domingo, 30 de janeiro de 2011

Lynyrd Skynyrd.

O celular tocou e eu cheguei tarde demais. Não ouvi as primeiras notas de Free Bird, a escala musical crescente que só fica realmente audível quando Johnny Van Zant pergunta se ainda me lembraria caso ele partisse amanhã, porque é livre como um pássaro e precisa seguir viagem. If I leave here. E antes do tomorrow a ligação foi finalizada. Lenta demais para desligar o chuveiro, secar as mãos e abrir o box de vidro, não deu tempo. Para consolar, botei no modo mp3 e deixei a música terminar, pelo menos para ouvi-la até o fim e não ficar o resto da noite cantando o mesmo pedacinho. Would you still remember me? Claro, não há como esquecer.
No visor um número estranho, mas sei quem era. De repente o cara resolveu me oferecer mais uma carona. Ou, então, emprestar mais sete reais para a babaca que saiu com cinco e descobriu que precisava de doze. Pode estar querendo cobrar a dívida, mas não creio que seja isso. Acho que ele quer que eu me afunde mais uma vez em suas voltas. Tenho cervejas long neck da Heineken na geladeira e reflito sobre o assunto. Mas elas ainda não estão no ponto e nem eu estou. Não estão trincando e eu não posso me deixar trincar. Poderia me acabar no jeito dele de me sentir ou, pelo menos, aproveitar para dizer que preciso achar o pedaço perdido do meu brinco preferido. Mas não estou no ponto certo. Não ouvi mesmo a música tocando a chamada, mas não há arrependimento. Talvez o instinto seja proposital, afinal, sempre tendendo à proteção, à barreira eterna de defesa.
Ele parece um sugador de almas e eu não quero ser ainda mais esvaziada. Rosto imperscrutável e cheio de segundas e terceiras intenções que são assustadoramente instigantes. Ele é do jeito que quer e ninguém desconfia do potencial monstro em que pode se transformar. Um homem comum, de barba diferente e estilo único, circulando no mar de pessoas e conquistando incontáveis mulheres. Não precisa de técnica ou estratégia; olhar, perfil e lábia são mais do que suficientes. Caso alguém me perguntasse sobre alienígenas, eu diria que eles andam entre nós vestindo a pele de homens como ele. Nem gosmentos, nem verdes, nem prateados e longilíneos, mas sim bonitos, inteligentes e sedutores. Exatamente como ele. Aprendendo a vida na Terra e ganhando poder. Ligando no dia seguinte como nenhum homem deste planeta faz. Talvez seja até mesmo uma experiência e lá em Marte a mulherada sofra tanto quanto nós.
E ele é lindo e encantador, mas é monstro. É vândalo que chega com spray colorido, pronto para pichar muro e coração. Desta vez, no entanto, sou capaz de convocar a polícia antes de ver meu muro ser transformado em aberração e meu coração se encher de desenhos abstratos e palavrões. Ele é monstro que joga charme e liga no dia seguinte para depois cair no abismo do nada, mas eu não sei se estarei disposta a atender a próxima chamada. Depende de Johnny Van Zant e sua banda clamarem por atenção mais cedo. De ter o saco de segurança bem cheio para não ser sugada e esvaziada como uma boia. De estarem as garrafas de Heineken no ponto e eu mesma no tal ponto que nem sei qual é. Gelada o bastante, imagino.
Quem sabe amanhã eu mesma retorne a ligação e pergunte o que ele queria. Talvez a vontade volte e o desejo de cair em um abraço forte também. Se no começo da semana eu achar que posso me envolver sem ficar vazia, tudo bem. Se ele não me fizer mais sentir necessidade de escrever no calor da hora, como agora, pode ser. Não quero mais um assunto para dividir com o Word. Se puder deixar acontecer sem enlouquecer o resto de mim, tento. Garanto que tento. Boto tom de desculpas na voz e ligo dizendo que não ouvi o celular tocar baixinho. O que é verdade, mas parecerá mentira. E mentira por mentira, ele também mente e é capaz até de gostar. Monstros se alimentam disso. Mas, por hora, deixa Lynyrd Skynyrd tocar sua guitarra que já está de bom tamanho. Porque, no fim, também sou um pássaro livre que não pode ser mudado e hoje a mudança é esta: estou partindo e tenho muitos lugares só meus para conhecer. Johnny Van Zant vai cantando comigo e, quem sabe, na próxima música eu mudo de ideia.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Um brinco por um barbudo.

No dia seguinte, acordo com a cabeça pesada e sinto-me tão vazia quanto o apartamento desabitado e sem móveis do segundo andar aonde fomos parar na noite passada. O barulho dentro de mim é ainda mais alto do que o dos sapatos batendo na madeira lixada e ressoando no vácuo durante a madrugada. Enquanto lá, depois da janela, a vastidão da noite iluminada nos ganhou por alguns instantes, habita em mim um incomparável breu. Só queria uma câmera para absorver um pouco da luz dos postes para minha própria vida e para registrar a beleza. O momento. A fotografia sobre nossas cabeças. O vazio mais cheio de alguma coisa. A cerveja esquentando porque perdeu a graça. Mas a câmera não cabia na bolsa pequena e eu saí mesmo só levando celular, chave de casa e dinheiro. Pouco dinheiro. Uns trocadinhos para contribuir com a bebida e para necessidades inesperadas. Faltou grana até para elas.
Chuva e noite esquisita que me prenderia em qualquer outra semana. A despeito disso, vejo-me saindo de casa e tirando os saltos para dirigir até onde ainda não acredito que vou. Mas vou e ninguém crê quando me vê chegar, nem tampouco eu creio quando minhas pernas descem do carro sozinhas depois de o braço ter puxado o freio de mão. Desço e crio confusão com minhas próprias defesas. Gotas de chuva no cabelo e um sorriso para aplacar a insegurança de quem não sabe o que está procurando. Risadas e olhares e me descubro perdida, embora pareça não estar. Louca para montar em uma das motos estacionadas no fundo do barracão e pilotar muito mais rápido do que posso controlar e para muito longe até dar de cara com um muro bem-vindo. Mas, enquanto isso, copo na mão e superioridade no rosto. E fico tempo demais porque não sou clássica e não penso nunca em ir embora após quinze minutos chiques. Sair pela tangente enquanto ainda há tempo e elegância. Não. Duas horas da madrugada é quando fica interessante e começo a me divertir. Gostaria de ser fina, mas não quero ir para casa cedo na sexta-feira à noite mais estranha da minha vida. Porque, pela primeira vez, é um estranho bom. Com pessoas estranhas, conversas estranhas e um medo estranho que faz o estômago contrair. Porém, ainda assim, tão ótimo quanto a expectativa.
