quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fiozinho de areia branca.

Uma lágrima explodiu na coberta macia em tons de algodão-doce. Uma mancha a mais de rímel e sombra. Talvez a vigésima delas ou a trigésima lágrima. E quando a vontade de limpar os borrões desapareceu junto com os resquícios da vontade de erguer a cabeça percebi que, desde que você apareceu, não houve um só dia em que eu fosse completamente feliz. Você faz a tristeza parecer bonita e eu me encanto por tudo que deveria mandar embora pelo ralo. Minha dor é daquelas que um poeta tomaria por princípio e um neurologista adoraria estudar. É límpida, clássica, regada a copos de álcool e amargura, misturados com goles de café amargo e amor. Porque tudo que vem de você é ambíguo demais; extasia e derruba, acaricia e chicoteia. Reparei, também, que já não me lembro como chegamos ao ponto em que nos encontramos agora: tão separados um do outro, mas ainda tão cheios de nós. Incompletos em nossa distância, mas sem jamais permitir que nossas exatidões se encontrem como deveriam. Você me quer, mas quer o mundo todo também. Eu te quero e te quero e só e basta. Você sonha com noites badaladas, drinks e mulheres. Eu sonho com você. Você com um drink, você sem drink. Tanto faz, desde que seja você. E você também almeja um futuro glorioso, enquanto eu almejo um futuro simples e cheio de você.
Se amor é mesmo o que os escritores teimam em engrandecer não é amor o que sinto, porque algo tão bonito não causaria jamais tanta dor. E enquanto penso nos milhões de hematomas e infecções que minha alma carrega, você chega, me aperta, me espreme e arranca de mim todo suspiro e raciocínio que ainda preservo. Quando penso em dizer que chega, é o bastante, não suporto mais te amar pela metade e te ter pelas beiradas, você me puxa mais para perto e dorme segurando minha cintura com dedos firmes de posse. Porque ambos sabemos que sou sua, ainda que você não seja meu. E me esqueço do que pretendia dizer, do fim que já começava a apalpar, porque não há nada como respirar sua nuca e ouvir sua respiração regular e sonolenta. A vida vira vida de verdade quando, madrugada adentro, sinto seu abraço forte mostrando que ainda está ali, que ainda não é hora de partir.
Por mais que eu queira odiar cada grama do seu corpo quando você me trata como uma peça decorativa inútil exposta no canto da sala - elefante indiano ou peso de porta - não posso. Adapto-me a ser estatueta para poder me entupir de tudo que faz parte da sua vida. E, largada em uma quina qualquer, levo cotoveladas que destroem a porcelana, mas sempre vem você com uma fita adesiva nas mãos, colando os caquinhos para que eu possa aguentar mais um pouco e não desista de esperar. Cada fissura em minha estrutura, cada parte trincada que tenta inutilmente se recompor para não estilhaçar de uma vez, cada pedacinho calculadamente remontado procura sobreviver às adversidades só para não sucumbir aos tombos e ir parar no lixo. Mas por mais que meu coração decorativo se esforce amargamente para encontrar dignidade e te odiar, pelo menos um pouquinho, não tem jeito. Porque quando estou prestes a desmoronar de tanto sofrer, de tantos nãos, de tanta falta de respostas, você reaparece me tomando nos braços e mandando embora a pontapés qualquer pergunta, empecilho ou barreira de impedimento. E dorme comigo e não quer nem saber. Não temos tempo para essas coisas, o relógio está correndo como o coelho branco que diz “é tarde, é tarde”. Nossos dias contados não merecem dúvidas ou pensamentos díspares.
O mundo virou uma ampulheta quando você segurou minha mão pela primeira vez e proclamou que me queria com voz grave e sussurrada. Desde então a areia tem descido de um cone de vidro ao outro, grão após grão, sem jamais parar. O eterno fiozinho de areia branca caindo, o divisor de águas que comanda nossas ações e diz o que teremos tempo de viver ou não. Você me trouxe embora, alimentou minha inteligência com conversas sadias em um lugar onde todos os papos são tão inúteis quanto comédias românticas, procurou decifrar o sim escondido em máscaras de talvez. Esperou, tentou se convencer de que tudo ficaria bem, indeciso entre avançar um passo e experimentar minhas consequências ou manter para sempre a tensão não dissipada entre nós. E decidiu, talvez alterado pelo álcool, que a tensão não era aceitável. Agarrou meu pulso e me puxou para um canto, botou a mão em minha nuca e disse que me queria sem poder