quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A louca do telefone.


Olha, estou ligando só pra dizer que ainda ligo pra nós dois. Odeio telefones e sinceramente não sirvo para isso. Sempre saio da sintonia. Nunca aprendi a apertar o botão da chamada sem ter uma síncope. Você ouve frases economizadas do outro lado da linha e me imagina sentada em uma cadeira de praia, com um drink de frutas na mão. Mas, na verdade, nessa hora, estou abrindo um buraco no chão de casa de tanto andar em círculos. Daqui a pouco eu caio e vou buscar uma cerveja, como aquele chinês da propaganda da Skol. Fico com meus cabelos desgrenhados à la Einstein, tão fora da última moda, tentando manter um diálogo. Não rola. Telefones causam interferência no meu cérebro. Você pergunta se está tudo bem e tudo que ouço aqui na cachola é tu tu tu. Ocupada. Ocupada para sempre e sem linha de espera. E aí, porque eu odeio telefones e não consigo te ligar, você pensa que eu não ligo para nós. Mas eu ligo para nós e para você e até para mim mesma quando te amo tanto assim. Só que prefiro te amar sem surtar porque sua tranquilidade não combina com a desmiolada que eu viro quando encosto um aparelho na orelha. Bate o nervosismo, os nós dos dedos ficam brancos com a força, a bochecha esquenta e parece que, quando desligar, vai sair um pouco de pele grudada no identificador de chamadas por causa da pressão.
Estou ligando para desembuchar umas palavrinhas, nada sério, assuntos banais só para que você veja que não te esqueço nunca, nem um dia sequer. E, de repente, da pessoa inteligente que você achava que eu era, viro a mulher mais tola do mundo. A louca do telefone. Porque eu ligo para dizer uma lista infinita de coisas e não digo nada. Oi, tudo bem? Tudo e aí? É, tudo bem... Quero falar que, olha, ainda te amo, mas minha língua é teimosa demais e fica escondida no céu da boca ou presa entre dentes brutos. Sinto sua falta, mas por que diria isso? Você adora me deixar cheia de saudade. Eu sumo, você some e quem sabe esteja esperando que um dia eu ligue e diga tudo que me consome, todo esse excesso de ausência sua, tudo que não suporto mais viver ou deixar de viver por você e com você. Esperando que eu xingue e berre e no fim te mande à merda só para depois dizer que te amo. Talvez espere que eu vá despejar um pouco de emoção para decidir se responde com feedback positivo ou negativo. Mas só eu sei o quanto essa espera é fútil. Não sei jogar emoções e sou até meio egoísta. Minhas emoções são minhas, meu amor por você é meu, meu sofrimento também. Você não precisa de nada dessa porcaria para viver e eu prefiro te dar aquele ursinho segurando um coração que diz “gosto de você” do que um que diz “te amo”. Amar é admitir demais. Você sabe que eu gosto de você, como todo o resto do mundo sabe. Mas não precisa saber que te amo ou que sempre haverá um sorriso na minha cara quando aparecer. Nem que suas merdas me maltratam. Nem que aquela magricela me afetou em proporções humilhantes. Tudo que você precisa é saber que, em algum lugar de mim, tem um pouquinho de carinho por você. Só isso. E, se um dia te ligar, vai ser só para ouvir sua voz e descobrir se está bem, se está feliz e se ainda é o mesmo cara que me tira do sério. Por mais que toda essa história de não ter você aqui pegue pesado com minha saúde, é coisa que você nunca saberá. Eu não sei gritar e não sei dizer que nada está bem. Sou aquela que evita barracos tanto quanto você evita me amar. E por isso – mais o fato de não ligar – você pensa que eu realmente não me importo com você, com a magricela, ou com a falta de nós dois. E acha que meu sorriso é sempre sincero, mesmo quando você me liga depois da magricela dizendo que quer me ver. Então estou ligando só para avisar que me importo sim. E que, embora tenha aberto um sorriso, nos meus sonhos eu arranco o cabelo ruim daquela estranha e saio a passos largos bufando e reclamando sobre como te odeio.
Está todo mundo ouvindo minha voz de louca do telefone. Não é macia nem beira a rouquidão sedutora, mas também não é aguda a ponto de precisar de tampões de ouvido. Nada em mim é tão agudo assim, exceto o jeito de sentir demais. Sentir agudamente. E de me entregar demais a você, em um patamar que só as notas mais agudas alcançariam. E de chorar escondida em um canto esquecido da faculdade ou no banheiro da sua casa. E de olhar para você e me doer toda por seus ombros perfeitos. Pensando bem, estou tocando um instrumento agudo e desafinado na orquestra, por mais grave que tente ser. E eu tento tento tento, mas todo afinador insiste em me deixar envolta por tons agudos. Tento ser grave de voz, olhar penetrante e passos de deusa. Tento ser grave erguendo uma sobrancelha só. Tento ser grave de um jeito sensual. Mas é engraçado como um episódio de “Two and a Half man” quando uma mulher faz de tudo pra ser sensual. Tende mais a parecer caricatura de gibi exagerada do que bonequinha de luxo. Aí eu desisto, antes mesmo de colocar em prática, porque sou mais do tipo que dá um meio sorriso quando alguém pergunta o que aconteceu. Do tipo que olha de canto de olho e cora como um tomate eterno. Do tipo que mordisca vez ou outra o lábio inferior sem perceber, mas que não consegue fazer isso de um jeito sexy. E, seja como for, não estou procurando por uma matéria sobre como ser sensual em dez dicas, já que elas só mandam a mulherada pisar nos camaradas do sexo oposto. Pilhas de livros de banheiro ensinam que nós devemos dominar e pronto. Mas, quer saber, eu jogo para a rua os besouros lá de casa carregando-os pelo dedo. Uma mulher que não gosta de pisar em um besouro, não pisa tão fácil assim no homem que transforma a perna dela em gelatina. Quando tenta, só faz um boing molengo no chão. Então, ao invés de parecer patética tentando virar dominatrix, prefiro ser normal e falar muita coisa sem sentido ou permanecer em silêncio. Prefiro concentrar meus esforços em ser grave só pra mim. Grave o suficiente para te amar de um jeito bonito e não maluco, grave para não passar uma borracha em mim mesma quando você erra o risco do lápis. Grave para esperar o momento certo de correr, para longe ou para perto. Grave para saber, silenciosamente, o quanto você me dói quando eu enlouqueço só de te observar dormindo. Grave para pensar em ligar e dizer que ainda ligo para nós dois, que ainda te amo, que sinto um monte de outras coisas que você ainda não sabe e que possivelmente nunca descobrirá. Grave para continuar encarando o telefone e escolher ficar só no ensaio, apertar o botão vermelho ao invés do verde, fechar o celular e fazer outra coisa qualquer que não seja pensar em você. Grave para não ligar – nem hoje, nem amanhã, nem no mês que vem ou no próximo ano -, ainda que eu ligue pra nós dois antes mesmo de ligar para mim.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Alô? Oi! Quem é? Josiana?!? Oi, querida!!! Que bom que ligou!!! Fale! Sim, fale tudo! É! Ponha tudo pra fora, que estou aqui te ouvindo...!
GK

Elem disse...

Olá!
Que coisas mais meiga esses seus textos..... São de uma sensibilidade sem tamanho! Parabéns!

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