Fim de noite, fim de carne na churrasqueira que até respiro tem, fim de casos engraçados. É isso; acabou o truco, acabou tudo. Tudo não. Carona, "que bom que você veio" e "como você é linda, mulher". Mentira, eu sei, mas nesta sexta não importa. O barbudo resolveu me querer e a barba dele é o máximo. O estranho enlouqueceu e eu resolvi enlouquecer também. Apartamento vazio e mais cerveja porque estou ficando ainda mais vazia. Preencho-me de maneiras torpes e esqueço-me por algumas horas de que deveria ser diferente. Depois de não ser clássica, não saber o que dizer e tremer de medo como um doente convulsionando, o cara dos olhos mais azuis que já vi ainda diz que sou misteriosa, quando tudo de mistério em mim já se mandou há tempos. Fale sobre você, diz ele, depois de explanar sobre a vista da janela. Não, não tenho nada para contar sobre minha vida. Ela ficou no parapeito da janela junto com a cerveja e não deve ser atiçada. Por favor, não toque nela porque esta noite não quero vivê-la. Quero uma vida diferente e ela pode começar com a sua barba. Esqueça que sou alguém. Confusão, loucura, não e sim. Inconsequência notável, segredo visto pela fresta da janela. Chão frio, abraço quente, beijo queimando e um pouco de loucura para coroar o que nunca foi são. Sussurros, perdição, sufoco e a pressa de dois notívagos sorrateiros. Encontro voraz. Olhos esfomeados, boca esfomeada, mãos esfomeadas. O corpo inteiro gritando de fome. Penumbra total e eu já não enxergo mais os limites da barba dele, mas posso senti-la em cada canto do apartamento. Uma barba diferente da habitual para uma vida diferente da habitual.
Entre mãos, pernas e pés, o lucro da noite foi descobrir que sou um apartamento em eterno processo de rescisão de contrato. Sem moradores nem gesso no teto. Sem sofá, mesa, cadeira ou cama. Apenas o vazio que fica após uma mudança. Uma casa para nômades que vêm e vão, não para uma família de verdade. Chegam móveis de caras como ele e móveis vão embora no dia seguinte; todas as quinquilharias carregadas elevador abaixo e enfiadas no bagageiro de um carro qualquer. É doloroso ser habitado por pouco tempo e depois saber que o inquilino prefere a multa. Ver o chão pegar poeira e as paredes amarelarem. É terrível, mas nesta sexta não importa porque o mundo é dos loucos e eu quero ser um deles. Ele me empresta barba, colo, carinho, elogios e inverdades; eu empresto uma parte de mim para que a gente viva algo fora da rotina. Não está tudo bem, mas pode ficar quando a culpa pegar a mochila e partir.
Depois eu chego em casa e deito agarrada no travesseiro de gestante que é a oitava maravilha do mundo. O sono vem fácil, mesmo quando o apartamento três andares abaixo parece ainda gritar. Antes de dormir, percebo que falta uma parte do meu brinco preferido, uma chapa redonda, grande e dourada. Sobrou só o filete que a segurava. Pela primeira vez na noite tenho vontade de chorar porque o perdi em um lugar para o qual jamais voltarei. São três lances de escada, mas já parece outro continente. Não me rendo à besteira das lágrimas, mas sinto culpa e tristeza pelo brinco. Imagino-o sozinho e pequeno no chão de madeira do apartamento vazio. Um pedacinho reluzente de ouro em meio à poeira do abandono. Lembrança de uma sexta sepultada em um quarto sem habitantes. Subitamente não é apenas o brinco, mas uma parte de mim que ficou lá para sempre. Como se aquela chapa dourada fosse a lápide da felicidade momentânea. Ela existiu e perdeu-se no tempo e espaço. O último pensamento da noite é que esta felicidade não é permitida a pessoas como eu. Perder o brinco foi só um aviso, um lembrete de que nada é de graça. Vida por vida, com juros altíssimos. Mas, com um sorriso no rosto, penso que não importa. Que se dane o brinco andarilho e que se dane o que a vida me cobrar. Eu tenho só uns trocados na bolsa e para esta noite foi mais do que suficiente. Se tiver que perder objetos pessoais para deixar de ser tão enclausurada e conhecer barbudos, que assim seja. Pegue, vida, minha caixa de jóias está em suas mãos.

domingo, 23 de janeiro de 2011

O medo mais cruel do mundo.

Quando Catatau parou de se alimentar, tomar água e levantar da cama, pensei que este fosse o medo mais cruel do mundo. Perder meu companheiro, a bolota gorda e cinzenta que não engole comprimidos e se esconde embaixo da cama à simples hipótese de um barulho estranho. Que quando resolve morder ou arranhar faz um estrago brutal com suas presas e garras de pantera. Que adora peixe cru e creme de leite, ainda que eu precise ralhar com minha mãe por ceder aos caprichos da mente gorda de um gato manhoso. São pires de creme suficientes para causar um problema de fígado, mas ela não me ouve e é assim que nós vivemos. Eu digo não, ela diz sim. E ele, por sua vez, continua pedindo porque sabe que a certa altura será atendido. No fim a gente ri dos miados compridos e pidões. Descobriu-se, no entanto, que o problema era uma luxação patelar, da qual ele melhorou com repouso e alguns remédios. Embora, é claro, nunca mais tenha descido de altura nenhuma sem pedir ajuda.
