sábado, 25 de dezembro de 2010

Amor anêmico.

Ontem um biruta qualquer tentou segurar minha mão. Assim, do nada. Dei um salto instantâneo para trás. Instinto. Proteção. Tive vontade de gritar. Essa mão está fechada, seu idiota, enclausurada na espera interminável do último cara que a segurou. Essa mão tem cérebro próprio; pensa sozinha, lembra de tudo que viveu, transpira a saudade dos apertos. Tem medula espinhal; treme insegura, arrepia-se ao pensar na única mão que a completa, que fecha dedos com dedos com tanta exatidão que gera campos magnéticos. Choques. Aposto que você nunca sentiu isso nas mãos, cidadão. Sua mão fica rebolando para qualquer outra e acaba sendo a biscatinha que não sossega as falanges. Mas a minha é silenciosa, não gosta de requebrar. A minha tem amor até a pontinha de cada unha roída. Está fechada em um casulo e não é por qualquer um que vai se abrir e liberar a borboleta escondida. Não, esta lagarta já determinou suas vontades, seus desejos, seu caminho. Decidiu que só precisa esperar, mesmo sem saber se valerá à pena no final. Para os demais, acenos de tchau. É só para isso que ela se abre. Mas quando avistar sua companheira retornando e voltar a se esticar, todos os choques voltarão e tudo vai se encaixar novamente. Nada mais de unhas roídas. Nada de buscar um entrelaçar de dedos no vazio absoluto. Tudo vai ficar cheio como deve ser. Cheio de pele, de contato, de carinho.
Ontem um homem de jaleco branco puxou sem gentileza meus olhos para baixo, deu uma olhada na mucosa e exclamou: "você está anêmica, qualquer exame de sangue pode comprovar". Eu ri, desconcertada. Não estou anêmica. Meus olhos estão um pouco amarelados, doutor, mas é que a saudade faz isso com a gente. Deixa o branco da folha sulfite parecendo pergaminho encardido. Não estou anêmica, a não ser que anemia agora seja sinônimo de saudade. Tem também uns vasinhos bem vermelhos, eu sei, mas são efeitos da distância. O senhor por acaso conhece droga mais potente? É a distância que me deixa com esses olhos injetados. A distância, a falta de sono e uma ou outra lágrima fora de hora. Mas estou usando óculos o tempo todo, juro. Nada de forçar a vista, porque ela precisa estar perfeita quando meu amor voltar. Não posso correr o risco de aumentar o grau da miopia e não enxergar direito os detalhes daquele homem quando a distância acabar. Mas, mulher, seus olhos estão opacos. Eu sei, eu sei. Opacos e sem vida, como os cabelos das propagandas de shampoo antes de passarem por fórmulas miraculosas. Preciso lhe explicar tudo tintim por tintim, não é mesmo doutor? Isso quem causa é a tristeza, a despedida e a incerteza do retorno. Minha alma anda meio opaca mesmo e já que os olhos são as tais janelas grandes e escancaradas... Bem, tá aí. Veja só o que um tchau forçado pode fazer. Pode deixar os olhos sem brilho, meio mortos. Mas eu estou vivinha da Silva Sauro, o senhor pode ver pela cor azul - ou está verde hoje? - da minha íris. Não está esbranquiçada como a dos cadáveres. Fica tranquilo, doutor, isso tudo vai passar quando a distância terminar. Minha doença é saudade, não anemia, e isso nenhum hemograma vai lhe contar. É segredo de estado. Não esqueça da confidencialidade entre paciente e médico. O mundo lá fora deve achar que eu sou saltitante, feliz e que a saudade é o hamster com o qual eu brinco todos os dias.
Ontem bateu vontade de atacar a barra de chocolate branco com cookies que repousa no armário da cozinha há um tempão. Tentei até imaginar uma barata gorda e nojenta passeando por cima dela, mas a vontade não passou. Devem ser os malditos cookies, que fazem "crunch" quando mastigamos, mas não tanto quanto aqueles crocantes que uma vez arrancaram fora dois brackets do meu antigo aparelho. Chocolate branco com cookies é suculento e delicioso na medida certa. Não é verme nas tripas, não. É impossibilidade de cair em um abraço delicioso na medida certa como o chocolate. Dá vontade de encontrar afago em bombas calóricas, filmes românticos e cama improvisada no sofá da sala. Calor de trinta graus e eu dormindo com um edredom puxado até as orelhas. E sem nem fazer pizza embaixo dos braços. É caso que a ciência não explica, mas eu tenho a teoria de que aquele cara que girou meu mundo do avesso e depois que precisou ir embora virou uma espécie de aquecedor particular. Independente do termômetro do resto da atmosfera, era ele quem ditava minha temperatura. Que me abraçava para mandar o frio embora. E que, só de sorrir, já aquecia tudo. E agora eu tô nessa onda hipotérmica. Congelando quando todo mundo passa calor. Assistindo "Cartas para Julieta" e outros tantos filmes bobinhos e chorando como se minhas estantes de livros tivessem sido queimadas. Dormindo de edredom quentinho e acordando com orelhas e pés frios. Pé frio é má sorte. Picolé de pé é o que? Sexta-feira treze todos os dias da semana?
