sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Alea jacta est.

"A sorte está lançada", disse Júlio César à margem do Rubicão. Alea jacta est. Alguns dados, quando jogados, podem se perder embaixo de sofás ou geladeiras, esquecidos para sempre ou até a próxima limpeza geral. Os que ficam no tabuleiro, no entanto, cortam qualquer possibilidade de voltar atrás. Decisões tomadas não têm retorno deste ponto em diante. E ainda que normalmente se jogue em dupla, nosso caso tem sido uma escolha unilateral. Por mais que eu chore e arrebente minhas estribeiras, no fim sempre acabo fazendo o impossível e voltando atrás de cada decisão porque elas parecem erradas quando sua mão segura com força a minha. Não estou fazendo isso certo. Não decorei as regras do jogo. Minha cabeça sempre acaba fazendo aquele gesto de compreensão e de submissão para a sua. Sim, vamos continuar tentando. Sim, não posso mesmo te deixar. Sim, eu preciso de você. Assim eu vou subindo no salto para tentar esconder de mim as rasteirinhas da vida. E o pior é acreditar que um salto quinze faz a alma crescer. Não cresce, não adianta; para alma fodida não há salto que baste.
Você diz de repente que eu não preciso mais chorar sozinha apoiando a cabeça entre as mãos como sempre fiz. Diz que agora posso deitar em seu colo e manchar sua blusa com muito rímel preto e encher seus ouvidos com lamentações úmidas de lágrimas. Mas não é assim que as coisas funcionam na realidade. Talvez no seu mundo particular lindo, onde eu até gostaria de morar, mas não na realidade. Eu só sei chorar sozinha, veja bem. Posso até arriscar umas manhas lacrimosas perto de você, mas chorar de verdade, com direito a expulsar sofreguidão, só mesmo sozinha. E minhas decisões quando a sorte está lançada nunca são otimistas. Não chamei a ambulância quando o acidente foi feio; já brincaram com meu coração como se fosse um iô-iô que aceita idas e vindas sem reclamar e hoje mais pareço um pião que parou de rodar. Não chamei o reboque para recolher meus pedaços espalhados por aí, a tranqueira toda que faz parte de mim. Sofro sozinha, obrigada. É como um câncer de silêncio, crescendo sem parar e sem remédio efetivo, ficando cada vez maior e mais maligno. Não há quimioterapia que funcione ou organismo que resista. É uma tristeza a cada dia mais para dentro, corroendo entranhas e queimando o coração.
Fico repetindo que te amo só para ver se em algum momento você me escuta, mas é baixinho demais o sussurro das não palavras. As letras vão até onde você está - que eu já nem sei mais onde é - mas não se portam como deveriam e então tudo fica impossível. Você não ouve meu silêncio. Eu o ouço demais, como berros internos fatigando minha vida e enlouquecendo o paciente do meu hospício interior, que rasga tudo como um louco e arranha paredes tentando fugir. Minha falta de respostas não é birra ou descaso; é medo. É resignação. É a batalha correndo sozinha até lançar uma flecha certeira com uma decisão qualquer. Mas eu continuo tentando. Apelando para meus instintos mais vitais de amor. Gritando em silêncio que preciso de você, que já sou mais você do que eu mesma, que não sei mais o que escrever ou como organizar ideias e pensamentos. E me pego pensando que um dia você volta, sei que volta. Ou volto eu da viagem solitária que até hoje pareceu sem fim, sem passagem de volta. Minha viagem silenciosa. Sem respostas. Toda confusa e destrambelhada. É no meio dessa confusão cada vez maior que eu lembro que te amo, apesar de tudo e apesar de você aumentar meus conflitos. É nesse câncer em metástase que eu chuto os dados ao invés de simplesmente largá-los e digo: a sorte está lançada. E é também assim que sempre termino de peito rasgado e joelhos quebrados pelos tombos das escolhas erradas.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Tanto quanto.

Tanto quanto ela. Tão bonita quanto, tão gostosa quanto, tão sei lá quanto qualquer elogio barato. Tantas mentiras lavadas, passadas e guardadas que até parece uma piscina profunda onde não temos boia. Chega disso para mim. A gostosa não sou eu, já sei. Sou apenas a namorada que tapa buracos; as vezes literalmente, as vezes não. Gostosinha, até, nas horas em que dizer isso vale uma retribuição bacana. Mas a gostosa de verdade é outra, qualquer outra. Um nome veio a calhar, mas tanto faz, é só mais uma. Você diz que eu sou tanto quanto, mas que além de tudo no meu caso existe o fator amor. E só piora a situação e nem percebe a infantilidade cruel dos seus atos. Eu não posso ser tanto quanto ninguém, ao menos não para você, porque você não é tanto quanto homem algum; você é o meu amor, o mais bonito, o mais companheiro e o mais tudo do que qualquer outro. Se é para ser só um tanto quanto, prefiro ser nada. Nada machuca menos. Tanto quanto é uma marretada que derruba de joelhos e rala pele, mente e coração. Tanto quanto dói porque é o mesmo que significar um pouquinho só. Ser apenas um gole de uma garrafa inteira ou uma garfada de um prato gostoso de comida de mãe.
Você pede compreensão, mas eu já compreendi tantas coisas na vida que esqueci de mim. De tanto compreender acabei incompreendida. Falta muito em mim que ficou espalhado por aí em páginas arrancadas à força de um livro. E se é isso que você quer, uma metade de tanto quanto, não sei onde vou enfiar minha parte que acreditava que você era diferente. Não posso compreender o que é incompreensível e você não pode pedir que eu aceite ser só isso depois de ter acreditado em muito mais. Cansei de aceitar. Te ouvir chamando outra de gostosa me fez abrir os olhos para isso, como uma pinça erguendo as pálpebras com brutalidade. Um despertador atrasado assustando pela manhã. Fui um tanto quanto minha vida inteira para todo mundo. Achei que para você fosse qualquer coisa mais merecedora de respeito, mas me enganei. Você foi como os outros, deixando claro que sou apenas aquilo que você quer que eu seja e que consegue sem muito esforço porque já sou sua, afinal. Sou o que você tem em mãos, quando poderia voar mais alto e sabe disso. Sou sua tanto quanto qualquer coisa. Só queria ser sua melhor, mas agora vejo que não é possível; sempre serei algo menos do que o ideal e algo mais errado. Algo mais gorda, algo mais confusa, algo mais quebrada, algo mais cheia de defeitos. Algo mais saco de pancadas. Então você chama outra de gostosa e eu fecho os olhos instantaneamente. Eu te amo, sim, mas algumas coisas o amor não sustenta. Entre amor e respeito, escolho respeito, porque ele sempre me faltou. E não é fácil perdoar; perdão nunca é descomplicado e talvez eu não seja uma pessoa assim tão nobre para conseguir esquecer certas mágoas. Tenho saudade e tenho amor, mas, mais do que isso, tenho um adeus entalado nas cordas vocais. Tenho a angústia de não saber o que fazer porque você não está aqui para que eu olhe em seus olhos e procure uma resposta. Ao mesmo tempo, não gostaria de ter você ao meu lado nesse momento para assistir minha humilhação. Você longe é melhor porque mesmo sem te ver eu enxergo aquele momento o dia inteiro. Dessa vez suas desculpas ferem tanto quanto - veja só, que coincidência - suas malditas palavras.
Não sei se ainda poderemos ser nós, porque no antigo "nós" não havia um soco tão forte quebrando meu crânio segundo após segundo. Quando você me beijar vou lembrar disso, pensando que você gostaria de estar encostando seus lábios nos de outra pessoa. Quando me apertar contra si, vou te imaginar delineando meus defeitos e pensando no quanto ela é gostosa e não tem as mesmas gordurinhas que eu. Quando abrir o primeiro botão da minha calça já estarei longe, viajando com milhões de pensamentos soltos e tristes na cabeça. Tudo soa falso agora. Talvez eu me transforme em um robô, como costumava fazer antigamente, e te deixe com esse pedaço automático de mim. Que pisca quando é necessário, abre sorrisos obrigatórios e deita na cama para cumprir um papel. Porque é isso que um tanto quanto faz: não se sobressai e não expressa sentimentos, apenas se resigna a ser exatamente como qualquer outra coisa. 

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Inlargável.