Quando Pandora foi mordida por uma aranha grande e peluda com a qual brincava, pensei ser este, então, o medo mais cruel do mundo. Perder minha menina, o travesseiro de pelos compridos e sedosos que só sabe miar baixinho para pedir afago. Que é louca por peixe cozido. E por frango. E por peito de peru. E por pão. E por barrinhas de cereais. E por qualquer outra coisa que eu esteja comendo. Minha amiga de olhos de coruja amarelos e enormes, que sai espanando pernas com a profusão de pelos do seu rabo torto. E que não se conforma quando demoro a acordar e levantar da cama, porque é um absurdo que eu a deixe esperando pela primeira refeição do dia ou por um carinho entre os olhos às sete da manhã. Que pula em meu peito exigindo atenção e que, no inverno, dorme colada em mim embaixo de cinco cobertas. Mas não houve sinal de veneno. Ela ficou bem, embora não tenha aprendido a lição e esteja caçando uma vespa neste exato momento.
Quando o pai de um amigo morreu, pensei que este fosse o medo mais cruel do mundo. Encarar a dor de alguém muito próximo, gostar da pessoa e mesmo assim não poder fazer absolutamente nada. Porque a morte é o fim, especialmente para quem não acredita em segunda, terceira ou quinquagésima vida. Para quem, como eu, crê que somos músculos - carne como a de qualquer outro animal - regidos por órgãos que um dia falharão, a morte é realmente o fim. Uma vez paralisado o sistema nervoso, estamos acabados; viraremos ossos amarelados dentro de uma caixa de madeira cara. E esse medo é cruel, o de pensar em perder alguém de forma irremediável. Não saber encostar a mão no ombro amigo e dizer palavras reconfortantes. Sentir-se inútil.
Então, quando fui para a faculdade pela primeira vez, tive receio de perder meus três amigos homens, os irmãos de vida que tanto me acompanharam pelos morros da cidade. Aqueles que cresceram ao meu lado, fizeram-me rir centenas de vezes - normalmente por besteiras que jamais esquecerei -, dividiram tanto de suas vidas comigo que me permiti dividir a minha com eles. Brigaram com namoradas por mim, contaram-me segredos e ouviram os meus. Tanto me tinham como o quarto homem do quadrado que me apelidaram de "cara legal de cabelos compridos". Ensinaram-me tudo sobre a mente masculina e criaram um monstro que, ao primeiro sinal de interesse de alguém, dá um jeito de chamar o rapaz de "brother", em tom de comédia, para firmar uma amizade. Porque meus três amigos me ensinaram, inconscientemente, que em um amigo você pode confiar, mas em um amante não. Eles me mostraram o quanto vale a amizade e fizeram de mim uma mulher que detesta fofocas, novelas e gritinhos. Mas não os perdi. Os três continuam sendo os homens da minha vida e não há nada como receber uma visita de um ou ligação de outro dizendo estar esperando na portaria do prédio.
Quando cheguei à metade da primeira faculdade e decidi que era hora de parar e partir para outra, pensei que este fosse o medo mais cruel do mundo. O medo do fracasso, de não conseguir chegar até o fim, de não suportar o tranco que todos suportam, de não ter culhões para tanto - ainda que eu não os tenha mesmo. Mais uma vez receei perder os amigos que fiz. Amargurei ter tudo em um momento e depois nada. Meus camaradas, moradores da porta logo abaixo à minha, que adoravam subir e sentar na sacada para bater um papo e tocar violão. Que riam dos meus pijamas de vó. Que amavam chegar na hora do jogo do Corinthians e rir da minha agonia e dos berros de motivação e raiva. Que nunca negaram um abraço e que faziam galões de poção gami só para mim. Mas estes amigos choraram na despedida, mesmo os que eu pensava que não tinham lágrimas em estoque. E eu ainda tenho guardado o cartão gigante onde todos assinaram seus recadinhos e o álbum de fotografias das últimas semanas. Não os perdi, o que foi um alívio.
Quando cheguei à casa onde moro agora, em Palotina, tive receio de não me adaptar. Antes eu morava sozinha e realmente amava a situação. Meus livros, fotos, quadros, sujeiras e bagunças, Pandora. Uma vida de silêncio quando eu quisesse. Mas Palotina é uma cidade de burgueses e dividir o aluguel foi necessário. Então achei que o medo mais cruel do mundo fosse o de não gostar das pessoas e da casa onde vim parar, porque não há nada tão ruim quanto amargar acordar dia após dia. Este medo, no entanto, tornou-se obsoleto quando Aline, Tânia e Petra me mostraram que morar com pessoas incríveis pode ser incrível também. E Palotina ganhou outra cor, embora os campos de soja sejam os mesmos. Ganhou tons bonitos, porque tenho companheiras para meus momentos de não solidão.
Quando lasquei a patela, perfurei a cartilagem e perdi líquido sinovial do joelho, jurei que este era o medo mais cruel do mundo. Andar eternamente com cuidado, ficar manca, reduzir movimentos. Nada mais de dançar esquisito ou fazer longas caminhadas pela praia, nem sentar com as pernas dobradas. Mas três meses de romance com muletas me fizeram ver que, entre todos os outros, este era o medo mais ridículo. Não fiquei manca, não ando com cuidado e não reduzi meus movimentos. Continuo dançando esquisito e fazendo longas caminhadas pela praia, embora agora ouça barulhos no joelho quando o faço. Sentar com as pernas dobradas, principalmente, é um costume que jamais abandonarei, mesmo que sinta estouros frequentemente. Ei, olhe que máximo, minha perna estoura.
Ainda cogito centenas de outras hipóteses que podem materializar o medo mais cruel do mundo. Medo de perder, de amar, de sofrer, de cair lá do alto depois de demorar tanto para subir. Medo de que o paraquedas não abra no próximo salto e eu acabe como aquele cara que teve o baço perfurado. Medo de palhaços e batracnofobia. Medo de ser um nada e de chegar a lugar nenhum. Medo das lembranças que me aterrorizaram por tanto tempo. Medo de tudo que ficou marcado em mim. Muitos deles parecem concorrer ao título, mas a verdade é que já desvendei o mistério. O medo mais cruel do mundo não é uma coisa só, mas sim uma convenção de medos. Uma barreira que impede que sonhos existam e que amores aconteçam. Uma trava na porta da frente que impede a passagem de boas histórias. Grade nas janelas e areia movediça no chão. Afundando, sempre afundando, sem jamais conseguir dar o próximo passo. Dentre todos os medos, tantos que já não tenho dedos para contar, descobri que o que faz as vezes de cereja do bolo é o medo de viver. Viver, deixar ser, permitir acontecer. Entregar, doar, compartilhar. Este é definitivamente o mais cruel, porque não é um só. É uma compilação de medos, uma coletânea de receios, de sofrimentos por antecipação, de descrença e clausura. E ainda mais conhecido do que ele, à mim, é sua terrivelmente familiar consequência: a solidão.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Os dois lados da distância.

