sábado, 25 de dezembro de 2010

Baboseira natalina.

Aqui onde eu moro a noite está linda. Tem aquela mistura de estrelas cobertas por névoas que anunciam a chegada de uma chuva logo logo. Tem um mundaréu de carros congestionando as avenidas, porque as pessoas querem sair pra ver o natal de Pato Branco. A dona primeira-dama investe pesado na decoração e do lado da igreja tem um gramado com passeio que está abarrotado de enfeites natalinos. Nada de bolinhas vermelhas e douradas, nada dessa coisa brega. Ali tem soldados de chumbo enormes, casinhas tamanho família, globos iluminados, anjos, renas, carruagens e o escambau. E tem muita, muita luz. Dá até pra sair usando óculos de sol, de tanta luz que atravessa as retinas. Tem boneco de neve e tem até neve caindo o tempo todo, vejam só, em pleno verão. Espalharam até pedrinhas brancas pelo chão pra parecer real. As crianças olham maravilhadas e erguem seus bracinhos e rodopiam e riem e acreditam que estão na vila do Papai Noel. E eu fico prestando atenção, tirando fotos com a câmera profissional pra poder usar no portfólio depois. E pensando aqui no fundo, com certa vergonha, que eu morro de vontade de ser a filha da puta que estraga tudo e diz: "Seus trouxas, estão vendo aquela máquina escondida ali atrás? Sua neve vem dali e é só a porcaria de uma espuma. Vão pra escola aprender que é muito raro nevar no Brasil. E que nevar no verão é impossível". E aí uma risada de escárnio. Isso tudo na minha cabeça. Na vida real eu fico só olhando. Tentando encontrar o tal espírito de natal. Mas, sabe como é, eu não tenho mais isso não. Não dá pra ter espírito de uma coisa comercial. Sei lá, vai ver eu sou mão-de-vaca e não consigo aderir a mais uma data criada pra gente ter que gastar com presentes e pinheiros. Ou talvez seja só a minha fé, que de tão volátil já não existe mais. Eu tô tentando, beleza? Tô parada aqui na praça, tentando absorver por osmose um pouquinho dessa pureza toda. Mas acho cada vez mais patético, infelizmente.
Eu queria trabalhar no correio nessa época do ano, porque os funcionários de lá devem divertir-se lendo as cartinhas que a meninada escreve pro senhor Noel. É irônico pensar que ele só vai trazer presente pra quem se comportou bem durante o ano e alimentou-se direitinho, quando o cara não passa de um mentiroso que usa barba falsa, enchimento na roupa e é tão gordo que a artéria coronária deve estar nas últimas. Vem falar de colesterol pras criancinhas, Noel, vem. E os toquinhos de gente esperneiam até que encontram o velho no shopping, sentado em um trono que mais parece de rei. E correm, com as perninhas trançando, só pra sentar no colo do cara, entregar uma cartinha de letra ilegível e sair de lá carregando uma balinha barata. E o João, Alfredo, Graciliano - ou seja qual for o nome do dito cujo embaixo da barba -, se não for um cara confiável, vai é ficar de olho na busanfa da mulherada ou, ainda pior, curtir dar colo pras crianças. Aí você vem falar em comportamento excepcional, Noel.
Não sei quanto tempo faz que não acredito em natal e Noel, mas sei que há anos fico pra lá de satisfeita passando essa noite em casa com uma taça de martini na mão e o show anual do Roberto Carlos na tv. Sem barulho, sem abraço, sem ceia e sem falsidade. Sinto falta da vó, com seus cachinhos lindos; do vô, com seu jeitão amável; da madrinha que é meu exemplo de vida; da tia que tem a letra igualzinha à minha. Mas prefiro abraçar cada um deles em dias comuns, quando o abraço é simplesmente um gesto de amor verdadeiro e não algo que a gente se sente compelido a fazer porque a indústria diz que é o momento de abraçar e chorar e cantar musiquinhas.