Você não sabe a diferença que faz em uma vida. É como um teto seco depois da chuva, um ventilador barulhento no verão ou um cardigã de fio quentinho e macio depois do frio do ar-condicionado. É tudo em mim de uma só vez; frio, fome, calor, febre. Aliterações e outras figuras de linguagem. Neologismo de amor, principalmente; você torna isso possível. Uma invenção apaixonada, uma criação que tende ao infinito. Você é o "extra, extra" que o garotinho do jornal fica berrando pela manhã, é a necessidade antes mesmo do querer e o querer atropelando a necessidade, porque com você é tudo sempre como em um acidente de trânsito: caótico, eufórico, louco. Nada se equipara a estar dentro dos seus braços, espremida contra seu peito. Não é como se o mundo apertasse demais, mas como se tudo ao redor explodisse colorido. E eu já não me importo mais se a vida inteira parece errada, avessa ou até cruel, porque você me abraça mesmo quando não está comigo e então tudo fica bem como um céu estrelado visto de cima do capô de um carro. Você está refletido em cada paetê de vestido, em cada espelho vazio, em cada sombra inventada. Todas as músicas lembram você, todos os sonhos são seus, todos os filmes são sobre nós. Será que o mundo está vendo nossa história nas salas de cinema ou sou só eu? Será que você está vendo as coisas como elas realmente são ou meio distorcidas? Porque eu posso estar ouvindo seu coração mais do que o meu próprio, mas ainda consigo discernir o que é te amar do que é sofrer.
"Inlargável" é o que você é, e aí está o tal neologismo problemático. E eu tento e imploro a mim mesma que encontre forças para esbravejar contra seu rosto impecável que vive dizendo "não me deixe". Eu luto contra o impulso de me jogar no conforto das nuvens e deixar o resto bem longe, mas no fim sempre surge a imagem de você indo embora em poucos minutos. Então eu te deixo antes disso e você não me deixa de jeito nenhum. Suas lágrimas são como grandes e pesadas barras de ferro contra meu peito totalmente esmagado. Ainda que eu chore mais, como uma criança incontrolável soluçando sua saudade antecipada do parque de diversões que se instalou na cidade, é o seu choro que fere, que machuca minhas certezas. É a sua testa encostando na minha com cautela, suas bochechas molhadas deitando em meu ombro e seu pescoço tenso de adeus pedindo por um carinho. Passar a mão no seu cabelo torna tudo mais difícil. Quero dizer que você deve mesmo ir embora para sempre e não consigo, porque o amor é burro e arrebentado e entala na garganta o que deveria ser dito. Eu quero te deixar e só de pensar nisso a dor esmurra em meu peito dizendo que é impossível. As fichas acabaram e eu quero tacar enfeites de cristal na parede e assoar o nariz até as lágrimas saírem por cada poro que restar, mas você está sempre ali, jogando insensatez em minha direção e impedindo meus gestos humilhantes. Eu não resisto às suas mãos quentinhas segurando meus braços e sua voz baixa pedindo para que, por favor, eu pense em nosso futuro bonito. Não sou vingativa, você sabe, mas nessa hora gostaria de surrar seu peito até você se afastar e me deixar sozinha com a luz azul do quarto e o lençol amarrotado. Mas eu não faço nada e você fica, sempre fica. "Então fique para sempre, por favor", penso. Não me obrigue a encarar ônibus e carros indo embora, telefonemas tristes e amargurados de saudade e de dias cansativos, solidão pela metade. Ou você pela metade, um tanto só aqui e quase inteiro lá. Muito dentro do meu coração e pouco dentro da minha vida e dos meus sorrisos frescos. 
Você é "inlargável" porque quando eu penso em deixar para depois, para anos mais tarde, quem sabe, dói como se o futuro tivesse sido assassinado por um psicopata sem escrúpulos. Eu penso em nós totalmente estranhos um para o outro. Um encontro ao acaso na esquina de uma rua curitibana em quatro anos ou mais. Você casado ou muito bem envolvido e eu esperando por qualquer um que ao menos se pareça com você, carregando nossas memórias em pequenas coisas. Então nós vamos tomar um café ou uma cerveja, como em um daqueles filmes franceses, e lamentar porque eu nos separei sem razão aparente e razoável e aquela viagem nunca saiu. O navio zarpou sem nós por minha culpa. E depois vamos rir das lembranças palhaças de dias mais felizes e eu vou chorar por dentro a dor de ter virado o rosto quando deveria ter te segurado entre minhas mãos pequenas e fracas. Mas elas tremiam demais, você sabe. Você irá para casa, bem sucedido em todos os aspectos, e eu para minha quitinete de batalhadora que ainda sonha com tudo que deixou para trás. E irei dormir pensando em tudo que ficou naqueles anos em que você ainda me amava, quando jogávamos Guitar Hero ou assistíamos Supernatural só por não termos nada mais interessante para fazer. Os anos em que o balofo ainda tinha forças para esmagar nossas barrigas, as músicas pareciam engraçadas o suficiente no carro, o colo era tudo que realmente importava. Nessa noite não dormirei, tenho certeza. Serão milhões de coisas para pensar, como quando pedi a chave de casa de volta e ela pesou demais no meu bolso porque era sua e só sua. E a podridão de uma vida sozinha, pensando em você 24 horas por dia, imaginando seu novo rumo e meu retrocesso infeliz. Vou pensar em tudo isso com a saudade escorrendo pelos olhos porque não cabe mais no corpo pequeno que me tornei. Com o coração berrando uma dor muda e mortal. Vou chorar o amor que larguei por ser medrosa demais para arriscar.
E assim, então, tô dando um tempo de mim. Você é "inlargável" e nem sempre apegar-se a si mesmo é a resposta ou a melhor solução. Estou me apegando a você e às suas convicções porque talvez elas sejam melhores e mais bonitas e talvez, apenas talvez, eu termine de mãos dadas com você acreditando nelas. Talvez levando as suas palavras a sério e não as minhas eu seja aquela que passeará de mãos dadas com você em quatro anos ou mais em uma rua curitibana. Talvez eu não precise te ver com uma morena qualquer. A caixa de brinquedos caiu e tudo se espalhou, mas você sempre teve a capacidade de achar as coisas superiores restantes no meio da quinquilharia das nossas confusões desarmadas, enquanto eu fico só admirando o rumo da bagunça porque não sei dar jeito no que está errado e só vejo bonecas esfarrapadas, carrinhos quebrados, brigas e beijos. Um conjunto de coisas lascadas entre as quais deixei meu coração sucateado para ver se você resolve brincar de conserto ou de botar para dormir. Posso escrever que te amo ou até dizer que te amo, porque te amo mesmo. O que não significa que tudo esteja bem. O amor nunca está completamente bem. Sempre temos nossas vírgulas intragáveis, o meu bater de pés birrento e teimoso e os seus erros infantis e dolorosos. Conheço meus defeitos e as poucas qualidades que foram jogadas no fundo do poço com o tempo, sem corda para içar o balde de volta. Então estou me apegando às suas qualidades e à sua capacidade de fazer isso dar certo mesmo quando eu sei que o futuro é só uma brincadeira de gosto perverso. Digo adeus e você diz coisas lindas e joga os ombros com um jeito todo seu. Eu me desapeguei de mim porque não vale a pena estender a mão para quem insiste em não levantar. E você continua sempre tentando enquanto eu espero que consiga nos salvar. Que me ache ensanguentada entre os soldadinhos de chumbo e os ursos de pelúcia e faça um resgate como tem feito há meses. Que me mostre como é realmente "inlargável", que minha saúde está em você e que esse não é só mais um neologismo engraçado.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Prêmio AMSOP de Comunicação 2011

Sexta-feira, dia 2 de dezembro, foi a revelação dos vencedores do Prêmio AMSOP de Comunicação 2011, décima nona edição do concurso que elege os melhores em categorias como reportagem, fotografia e crônica, entre várias outras. Eu concorri com as duas crônicas mais elogiadas desse blog e conquistei o troféu! 
Por isso estou quebrando o protocolo aqui e falando sobre o concurso, pois quero agradecer a todos que seguem o blog, leem meus textos, elogiam, fazem críticas construtivas e acompanham de perto o crescimento desse cantinho. Foi o gosto de vocês que me levou a acreditar que eu poderia conseguir! Obrigada a todos!

A propósito, a crônica vencedora foi "O assassinato do José". Se você ainda não leu, clica aqui!


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Gotejando.

Uma gota no copo, a primeira de outras vinte. Em câmera lenta, um pensamento a cada bolinha de remédio que se forma no dosador. O indicador batendo no frasco de vidro para encorajar a gota tímida a cair. Vamos lá, você deve sair da toca. Aquela moça à sua frente, derrotada e abandonada em seus cabelos loiros não penteados, precisa de você para dormir. Ela te enxerga à altura dos olhos e implora que não demore até o copo estar completo. Ela precisa dormir porque dormir apaga sua miséria e dor. Dormir desliga seus braços sempre cruzados, pernas exaustas e olhos cansados de mentir. Cai a primeira gota. O começo é sempre mais difícil; uma gota, um início, um pingo que borra o fundo do copo e mancha um coração.
Os olhos cansados acompanham a segunda gota. Ela pensa no questionário de treze páginas que respondeu meses atrás e entregou ao psiquiatra. Questões pessoais e tão árduas quanto física quântica. Linhas em branco, perguntas sem resposta. Como você se descreveria? Como os outros te descreveriam? O que faltou na sua vida para você chegar a esse ponto amargo da desilusão? O que poderia ser feito? Perguntas de um papel. Nada pode ser feito. Há pontos e pontos. Houve um tempo em que existia uma linha; hoje há um borrão. Nada além de um futuro borrado e abafado. Ela não foi sincera nas respostas porque queria parecer melhor do que realmente estava. Ele sabia.
A terceira gota faz “plic” no fundo ainda vazio. Ela gostaria de assistir a um filme clássico, mas não há mais tempo para isso. Já é a terceira gota, afinal. Depois que o copo for preenchido, filme algum soará interessante. É tudo o que ela precisa. Que o que é interessante deixe de ser, porque seu interesse ultrapassou o portão quando ninguém havia batido na porta. Ela precisa parar de esfregar os dedos nas têmporas como se pudesse apagar a mágoa dali. Deitar a cabeça no travesseiro e não pensar em nada. É para isso que servem suas gotinhas preciosas e ansiolíticas.
A quarta gota cai junto com uma lágrima. Os sentimentos vêm em gotas também, ela pensa, mas num ritmo muito mais rápido, quase como a frequência de um soro ou remédio injetado na veia. Ela pensa em tudo o que a fez chegar a este ponto. Nos motivos pelos quais precisa disso. Por que precisa de si, quando não é útil nem para sua própria vida. Sabe que acabou. Tudo. Seu projeto nas mãos de outra pessoa. Sua tristeza engolida. Ela deu de mãos beijadas o que criou com tanto amor com alguma perspectiva misturada. Não há mais nada.
As gotas vão caindo e é lá pela décima que ela lembra do cartão do psiquiatra, com o número do celular. Ele mandou que ela não pestanejasse em ligar caso tivesse ideias tortas. Mas mais torta é sua visão, distorcida pela decepção. São cinco horas da manhã. Tarde demais para dormir, tarde demais para estar acordada, tarde demais para qualquer coisa que não seja fechar os olhos e apagar a tempestade da mente. Podiam vender vida em pote, ela pensa; compraria um estoque inteiro. Cheio de criatividade para superar as perdas, de sossego para desapegar do que já não é seu. Podiam vender Engov para o coração. O dela estava embargado, totalmente bêbado de uma tristeza consumidora e azeda. Inchando seus olhos, molhando camisetas, acabando com suas continuações inúteis. Podiam vender um pouco de tudo. Ela faria financiamento para comprar um pouco de paz.
Décima sétima gota. Iria até o fim do vidro se pudesse. E então o sono seria para sempre, sem fim, como uma bela adormecida sem príncipe ou beleza. O final é mais difícil ainda do que o começo e ela já não sabe parar. Pinga suas gotas como quem pinga os últimos sorrisos da vida em um copo de vidro. É uma desintoxicação forçada de alegria. Ela esteve bem, mais ou menos feliz por tempo suficiente para ofender sua antiga amargura. Recebeu uns tapas na cara e alguns berros no ouvido dizendo que deveria voltar a fazer tudo sozinha, porque sua vida é solidão e não sociedade. Assustada, já na vigésima gota ou mais – ela perdeu a conta e nem mesmo olhava mais para o vidrinho marrom à sua frente – resolve abdicar de algo que amava e que criara para si, simplesmente por não poder continuar dividindo sua vida. É uma pessoa que guarda coisas. Que não separa com mais ninguém. Que mantém tudo entre dedos fechados. Sempre foi. Ela pensa em tudo que já escreveu e cogita voltar atrás. Mas não pode, não deve. Passou por alguns ajustes ao longo dos anos, mas descobriu que é impossível desmontar e juntar novamente pedaços quebrados como se faz com um quebra-cabeça de 1500 peças. Não encaixa mais. É uma peça pequena e totalmente sozinha.
Ela liga a torneira e deixa alguns milímetros de água se juntarem à poção do sono. Agita o copo e o vira em uma golada só, como se fosse a dose de uma tequila sem limão. Tomou um pouco mais do que deveria, mas tudo ficará bem. Fecha os olhos, respira fundo, ergue os braços em um alongamento e faz o que sabe fazer melhor: esperar. Sempre esperou por um sucesso que nunca chegou. Esperou que o fracasso fosse embora e ele retornou. Então ela espera que o remédio faça efeito e acabe com a insônia, a agonia e o desespero de algumas noites. Espera, como continua esperando pelo sentido de sua vida. Espera pelo sono que essa falta lhe tirou. E, quinze minutos depois, as tonturas chegam. A graça, a leveza, o descanso mental. Nada mais além de uma cabeça pesada, olhos embaçados e pensamentos zerados. Um pouco de tristeza queimando a garganta, mas ela já não lembra do que se trata. Não há futuro que importe, nem amor que machuque, nem descaso que entristeça. Ela só precisa dormir. Tropegamente deita em sua cama fria e espera que os pés gelados aqueçam sozinhos, mas estará dormindo muito antes que isso aconteça. Do coração já desistiu, está congelado para sempre. Ela percebe que, queda após queda, chegou ao fundo do poço. “E sabe o que? Até que aqui não é tão ruim”, ela sussurra na escuridão.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Plano (im)perfeito.