Vem, amor, sente-se ao meu lado e ouça. Já não interessa se o que sobra de mim quando você vai embora são cacos de cristal barato espalhados pelo chão ou se tenho vontade de esmurrar minha cabeça na parede para tentar lucrar uma amnésia. Tudo que escrevo sobre o quanto você me dói vai embora - com o último bilhete de passagem - quando sinto seu beijo. Ainda assim, chegamos a um ponto sem retorno. Estamos de bolsos vazios, sem dinheiro para a passagem de volta. Restou apenas a dor de ter você, tão meu e de mais ninguém, para depois não ter mais nada. Incline-se um pouco e deixe que eu encoste a cabeça no seu ombro, porque não conheço seu cheiro mas sei que ele poderia me levar ao delírio. Deixe que eu tente senti-lo uma última vez, esse cheiro de "sinta-me enquanto puder". Eu posso muito pouco, mas pagaria até a última moeda do meu pote de vidro cheio de quinquilharias e trocados para ter alguns mililitros do seu perfume guardados para sempre em um frasquinho blindado e diminuto.
Vem e me dá a mão, porque não estou pedindo nada além de um pouco do carinho que já não sei mais receber. Montei uma grade em volta do meu peito que não permite gestos afetuosos. Tranquei meu próprio coração na escuridão de uma abominável jaula de circo. Tornei-me companhia aos animais acuados que, de tão maltratados, não reconhecem o amor quando alguém o oferece. Tal qual o leão magro e faminto ou o urso cujas patas foram queimadas para que aprendesse a "dançar", estou presa nessa imundice humana. Uma aberração de um circo fétido, onde palhaços aterrorizam e animais padecem com a crueldade. E você, tão desprovido de sentimentos, conseguiu o emprego de tratador dos enjaulados. Sangue-frio, rosto impassível e impiedoso. Não importa se o macaco está machucado, se o cavalo está morrendo de medo ou se eu, depois de tantas surras, quero morder e arrancar pedaços de qualquer um que se aproxime demais. Você chega, larga um pedaço de carne esverdeada e vai embora, pensando ser mais do que suficiente. E eu fico escondida pela lona, atrás das grades enormes que sempre existiram, mas cujo cadeado só foi trancado depois de você. Estive jogada aqui por muito tempo, mas já não quero mais que as sombras ocultem minhas lágrimas.
Vem... Quero dizer que tentei ser alguém melhor, uma mulher que lhe inspirasse sentimento e desejo. Quis ser mais do que sou para mim e para você. Logrei meu coração trancafiado, jurando ao mundo que você era só mais um e que apenas cebolas descascadas e ciscos nos olhos poderiam me fazer chorar. E o mundo acreditou na mentira, quando tudo em mim relutava e ansiava por sinceridade. Porque tudo que sou suplica por um pouco de amor, uma colherinha qualquer para acalmar a solidão. Não uma caixa de chocolates inteira, apenas um bombom. Não Ouro Branco, apenas o tabletinho de banana ruim que sempre sobra rejeitado no final. Só um pouquinho de amor, só um pouquinho, por favor!
Mas, ainda assim, vem, para que, desta vez, eu possa lhe contar que esse amor não quero mais de você. O trem descarrilou. Eu conhecia nosso fim antes mesmo do início e não dei atenção à sabedoria; mereci, amor, tudo que recebi. Despi-me de mim e vesti-me de você, como um homem-bomba partindo em uma missão suicida. Colete no peito fazendo tic-tac. Após a explosão, no entanto, restou muito pouco. Destroços, bombeiros, equipes de resgate; todos tentando salvar o que não tem salvação. Virei um punhado de cinzas que o vento levou. Um corpo que, à primeira menção de um elogio, arma-se com sarcasmos. À eminência de um roçar de dedos suaves salta para longe, como um felino desconfiado. Um alguém que só sabe correr, fugir e erguer escudos. Viver atrás das grades do confinamento.
Agora, no entanto, não quero mais a carne esverdeada. Você usou seu chicote, brandiu sua indiferença, testou-me como se testa um combatente voraz e acreditou que eu estava domada para sempre. Achou que eu iria até a Via Láctea por nós dois. Esperou demais de um corpo quebrado. Mas não quero mais essa vida amarrotada; quero passar meus dias à ferro quente para deixá-los lisinhos como nunca foram. Quero distância de você, porque só assim poderei escapar desta jaula pútrida onde vim parar. Quero amassar a folha do nosso romance e praticar basquete, jogando-a na cesta de lixo e marcando três pontos. Tudo para que eu possa continuar sozinha, daqui por diante.
Você me quer nessa prisão vazia, dormindo no chão duro e cheio de pedregulhos, mas eu já fiquei aqui por tempo demais. Fui fiel ao piso frio e desconfortável mesmo quando outros ofertavam colchão box e lençóis limpos e macios. Mas, agora, vestirei uma roupa bonita para esconder a estopa suja e retalhada que envolve minha alma. Calçarei salto alto para elevar a autoconfiança que está rastejando pelo chão. Passarei batom vermelho para dar à face um pouco da cor da felicidade que perdi ou cor de boca para que o sorriso se estampe mais verdadeiro e menos atuado. Sairei arrumada, mesmo sabendo que maquiagem e roupas caras de nada adiantam, molduras perfeitas que são para um retrato feio e vazio. Mas não importa, desde que eu possa me levantar e partir. E, quando me enxergar trajando vestes melhores e uma superioridade que não sinto, sei que você voltará. Subitamente terá vontade de me tomar em seus braços e ganhar um beijo meu. Um que lhe pinte de vermelho ou cor de boca. Estenderá a mão, esperando que eu a agarre com avidez como sempre fiz. Você não sabe, porém, que agora existe um vão entre nós que outrora não existia. Uma fissura desconhecida. Um buraco que lhe impede de dar um passo a mais até mim, porque é assim que quero nos manter: distantes.
