quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A verdade sobre os contos de fadas.

Anelise é uma dessas espécies diminutas de bochechas rosadas, ondas douradas nos cabelos e olhos azuis grandes e pedintes. Não sou fã de crianças, mas admito que resistir ao rostinho de amor misturado com pele de pêssego de minha prima as vezes é impossível. Quando a senhorita charme em miniatura chegou toda serelepe, cheia de presilhas em trancinhas, sentando ao meu lado na cama e pedindo que lhe contasse uma história, fui compelida por uma paixão repentina que me fez largar William Faulkner, jogar longe os fones de ouvido tocando sinfonias clássicas, tirar os óculos de lente e vasculhar a cabeça à procura de um conto de fadas. Há mais de quinze anos não acredito neles, com suas princesas insatisfeitas que acabam sendo felizes para sempre com um belo príncipe apaixonado, mas sem um trabalho dignificante ou vontade própria, mas aquela criaturinha sentada ao meu lado não precisava de ceticismo; seus olhinhos brilhantes pediam por algo puro e cheio de esperança em cada sopro do vento. Ela teria tempo para aprender, mais tarde, como a vida real é muito mais fria e sem magia. Prometi-me que, caso fosse necessário, eu mesma a tomaria pela mão e mostraria os caminhos tortuosos que somos obrigados a viver. Por enquanto, aqueles dedos minúsculos que seguravam os meus mereciam um pouco da mentira que deixa a vida mais bonita.
“Era uma vez uma linda garotinha com cachos dourados como os seus e olhos azuis da cor do oceano...” – comecei. Ela sorriu ao constatar que a tal garotinha era igualzinha à sua imagem. Pediu se o nome poderia ser Anelise também e respondi que, já que a história era muito, muito feliz, poderia sim. Construí castelos, mas não contei que quase sempre eles são feitos só de areia e derrubados pelas ventanias. Criei uma bruxa má, de nariz torto e pele meio verde como a bruxa malvada do oeste que amedronta Dorothy e seus companheiros, mas não falei que de todas as bruxas já inventadas, a vida é a mais assustadora. Inventei romances com beijinhos de esquimó, pequenos corações apaixonados, braços minúsculos que se apoiam e sorrisos tão grandes que fazem os olhos ficarem espremidos. Inventei tudo o que não existe. Tudo o que torna nossas crenças completamente infundadas. Tudo o que acabamos, no fim, descobrindo ser uma grande e absurda mentira. Mas não expliquei - ainda que a verdade me sufocasse, pedindo para sair – que beijinhos de esquimó quase nunca tem graça, que braços alheios não devem ser usados como muletas, que os sorrisos ficam cansados no fim da tarde e que corações são apenas músculos que não se apaixonam coisa nenhuma. Não desmenti as valsas dos aclamados contos de fadas, nem os príncipes perfeitos, nem a vida apática e fútil das princesinhas, cujo único objetivo no final do livro é casar, virar mãe e viver com a barriga grudada no fogão.
Para minha própria surpresa, consegui chegar ao final da história sem deslizar pelas alamedas da desilusão. Só quando ouvi o “e viveram felizes para sempre” saindo de minha boca, ainda que de forma não convincente, pude respirar aliviada e, de certa forma, até realizada por não ser eu a estragar os sonhos de uma criança, quando sua fé em finais felizes é o que de mais bonito ela possui. Talvez, com o passar do tempo, Anelise e muitas outras crianças espalhadas pelo mundo entendam que a verdade nua e crua é que contos de fadas são grandes pedaços de merda mergulhados em ilusão. Que finais felizes não passam de hipocrisia. Que nossos erros tortos são, embora dolorosos, os detalhes que mudam uma vida. Que perfeição não existe e que o máximo que nos aproximamos disso é quando somos a parte bonita e meio errada de alguém. Que podemos passar uma eternidade procurando e jamais encontrarmos esse alguém ou, ainda pior, encontrarmos e não sermos encontrados. E que amor, amor sim é um conto de fadas hipócrita. Um grande pedaço de merda – o maior deles - mergulhado em ilusão.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Querida...
Sabe que, mesmo quando eu ainda era bem criança e acreditava em contos de fada, o "viveram felizes para sempre" já me soava com um quê de um tédio insuportável...?
GK

Anônimo disse...

Adoro tudo o que escreve. Adoro a forma como escreve. Adoro o jeito como você brinca com as palavras. Me emociono cada vez que lei as tuas palavras,seja em forma de crônica, seja em forma de desabafo ou em forma de bilhetinhos deixados sob meu travesseiro ou em uma agenda com a menininha desenhada. Guardo tudo com muito amor, principalmente no coração. Fiquei muito emocionada com este texto. Amo vocE querida.

Adriana

 
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