Ela resolveu se jogar. Lá do alto, para resolver sua situação ou então morrer mesmo de uma vez. Estava cansada de sua vidinha medíocre e fracassada. Por muito tempo amadureceu seus sentimentos até que estivessem verdes e bonitos para serem destinados a alguém, tanto tempo que perdeu a conta; se foram duas ou três estações já não sabia. Ela se apaixonou pelo cara bonito que passava todos os dias na rua lá embaixo em frente ao prédio, lindo de um jeito muito particular. Ele caminhava com passos de vencedor, um homem de peito estufado, porém gentil. Ela passou frio no inverno só para assisti-lo passar embrulhado em um cachecol estiloso e quentinho. Passou um calor afobado no verão ao vê-lo fazendo cooper em um domingo abafado. As costas suadas, os pés fazendo o chão tremer a cada pisada. Pelo menos chão o dela. Ela também sentiu a brisa fresca da primavera nos dias em que ele passava, fossem cinzentos ou coloridos. Nunca viu a cor de seus olhos, mas isso não importava. Ela o amava.
Mas tanto tempo alimentando um amor platônico surtiu um efeito ruim para sua saúde, que já ia de mal a pior. A obviedade de não ser correspondida, já que ele nem mesmo a conhecia, a fez ressecar por dentro. Começou em suas entranhas, comendo-a viva como se fosse um escaravelho percorrendo seu corpo. Ele nunca a notaria ali no alto. Não se ela não descesse para encará-lo de frente. Foi então que ela resolveu se jogar. Arquitetou um plano, decidiu sua trajetória e seu ataque; cairia bem em frente a ele. Tinha certeza de que ele tinha bom coração e, portanto, iria ajudá-la a levantar após a queda. O primeiro sorriso seria compartilhado, o primeiro olho no olho e a paixão se instalaria rápida como um incêndio em local inflamável. Era um plano perfeito, em sua concepção.
Ela esperou pelo dia certo, embora não tivesse muito tempo disponível. Era uma doente terminal. No começo do outono sua doença piorou e os remédios já não ajudavam mais. O problema avançara, deixando-a sem esperança, seca de verdade. “Mas quem sabe ele goste de uma magrela”, pensava, tentando ser otimista. O dia chegou e ela estava pronta. Esperou ansiosa para vê-lo dobrar a esquina, entrar na cafeteria e sair de lá cinco minutos depois com um copo de descafeinado. Era seu único defeito. Esperou pelo som de seus passos apressados. Mas ele não apareceu. Pela primeira vez em sua vida, ele não apareceu. Ela esperou e torceu por um atraso, mas ele realmente não veio. Escolheu um atalho ou cansou da rua. Ou morreu. Ela pensava em todas as hipóteses. Desolada, abortou o plano. “Amanhã, quem sabe”.
Amanhã chegou, mas ele não. E assim se passou uma semana até que ela já estivesse quase morrendo. Sentia-se cansada, dolorida, acabada. E, mais do que tudo, triste. Infinitamente triste. Mais seca do que gostaria que ele a conhecesse. Tossindo sua vida para fora. Incrível como uma semana fizera tanta diferença. Mas ela tentaria mesmo assim caso ele voltasse e ela ainda tivesse forças para se debruçar até cair. Quando o viu na esquina, um brilho solto como pó surgiu em sua cabeça. Ainda havia chance, afinal. Tempo para uma troca de palavras, talvez. Para ela seria o suficiente. Não teria dias a mais para muita coisa. Ela preparou o pulo que desenhara imaginariamente. Os minutos pareceram horas até que ele saiu do café e continuou caminhando, acenando para alguém mais à frente com alegria.
Quando ele pisou no lugar onde ela marcara um xis mental, a hora chegou. Um badalar de sinos soou em seus ouvidos – será que já estava delirando? – e ela respirou fundo, consciente do perigo da queda e totalmente submissa a qualquer consequência. Apenas com a roupa do corpo, ela abriu os braços esqueléticos e deixou que a brisa e a gravidade a levassem até ele. Um sorriso se estampou em suas feições judiadas e enrugadas pela dor. Estava caindo em direção ao seu amor, o grande amor de sua vida. E deu certo. Por um instante seu peito explodiu de tanta felicidade. Como o planejado, ela caiu exatamente na frente do homem. Ele a conheceria, enfim. Regozijando o momento, ela demorou a perceber o que estava por vir.
Fogos de artifício pululavam em seu coração, mas ela olhou para cima em tempo apenas de descobrir que seus olhos eram azuis acinzentados, que seu perfume era cruel e que seu pé direito calçando 43 vinha direto para cima dela, pronto para esmagar seu rosto. Ele não a vira; como isso era possível? Suas companheiras de moradia bem que tentaram avisá-la. “Você é só uma folha e ele é um humano, não percebe como é um amor impossível?”, elas praguejavam. Mas ela respondia que as lendas poderiam ser verdadeiras e que não custava tentar, já que lhe restava tão pouca vida. Não acreditava na palavra impossível. Agora, no entanto, enquanto o pé dele descia em sua direção, ela descobria da pior maneira possível que nem todo amor é real e que ela, que não passava de uma folha de árvore, jamais seria notada.
O choque foi brutal. Era outono e ela estava mesmo ressecada. Não apenas por dentro, mas por fora também. O som de folha seca se quebrando foi tão alto quanto o nível de sua dor. Doía ser estilhaçada, partida em pequenos pedaços trincados, mas, mais do que isso, doía o fim de seu amor. Antes de morrer ela teve tempo de ver apenas uma coisa: ele, de costas. Subindo três escadas até a porta de uma casa do outro lado da rua, mais à frente. Uma linda morena o beijava vigorosamente. Ela nunca tivera a chance de olhar para aquele lado da rua antes, de ver qual era o destino diário do cara com quem tanto sonhara. Seu galho a prendia a uma visão limitada. Ele já tinha um amor. E ela era apenas uma folha seca e suicida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O amor e um sapato.

Querendo ou não eu amo esse seu jeito infantil de cair da cama só para me fazer rir. O seu medo, enquanto brinca, de não ser homem o bastante para mim porque, segundo você, sou um mulherão. E inteligente. E isso te encanta e te assusta e você também me encanta e me assusta. Porque eu não sou nada demais mas talvez seja de menos e você nem perceba. E quando se der conta teremos um problema porque a coberta já tem seu cheiro, o colchão seu lugar, o travesseiro sua caspinha e o cantinho da gaveta seus pacotinhos barulhentos. A estante de vidro central entre as cinco guarda sua foto em uma redoma de vidro, junto com um bilhete seu feito à mão. Os bonequinhos magricelos que você desenhou nele representam nosso amor e, querendo ou não, eu carrego a responsabilidade de te amar assim. Tanto. Muito. De sentir o peito explodindo só por ver dois bonecos de palito feitos à caneta.
Você foi o único que me viu chorar por fragilidade e dor, o único com quem terminei dezenas de vezes já sabendo que não teria força para não voltar. Porque seu abraço me chama, assim como sua voz me acalma nas horas certas e seus dedos me fazem cócegas provocativas. Eu corri e saltei em seus braços, enlaçando minhas pernas em sua cintura incontáveis vezes e você foi o único que me carregou assim para lá e para cá mesmo quando eu desfalecia todo meu peso de tanta tristeza. Você me deu seu amor e um sapato. Um sapato alto com amor. E agora toda vez que o calço meus pés brilham de paixão e formigam de felicidade porque é o amor me fazendo andar. Recomeçar com passos de formiga. Porque você estendeu a mão e me ergueu do chão imundo onde eu me escondia sentada em uma pedra. Você disse “eu te amo” e eu engasguei de susto. Mas seus olhos diziam o mesmo e isso eu não poderia negar. Você tirou meu sapato surrado e remendado, limpou meus pés e me calçou como uma princesa. E fez o mesmo com meu coração. O que você me deu não foi um sapato. O que veio dentro daquela caixa foi o amor em um formato diferente. E o mapa para um recomeço.
Querendo ou não foi você quem viu minha casa em reforma ao mesmo tempo em que eu pregava novas tábuas em meu coração. Todas com caruncho, mas você diz que daremos um jeito e eu acabo acreditando. Você dormiu comigo no sofá de casa muitas vezes antes de poder ficar confortável na cama. Interfonou mil vezes antes de ganhar sua chave. Você zela por meu sono leve e me abraça forte quando um pesadelo me acorda quase chorando. Você me viu sem maquiagem alguma, despenteada, com o pijama debaixo de um conjunto e o de cima de outro e mesmo assim me amou. Me viu no hospital cheia de manchas no rosto, vomitando bile e sangrando no tubinho do soro e mesmo assim me amou. Jogou Pokémon ao meu lado para que eu não ficasse sozinha. E eu estava grudando naqueles lençóis fedorentos de hospital e você não foi embora. 
Você me deu um buquê a cada mês de namoro; eu ganhei 49 rosas em quatro meses, muito mais do que ganhei em 22 anos de vida. Me apresentou a sorveteria da lésbica e eu viciei no sabor leite ninho e agora preciso voltar lá para ver você lambuzar o queixo de novo com o sabor torta alemã enquanto dirige. Você compra uma sacola de picolés de fruta por seis reais e eu lembro que não conhecia mais ninguém que ainda valorizasse esse tipo de coisa. Você dá valor às minhas produções, gosta da luz azul do meu quarto e de quando eu sento em seu colo. Você gosta do gelado da minha perna que esfria seu corpo sempre quente. Diz que eu sou um ar-condicionado ambulante. Não se importa se minha vida inteira é um fracasso e se eu sou um zero à esquerda em tudo exceto na hora de escolher o sabor de um suco. Nós assistimos South Park e fazemos coisas inúteis como namorar no tal do “The Sims” ou colecionar canequinhas de submarino. E quando você pergunta qual é o problema, então, eu vejo que esse é o porém. Porque querendo ou não eu te amo, mas odeio o fato de não resistir ao calor do seu afago e do jeito que você me segura quando a depressão quase vence a batalha. Odeio ser um pouco sua, quando eu era tão minha e somente minha. Mas você está sempre ali, mesmo quando eu não quero ser de mais ninguém. Mesmo quando eu te mando embora. Você e o sapato-amor estão ali. Eu não sei por quanto tempo estaremos juntos ou se o amor vai durar mas, querendo ou não, vou me lembrar para sempre de cada vez que você me fez sorrir.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Egoísmo.