Sei que a distância tem dois lados. Cara e coroa. Herói e vilão. Detetive e criminoso. Saúde e doença. Loucura e lucidez. Sei que pode trazer uma vida nova e tranquila ou ensandecer a que já existia. Sei que pode curar feridas ou abrir cortes profundos. Sei que, a mim, irá machucar como uma faca afiada. Sem ela, no entanto, não tenho mais panos suficientes para estancar a hemorragia. Sonharei com a proximidade a cada noite, mas preciso parar de comprar band-aid achando que bastará. Então, vem, para que eu me perca em você mais uma vez antes de pegar a pá e cavar nosso fim. Deite de frente para mim e olhe em meus olhos, mas tenha a certeza de que não terá mais minha pupila tão próxima à sua. Aproveite todo o amor que eu lhe destilo, mas que você só absorve quando bem entende. E, depois, quando partir, treine salto à distância se ainda me quiser. Porque esta será a única maneira de transpor a fenda que, hoje, eu abri entre nós.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Medalha de ouro.

Ninguém sabe quão frágil é seu coração até senti-lo despedaçando irremediavelmente, sem pomada ou analgésico para a dor. Atingir este ponto é como cruzar a linha de chegada de uma maratona. Você corre freneticamente para alcançar seu destino; transpira, fraqueja e resiste. A respiração se torna uma tarefa dolorosa e a boca resseca diversas vezes, mas você persiste porque sabe que, no fim, valerá à pena. As pernas queimam pelo cansaço, o corpo treme pedindo descanso, mas você já está tão perto que desistir seria insensatez. E então, quando finalmente a faixa aparece, nos últimos metros, a força que você nem sabia possuir lhe faz chegar, gloriosamente cruzando um marco em sua vida.
Com o coração não é diferente. Ele bate sem relutância, como um verdadeiro relógio biológico. Apaixona-se, adoece, esquece, recupera-se e apaixona-se novamente. Transpira, fraqueja e resiste. Na maratona da sobrevivência desse órgão vital, no entanto, não é suor que escorre pelo caminho, mas pequenos pedaços levados por outras pessoas, muitos deles arrancados à força. Nada que impeça de seguir em frente. Até quando, alguns metros à frente, você encontra o amor. Ele é a linha de chegada, esperando para ser vivido. Deste momento em diante, é tudo ou nada. Bandeirinhas flamejam pela vitória, aplausos e sorrisos em comemoração. Você chegou, parabéns! Alcançou o amor e descobriu o que é aquilo que todos anseiam, ainda que muitos digam não se importar. Arrematou o tão sonhado troféu. Comemore, banhe a todos com seu deleite, grite um sonoro "eu consegui". E depois, quando seu pulso voltar ao normal, veja onde você chegou. Não apenas olhe, mas enxergue de verdade.
A multidão vai embora. Cessam os estouros de champagne e fogos de artifício. Os flashes das câmeras param de espocar e acaba o interesse dos jornalistas. Resta apenas você, o pódio e o troféu. Mas que grande merda você faturou, hein? Uma droga de estatueta, chamada amor, que é grande demais para caber na estante e independente demais para ser trancada em um cofre. Há quem consiga descer do pódio carregando o troféu pesado, levando-o nas costas até encontrar um lugar seguro. Há quem não consiga suportar o peso por um longo caminho, mas sabiamente estica uma toalha nos degraus do pódio e senta com o amor no colo, ninando-o para sempre. E há aqueles que, como eu, alcançaram a linha de chegada já exaustos e abatidos demais para seguir em frente. Estes são os que desistem, os que percebem que o amor é, na verdade, um estripador disfarçado esperando o momento oportuno para picar os últimos pedaços do seu coração.
Eu cheguei à linha onde vencedores encontram seus familiares e prêmios. Atravessei a faixa listrada da vitória. E perdi. Não fui uma vencedora, nem mesmo depois de tantos quilômetros galgados com suor e pagos com minha própria dor. Desculpe-me, senhor organizador, mas não posso subir ao pódio. Não tenho tamanho para tanto, porque meu troféu-amor era tão grande que me esmagou. Agora faltam mãos e braços para agarrar o que é meu; pés para correr em busca de um abrigo; costas fortes para suportar o peso; cabeça para não definhar. Falta um tênis com amortecedor e joelheiras resistentes. Eu perdi. Não houve comemoração, pois também não houve vencedor. Apenas perdas e desfaçatez durante o longo percurso. Esta medalha não pode ser minha, pois não sei cuidar dela. Perdedores não ganham prêmios assim; eles ficam, no máximo, com a marca cansada de um dia ter passado perto do primeiro lugar. Perdedores vêem seu troféu passar de mão em mão até cair nos braços de alguém que possa segurá-lo. E está lá. Do ponto onde minha exaustão venceu, enxergo outra mulher exibindo o amor que deveria ser meu. Feliz, ela ergue o prêmio e posa para as câmeras com um pouco de exagero. Vou embora com paz no peito, sabendo que a taça de ouro estará melhor sem mim, vivendo em um mundo cor-de-rosa e plano, sem as oscilações e melancolias que teria ao meu lado. Aquela mulher de alegria desproporcional saberá, certamente, cuidar dela com a capacidade que eu jamais possuí.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Caroço de melancia.