Ontem meus músculos doíam tanto que, no final do dia, tudo que eu queria era deitar. De novo no sofá da sala. O controle remoto ficou longe e só tinha chatice passando na televisão, mas tudo doía tanto que a ideia de levantar para buscá-lo já me fez ver estrelas No mau sentido. O caso é que essa saudade temperada com solidão me faz pensar tanto no amor que foi embora que eu procuro meios de não pensar em nada. E eu pensaria a mesma coisa com 80 ou 110 quilos no aparelho da academia para exercitar as coxas, mas optei por 110 porque 80 não dói mais, já virou hábito. Intensifiquei o exercício anaeróbico e foquei apenas nele. Lucidez, há quanto tempo não te encontrava, querida. Poderia ter aumentado só dez quilos na barra, mas dez quilos a mais não superariam minha saudade. Dez quilos a mais não me fariam esquecer de tudo por alguns instantes, nem cerrar os dentes e pensar apenas em erguer e abaixar as pernas. Dez quilos a mais não me deixariam toda firme para quando o cara voltar com seus quadríceps imaculados. Mas trinta quilos? Trinta quilos são capazes de esbugalhar meus olhos, encharcar a testa e exibir um gritante "puta merda" em minha cabeça ao invés das mesmas imagens tristes de sempre. Trinta quilos a mais me deixaram lembrando da academia por horas a fio, enquanto dez quilos ainda me permitiriam enxergar o adeus, as coisas que poderiam ter sido e blá blá blá. Dez quilos não fazem diferença. A não ser que estejam depositados nos meus culotes.
Ontem minha cabeça avisou que ia explodir. Disse que a enxaqueca estava passando do limite e que, já que não tomo providências, ela iria arrebentar e espalhar pedacinhos de encéfalo por todos os cantos da casa. Tomei remédio para a dor e para manter a cabeça no lugar, mas não resolveu. Porque pensar demais não dói - e todo mundo deveria tentar -, mas pensar demais em soluções que não existem pode transformar sua massa cinzenta em uma massa de biscuit perfurada por diversas agulhas. E enxaqueca é um bicho teimoso que, quando chega, não quer mais ir embora.
Ontem minha mãe reclamou que eu não quero mais sair com ela. Que minhas férias resumem-se a academia, leituras, cinema em casa e silêncio. Pensando bem, ela tem razão. Estou introspectiva além do normal. Não quis ir ao boliche, nem ao cinema - verdadeiro -, nem às compras, nem à festa de não-sei-quem-e-não-sei-onde. Não quero. Tô de bode. De olhos amarelados, músculos doloridos, gula intensa, enxaqueca premiada e, principalmente, uma dorzinha constante aqui no peito que os sábios chamariam de coração partido. Eu poderia explicar. Poderia dizer à minha mãe que cada strike do boliche dolorosamente me lembraria de como eu derrubei todas as minhas defesas, como pinos espalhados pelo chocar da bola, por alguém que fez um belo strike em meu coração. Poderia dizer a ela que o cinema real não tem sofá, nem edredom, nem nossos gatos deitados de conchinha comigo. Que não adianta comprar um vestido bonito se for para deixá-lo guardado junto com minha vontade extinta de botar os pés para fora de casa. Que festas de estranhos, tanto quanto festas de conhecidos, não fazem o menor sentido. Se for pra tomar umas bebidinhas falando baboseiras com gente fútil, prefiro tomar tequilas conversando com Bukowski. Mas não vou explicar tudo isso, porque minha mãe é uma guerreira. Uma das nobres, que não abandona soldados no campo de batalha. Então, ao invés de continuar travando suas lutas, ela vai estacar ao meu lado até que eu a acompanhe. E ela precisa continuar, porque vê-la trazendo um sorriso a cada nova vitória é o que me dá forças para não desistir com as minhas derrotas.
Ontem, enfim, eu percebi que todos os males corporais e mentais que me assolam vêm conduzidos pela ausência - a cruel e sarcástica motorista do ônibus. Percebi que fiz amizade com a solidão e que ela se tornou frequentadora assídua da minha residência. Tomamos chá juntas. Percebi que ela só tomará o ônibus de partida quando meu amor voltar. Então eu decidi, ainda ontem, que viver de você, meu bem, está de bom tamanho para mim. Que tudo que eu tento evitar é também tudo que afasta as doenças e tristezas do meu corpo. Vou pisando com cautela no campo minado em que nós vivemos, evitando uma bomba enquanto dou de cara com outra. Você tem o dom de minar tudo por algumas horas. Expectativas, amor, tudo. Fica aflorada só a decepção. Mas quando você volta, com voz suave e abraço apertado, eu sempre topo retornar às trincheiras do nosso querer. É assim, não adianta. Olha só tudo que a distância tem me causado. Tudo que a saudade de você me traz. Não dá para viver assim, escondida em edredons dia e noite, passando colírio para curar a ardência dos olhos, tomando remédio para amenizar as dores. Não dá. Decidi que vou esperar, levando aos trancos e barrancos até você voltar. E quando estiver novamente pressionando minha boca contra a sua, jogo os remédios fora e vou jogar boliche com minha mãe, ou comprar um vestido novo. E se você não quiser assim, se a distância temporária virar definitiva, se minha ausência não lhe doer nem um pouquinho sequer, vou pensar em algo mais. Em outro jeito de ser feliz. Porque não quero minhas mãos fechadas para sempre, nem me acostumar com a enxaqueca. Não quero meus olhos apagados, quero que eles brilhem e sejam a luz de alguém. E se for sua, prometo piscar menos, só uma ou duas vezes por minuto, para você jamais cair na escuridão. Prometo tudo. Tudo para que você nunca mais precise partir.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...

Talvez mais inteligente fosse que nós, os anemicamente apaixonados, ao contrário de chegar aos 110 quilos, emagrecêssemos tanto quanto possível... Ao menos, do ponto de vista física assim me parece, caberiam dentro de nós menos saudade e solidão...!

GK

 
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