As coisas estão espalhadas pelo chão porque hoje me lembrei de tudo que cada trejeito seu significava para mim. As meias largadas ao redor da cama, os tênis de cadarços estrebuchados, a mochila velha em cima da mesa. Tudo ainda está ali, mesmo não estando mais. Eu costumava contar azulejos da cozinha depois que você partia, mas entre o primeiro deles e o copo sobre o tampo de mármore nunca cheguei ao resultado. Até hoje, depois de tanto tempo, não sei o número que poderia me denunciar como uma vítima de transtorno obsessivo-compulsivo. Seria mais um número para lembrar de você, como a faixa três do cd que toca em meu carro no modo aleatório. Seria mais um lugar para ser quebrado e desmontado muito mais tarde, quando a noite dorme e não deixa dormir.
Eu nunca exigi nada. Nem amor, nem carinho, nem promessas. Nem a droga do respeito eu soube pedir. E você nunca deu nada de mãos beijadas. Para que amor a quem só precisa da esperança dele, afinal? Da luz piscando sempre alerta no fim do túnel, do esperar eterno. Para que respeito a quem não sabe respeitar seu próprio orgulho? Para que carinho a quem só precisa da promessa de um final de noite que pode nem ser cumprida? Eu nunca fui mais do que isso, mas enquanto tivesse suas curvas vez por outra coladas às minhas estava tudo certo. Eu amava o bastante para esperar você terminar seu pileque, suas anedotas e metáforas, conversas com mulheres de cabelo mal tingido e malandragens com amigos. Eu esperava porque depois era sempre a minha vez. Esperava como se esperar fosse um trabalho digno cujo salário nunca chega. O amor nunca chegou, mesmo depois de tanto tempo aguentando sobre joelhos fracos a espera infinita para ter um pouco de você, equilibrando em uma roda só a melancolia, a saudade e a euforia. Nunca chegou, não para mim. O amor vai chegar para você e outra pessoa, quem sabe. Ou talvez nem seja amor, mas algo parecido que lhe dê conforto ou que simplesmente acalme sua sede insaciável por uma liberdade que eu nunca privei. Eu, que tanto te deixei livre, enfio as mãos nos bolsos e parto sem nada porque é melhor assim. Ela talvez seja a mulher que te faz feliz, enquanto eu tapeava seus dias ruins. 
Eu poderia achar outro como você, tenho certeza de que há vários por aí. Você não era tão especial a não ser para mim. Mas não quero achar igual, nem ao menos parecido; não creio aguentar o tranco. Melhor um oposto a você. Melhor nada, ninguém. Nós tivemos tempo, meses e meses contados em um velho calendário de parede com figuras abstratas da natureza e hoje tudo o que resta são minhas lembranças somadas aos fantasmas do passado. Às vezes ainda tiro do armário o tabuleiro Ouija onde ficaram os espíritos de nós dois e tento conversar sobre qualquer coisa que amenize sua falta. Mas o indicador de madeira se move para lá e para cá dizendo que você está bem sem mim, realizado à sua maneira. “Você não foi importante” - diz o mais direto dos espíritos – “mas a futura talvez seja. Qual será o tamanho da sua dor quando descobrir se sim ou não?”. Não sei, eu respondo sozinha. E pergunto a mim mesma se já não estou preparada para isso desde o começo, mas o espírito intrometido diz que não, não estou.
Você continua aparecendo de quando em quando e massacrando de sempre em sempre, quando minha única defesa é ter conhecido outro alguém e já não te amar tanto assim. Quero quebrar o tabuleiro e suas frases sempre incompletas. Quero jogar fora os pedaços de madeira e os pedaços de você que ainda estão embaixo da minha cama quando está escuro, espreitando meus sonhos vívidos. Chega de comunicação. Já basta de um casal que sempre foi construído por uma pessoa só. E depois de você, que não chegue mais ninguém por um bom tempo. Nem mesmo o outro alguém que já apareceu. Pode até ser egoísmo eu querer salvar meu couro a todo e qualquer custo. Fechar as portas, as janelas, os ouvidos, olhos, boca e poros da pele. Pode ser egoísmo deixar as pessoas para lá e viver do sono solitário por um tempo infinito. Os fantoches do Ouija diriam que é egoísmo. Mas não me importo. Eu digo que egoísmo foi o seu ao me usar como a toalha de banho suja quando você esqueceu de pegar a limpa no armário antes de entrar no chuveiro. Egoísmo foi o seu ao dizer palavras sem que elas significassem o que o dicionário ensina. Perto disso negar bolacha ao próximo é coisa de santo. Perto disso eu posso ser egoísta. Tenho esse direito. Que seja egoísmo, então, se for para me arrancar de dentro do nosso fim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cansaço.

Eu falo para ele que estou cansada, muito cansada. Ele pergunta se não dormi bem. Não é esse tipo de cansaço, respondo. É cansaço da vida. Estou cansada. De verdade. Enjoada do fracasso, enojada do futuro. Ele oferece o colo e eu rio meio louca; o colo é ótimo, mas não resolve. Foi-se o tempo em que o lema era “colo, leite e rock’n’roll” ou qualquer outra coisa que escrevam em um body de criança. Hoje só resta o rock’n’roll. E não adianta eu me encostar no conforto do seu abraço porque vou continuar cansada e você vai ganhar uma camisa molhada de lágrimas. Me empresta só o seu amor e tudo bem, juro que devolvo quando você precisar. Eu só tenho que pegar um pouco do seu coração e um punhado de amendoim japonês ou chocolate.
Deitados como dois protagonistas de comédia romântica em uma cama de quase três metros eu vejo pelo espelho do teto o sorriso dele. Estamos meio tortos e esparramados, como uma foto de cartaz de filme presa na parede da bilheteria de cinema de um shopping. Só falta a música engraçadinha, penso. Mas minha imagem está um tanto quanto retorcida, como se meu rosto fosse pura dor envenenada. Ele diz que não, mas eu enxergo um pouco além, já que nesse quarto com espelhos por todos os lados não há como escapar. Ele fala que me ama de um lado, mas o espelho ri do outro – debochado como um vilão magistral – e eu começo a pensar que sou esquizofrênica. Ouço duas vozes ao invés de uma só. Já me disseram tantas coisas, já maltrataram tanto minhas crenças, mas ao menos a certeza de que espelhos não falam eu ainda tenho. Espelhos também não apontam dedos, mas vejo um indicador prateado direcionado a mim como uma grande saliência vazando de um buraco aberto no teto. Um trinco no espelho manchado por enxergar demais a podridão das pessoas.
Ele só pode estar distorcendo – eu penso –, a realidade tem que ser melhor do que isso. Mas não é. Bom se a vida dentro daquele espelho fosse real, enxergando uma cama lá embaixo, duas pessoas que se amam, mãos dadas, um cara, uma mulher e uma calcinha de renda preta. A vida real não é isso. Ela precisa de uma santa paciência que eu não tenho. Da calma de tentar e buscar e arriscar e não de morrer aos poucos por não conseguir. Eu estou sempre morrendo aos poucos, como bordados caindo do aplique no vestido. Estou cansada. De perder meus canutilhos e lantejoulas e o brilho que eles guardam. Cansada de virar tecido liso e opaco. Cansada de ter que remendar. Estou cansada de mim e de prender o saquinho da amargura com um eterno grampo de roupa improvisado.
Eu fico encarando o espelho do teto enquanto você faz gracinhas para me animar. Minhas pernas desnudas entrelaçadas com as suas estão tranquilas, mas o resto todo está um caos. Hoje não tem jeito, amor, hoje a tristeza é o canal da minha televisão. Você não a vê passando logo ali acima de nossas cabeças? Refletida no espelho, como lágrimas gordas e tempestuosas. Como risadas de escárnio dizendo que meu nome e a palavra agonia são duas coisas redundantes. A água do meu corpo está se esvaindo, sendo sugada, perdida, cuspida para longe. E quando eu enxugar de vez, enfim, acabou. Para mim, para você, para o meu cansaço. Porque o mundo me cansa e você também está em meu mundo. Você me cansa porque eu não posso armazenar tanto amor e sentir tanta ânsia em pedaços de mim que nem sabem sentir. Estou cansada e, mais do que isso, não me suporto mais. E não suporto as luzes da vida que acendem e apagam, os fetiches de um corpo, o salgado dos dias mais quentes. Eu posso esticar as pernas como você quiser e posso rir e posso enganar. Mas estou cansada. Totalmente insuportável para mim mesma. Vou varrer os bordados para o lixo e observar a verdade do espelho até que ele caia. Porque ele também não vai suportar. A verdade é pesada demais.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Boneca de papel machê.

Um momento pode ser só um pedaço de tempo não apreciado que você deixou passar. Ou pode ser algo mais. Pode ser único, mas se você resolver deixá-lo ir embora é apenas um punhado de minutos sem sentido. E você cala, consente, não vive. Lacra a boca para não desperdiçar palavras e sentimentos, como se a economia deles levasse a algum lugar melhor no final. Você tenta preservar, mas nem sabe qual parte de você está cuidando. Você cala e fecha os olhos. Crava as unhas nas próprias mãos com os punhos cerrados até os nós dos dedos ficarem brancos de pressão, depois afrouxa tudo até ficar tão mole quanto uma tristeza seria se pudesse ser alguma coisa sólida. Mole, pesada, viscosa, pegajosa. Você taca o momento e a tristeza na parede mais próxima; a tristeza gruda, o momento cai e estilhaça. E você deixou passar e nem sabe por quê. Medo? Autocomiseração por sua deficiência amorosa? É pena. Pena pelo resultado que você julga que será ruim. E insegurança. As partes que compõem alguém sem otimismo algum guardado na gaveta da escrivaninha. Alguém que cresceu lendo histórias tristes e aprendeu a vivê-las também. É você. Você e sua covardia intrínseca que impede a rebelião. Os instintos te impulsionam e você pensa “agora vai, agora eu consigo” e abre um sorriso só para fechá-lo de novo quando percebe que não consegue porra nenhuma. Esses são os momentos que você deixa passar. Ruidosamente silenciosos. Uma dor disfarçada com morfina genérica.
Em algum instante frágil me dei conta do amor e seus tantos “poréns” latentes. O desperdício do carro parado na garagem, as mãos frias e sozinhas, o estrangulamento na garganta, quando tudo poderia sair e aliviar se eu apenas dissesse que te amo. Eu tive alguns momentos que nunca poderei reviver, mas está tudo bem. Eles existiram, tão certo quando o coelhinho da páscoa existe para uma criança. Não, já não sei. Eles existiram ou foram delírios de uma febre sem cura ou precedente? Havia você também ou apenas eu? Seu corpo esteve mesmo em meu sofá ou eu imaginei a cerveja fazendo uma borda de água no chão? Foi um sonho, eu acho. Uma espécie de pesadelo lindo – se é que isso existe – assim como seus olhos frios. Penso que na vida real você nunca mexeu em meu cabelo, discou meu número ou segurou aquele texto – como se fosse um tesouro – que eu mesma rabisquei. Na vida real o livro que eu te dei não está guardado em sua estante, mas sim jogado no lixão lá da sua rua. Na vida real você jogou tudo fora e eu te deixei passar. Passar para outra, passar para a próxima, ou para o próximo mês, ao menos. E em troca estagnei minha vida em uma espécie de espera inútil e clichê. O momento não voltará. Ele foi embora com você.
“E se você resolver agarrar o momento?”, ele perguntou. Aí, então, você pula. Para frente, bem adiante; não para trás como foram antes seus passos cautelosos e lentos. Você congela os minutos por um curto espaço de tempo para viver algo que mais tarde será uma memória bonita e envelhecida, mas que ainda terá o cheiro pelo qual você se apaixonou. Uma lembrança que ainda te fará sorrir sozinha. Você fala sem pensar tudo que sempre quis dizer. Conta sobre o seu amor. Sobre a saudade. Você não pisca, mas ele sim, porque o momento é importante apenas para você. Observa reações, manipula seus trejeitos para não dar tão na cara e até chora se quiser. E você pode acabar ficando sozinha no final, decepcionada e humilhada. Pode sentar no chão e achar que ninguém jamais conseguirá a façanha de erguê-la dali, mas você tentou. É o seu consolo, a única coisa que te deixa dormir quando encosta a cabeça no travesseiro. 
Isso tudo eu respondi sem conhecimento de causa, é claro. Como uma professora que estudou muito a matéria a ser ensinada, mas nunca a experimentou na prática. Infelizmente meus momentos são mais rápidos do que eu; voam velozes pelos ares. Tentar segurá-los sempre se provou uma perseguição inútil, um suicídio dividido em pequenas porções. Eu já desisti. Desisti de muitas coisas, mas confesso que a mais triste foi deixar de viver novos momentos. A consequência é a dor de cabeça da insônia. É o que pesa mais porque, à noite, os momentos deixados para trás gostam de assombrar o parque de diversões. À noite os momentos são fantasmas, espíritos cruéis que não querem ficar sozinhos e não te permitem fechar os olhos. Ou te acordam na madrugada depois de um susto que fez você agarrar o cobertor e saltar na cama. 
“E se você pudesse escolher um momento?”, ele perguntou. Ah, não sei. Acho que seria aquele em que você nem estava tão próximo assim, mas eu te enxergava por inteiro e seus olhos eram apenas meus. O dia em que você sorriu e disse mentiras que eu preferi crer que fossem verdades. Ou então quando você me deu um beijo estalado; eu arregalei os olhos de surpresa e você riu, lembra? “Você escolheria um momento brega e clichê?”, ele questionou com desdém. Sim, escolheria. “Você, a durona?”. Não. Eu, a boneca de papel machê derretida pela chuva da solidão. 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Hibernação sentimental.