Eu nem preciso enfiar o dedo na goela. Meu corpo sabe que tudo está errado, que não é assim que deveria acontecer. E a revolta que teimo em manter no vazio do meu estômago se mistura com todos os sucos do organismo. Pancreático, gástrico, biliar. O que alguns chamariam de gastrite nervosa eu chamo de "mandando embora". A cada vômito cai no vaso um pouquinho desse amor que abriu um buraco em meu sistema digestório. Que me fez voltar a roer unhas. Que obrigou meus órgãos a tomarem a atitude que eu não pude tomar. Eles querem te mandar embora, meu amor. Não aguentam mais sua presença em cada pedacinho do lugar onde vivem. Quase posso ouvir, no silêncio de estar sem você, o fígado - com seu bigodinho hitleriano - reclamando e liderando o pandemônio. "É isso aí, galera, chega dessa porcaria, manda tudo que tiver o nome desse cara para longe do corpitcho". E você sabe, eu estou tentando não deixar acontecer, buscando maneiras de te manter aqui dentro mesmo quando você já está tão fora. Mas a vesícula biliar expele seu líquido gosmento quando não há mais comida para vomitar, leva um pouco da nossa vida e me mostra o dedo do meio porque não fiz isso sozinha.
Eu me posiciono contra a rebelião, argumento que não dá para te expulsar como se estivesse cuspindo um caroço de melancia geladinha no verão. Você não é um caroço de fruta e eu não posso te cuspir. Você é um caroço, sim, mas é tumoral. Permanente. Metastático. Não sabe ser benigno e eu não sei me desvencilhar do que já tomou conta dos cantos do meu quarto e de tudo que faço. Estou aqui, tocando violão à minha maneira torpe, só pensando em como você sacanearia meus esforços. E nessa hora eu te acho certo, tão certo que não sei disfarçar a explosão. Porque você me faz rir de mim e da vida. Tudo para depois lembrar que você é errado e que eu sou errada e que, juntos, somos dois errados. Dois errados que teimam em, às avessas, tentar dar certo. E dá. Minha parte dá certo e espera e encontra e ama, enquanto a sua dá errado e foge e desencontra e desama. Desata o vínculo frágil que nunca passa do primeiro encontro. Nossos eternos primeiros encontros e eternas gafes do dia seguinte. E, no dia seguinte, eu ainda te amo e te espero e te sinto queimar nos lugares onde você encostou. Horas depois, talvez dias, ainda atravesso a rua pensando em te sorrir na próxima esquina, onde você não estará. Em correr para abraçar o vácuo que poderiam ser seus braços. E, no dia seguinte, você lembra que nunca me amou, que não quer me esperar e que eu não queimo nem nas pontas dos seus dedos. E lembra que, embora eu tenha parecido especial enquanto me esforçava para enxergar as letrinhas da legenda sem meus óculos, não sou mais nada pela manhã. Só um punhado de cabelos despenteados e voz rouca. E lembra que eu durmo calma e sem barulhos, mas acordo pulando na cama cada vez que tenho um pesadelo. Eu queria te dizer que aquele conto do Woody Allen, "O mais idiota dos homens", era para você. Mas não, era só mais um conto marcado com uma carta de baralho quando fechei o livro para te receber.
Deixa que eu te vire do avesso até que você ache um lugar eterno para mim no seu peito. Deixe que te sacuda até que você abra os olhos e me enxergue. Ei, olha para mim, eu estou aqui, plantada no mesmo lugar comum de nós dois, doendo, esperando por um sinal, um menear de cabeça qualquer. Não tenho cartolina e pincel para desenhar, mas deixa eu te esfregar na cara que sou seu amor ainda que você não tenha notado. E note, por favor, note. E quando notar, corra e me levante da privada para que eu pare de vomitar nossas histórias na vã tentativa de te abstrair de mim. Mande meu fígado se acostumar à sua presença e não à sua falta. Faça minha saliva decorar a sua. Bata nas minhas costas para que eu desengasgue. Obrigue meus pulmões a respirarem e lutarem contra a quietude de quando você some. Não deixe que eu te vomite para fora de mim, porque será para sempre. Basta que você não queira que aconteça. Eu não quero. Quero você aqui de todas as maneiras. Para parar de pensar no que me dá que provoca ânsia e enjoo e só passa quando te mando embora. Esquecer do "o que será que será" de Chico Buarque e voltar à certeza de que será você e só você. Tape minha boca para que eu te engula mais uma vez e me dê um efervescente para que eu consiga digerir suas estripulias e tripudiações. Quero fazer redução de estômago para caber menos você, mas não permita. Você, o tumor maligno, não pode permitir. Precisa vir e continuar sua metástase do ponto onde parou. Do mesmo local onde me deixou sozinha com mil placas de direção, sem saber para onde ir. Eu te preciso tanto que você precisa me precisar. Mas meu fígado não te quer. Não te precisa. Ele ainda quer te cuspir como se você fosse um dos tantos caroços chatos de melancia, igual à milhões de outros. Ele quer te jogar fora, abolir a escravidão dos órgãos sem uma assinatura minha. Mas a linha está vazia e não quero assinar. Rasgue o papel, meu amor, é só voltar e me trazer um pouco da sua essência para contentar minha solidão. Porque você ainda faz cócegas no meu coração de um jeito que ninguém mais sabe fazer.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Papanicolau.

"E então, como está seu emocional?", perguntou a ginecologista. E a pergunta simplória passou por mim como uma bruxa gargalhando. Virei a protagonista retardada da cena onde os sons emudecem e as imagens somem, restando apenas o corredor comprido onde a verdade mora. Aquele corredor sem portas anexas e rotas de fuga no qual eu caio mais vezes do que gostaria e saio correndo tão rápido que não dá tempo de fazer faxina. Desta vez deu para perceber; caramba, o lugar está uma bagunça! Paredes descascando, chão imundo e passos levantando poeira. Um rato morto e cupins na madeira. Posso apostar que minha verdade não gosta de morar aqui, mas a tirana bem que merece. Se não fosse tão cruel eu poderia arrumar um colchão extra lá em casa. Agora, encarando a merda toda meio luminosa lá no final do corredor, posso me lembrar dos motivos pelos quais não voltava há tanto tempo. Ninguém gosta de visitar quem serve biscoitos sabor fel e chá adoçado com lágrimas sem sacarose. Há um mundo bonito lá fora e é contraditório perder tempo observando o que maltrata. O lado sombrio. A coisa toda de viver catando pedaços perdidos e minúsculos. Chega disso de verdade, Verdade, estou indo embora de novo.
