segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O cara que quis consertar.

Estragou a maquinaria. Simplesmente enguiçou, parou de funcionar. Depois de tanto tempo aguentando as pontas, finalmente rendeu-se. Cansou de sacolejar, arfar, quebrar e continuar dando a cara à tapa. Já passava da hora. O mecânico a recebeu com olhar desconfiado, careta meio torta. É bastante trabalho moça, disse ele, e mesmo assim não dá para garantir que voltará a funcionar, não. Tudo bem, pior do que está não pode ficar. Custará caro, ele insistiu. Não queria pegar o serviço, assumir tamanha responsabilidade. E se algo desse errado? O pobre coitado sentiria culpa pela desgraça alheia sabe-se lá por quanto tempo. Mas, no fim, aceitou tentar o conserto. Pagamento adiantado. Fez uma lista gigante de tudo o que precisava ser feito; peças faltando, engrenagens estragadas, motor danificado, pintura descascada e incontáveis fendas e amassados. Caramba, era de admirar que aquela lata velha tivesse aguentado tantos anos. Era até emocionante ver o quanto ela lutou. Levaria pelo menos um mês para ajeitar e, mesmo assim, a maior parte não teria jeito. Seria um trabalho com 30% de sucesso, no máximo. Mas já que a dona quer tentar, pensou ele, mãos à obra.
Dentro de um mês, o serviço não chegara nem mesmo perto de ser concluído. E olha que o cara estava mesmo se esforçando. Dispensou todos os outros bicos que chegaram naquele período para poder se dedicar totalmente àquela tarefa, em parte pelo dinheiro, em parte pelo respeito à força de vontade da mulher em reviver a máquina. Preocupado, ligou para a contratante. "Olha, dona, não tá rendendo como eu esperava. Ainda tem muita coisa para arrumar, sabe? É que depois de desmontar tudo eu vi que a superfície estava em boas condições perto do interior. Esse eu não sei não, tá muito judiado. É tanto dano que tô achando que não vai ter jeito, mas tô me atendo aos detalhes para não deixar escapar nenhum buraquinho". Ele queria se explicar e ela percebeu o receio em sua voz. O pavor de que ela dissesse que não ia mais pagar porcaria nenhuma fora do prazo. E ouviu também um tom de pena disfarçado. Pena não, moço, por favor. Tudo menos pena. Mas, para grande estranhamento do mecânico, o que ele ouviu do outro lado da linha telefônica foi uma boa risada. Não daquelas assustadoras, do tipo "você tá ferrado, moleque". Era uma risada verdadeira, até gostosa de se ouvir. Um som engraçado. Ele quis rir da falta de melodia do riso, mas conteve-se. Não entendia mais nada. Ela também não explicou. Simplesmente, quando parou de rir, disse que não havia o menor problema. Nem pressa. Que ele podia demorar o tempo que achasse necessário. E falou tudo isso com a voz aguda da alegria, de quem realmente não se importa. Ele não estava acostumado, tão esculachado fora por outros clientes mesmo quando tudo ficava nos trinques. Aquela mulher era uma incógnita. Ou louca. Mas é um crime reclamar da sorte, quando há tanta gente que carece dela; sendo assim, ele aquiesceu e voltou ao trabalho. Sem pressa, mas com uma vontade que jamais tivera ao consertar outras máquinas. Posso conseguir, pensou, vou conseguir.
O trabalho era árduo. Tudo naquela geringonça estava tão quebrado que dava até angústia de olhar. Havia momentos em que ele nem mesmo sabia por onde começar. Dias em que pensava em desistir. Mas então pensava na mulher. Não em seu dinheiro, mas no olhar triste com que chegara, trazendo aquela gororoba amassada em suas mãos trêmulas, embalada em um tecido de lã azul muito delicado. Delicado demais para o estado do que continha. Pensava que, se ela não desistira, mesmo com toda essa destruição inegável, quem era ele para fazê-lo? Fosse um médico, ele declararia com voz impessoal "sinto muito, fizemos tudo o que havia para ser feito". Mas não era médico. Era um mecânico e orgulhava-se disso e de sua competência. Nunca antes abandonara um projeto e não seria esta a primeira vez. Então, com renovado afinco, voltava ao processo de cura da máquina. O renascer, como carinhosamente o apelidara. Quando terminasse, aquilo seria como um novo bebê. Um meio feio e coberto por cicatrizes. Talvez algumas feridas internas. Mas ao menos o motor estaria funcionando novamente, engrenagens à todo vapor. Teria mais algum tempo para continuar estragando-se por aí.
Cerca de quatro meses se passaram até que o mecânico estivesse satisfeito. Não era um serviço perfeito, longe disso, ele sabia. Como previra logo de início, a maior parte não pudera ser consertada. Mas ele procurou cada possibilidade, ajeitou cada pequeno furo que podia, passou óleo em cada peça. Limpou até que não sobrasse poeira para contar história e pintou tudo novamente, dando uma cara nova ao que antes estivera enferrujado e feio. Deu o máximo de si e estava ansioso para devolver a máquina à mulher. Discou o número e contou, todo faceiro, com alegria quase pessoal, que terminara e que ela já podia passar na oficina. Desta vez não ouviu risos. Ao contrário da animação dele, ela parecia até decepcionada com a novidade. Nesse momento ele decidiu que ela era realmente doida. Louquinha, louquinha.
Ainda assim, dois dias depois ela chegou, batendo à porta de metal da oficina com suavidade. Não parecia a mesma jovem que estivera ali para contratar sua habilidade. Emanava um ar estranho, como se estivesse muito feliz há dias e, de repente, algo a tivesse abatido. Seus olhos estavam com a vermelhidão que só quem passa muito tempo chorando consegue adquirir. Braços cruzados de quem procura proteção. Postura curvada e cabeça baixa. Insegura demais, pensou ele. Será que tem medo que eu tenha estragado ainda mais a lataria?