Não há anúncio no jornal como a educação da música, classificados ou uma lista de como virar um urso em dez ou quinze passos. Nunca vi comerciais a respeito na televisão, muito menos na voz grave de algum radialista animado. Transformar seu coração em um urso em época de inverno não é matéria escolar e nem está entre as optativas da faculdade. Não há quem ensine, não há quem conheça métodos fáceis e possa dar umas dicas parceiras. Se há quem realmente aprenda, ainda tenho dúvidas. Eu estudei sozinha, fui professora de mim depois que a vida esfolou meus esforços e me deixou de mãos abanando e cabeça cheia de mágoas. Foi sendo autodidata que o pior se trancou e o melhor descansou para não ser perdido. Decidi de uma hora para a outra, mas o treinamento não foi tão rápido assim. Foi preciso paciência, dedicação e perseverança para não deixar o coração bater mais rápido. Coragem para escoar os sentimentos e complicações e ficar sem nada. Pulso firme para manter a razão sempre na linha de frente, falando mais alto e quase berrando. Foi preciso força para não permitir novos começos; para estagnar no tempo. Deixar passado, presente e futuro para bem mais tarde e viver apenas a hibernação gostosa e fácil de não sentir nada. Absolutamente nada. 
Foi assim que aconteceu. De tanto esquentar relações frias e pulsar demais por quem segue em ritmo constante, resolvi mudar. Porque no fundo a gente sabe como mudar, mas morre de medo e continua fazendo tudo sempre igual. Então larguei o medo enquanto colhia algumas frutas silvestres e um pouco de mel para estocar. Fiz um montinho de folhas verdes e outras secas e guardei as frustrações embaixo, enterradas em terra firme. Pesquei uns peixes e umas lembranças para ruminar sozinha enquanto o tempo demora a passar no inverno do meu novo lugar: a caverna escura da falta de vida. Eu resolvi não querer mais sentir. Decidi botar uma bomba em meu sistema límbico e acabar com essa parafernália tamanha de sentimentos que vieram parar em minhas mãos. Chega disso, chega daquilo, chega de você e chega de mim depois de você. Eu resolvi hibernar, arrumei minhas coisas e parti. Não me perguntem como se aquiesce um coração desesperado. Não me perguntem para onde vim. Eu não sei. Eu apenas decidi. Não adianta cantar suave, ninar, deixar quentinho. Precisa mesmo é hibernar. Reduzir todas as funções corporais e deixar que restem apenas as estritamente necessárias para a vida. Nada de risos, lágrimas, palpitações. Tudo isso é só gasto de energia. Nada de emoções. Só a constância do sono letárgico. Só a inatividade do corpo e da mente, do coração machucado, da solidão alargada. O relaxamento muscular depois de tanta tensão amargurada. Deixa o vento levar que a vida assenta. Deixa a falta ir que a presença toda vem. Deixa acontecer que, quem sabe, acontece. E se não acontecer, deixa de novo o vento levar. E enquanto isso você apenas dorme o sono ameno daqueles que merecem um pouco de paz. O rosto continua duro e fazenda caretas rígidas porque não sabe mais ser delicado e repousar. O rosto é duro – assim como a vida - mas deixar que os sentimentos hibernem é questão de saúde mental. 
A tristeza gorda ainda está na garganta e em todas as regiões do corpo. Espalhada pela caverna e servindo de cobertor e de gordura armazenada para a sobrevivência de quem não acorda para se cobrir com um manto. Nos pesadelos o urso ruge, mas não irá acordar. Não até que o verão chegue e traga boas notícias. Não até que a vida tome mais cara de vida do que de fardo. O urso está desesperado no espaço onde ainda pode gritar sua dor, mas o corpo espera em delírio invernal. Não há mais nada para sentir. Tudo acabou e tudo se foi. Ainda que ele hiberne, em certos momentos bate o familiar aperto no coração. Então eu me lembro que ainda dói em algum lugar distante de mim, onde ainda sou eu mesma, e que quero rasgar meu peito, sem pudor ou cuidado, e arrancar coração, urso, artérias, veias, tudo. Os pulmões que respiram você. Quero arrancar de mim sua última imagem, aquela que estraçalha minha vida. Enlouqueço por alguns instantes até lembrar que tudo só pode estar se passando em um sonho ruim porque, afinal, estou hibernando sentimentalmente já há meia estação.
Arquivei em pastas separadas o que já senti e o tanto que já amei do que ainda poderia vir a amar. Fichários diferentes, mas com o mesmo destino: a caixa-preta de um avião que não vai mais decolar. A caixa que tomou posse de tudo e que um dia irá mostrar – descoberta entre entulhos e destroços – que sua dona foi, algum tempo atrás, capaz de viver. Perdi a habilidade. Perdi a compaixão por meus próprios sentimentos. Perdi a destreza de andar nas pontas dos dedos para não machucar o pé inteiro. Agora tanto faz se você vai voltar. Não estou mais tentando viver, só existir. E isso, diferente daquilo, não requer você. Eu queria tudo que você não podia me dar e agora não quero mais nada. Nem você, nem eu, nem a droga da paz que nunca chega. Não quero nada e já perdi tudo, até mesmo o que não tinha e que nunca foi meu. Botei para dormir – eu, urso que virei – minha vida. Silenciei na marra os sentimentos maiores e as dores mais vis. Perdi as lágrimas e a vontade de derramá-las. Mas não se divide bom de ruim de forma sensata, já que tudo é relativo. Então, junto com todo o desespero, perdi também a alegria, o sorriso solto, a fluidez de permitir que um amor aconteça e a capacidade de doar os poucos restos inteiros que ainda tenho. Restos que irão necrosar por falta de uso. Retalhos de amor, pedaços de querer. Tudo apodrecendo enquanto eu hiberno por um tempo incalculável.
A barreira foi erguida, um muro alto de pedra sobre lembranças em constante explosão. Mas é tudo fino demais. Frágil demais. Uma só garra mais afiada e um buraco se rompe na divisão entre o real e o sono. Tudo se rasga com vontade própria, sem pedir licença. O urso acorda, grita, sangra sua dor que até então dormia quase esquecida. É quando percebo, acordando no meio de um pesadelo qualquer, que não aprendi. Ainda não sei como se bota para o lado o que machuca e corrompe. O que dilacera pedaços sem piedade, noite após noite e dia após dia. As lembranças mais bonitas e vis. A mescla do que arde, queima e assopra. Sei dar uma folga, as vezes, para meu coração cansado, mas a neve lá fora continua chicoteando as janelas do meu peito. Sou um cochilo leve e assustado. Um sono que não chega, apenas acostuma. Descobri que, no fim das contas, sou mesmo o urso panda. Aquele que apenas cochila, mas jamais hiberna.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Cabides.

Estou com medo saindo pela garganta, uma apreensão comendo entranhas e endurecendo travesseiros. É como se você fosse embora amanhã. Não aquele embora que volta, do tipo “até depois”, mas o embora para sempre. É como se você estivesse arrumando as malas na minha frente, esfregando em minha fuça sua partida precipitada. Pegando cabide por cabide no armário com uma lentidão excruciante. Dobrando camisas, calças, cuecas e meias e socando tudo na maior mala do mundo com a calma de quem sabe exatamente que passagem comprar e para onde ir. Cada roupa guardada na bagagem leva uma parte de mim junto com seu coração; os cabides ficam vazios como minha vida será quando você for. Mas você não se importa. Um cabide é só um cabide, afinal, não arquiva sentimentos. E joga cada um em cima da cama para que eu guarde depois. Para que eu junte os cabides e meus restos com uma vassoura e jogue tudo no fundo de uma gaveta porque esses são cabides que apodrecerão sem jamais segurar outras roupas. Diferente dos seus, que têm uma vida inteira pela frente.
Deitada na cama eu falo em sussurros sobre o medo de te perder e sobre o quanto te amo. Coisas que habitualmente ficavam guardadas junto com o livro embaixo do travesseiro. Escondidas, abafadas. Eu falo, mas você parece nem perceber. Sua resposta é sobre as garrafas vazias de whisky que coleciona em sua casa. Eu penso que suas garrafas não te amam mais do que eu, mas permaneço em silêncio. Levanto me esquivando pelo lado da cama colado à parede que me pertence quando você está aqui e procuro caneta e papel para escrever. Não acho nada porque minhas coisas estão sempre desorganizadas e espalhadas por aí. Não sei aonde o caderno foi parar. Acho um bloco de receituário médico, enfim. Serve para não perder a ideia dos tais cabides que você está jogando fora. Volto para a cama e escrevo com uma luz ruim, enquanto você brinca no celular. Sabe que estou triste e já me viu virar a página quatro vezes, mas tanto faz; seus cabides já estão mesmo vazios. O único armário ainda cheio é o meu. Cheio de amor e dessa angústia insistente pululando em meu peito, como se soubesse de algo que eu mesma não sei. 
Não adianta me esperar para dormir, amor. Eu posso ser sensível e ficar triste por pouca coisa, mas quem está com as malas prontas é você e para mim restam apenas duas coisas. Escrever usando um livro improvisado de apoio e depois apagar a luz para dormir virada para a parede. Você vai me abraçar, eu sei, e nós vamos encaixar naquela conchinha que me acalma. Com sua pele quente e macia, vai me chamar de amor. Talvez eu não retribua, mas não é por falta de sentir e sim porque você me fez enxergar as malas lá na frente e os cabides vazios deixados para trás. Vou fechar os olhos e tentar dormir. Vou tentar lembrar que estou protegida porque você está com o rosto perto da minha nuca e um braço por cima do meu. Mais tarde você vai embora e eu sei que meu corpo sentirá falta de cada toque, mas tudo bem. Hoje estou quebrada por dentro, mas com dignidade. Amanhã cuido dos cabides. Quem dera fosse fácil assim com sentimentos também. Amanhã o que restar será preenchido com vestidos meus que imploram por espaço. Quem dera fosse simples assim com pessoas também. Mas não é. Você vai embora com suas palavras mal pensadas e eu vou ficar com as lembranças das suas besteiras divertidas. Não sei qual foi o tamanho do amor que as outras dedicaram a você quando se recostava na cama, lindo em sua camiseta preta e cueca branca, mas sei que o meu amor é maior. Não sou criança para disputar e nem preciso medir. Eu sei. Simplesmente sei que te amo mais quando você faz carinho em minha perna enquanto escrevo, tentando sutilmente descobrir se está tudo bem. Não está. Sua mala tem rodinhas e já vai longe com uma velocidade impressionante que só você não vê. Eu enxergo mais do que gostaria. Sei que te amo quando espio seu rosto sério e, principalmente, quando apago a luz e você ainda está ali. Eu sou material que queima, mas você ainda está ali, deixando o braço pegar fogo até que resolva esfriar.
Quando canso de escrever e deito, enfim, você realmente me abraça, quentinho como eu esperava. Dói no começo, porque ainda estou arisca e sofrendo minhas batalhas internas; você mesmo diz que sou assim. Mas depois começo a me acalmar. Eu só precisava de paciência e de você, embora não parecesse. E então penso que vou conseguir dormir e que talvez os cabides sejam apenas um presságio ruim que não se concretizará. Mas você levanta e vai embora, quando meus olhos estão quase apagados. Sem beijo de tchau, sem aviso prévio, sem nada. Calça os tênis e vai embora do mesmo jeito que entrou. E eu pensando – bobinha – que teria seu abraço até de madrugada porque amanhã é feriado e não precisamos trabalhar. Bem, não precisamos mais nada agora. Era meia noite e dez. Ouvi mais do que vi você indo embora. A chave no trinco da fechadura. A porta rangendo. A porta do elevador se abrindo. Seu carro derrapando nas pedrinhas lá embaixo. No fim você preferiu estar longe e penso que dessa vez não tem volta. Eu fui um cabide em sua vida, onde você pendurou as roupas e esperanças mais antigas sem pensar direito. Fui um cabide, quando queria ser apenas seu amor. Mas cabides não choram, então não sei o que sou.
Eu sabia que as malas estavam próximas, senti isso desde o começo da noite. Mas não achava, confesso, que elas estavam tão próximas assim. Você não estava apenas se preparando para ir. Você já foi. Pensei que iria embora amanhã ou na semana que vem, mas, no fim, você foi hoje mesmo. Foi embora subitamente como um gato que extermina um camundongo e depois foge. Quando dei por mim estava sozinha em uma cama gigante, com seu travesseiro ainda dobrado ao meio. Seu corpo ainda marcado logo ao lado. E você me diz, depois, que sua noite será péssima. Mas, meu amor, pelo menos você tem o whisky para acompanhar as outras garrafas vazias enquanto eu digo, mentalmente, que ainda te amo. Você decidiu me deixar sozinha e, já que era para machucar, espero que tenha ao menos se dado ao capricho de colocar os cabides na porta de lixo do corredor do prédio. Assim, talvez, doa menos em mim amanhã. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Falecido amor.