"Ah... Desculpe, doutora, o que você perguntou mesmo?", indaguei após piscar destrambelhadamente algumas vezes. "Perguntei como está seu emocional, querida", ela respondeu com paciência. Dei risada. Olha, se fosse responder com honestidade invadiríamos áreas da medicina e você acabaria me mandando para um psiquiatra, penso. A verdade, aquela do corredor, é que meu emocional está, como diria uma amiga, abalado. Reduzido à mesma sujeira degradante que domina o corredor. Ao invés disso, no entanto, digo apenas o íntimo e decorado "tudo bem". A doutora não é cega; conhece a mim e a meus ovários policísticos há anos, não acreditando no sorriso plácido. Talvez porque minhas mãos irrequietas denunciem ou porque sua sensibilidade é admirável, ela não cai na conversa fiada. Seja o que for, aquiesce, muito provavelmente porque sabe que, caso insista, a porta para escapar do consultório está a uma levantada da cadeira e dois passos de mim.
"Ótimo, então", diz ela, complacente, enquanto me dirige para a saleta ao lado. Droga, droga, droga. Cadê a brincadeira toda? Quando eu era criança adorava ir ao médico, porque o pediatra me chamava de espeto, imitava o Pato Donald e me fazia rir só de encostar o estetoscópio no peito e dizer "inspire". Aliás, chama-me de espeto até hoje. E agora estou aqui, enfiada no patético pijaminha azul de hospital que deixa a bunda aparecendo. Se é para a traseira ficar toda exposta, por que temos que vestir alguma coisa? Deixa a mulherada pelada que é mais digno. Deitada na posição ginecológica humilhante de sempre, com as pernas tensas abertas em apoios laterais, penso em como preferia estar na praia ou em uma sessão do cinema Belas Artes. A doutora está falando alguma coisa, mas não ouço. Minha atenção está no teto branco com cantos de gesso trabalhado e, posteriormente, no quadro pregado na parede à direita, explanando o procedimento e as maravilhas funcionais do Papanicolau. Ah, as inutilidades da vida. Isto aqui que está acontecendo exatamente agora é autoexplicativo, não precisa de quadro não. Mas talvez seja de bom grado uma placa de aviso com os dizeres: "Cuidado, a camisola hospitalar pode destruir seu ego".
Enquanto registro mentalmente este texto sem propósito algum, penso em como George Papanicolau não tinha mais o que fazer da vida. O cara estudou citologia vaginal, pelo amor da bizarrice. Mas do resultado nossos colos uterinos não podem reclamar, já que muitos deram adeus ao câncer graças ao velho amigo George, que de papa ou bispo não tinha nada - ainda bem. No final das contas, tudo é mesmo uma questão de saúde. Mesmo o lubrificante vaginal com que meu amigo lambuzou o corpo inteiro porque alguém lhe disse que essa era a cura para a queimadura solar. Emplastrou até o rosto, por via das dúvidas, e vai sair indicando por aí porque parece que a macumba da glicerina líquida funcionou. O importante mesmo é não deixar a peteca cair, embora eu sempre tenha achado o ditado fútil demais. Quero dizer, petecas caem eventualmente, não é um grande problema. E tudo isso nada tem a ver com o que eu pretendia escrever, mas deixa para lá. Mulheres, não esqueçam do camarada Papanicolau, o grego cujo nome parece russo. E se lhe vier à mente um cara bigodudo, é porque ele era mesmo. Homens, exame de próstata. Encarem com ar amigável o homem que vai lhe dar uma dedada singela. Vocês sabem como é: tudo é questão de saúde.
E como fica a verdade que iniciou este texto sem nexo? Bom, se você quiser contar a sua à ginecologista ou ao proctologista, fique à vontade. A minha, particularmente, continuará de castigo no corredor até aprender como se comporta uma dama de boa índole.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Então... Tchau, amor.

Então... Tchau. Tudo dará certo, acredite. Só mais um beijo, só mais um abraço, só mais um afago. Não me deixe antes de sentir que consigo continuar em pé. Não vá antes que eu diga que minhas pernas já aguentam sozinhas. Porque, por mais que eu tente, ainda não aprendi a dividir os pedaços de mim e fazer do amor algo saudável. Não corra; no instante em que o portão se fechar sobrará só enxaqueca, azia, enjoo e um buraco enorme e vazio. Calma, ainda não. Tenho tanta coisa para dizer, tantas palavras acumuladas como bolas de pelo na garganta, pedindo para serem vomitadas. Tanto amor para contar, tanta proteção para buscar, tanto medo de perder.
Você se foi. Ficaram só as tais palavras escondidas em um canto obscuro da minha consciência. Fiquei eu, perdida em seus braços fortes por um tempo curto demais. Perdida em seus olhos castanhos de adeus, brilhantes, preocupados, atrasados e carregados de algo que eu não soube decifrar. Perdida em sua boca pela última vez, apertando as pálpebras para memorizar seu gosto, a textura dos seus lábios comprimindo os meus, das suas mãos segurando meu rosto - tão calculadamente impassível - e das minhas tentando decorar, no último minuto, cada traço seu. Fiquei só, descobrindo como despedidas são demônios, loucos para tirar casquinhas dos fantoches que manipulam. O adeus com data marcada, então, é o chefão do inferno. Ele crava sua marca e chama de goodbye o que de bom não tem nada. Badbye combinaria mais.
Ao virar as costas, abri a tampa da garrafa mais próxima para acompanhar o fim, porque fins têm cheiro, cor e sabor. Era água e não estava gelada, mas nosso fim não têm gosto de água. Tem, sim, o gosto de um último beijo, urgente, suave, quase imperceptível, mas áspero como uma lixa. E o gosto da bebida forte que entra rasgando língua e palato, levando embora a parte doce que ainda restava daquele último encontro. Tem trilha sonora, um CD inteiro de músicas melancólicas e poéticas que golpeiam pernas, braços, rins e peitos. Tem cena de novela, quando o mocinho vai embora e a mocinha fica chorando encostada na porta. Tem muito mais do que isso e muito menos do que nós merecíamos. Tem você entrando no carro e eu fechando o portão, trancando o cadeado e querendo morrer. Usando as barras de ferro como muletas para sustentar meu peso triplicado de amargura.