esperar mais e que todo o resto fosse à merda. E eu, que já estava entregue em cerca de mil maneiras, ainda tentei resistir, procurando por uma resposta interna, alguma defesa ainda erguida em meu organismo, mas todas as barreiras tinham sido destruídas. E quando dei por mim esmagada entre seus braços em uma parede fria, contrastando com a pele febril, sentindo sua proximidade insensata e ouvindo sua respiração entrecortada, tomei o exemplo e larguei também a escopeta imaginária que segurava. Não tenho vocação para Lara Croft quando todo o seu corpo me comprime. Não posso bancar o carinha do “Duro de Matar” quando suas mãos firmes me fazem esquecer que existe mundo além de segurar seus cabelos. O caminho de quilômetros que nos separava reduziu-se imediatamente ao que na escala geométrica chamariam de milímetros. E, de repente, não havia mais milímetro algum, só lábios colados e cheiros e burburinhos ao redor. Desde então a areia fina corre apressada para o vidro mais baixo, cada vez mais veloz e mais voraz, devorando nossos planos malditos e acelerando o contar de tique-taques do relógio. Já tentei abrir o mecanismo e congelar um pouco as horas, mas o tempo, ah, o tempo... Não aceita afrontas, nem júri, nem nada. O tempo é o cara mais mandão que eu conheço. É assim e pronto. E do pouco que temos em nossas mãos, tempo não é uma de nossas posses.
Temos urgência, temos medo, temos apenas nossas apostas. Não adianta tentar costurar tecido rasgado, mas aqui estou com linha e agulha na mão consertando cada novo corte em nosso couro, nos músculos, feridas na pele. Cada nova abertura no brim que nos envolve é um pouco menos de você para mim e um pouco mais de saudade do que tínhamos. Um dia desses ainda largo tudo e dirijo para longe. Para um lugar onde não exista você, nem suas idas e vindas ou nossos encontros suaves e desencontros frios. Para onde você não seja meu mundo e o mundo não se resuma a você. Para qualquer lugar, desde que não haja ampulhetas, nem relógios, nem fim. Onde sua foto me lembre de como eu te amo, mas não do quanto você ama todo mundo. Um lugar, enfim, onde você seja mais do que uma dor constante e menos do que minha força para caminhar.
Enquanto os mapas não marcam xis em um lugar como esse, continuo parada no canto da sala, obediente e "embibelozada". Olhando em volta, vendo tudo, sofrendo tudo, querendo pontos e recebendo vírgulas. Continuo borrando a coberta noite após noite e vezenquando até durante o dia. Não seco nunca, nem dreno minha dor, porque quando você some ela é a única coisa que resta. E por ser o que sobra de você, agarro-a com toda a força, ainda que a cada pressão ela se mostre um pouco mais violenta. Durmo de conchinha com a dor que tem seu cheiro mas não seu toque. Abraço-a com dificuldade, lembrando de como era fácil o seu encaixe entre meus braços em noites frias. E penso que tudo bem, vou sobreviver. Vou conseguir limpar a coberta, despir a porcelana, caminhar sobre meus próprios pés e mandar a dor catar coquinhos. Vou conseguir esquecer de tudo que nós temos de forma tão incompleta e do quanto amo esse seu jeito de misto-quente, meio meu, meio de todo mundo. Presunto, queijo e pão.
Penso que chegará o dia em que vou morder nossa situação e sentir que o gosto nem é tão bom assim, que não vale a pena deixar quilos de maquiagem molhada pela cama, nem queimar a língua tentando aproveitar o máximo de você. Vou passar por cima de tudo quando a areia terminar sua descida vertiginosa na ampulheta e você for embora, e então não vai passar de uma lombada na estrada. E o carro vai voar por cima, a queda vai ser brusca, vai machucar a lataria, mas vai ficar tudo certo. Vamos desacelerar, abrir a janela, botar a cara pra fora enfiada em um óculos de sol e cantar alto, muito alto, “if it makes you happy it can’t be that baaaaad”. E quando estivermos voltando a viver, vamos pisar no acelerador e aceitar as consequências mais uma vez, voar por outras lombadas, aterrissar em outras rodovias, girar o mundo em para-choques destroçados. Vamos nos doer, vamos nos lembrar, vamos ter nossos tempos contados novamente. Novas cobertas serão choradas, novas nucas serão vividas. Mas aquele borrãozinho, aquele que nenhum alvejante tirou, ficará para sempre. Vez ou outra ele irá doer novamente como nenhum outro borrão maior doeu. Porque certas coisas não podem ser passadas para trás como lombadas. Certas coisas são muito mais do que isso. São pontes levadiças.