Ele morreu. Morreu jovem, mas também velho. Ninguém o chamou de coitado, o exultou ou disse que ele se foi antes do tempo. Ele morreu porque merecia morrer. Como uma fase embrionária falhada e, ao mesmo tempo, como alguém que já precisa de fralda geriátrica. “Não existe isso, ou se é jovem ou se é velho”, alguém retrucou. Mas ele era ambas as coisas, assim como eu também sou. Corpo jovem, mente idosa. Em alguns aspectos um bebê que ainda nem sabe andar, em outros uma carcaça que já sofreu todas as peripécias da vida danada de sacana. Há tempos ele precisava de ajuda para tudo; sua vida dependia de cadeira de rodas, uma mãozinha para tomar banho, comida dada na boca. Estava desnutrido, padecendo carente de tudo.
Ninguém o velou, exceto eu. Ninguém entrou em luto ou vestiu preto, exceto eu. Só eu o cremei por um resto de carinho e respeito e soprei os grãos cinzas ao sabor do vento para que ele fosse livre como sempre desejou. Só eu derramei lágrimas por sua morte precoce. Os outros riram porque sem ele o mundo ficaria melhor. Menos doloroso, menos agressivo. Mais saudável e gentil.
Ele morreu não se sabe de quê. Cirrose, câncer de pulmão, acidente de carro; tudo é possível, tudo pode ser e tudo combina com seu estilo de vida, mas o mais provável é que tenha morrido de cansaço. Os médicos garantiram que isso é besteira, mas eu acredito piamente que não. Ele já arfava exausto há tempos, mais gorgolejando do que respirando propriamente. Já não era mais ele, especial e bonito como no começo. Não podia correr, não aguentava a rotina, não suportava o peso de precisar de alguém além de si. Era apenas uma pessoa com olhos sempre vermelhos, hábitos ruins e carro sujo. Era alguém que significava muito para mim, mas que preferiu morrer sozinho, sem segurar minha mão estendida. E hoje agradeço por isso. Por ter recolhido a mão e tê-la mantido sozinha e viva.
Ele não se aceitava em frente ao espelho e não me aceitava também. Imagine, é claro que eu era pouco para ele, enquanto ele era pouco para si e muito para mim. Minhas últimas palavras – parada em pé na terra fofa do cemitério vazio e inspirador – foram: “Descanse em paz. Depois de tantas bagunças, já passa da hora. Tantos erros que agora podem dormir com você. Tantas mentiras que morreram sufocadas em seu peito ou martelando em minha mente. Você tem uma eternidade aí embaixo para pensar e salvar o pouco íntegro que ainda lhe resta. Você tem o meu respeito, pois fez parte da minha vida. Só peço, por favor, que não volte jamais para me atormentar. Conte comigo, mas longe de você”. 
Pés descalços, o vestido balançando com o vento gelado, joguei uma rosa desapegada em cima de seu corpo duro e fui embora com o rosto seco. Todas as lágrimas que ainda restavam ficaram dentro do túmulo, junto com ele. Chega de chorar por quem já se foi. Chega de sofrer por um passado que já nem respira mais. Fechei os olhos e abri um sorriso cálido. Sou livre agora, totalmente livre de um peso que já era morto mesmo quando vivo. Posso voltar para visitá-lo as vezes e levar algumas flores frescas. Ou secas, dependendo do humor. Posso visitá-lo, sentir pontadas de saudade, mas ele nunca mais existirá. O que morre não volta e eu não quero um zumbi atormentando minha vida. Fique morto. Que nenhuma mão escurecida e de unhas pretas e sujas surja da terra para agarrar meu tornozelo. Seu fim é só seu e não me tem. Não vou morrer junto com você, com um mundo inteiro por viver lá fora. Outros tantos de você correndo ásperos por aí, outros diferentes da sua empáfia, mais saudáveis e suaves andando com calma e paciência. Dei uma última olhada para trás, sim, mas não vá acreditar que foi por saudosismo. Foi, na verdade, para ter certeza de que a lápide estava mesmo lá, imponente e cinza, cravejada com as palavras “aqui jaz um velho amor que não deu certo”. E estava. Ele não funcionou, só maltratou e danificou o que antes era quase inteiro. Mas meu coração continua aqui, batendo no peito e seguindo em frente. Lá no túmulo está apenas o amor velho e ressecado que não quero mais te dar. O mais ridículo amor, que de pobrezinho nada tem. Você continua por aí, e eu continuo por aqui. Mas o amor, o falecido amor, nunca mais rastejará em outro solo que não seja aquele a sete palmos de profundidade. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Castelo de cartas.

É triste ter que medir palavras com uma trena imaginária. Ter que escolher a dedo o que dizer, o que deixar transparecer e o que esconder no fundo da mente. Em cima da penteadeira há cremes, perfumes, maquiagens e pequenas caixas de veludos para joias. Coisas aleatórias. Nada que me lembre do que a vida me mandou esquecer. As caixinhas de veludo contendo lembranças suas estão guardadas no cofre do meu peito e muito bem fechadas. As vezes a trava de uma estraga e você volta e aparece em minha cabeça como algo enviado por um catavento. Essas são as vezes em que você é leve. Em que lembrar de nós não machuca nem ofende. São as vezes em que pensar em você é lembrar do seu sorriso feliz e aceso e associá-lo ao meu triste e apagado. É leve. Leve como uma folha seca que sempre termina despedaçada.
Mas você sabe – talvez melhor do que qualquer outra coisa – ser pesado. E lembrar de você pesado crucifica o que há de bom e de saudável em mim; tudo que estava se reintegrando desmorona como um castelo de cartas abatido por um sopro. Você não precisa criar tempestade ou ventania, basta um sopro de quase nada. Eu caio. Cometo erros imbecis, esqueço do que é importante e lembro do que já havia com suor esquecido. E o mundo fica bravo porque eu ainda me lembro do peso da sua mão em meu rosto e do seu cotovelo prendendo meus cabelos; mas o mundo também é um peso que não se enxerga.
E quando você é pesado, quando seu sopro mais parece um tornado girando minha cabeça e minha história em 360 graus, eu me pego querendo ser cleptomaníaca. Querendo ter coragem para assaltar penteadeiras alheias de destino mais caprichoso e roubar uma caixinha bonita que contenha uma história feliz, muito melhor e diferente de nós dois. Algo que termine bem ou, ainda melhor, que nem termine. Uma caixa diferente. Amarela, talvez, cor que não se vê por aí. Mas minhas mãos estão sempre nos bolsos e meus olhos estão sempre em minha própria penteadeira triste.
As caixinhas de veludo que guardam você deveriam estar adquirindo o tom sépia de tudo que é velho e o cheiro de pó de arroz antigo misturado com sachê de naftalina. Mas, ao invés disso, parecem cada vez mais vivas, vermelhas, pretas e azuis. Revivê-las dói – assim como dói reviver seu olhar – mas eu já aprendi a lidar com a dor. Você me ensinou quando eu amava mais seu sopro do que meu castelo de cartas completo. Hoje faltam algumas, exatamente nos cantos mais esburacados de mim, mas eu prefiro as falhas do que o vento que batia e afastava a cortina junto com seu abraço gélido. Hoje eu prefiro a janela e as caixinhas fechada, mas quando um lacre se rompe salta você lá de dentro envolvendo tudo ao meu redor e me lembrando de como era admirar o conteúdo de cada uma delas vez ou outra. E não há mais vida além disso, então. Você pula dizendo oi e eu esqueço do por que estar tão longe, tão brutalmente afastada do que preenchia meu vazio inabalável.
As vezes ainda penso que poderia ser, apesar do silêncio, do pânico e da dor da sua mão sem carinho no meu rosto. Quem sabe o silêncio possa ser ouvido com algum esforço. Isso é leve, pensar que nós poderíamos. Que meu castelo não estaria mais fuzilado e que as caixinhas poderiam ficar abertas sem dor, mostrando as joias eternamente recém polidas. Pesado é pensar que não podemos, que o certo é fechado e que o silêncio não significa nada além da ausência. Que nossas pratas estão riscadas e opacas e não serão restauradas. Essa ideia de que “poderia ser” está guardada na caixinha preta e almofadada de cetim. Fúnebre. Morta e com o fedor de flores apodrecidas. Triste como não enxergar cor no que é verde e brilhante. Triste como o sumiço dos seus olhos e trejeitos. Triste como medir palavras com uma trena imaginária, enfim.
E, para não voltar, não magoar, não doer, não adoecer, não enfraquecer, eu esmago o rosto entre as mãos e tento fugir da vida que me persegue. Viro para o outro lado da cama, o oposto da penteadeira. Encaro a parede. Você está em tudo que eu faço, penso, leio e vejo. Está no que o canto do meu olho esquerdo percebe sem querer. Na sujeira e na bagunça da penteadeira desorganizada, tanto quanto minha cabeça semi-destruída. Talvez eu não consiga transpor o riacho do castelo de cartas. Ou talvez ele apenas não tenha ponte para ser atravessada. A nado é que eu não vou, você não vale tanto assim. No fim das contas, você é só um sopro. E, por mais que por enquanto pareça tempestade, no devido tempo tomará o papel de simples ventinho falhado que é. E eu terei minhas caixinhas adquirindo saudosos tons marrons, o castelo ganhando cartas novas, tudo se recompondo. Você não vale tanto assim para ter um porta-joias só seu.

domingo, 25 de setembro de 2011

O tilintar.