Mas não, não era medo o que ela sentia. Quando ele voltou, após deixá-la sozinha por alguns segundos para buscar o embrulho, ela arfou e apertou o peito com uma das mãos. Por favor moça, pensou ele, não vá ter um infarto. O rosto comprimido em feições de dor, tristeza e algo que parecia saudade, ela adiantou-se até ele com passos lentos. Pensava o tempo todo se não deveria simplesmente virar-se e correr para o mais longe que pudesse. Poderia ligar depois e pedir que ele desse fim àquilo. Que queimasse tudo até que não sobrasse vestígio. Mas a saudade falou mais forte. Pensou em quantas coisas vivera com a máquina. Em quantas lembranças estavam arquivadas ali, esperando para voltarem ao lugar a que pertenciam. Em tudo que sentira com ela. Pensou no barulho constante do motor e nas engasgadas que ele dava às vezes. Pensou na inutilidade de viver sem aquilo. Então, decidida, estendeu as mãos para receber a peça que o mecânico envolvera, com visível carinho, na mesma lã azul em que ela a levara. Antes de abrir, deu um abraço no homem e agradeceu. Não fiz mais que minha obrigação, ele pensou, mas estava envergonhado demais para responder. Sentia-se um invasor de almas, tendo assistido à reação da moça, sua humilhação e a dor com que recebera o pacote. Cogitava a hipótese de que tentara ajudá-la, mas teria mais sucesso caso largasse o trambolho em uma lixeira. Ela não queria aquele peso em sua vida novamente e só agora ele percebia. Amaldiçoou-se por ser tão insensível e quase pediu desculpas, mas ela já fora embora.
Sentada em seu carro, em uma rua afastada, a mulher puxou os cantos do tecido e deu uma olhada em seu conteúdo. Estava diferente. Repaginado, ainda que todas as cicatrizes fossem claramente visíveis. Ele fizera um bom trabalho. Ela sabia que jamais poderia se desfazer dos machucados e golpes que a lataria já levara, mas ainda assim o resultado final a surpreendeu. Então, com calma, tirou a camisa de renda preta que vestia. Abaixo dela, uma grossa camada de faixa hospitalar cobria a região torácica. Ela foi desenrolando a faixa fina até que não houvesse mais nada além de um montinho de gaze. Um curativo grudado com micropore, que não doeu em reação ao puxão. Sem mais nada para cobri-la, tinha expostos agora os seios e um grande buraco negro entre eles. Não mais sangrava, pois no decorrer do tempo as bordas ressecaram. Pegou a máquina em suas mãos e posicionou-a no centro do buraco. Fechou tudo novamente, cruzou os braços sobre o volante do carro, abaixou a cabeça e chorou até sentir que poderia chegar a um hospital e agendar um enxerto de pele sem que desmoronasse.
Enquanto dirigia, pensou no quanto fora feliz durante os quatro meses sem seu coração. Quando o dito cujo, em frangalhos e vencido, deu seus últimos suspiros, ela quis que houvesse conserto. Levou-o ao mecânico com sincera esperança de que ele pudesse dar um jeito no problema, independente do quão dispendioso fosse. Não queria se afastar do órgão que batera forte tantas vezes por ela. No amor, no padecer, sempre em resposta surda às suas experiências. Não queria abandonar o enfermo. Mas,  logo na primeira semana de vazio, ela não sentia mais desconforto. Dor, saudade, amor, insegurança, tudo fora embora. Não sentia mais nada. De repente começou a acordar feliz todos os dias, de segunda a segunda. Ninguém conseguia magoá-la nem abalar suas estruturas. Aquele seu antigo amor, por quem ela tanto perdera noites de sono e tantas cobertas borrara com maquiagem, agora podia aprontar o que quisesse. Não importava mais. Era assim a tal felicidade, então? Poderia viver disso, com certeza. Foi a festas para comemorar até sem ter o que comemorar. Tudo era motivo para risos e nada para lágrimas. Quatro meses. Os mais felizes de sua vida. Até que o mecânico ligou e acabou com tudo. Por duas noites ela pensou em nunca mais aparecer, trocar o número do celular e sumir do mapa. Ele não poderia processá-la por não querer de volta seu coração. Estava tão bem assim, tão "insofrível". Riu com a palavra ridícula que inventara. Mas então algo chocou-se estrondosamente com seus novos sentimentos. Percebeu que, embora feliz, estava vazia. Tudo o que nunca quis ser. Por mais que seu coração fosse capaz de trazer tantas dores absurdas a seu mundo, precisava dele. Não poderia ser alguém cujos sentimentos são vácuo e breu, nem ter um grande nada em seu peito. Não poderia ser como tantas mulheres que reduzem-se a aceitações inúteis. Precisava de sua profundidade, ainda que ninguém estivesse disposto a conviver com ela, ainda que seu preço fosse a solidão. Precisava daquilo que, embora fosse um chato calo doloroso, era também seu bem mais precioso. Nunca teria o coração de outra pessoa, não era encantadora o suficiente para tanto. Mas foi buscar o único que tinha para chamar de seu.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Que lindo, Josi!
Hoje em dia qualquer seguradora fornece um cartão com o telefone de um auxílio mecânico 24 horas... Eu até te daria o meu para que ligasse numa dessas emergências, sabe? Mas o complicado é que, tanto quanto vc, também estou precisando tanto...
GK

 
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