8 comentários:

Layla disse...

Encantada com seu comentário e com o que vi aqui!
(:
Muito obrigada, e te sigo também!

Equilibrista disse...

você escreve super bem
dá gosto de ler, e não parar mais.
obrigada por me visitar e me fazer encontrar este blog.

Gugu Keller disse...

Josi...
Sabe que os teus escritos sobre esse amor que vc sente por essa pessoa - whosoever he happens to be - são para mim também maravilhosos na medida em que invariavelmente me fazem dar de frente com a minha inegável humanidade? Sim! É que eles me fazem, querida, assumo-o, sentir uma enorme e incontrolável inveja em meu coração...!
GK

nilo trindade disse...

oi josi.. valeu a visita e o elogio, mas fique a vontade pra comentar, qquer ideia estranha ou não que lhe venha a mente qdo ler algo em meu blog... e por mais que qquer texto as vezes pareça falar por si, qdo outro vem e fala por ele a fala sempre fica um pouco diferente, então se tiver vontade comente... mas se não tiver pode deixar um oi tbm que será mto bem vindo.. rsrs

nilo trindade disse...

mas então... acho que cada pessoa tem sua ideologia, sua forma de ver o mundo, seus valores, suas crenças... cada um escolhe suas crenças, a partir das experiencias, um tanto conscientemente e um tanto quanto - maior ainda normalmente- inconsciente...

e daí que não acho que é o amor que nos faz sofrer, mas sim nossas formas de lidar e reagir a ele, nossos padrões socio culturais , e veja isso talvez seja só uma diferença conceitual é verdade mas reflete uma ideologia- talvez um tanto qto idealista, de reservar o amor, deixá-lo como algo intangível, qse puro, se não necessariamente bom, ao menos necessariamente não ruim, e deixar o ruim como algo que lhe seja externo, nossos vicios sociais, nossos apegos, nossa possessividade, nossa dificuldade de libertamo-nos de nossa insegurança, nossa incapacidade de estar 100 % no momento presente

nilo trindade disse...

enfim, a possessividade por exemplo acho algo bem constante em nossa cultura, não só no que se refere ao amor à paixão, mas vou me restringir a esse ponto... a idéia de posse, a idéia de exclusividade nos deixa mais seguro, pq será? não sei, a psicanalise talvez explique mas não é na resposta que quero chegar, o quer defender é (e acho que não estou certo nem errado, acho que é uma visão ideológica mesmo, como um ato de fé, ou como torcer pra um ou outro time, algo que não se possa afirmar cientificamente) que é nossa forma de lidar com o amor que em regra nos trazem problemas, decepções e etc...

enfim escrevi demais, bebi um pouco e se continuar tenho medo de acabar escrevendo mais do que vc.. gostei do texto e peguei um pequeno pedaço dele e tava aki te contradizendo como se discordasse de tdo que vc disse.. rsrs

mas enfim, só queria agradecer a visita e dar um oi...


oi

:p

Loa Karen disse...

Sério, eu não tenho nem palavras para dizer o quanto seu texto é o meu mundo, pensamento, vontades e medos! Não adianta. Não vou conseguir me expressar o suficente.
PARABÉNS! Muito bom.
Tô seguindo, bjo

Fernando Imaregna disse...

Oi Josi...
Promessa feita, eis-me aqui...

E valeu a pena esperar até este início de madrugada do dia 16.01...e absorver tudo isso, linha após linha...

Pelos textos que li, principalmente este, classifico você entre aquelas mulheres viscerais, que escrevem com o "ventre"...humrum...o ventre ! De onde emana um poder que nós homens não temos, o de "criar", de tornar VIDA os versos, os parágrafos, cada linha...pontuando de amor/paixão, de encontros e desencontros, idas e vindas...com aquele sentimento de vazio que a ausência causa, mas que deixa marcas indeléveis com as quais sobrevivemos no cotidiano...

Até que chegue o momento da "entrega" novamente...

Lindo...demais...
Um beijo carinhoso menina...se cuide

 
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