Tilintando. Como um sino ou até a ponta de uma faca batendo na xícara como os mais velhos fazem para pedir café. Tilinta dentro de mim e hoje sei que é impossível realmente viver com algo quebrando e rangendo em sua vida todos os dias. Vejo as pessoas caminhando na rua com suas faces vaporosas e leves e sinto o peso da minha absurda desesperança nos ombros. Pinicando com a ponta de uma agulha. Magoando partes do corpo que ninguém descobriu que podem ser magoadas. Prevenindo contra o amor e outras coisas lindas que agora parecem drogas. 
Meu quarto reformado está bonito agora. A luz amarelada cai melhor aos corações obscurecidos do que a branca fluorescente que distorce imagens e proporções. A amarela salva um pouco do que não é real. A proporção da minha bunda até que incomoda, mas a do desolamento é pior. Da inconformidade. Não sou uma experiência. Uma máquina realizadora de sonhos. Sou só uma mulher, mais uma entre tantas, e se for um pouco mais do que isso para você já está de bom tamanho. Não vivo de grandes esperas, nem mergulho na calmaria da certeza de que algo está por vir. Eu nadava contra a corrente e hoje simplesmente me deixo boiar e ser levada para onde quer que o tilintar queira que eu vá. Vivo no tormento. Sempre tilintando. Não uso vestidos que mais parecem blusas de tão curtos. Não esqueço a parte debaixo da roupa em casa. Mas o espelho ainda diz que há algo errado, muito diferente do que deveria ser. Talvez sejam as sombras escuras abaixo dos olhos, os desenhos da loucura refletidos neles. A melancolia do que deveria ser sorridente. Ou, quem sabe, seja só mesmo o tilintar. Ele é confuso. Ora faz seu “plim, plim” por algo suave e bom, ora funciona como um prenúncio de morte. E quando é suave e bom, sempre se torna amargo no final. O tilintar chega quando você não está por perto e eu posso pensar no desastre em que me tornei. Ou quando outra besteira aparece e estabilidade e segurança vão embora. O tilintar não passa de um medo mais charmoso e perfumado. Decorado com maquiagens caras e saudades escondidas.
Em mim tilinta todos os dias e todas as noites. As vezes menos, as vezes mais, mas sempre piscando sua luz insuportável. É o tilintar quem me acorda em meio à sofreguidão de um pesadelo quase palpável. É ele quem não me deixa reduzir no sinal amarelo e avançar no verde. É o cuidado ou a falta dele. O pavor. É a taça de cristal quebrando no chão junto com meu último amor. O tilintar é a doença que acomete os corações feridos. Não tem cura ou prescrição. É o aviso pregado na porta imaginária dizendo em letras bruscas que já chega, é hora de partir. Tilintar é confusão. É um amortecimento doloroso. É querer outro e amar você. É querer viver e deixar desfalecer por falta de força. É querer descansar e não conseguir. É chorar um choro interminável que só a espessura de uma coberta presencia. Quem tilinta precisa de uma toca. Um refúgio para sua vida apagada. A cama, a coberta. O travesseiro que conhece tão bem sua dor. E quando o invólucro é perfurado, toda a dor retida vaza e se torna insuportável porque você é obrigado a encarar o que estava guardado. Tilintar é tentar dar um passo quando já se desaprendeu a andar. As pernas ficam fracas, tremulam como bandeiras hasteadas, pisam sem firmeza alguma. Como as pernas de um bebê que não chora. Um bebê de porcelana. Avançam um ou dois passos e caem de joelhos mais uma vez. Cortando mais um pouco. Doendo mais um pouco. Os cabelos vão ficando sem vida, não reluzem mais ao sol. Os olhos são opacos e quem já recebeu um olhar opaco sabe como é aterrador. Assusta. Melindra. Apavora. Mas no fundo é só o tilintar.
Ele vai enlouquecendo aos poucos, te deixando sem saber se vai para lá ou para cá. Se fica ou cai fora, se espera ou se conforma. E, sem permitir conclusões, ele vai enlouquecendo e causando uma bobeira não tão bobeira assim. Você se torna  socialmente retardado porque não sabe mais como abrir a boca para se comunicar sem que riam de suas palavras. Sem o medo de receber uma bala a mais em seu peito todo perfurado. O tilintar é a junção de várias síndromes. Pânico. Estupor depressivo. Pensamento acelerado. Psicose. Tudo misturado dentro de uma só vida. Você pode ocultar e até tenta com afinco mas, quando os olhos se perdem, é porque está tilintando em cada membro seu. As pessoas não sabem, mas sua apatia vegetativa e instantânea é a recordação de lembranças ruins. E vai cortando em pedaços o pouco de você que parecia ainda estar inteiro. A catatonia assusta e repele, mas você não consegue mandá-la embora porque tudo é mais forte que sua vontade de tentar.
Houve um tempo em que eu lutava contra o tilintar, mas é tão inútil quanto acender um fósforo em um blecaute total. Já tentei ignorar e o tilintar ficou bravo e severo. Ele quer ser lembrado. Quer aparecer, quer sangrar através do sorriso branco e polido que ostento. Eu virei esse tilintar eterno e a culpa é só minha. Graças a ele não confio em ninguém e muito menos em mim mesma. Um pedacinho do tecido suja na terra e o vestido inteiro já não serve mais. Um pedaço de mim suja na dor e eu inteira já não sirvo mais. Inútil para o amor, para o abraço, para o frescor de tomar uma água bem gelada no verão. Sempre ardendo em febre sem que ninguém perceba. Sempre tostando os neurônios de tanto pensar e procurar uma saída onde nem mesmo há portas ou janelas de emergência. Há apenas um extintor de incêndio e um machado. Nenhum sinal, manual de instruções, setas para indicar qual corredor escolher. E você precisa escolher. Se apaga ou se corta. Se corre e se perde ou fica parado. Se continua tilintando seus machucados ou fecha os olhos com uma última dor súbita. Você tenta, mas a opção não é sua. Quem realmente escolhe, no final, é o tilintar. Ele quer existir. Ele não vai embora. De jeito nenhum.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Quando fica sério.

Você sabe que é sério quando fica uma escova de dentes dele no pequeno armário do seu banheiro, no mesmo copo em que fica a sua e duas ou três pastas de dente. Aí é sério. Quando ele senta para tomar chimarrão com sua avó também. Sem que você perceba ele já está discutindo futebol com seu avô e amolecendo sua mãe com aqueles olhos azuis de oceano. Ele tem esse quê de conquistador amável, estarrecedor. Fica sério quando você tem quase certeza de que pode confiar no charme dele tanto quanto em suas palavras. Ele é só seu, teoricamente. Você é só dele e até que enfim ser de alguém não dói. Fica sério quando você percebe que a pele dele é macia e morna, que o peito dele é o melhor travesseiro e que a mão quentinha dele afasta um pouco o frio da sua. E, de repente, já não são só as mãos. É o abraço que esquenta sua infelicidade e a transforma em um quase sorriso. É isso. Você se vê mais uma vez quase sorrindo, quase quente, quase se entregando por completo e quase sonhando. Quase acreditando em algo mais. Você até tem vontade de se olhar no espelho e caprichar no visual para deixá-lo com aquela face de encantamento abobado, embora você ainda não saiba o que foi que ele realmente viu em você. Fica sério quando dormir não é mais tão difícil porque você sabe que ele está logo ali e que, quando o pesadelo vem, ele sempre sacode seu corpo com suavidade até que você acorde. Depois diz “calma, eu tô aqui” e deixa que você se aninhe mais uma vez até que seu peito volte a se controlar e sua respiração não seja mais sôfrega. Ele não apenas te abraça e te esquenta para dormir, ele também manda embora o vilão fantasma que sempre esteve ao seu lado.
Fica sério no instante em que a porta do elevador do seu trabalho se abre e ele aparece segurando um buquê de rosas vermelhas. Mais sério ainda quando já é o segundo buquê. Você acha que não merece, mas percebe que aquele cara – diferente de todos os demais com quem já esteve - parado ali com um sorriso humilde e deslumbrante, esperando por você, compõe a cena mais linda de toda a sua vida. Fica sério quando ele diz “eu te amo”, olhando para você sem piscar, no momento em que homem nenhum pensa em amar. Fica sério quando ele se preocupa com seu bem-estar acima das próprias vontades. Ele aguentou muita coisa no começo e ainda aguenta. Seus traumas, tremeliques, as infernais lágrimas irrefreáveis e desobedientes, dores nunca antes compartilhadas. Seus medos, acima de tudo. Ele teve paciência e quando há paciência o negócio fica sério. Ele aguentou, entendeu, aceitou e deixou ficar sério sem evitar. Ele não fica nervoso quando você está cabisbaixa. Ele fica quietinho fazendo um cafuné ou fala asneiras para te fazer sorrir. Tudo depende do seu humor, não do dele.  
Fica sério quando ele quer matar seu ex não por ser seu ex, mas por tê-la feito sofrer uma chuva de dardos fulminantes dia após dia. Ele sabe, lá no fundo, até o que você não contou. Te abraça tentando proteger, sem saber que no momento em que você encosta o queixo no ombro dele seus olhos se perdem no passado e você se sente destruída. Você fecha os olhos e algo se trinca dentro da sua vida. Fica detonada porque o ama, sim, mas não consegue trazer os dois pés para frente, nem mergulhar entre os tubarões para achar o peixe dourado. Você tem medo, ai de você. Medo de que ele seja um bom ator, apenas. Medo de que o abraço seja o último e amanhã ele acorde com o pensamento disperso em um universo paralelo onde existe outra pessoa. Você tem medo porque, se isso acontecer, é justamente com você que permanecerão as lembranças. A escova de dentes, o origami, o sapato, o quentinho. No banheiro dele não tem uma escova sua. É para você que continuará sério quando não for mais. Você olhará para o leite achocolatado – comprado por sua mãe porque o genro gosta - repousando na geladeira. Nunca mais fará um sanduíche com tomates picadinhos na manteiga - depois de um combinado inteiro de sushi – só porque ele ainda estava com um pouco de fome. Você terá as lembranças, enfim. A seriedade perdida no tempo. O amor que desistiu de ser. E ele terá qualquer coisa que não seja você.
Você tem medo, mas tenta lembrar que a escova verde dele ainda está em seu armário. Ainda é sério. Ainda é amor. O leite achocolatado ainda não coalhou. O travesseiro ainda tem o formato da cabeça dele e é quase quentinho ali. Antes dele você havia jurado que nunca mais deixaria um amor ficar sério, ou sequer ficar, de qualquer maneira. Mas ele roubou seus juramentos e agora você se vê projetando uma vida diferente em um show de slides. Fotos do agora e do depois. Não mais do antes. Histórias engraçadas, românticas e até dramáticas, mas nada mais de horrores e pânicos. Uma apresentação bonita, diferente de tudo que você esperava, afinal. Começa a acreditar que sua estrada pode ser mais longa do que imaginava e que não precisará percorrê-la sozinha. Você realmente acha que se o final foi feliz é porque ainda não foi final. Mas, quem sabe? Talvez você esteja errada. Talvez sua matemática seja de muita estatística e pouca dedução. Talvez seu final seja sempre um resultado negativo porque você não deixa que o positivo exista. Mas ele é positivo. Ele soma e não subtrai. Não arranca de você, apenas toma delicadamente o amor que lhe pertence. Ele é a sua melhor interpretação de textos. Ele deixou uma escova de dentes em seu banheiro. Aí não tem jeito mesmo, ficou sério de vez.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Conveniência.