Se eu acreditasse que lá no Pólo Norte existe um cara barbudo de verdade que voa pelo mundo com suas renas aladas, eu escreveria uma carta também. Diria que este ano fui uma boa mulher, que não fiz maldades, que vivi minha vidinha sem me preocupar com a dos outros - ainda que os outros se preocupem muito com a minha - e que não magoei ninguém, porque não deixei que alguém se aproximasse o bastante para que pudesse ser magoado. Viver meio reclusa é o jeito mais fácil de não sofrer. E, pela primeira vez na minha vida, este ano optei pelos caminhos mais fáceis a maior parte do tempo. Se fosse pedir alguma coisa ao cara, não seria uma bolsa Chanel, nem sapatos Louboutin, nem um vale compras na Sacks. Eu pediria um pouco de amor sincero, um em que não entregasse meu coração cheio de cicatrizes para quem só quer praticar embaixadinhas com ele. Um em que meu corpo fosse só a caixinha onde fica guardada a parte essencial e não a única e exclusiva vantagem do relacionamento. Um amor onde o cara percebesse que amar não é uma desonra e que eu fosse muito mais importante do que as meninas de balada que ele deixaria de levar pra casa. Um empurrãozinho pra fazer a coisa toda andar mais na velocidade de trem bala e menos de carroça de sítio. E se nada disso fosse plausível, então eu pediria que a minúscula parte em mim que ainda acredita em amor fosse finalmente extinta. Que eu terminasse meu processo de fortalecimento porque, segundo Nietzche, o que não mata nos fortalece. Mas eu tô cansada de crescer, de fortalecer, de transformar em sólido o que deveria ser líquido. Cresci o suficiente, já podem desligar a máquina. Eu ficaria feliz com uns cinco centímetros a mais de altura, mas crescer à base de pancadas já deu o que tinha que dar. É isso, eu pediria ao senhor Noel um pouco de redução. Diminuir para caber. Chega de calças apertadas e abraços que não encaixam. Quero reduzir medidas, reduzir feridas, reduzir tentativas frustradas. Reduzir estômago pra sobrar menos espaço para embrulhar, cortar fora a parte que ama e sonha e não consegue deixar de esperar. Diminuir tudo até que fosse tão minúsculo que um pisão esmagasse para sempre.
Mas sendo o velho Noel ficção, não tenho para quem pedir amor ou redução. Porque amor não se pede, não é um presente embrulhado e disposto embaixo da árvore. E redução não se ganha, desenvolve-se. Não é possível amar em um minuto e não amar mais no seguinte. É um processo lento. Ceticismo é um dom, mas é preciso alimentá-lo. Independente de quantas cartas forem escritas e de quem forem os destinatários, no final nossos pedidos só dependem de nós. Ou, quando pedimos amor, de nós e de mais alguém. Mas então, se eu tiver que optar por um caminho, vai ser o da redução, porque poxa, falta muito pouco para não sobrar nada de mim que não esteja contaminado por sarcasmo. São só mais alguns passos. Só mais um pouquinho e chego no topo do morro, uma perfeita muralha construída ao meu redor. É por aí que eu vou. Sem companhia, por favor. Essa é uma estrada cheia de pedágios e eles são tristes demais para que eu arraste alguém comigo. Tô bem com a minha mochila vermelha nas costas. Não vem com essa de "volta pra cá, não vai por aí que aí só tem escuridão e solidão e desespero". Não me enche com histórias sobre o espírito de natal, tempo de querer ajudar. Espírito de natal o caralho, falou?

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Conforme-se, Josiana! A felicidade desgraçadamente não é para os que são inteligentes como vc!
GK

Anônimo disse...

Voce ja viu a propaganda do Santander? A ideia é despertar a vontande de cada um fazer um pouquinho pelos mais necessitados. É esse o espirito do Natal, não apenas consumismo sem limite. Vamos fazer juntos? Quem sabe se voce também colaborar o mundo não pode ser melhor?
Jose Alvaro Fernandes

 
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