água da torneira e voltei a sentar. Existe um mundo fora das paredes de um banheiro pequeno, mas hoje ele não me parece interessante. Hoje me enfiei em calças de pijama coloridas, suéter grande demais, uma das meias velhas, e sentei no chão do banheiro com uma caneca de chá sem açúcar nas mãos e cabelos tão desgrenhados que provocariam ânsia em qualquer cabeleireiro. E o chá esfriou, os cabelos continuaram uma bagunça e eu continuei sentada no chão do banheiro gelado. Pensando. "Despensando". Pensando novamente. Chorando um pouquinho. Chorando o que dez pessoas não choram juntas em um mês. Não bebendo o chá. Engolindo só golfadas de melancolia. E deixando meus olhos com a aparência de quem apanhou do Jack Bauer, aquele cara que detona qualquer parada em 24 horas e que minha mãe adora. Mas tô cagando pra minha aparência, embora não esteja sentada no vaso. Quando eu sair daqui vou procurar uma roupa estilosa, vou usar maquiagens da M.A.C e da Lancôme para tentar parecer bonita e vou me chamar de porca por ter uma bunda tão grande e cheia de celulites. Depois vou querer arrancar o excesso de barriga com uma faca afiada, antes de resolver apenas ir para a academia fazer os malditos abdominais. Juro que depois vou pensar em tudo isso, mas por enquanto quero só as lajotas, o silêncio branco do banheiro, meu chá sem gosto e um livro do Woody Allen. Gosto daqui, talvez mais do que do meu quarto. Poderia colocar uma plaquinha com meu nome, chamar esse lugar de meu. Mas penso que as outras moradoras da casa não gostariam da ideia quando precisassem mijar. Mijar, sim, porque eu nunca aprendi a falar com tanta feminilidade quanto uma dama que diz "fazer pipi".
Não, hoje não tô pra ninguém. Não quero essa merda de “credo, levanta daí mulher, ergue essa cabeça”. Deixa eu curtir minha fossa, meu sofrimento de filme triste, daqueles que a gente continua chorando mesmo quando já terminou há horas. Daqueles que são tão bem planejados pra fazer a indústria dos lenços de papel lucrar que até a música dos créditos finais é triste de doer. Só me deixa. Só isso. Eu estou aqui, não tenho bisturi nem gilete por perto, vai ficar tudo bem. Mas estou doendo e preciso do banheiro para chorar ouvindo Seether cantar Careless whisper, ou Renato Russo e RPM dizendo sabiamente que “aquele beijo era mesmo o fim”. E como na música, meu desejo se perdeu de mim. Foi sozinho buscar o que queria e agora quem sofre com a certeza de que tudo foi errado demais sou eu. Palmas para o desejo, vai voltar acuado pedindo desculpas - tarde demais - para um coração rejeitado - demais - por amar - demais. Tudo demais, demais, demais.
Nada de conversas. Nada de abraços. Não gosto de ser tocada e não sou uma verdadeira fã do convite branco com letras prateadas que diz “tadinha, você parece tanto precisar de ajuda, abra-se comigo”. Quero ficar sozinha, trancada no banheiro, chorando as pitangas e me concentrando apenas em mim. Chega de altruísmo, ao menos por algumas horas; de viver pelos outros, de ser feliz e leve como uma pluma quando o peso que carrego é o de um piano de cauda. Nesse exato momento meu maior objetivo é ser egoísta para não precisar ser atriz, para não ter que ser simpática com ninguém quando metade de todo o meu glicogênio vira energia só pra me manter em pé, andando numa linha reta sem cair quando penso em tudo que me corrói por dentro. É verdade, sou meio estraçalhada mesmo. Tem pedaços de mim caindo por aí enquanto caminho, como flocos de isopor barato se soltando com o vento. Com a pressão certa, viro um montinho esmigalhado. Mas esse isopor tem um papelão quase resistente no centro. E enquanto estou me esfacelando, ainda sobra alguma coisa no fundo, um sopro de vida que é mais do que suficiente para que eu cole sozinha as partes de mim que consigo juntar. E se não faço isso nesse exato momento, é por saber que as cicatrizes ficarão muito maiores se eu passar fita isolante enquanto ainda estiver molhando de lágrimas todos os poros. Não gruda direito, não tem jeito. Então me deixa aqui nesse banheiro, sozinha, que é melhor. Estou vivendo das mesmas lembranças repetitivas porque são as mais bonitas que colecionei. São elas que ficam latejando como um calo incômodo, mas suspirando de paixão. São meu alimento. Elas e esse chá sem açúcar. Estou esgotada, minhas fontes de energia fizeram greve e agora, se eu sair daqui, vou tombar em qualquer canto e o mundo vai assistir meu desespero.
Quando eu fugir desse torpor dolorosamente palpitante e voltar a sentir as lajotas frias, tudo vai ficar bem. Quando eu sair do banheiro, com os cabelos molhados por um banho recente e o rosto empelotado de inchaços,  mas ainda assim contorcido num sorriso, as coisas voltarão ao normal. A casa vai respirar novamente, minhas meias encardidas podem voltar a ser o centro das atenções e o sofá pode parecer novamente o lugar certo para essa bunda horrorosa sentar, ao invés do piso branco com rejuntes. Quando eu jogar fora esse chá tão amargo que mais parece saído de mim e colocar em seu lugar um bom tanto de suco bem gelado, as coisas vão mudar. Quando eu catar mais alguns pedaços espalhados do que costumava ser minha dignidade intacta e tiver cola suficiente pra juntar tudo sem que fique parecendo uma montagem de primário escolar, minha respiração ficará mais forte e pronto. Mas por enquanto quero viver assim, meio parasita sem ter quem parasitar. Meio vírus que sobrevive ao ambiente, mas não se replica sem uma célula viva como hospedeira. Ninguém quer uma bola de saudade e soluços como companhia e eu não quero botar minha tristeza como dama de companhia de ninguém. É um acordo. Enquanto estou molenga, febril e apática, fico sozinha com as lajotas e as meias encardidas, sem ter que usar uma dublê burra e sorridente para convencer os espectadores. Quando endurecer o que ainda não criou paredes de cimento e souber remexer em minhas lembranças não como um véu suave, mas como uma casca grossa de laranja, aí então escolherei ter companhia. Vai ser assim. Eu e o banheiro por enquanto, eu e o mundo mais tarde.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Dê-me, deus, a lucidez da total desesperança!
GK

Thaís Cavalcanti disse...

É engraçado, de fato, e mesmo irônico como um lugar feito para mijar e "outras cositas mas" sempre nos põe de volta a nós mesmos, quando o dublê já vem se mostrando cansado de nem ele próprio se ser...

E ah, moça, demorei pra vir porque sou uma desatenta, mas precisava comentar: você é uma simpatia! Tanto pelo comentário num blog abandonado, quanto pelos textos cheios de graça. Também adorei seus pitacos de um certo blog vizinho! =) espero não ser mais desatenciosa assim!

 
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