Eu queria entender esse amor quase imediato. A histeria do abraço que não dilacera como os outros faziam. Antes tudo doía; qualquer toque, cutucão ou afago. Estava estampado em meus olhos: fique longe, por favor. Agora não dói, é mais como uma fuga do amargo para o doce. Tudo que antes parecia propenso a morrer, agora parece cada vez mais vivo. Gostaria de ter respostas. Como eu caí na profundeza de um balde que parecia raso e, no fim, era um oceano? Não entendo, mas até o canto mais vermelho do seu olho direito irritado pela lente de contato me encanta. Seu braço adormecendo sob minha cabeça e eu na vida paralela de achar que não pode ser verdade. Você me acorda durante a noite pedindo um abraço e eu te acordo no meio da noite para ser salva de um pesadelo cruel. Você é mais suave e eu sou o empecilho que imponho ao meu próprio caminho. Você ronca e nem isso incomoda porque na manhã seguinte você continua ali. E passa o braço sobre meus ombros como se para comprovar que não foi embora. Logo cedo eu encaro a realidade que antes não existia. A cama não está vazia.
Essa história de tampa de panela e metade da laranja já passou da conta. As coisas não funcionam com metades, mas com inteiros que se completam. Você é o Kinder Ovo. De tudo que se completa, como tequila e limão, nada é mais perfeito do que chocolate branco misturado com preto. Você gosta do brinquedo surpresa e eu gosto de você. Sempre achei que seria o sal do limão, apenas o temperinho, a amiga sozinha com mil gatos na varanda de casa. Ficando velha junto com os chinelos e o chimarrão. Mas agora faço parte de um Kinder Ovo grande embrulhado em amor.
Você me faz rir e isso deve ser bom. Quero dizer, rir de verdade. Como quando você atravessa a rua correndo e finge tropeçar. Ou quando me entrega sacolas e mais sacolas de mercado e acha que tudo é leve. Quando me faz correr e saltar no seu colo sem dar uma paradinha estratégica antes. Nós rimos até quando as luzes se apagam e ninguém mais ri. Rimos depois de chorar. Eu sou forte e você é forte, mas nós choramos. Vai ver é porque somos de verdade. E você se sente fraco e eu quero te dar toda a minha força até ficar minguada, mas tudo que posso fazer é passar a mãos nos seus cabelos recém cortados e dizer que tudo vai dar certo. E que você é, sim, quem eu queria para mim.
Você tem suas dúvidas e, deitado no sofá, dá vida a todas elas. Acha que não me protege, que não tem o porte que eu necessito. Que não é o cara que eu queria ter, quando nem eu mesma imagino outro cara para mim. E eu, pequena dentro do seu abraço, sinto que nada pode me atingir ou abater. É controverso, mas você não pode enxergar a segurança dentro de mim. Não sou um filme compreensível, com início, meio e fim. Tenho, no máximo, o meio. Você diz, em um falsete da sua tristeza, que não foi feito para mim. Que é apenas conveniente. Eu digo que não desejava ninguém. Não tinha uma imagem desenhada na cabeça. Queria mesmo era ficar sozinha, porque essa é a grande conveniência da minha vida introspectiva. Conveniente era não ter com quem me preocupar. Não precisar cogitar o futuro, nem mesmo sair de casa. Conveniente era ficar comigo mesma, a melhor e a pior companhia de mim. Conveniente era poder ser louca e respirar aos poucos sem pensar mais em viver. Deixar os dias passarem no marasmo, até que resolvessem não mais passar. Não é conveniente amar você, nunca foi. Porque agora eu me pergunto se quando deixo cair os braços ao lado do corpo em desistência não estou ferindo mais alguém além de mim. Agora tenho medo por dois. Vivo por dois, quando nem mesmo aguentava minha própria vida. E, as vezes, vivo apenas por você, porque sei por suas lágrimas que você precisa. Não ultraje minhas memórias e sentimentos; se isso for conveniência, não entendo o conceito de amor.
Atrás da cortina de tudo que sempre escondi, há agora uma coisa exposta. Uma delicada e frágil estabilidade começando a atravessar uma ponte bamba. Mentiras irão quebrá-la e conveniências também. Porque nós não somos feitos para outros. Somos feitos para nós. Então, acho que é amor, principalmente porque quando estou escondida embaixo do edredom, tentando fugir de meus medos e possíveis passos errados, é em você que penso. É amor, tenho certeza. Já tive uma quase certeza outras vezes, mas agora tenho a certeza de que você também tem certeza, apesar de fraquejar como eu. Temos certeza, temos amor, temos a nós. Então, nada mais justo que a única conveniência em nossa vida seja a lojinha de posto 24 horas onde paramos para comprar salgadinhos, Halls e Kinder Ovo no meio da madrugada.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Suco de tangerina.

Ei, moço! Vê uma dose de tequila pra mim, por favor. Se tiver uns lencinhos de papel por aí, acho que vou precisar também. Como assim não tem tequila nem lenço para vender? Eu vim dirigindo até aqui só para achar um pouco disso e quem sabe uma esperançazinha entre as tranqueiras todas das suas prateleiras desorganizadas. Não, não serve suco de tangerina. Nem de morango. Cara, esquece. Você não tem nada do que quero aqui e eu até entendo, porque tudo que preciso consertar depende só de mim. Quem sabe uma pistola ajude. Calma, tô brincando. Vou continuar dirigindo por aí, mas valeu. O que? Não, não, estou bem, não se preocupe. Essas lágrimas são apenas velhas amigas dos meus olhos querendo ir embora antes de o tormento chegar. Não estou fazendo sentido, não é? Deixa para lá. Não, não quero sentar um pouco para me acalmar. Não preciso me acalmar. Na verdade, nunca estive tão serena antes. Só preciso fugir um pouco de mim. Minha cabeça vem tentando me matar há algum tempo, criando uma avalanche de memórias e traumas ruins. Bom, já vou indo. Até mais.
Voltei! Acho que vou aceitar aquele suco de tangerina. E um pacote de amendoim japonês. Sabe o que é, o lugar está vazio e isso é uma maravilha. Tenho vozes demais gritando dentro de mim para ficar em um local barulhento. É de enlouquecer, entende? No fundo eu só preciso conversar com alguém. Passei muitos anos mais fechada do que cofre com combinação perdida. Tem um montante enorme de coisas pelas quais passei das quais ninguém faz ideia. Sem problemas, sabe, esse é um fardo meu. O duro é que as vezes pesa demais. Sim, sei que você entende. Todo mundo diz que entende, porque cada um carrega seus próprios pesos. Ninguém tem espaço para os outros. Mas eu tô afim de conversar um pouco, do contrário estaria secando essas lágrimas lá dentro do carro, escorada no volante. Se bem que, pensando bem, você entendendo ou não eu estou pouco me lixando, com o perdão da grosseria. Estou mais do que acostumada a ser incompreendida e nem adolescente sou mais. É que as pessoas não estão habituadas com jovens melancólicos, só isso. É quase como se estar na faixa entre os vinte e os trinta anos trouxesse a obrigação da felicidade. Não gosto muito de festas, qual é o problema? Prefiro mesmo ficar em casa lendo um bom livro. Não quer dizer que eu nunca saia. Só quer dizer que, na grande maioria das vezes em que saí, acabei voltando para casa massacrada por uma massa de gente desinteressante. Ainda assim, as vezes capricho no visual e dou uma saída. Não flerto, não olho para os lados e faço dancinhas ridículas só para me depreciar. Saio, mas é mais para cumprir meu papel de jovem e deixar tranquilas as pessoas que me amam.
Eu vejo um futuro para mim, sabe, vejo mesmo. Não muito bacana, mas um futuro. Vou ganhar um dinheirinho honesto para cuidar da minha mãe quando ela precisar. Por enquanto ela é quem cuida de mim, a filha depressiva. Ela tem bastante paciência. Queria mesmo ganhar esse dinheiro com meus escritos, mas tô achando que não vai dar. Sabe como é, no Brasil essa história de escrever não é muito valorizada. Se eu lançar um livro de crônicas, umas vinte pessoas vão comprar. Faça as contas comigo, não cobre os custos nem desse suco que estou tomando. Mas, enfim, darei um jeito. Depois sinto que as coisas ficarão mais obscuras. Eu sempre vejo uma moça toda vestida de preto estendendo a mão para me buscar, normalmente quando estou quase pegando no sono. Meu namorado diz que não vai deixar ela me levar, mas vai saber, né? De repente estou ficando louca e nem notei. Falando nisso, esse é o fim que vejo pra mim. Um hospício, um manicômio, algo assim. Mas um daqueles bonitos, de filme americano. Um lugar onde eu possa andar por jardins bem cuidados com minha camisola branca, comprida e comportada. Onde um cara forte ou uma moça austera traga um copinho dizendo que está na hora do remédio. Onde a hora de deitar tenha que ser respeitada e eu, insone que sou, passe horas com os olhos abertos encarando o teto e pensando no passado. Porque no presente é que não dá pra pensar em um lugar desses, não é? Bom, nenhum problema nesse futuro que vejo. O único porém é que o visualizo acontecendo cedo demais. Na figura que se pinta em minha cabeça conturbada, nem meus cabelos estão brancos e eu já estou lá. Recebendo visitas esporádicas. Lendo nas horas calmas e me encolhendo no canto do muquifo nas horas complicadas, agarrando os cabelos e chorando por coisas inexplicáveis. Vejo-me sempre com olheiras profundas, cabelos desgrenhados, pés descalços. Uma coisa meio louca mesmo. Aliás, louca como eu estar contando tudo isso pra você. Tu é um estranho, cara. Eu sei que você não vai contar pra ninguém a minha história, nem seria bom para o seu estabelecimento. Mas ainda assim é estranho.
Vou te contar uma última coisa: a vida machuca. As pessoas veem grandes mistérios cercando o ritmo com que crescemos e andamos pisando sobre os ladrilhos da rua, mas a verdade é essa. A vida machuca, por mais prevenido que você esteja. Ela bate, corrói, estupora, faz de tudo. Há quem continue tentando e acreditando. E há os bostas que desistem. É engraçado como eu me enquadro na última categoria. Pode rir, sem problemas. Você não tá rindo da situação? Tá rindo de que? Ah, do palavrão. Como assim não combina comigo? Obrigada, mas não sou tão refinada assim. É só um salto alto. Boa postura? Acho que ainda estou conseguindo manter o peso do coração no lugar certo, então. Quando ele ficar inchado demais, tombo para frente. Mas não será no seu balcão, fica tranquilo. Enfim, vou indo mesmo agora, chega de falar. Tá aqui o dinheiro e, espera aí... Pronto, escrevi no guardanapo uma frase curta de um texto meu. Acho difícil, mas quem sabe um dia isso valha alguma coisa. Tchau, camarada.

Ela saiu, entrou no carro e foi embora. Não estava bêbada, apenas entorpecida por sua própria tristeza. Perdeu a dignidade por alguns instantes e logo depois se recompôs. Arrependeu-se mortalmente por ter soltado palavras na cara daquele homem. Nunca mais voltaria lá. Nunca mais tocaria nesses assuntos com ninguém. Esconderia sua vida atrás de uma barragem feliz. Era mais fácil assim. É claro que mais fácil nem sempre é melhor. Ela sabia disso. Uma pena não ter provado o suco de tangerina.
Ele ficou olhando o carro partir. Moça estranha, pensou. Deu risada de tudo que ouviu. Ela só podia ser louca, mas tinha uma melancolia que ele jamais vira antes. Uma melancolia disfarçada. Colocou o copo com o suco intocado na pia, guardou o dinheiro e olhou para o guardanapo. “A vida não passa de um projeto infeliz de um ventríloquo. Nós somos bonecos. Nada mais”. Ele riu mais um pouco e sacudiu a cabeça em reprovação. Louca, louca, doidinha mesmo. Limpou o balcão, amassou o papel e jogou no lixo ao mesmo tempo em que ela derrapava na estrada molhada pela chuva e capotava o carro em um acidente fatal. Ninguém jamais soube que não foi realmente um acidente. De todas as partes de seu corpo, só duas coisas permaneceram intactas. O rosto, sereno e com leves respingos de sangue, e a mão onde repousava a aliança do primeiro homem que a amou de verdade. A vida machuca, mas a morte é implacável.
 
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