Entre tantas besteiras, tanta gente sem fibra, tantas conversas vazias e festas inúteis, você. Você e os retalhos que sobram de mim. Tentei ser inteira, mas meu inteiro sempre foi todo seu e voltou cada vez menor dos seus braços. Agora, tão pequena, reduzida ao tamanho de uma pedrinha na calçada, fico aqui cheia de por quês e sem porquês, entupida até a borda da certeza do nunca mais e pedindo mais um copo vazio para as próximas doses de "quem sabe um dia apareço de novo". Transbordando amor ingrato e tentando ganhar massa muscular para ser mais forte e não desfalecer tão fácil cada vez que lembrar de nossas idas e vindas e de tudo que inevitavelmente me leva à você. Enfiada nas dúvidas sem fim, na saudade latente, nas palavras contidas, nos convites não feitos, na lembrança do seu jeito tão particularmente meu. Tão cabível nos desenhos do meu mundo e tão colado que não dá certo. Tão perfeito em cada curva que o universo reclama e diz que não pode ser, criando um abismo que não podemos transpor. Assim não dá, diz o mundo, certo assim não tem jeito. É hora do adeus e aí o simples vira complexo, o bonito vira feio e quem queria já não quer mais porque sabe que assim não dá, certo assim não tem jeito. Você senta ao meu lado, escorando as costas e abraçando minhas pernas enquanto eu beijo sua nuca e penso, por alguns instantes, que esse mesmo mundo sabe que não pode lutar contra isso. E então vai embora você e fica essa gula infantil que aponta para a vidraça da confeitaria e diz, com dedinhos melecados e impacientes, que quer porque quer. E que, por mais que receba, nunca se satisfaz. Como a bala 7 belo que eu devorava quando era mais jovem. Exatamente igual, exceto pelo fato de que tudo era mais fácil quando o único desejo de um dia comprido era ter um punhado de balas de framboesa nas mãos.
Depois do nosso último abraço molhado de chuva, depois de fechar o portão e ouvir você buzinar sua despedida, depois de assistir você virar o carro, direcionar-me mais um aceno e tomar seu rumo, depois de encostar a porta e mergulhar em solidão, restou só a barulheira dos trovões e o silêncio em meu peito. Casa vazia, coração batendo fraco, saudade incontrolável. Vontade de responder ao instinto e sair correndo na chuva, implorando por mais dois ou três instantes para colecionar. Esfolar os joelhos no meio da rua e gritar por sua volta, por mais um abraço de corpo inteiro, mais um cisco de amor e um minuto para te olhar. Só isso, só olhar. Alguma coisa passou despercebida e eu não quero esquecer nenhuma grama das suas manias, porque pensar em partes suas nunca será suficiente. E a memória foi tudo o que restou, junto com aquela foto e as reticências esquecidas em meu quarto.
Mas não adianta correr, socar paredes ou quebrar copos de vidro. Ainda que eu berrasse ao mundo essa massa negra que encheu meu corpo quando você partiu, nada poderia ser feito. A rua está vazia agora, como a casa e como eu mesma. Não sobrou nada além da chuva, dos vizinhos curiosos e do grilo cricrilando atrás da pia da cozinha, cantando sua vida feliz tão alto que não aguentei as pontas. Saí, inerte, flutuando pelas ruas porque você estava em todas as partes da casa. Sala, cozinha, quarto, tudo cheio do seu cheiro. Sufocando, ardendo na garganta, inchando os olhos e doendo até em lugares que não deveriam doer. De repente minha casa ficou pesada, escura e cruel demais. Escancarada, pronta para esfregar na minha cara tudo que preciso esquecer.
Ainda está chovendo e estou sentada no meio-fio de uma rua deserta de domingo. Ensopada e tremendo de frio, sem dar a mínima importância. Pneumonia, seja bem-vinda. Lembro-me de quando você posicionou as mãos na parede, imprensando minha cabeça entre elas, para perguntar o que eu via em você. Pedindo desculpa pelas canalhices, como se um dia elas fossem terminar. Explicando-me pela milésima vez meias-verdades. E eu, como sempre, sucumbindo ao desejo de te ter mais perto, mais meu. Recordo-me, então, do penúltimo dia. Seu abraço permanente em meu quadril, como se não soubesse que eu jamais iria embora. Eu, a cachorrinha que precisa de um osso e um pouco de carinho no fim da tarde. Aquela foi a última noite em que te vi dormir e também a última em que tentei adormecer ao seu lado e não consegui. Não poderia, sabendo que, horas mais tarde, o mundo te arrancaria de mim como se arranca a pérola de uma ostra. Rubem Alves diz que "ostra feliz não faz pérola", mas você foi a minha. Negra, guardada a sete chaves em um coração só seu; roubada pelo cara que pensa ser dono do mar. Sugaram até a gosminha comestível que eu chamaria de futuro. Levaram tudo, não sobraram sequer placas de retorno indicando como voltar para um dos dias em que você ainda estava aqui. Você não sabe o quanto eu te memorizei naquela última noite e como te amei naquele momento, com seu braço descansando sobre mim e meus pés gelados aquecendo no calor das suas pernas.
Já tarde da noite, deitada na cama mais opressora do universo, vejo detalhes que desconhecia. A manchinha na parede, os pelinhos de lavagem no lençol preto que você não gostava, os sapatos vermelhos largados no cantinho em frente ao espelho. Sua foto na tela do computador, transformando em cinzas o que ainda não se queimara na explosão. É isso, é assim. Se fosse diferente, você faria tudo igual. Se a situação permitisse, você ainda não escolheria ficar ao meu lado. Mas tudo certo, rapaz. Eventualmente a rua parecerá bonita novamente e a casa não provocará tonturas. Seu rosto será apenas uma fotografia e esta só um close que alguém deu, sabe-se lá por quê. Acabará em uma caixa bonita guardada no alto do armário e dentro do meu coração. Você certamente saiu da minha vida ouvindo um rock e cantando alto enquanto eu permanecia caída atrás da porta. Mas não importa, eu sinto sua falta pelo tamanho de nós dois. É melhor que você esteja bem, sorrindo e feliz porque nós podemos não ter futuro na sua agenda, mas o seu é brilhante.
Então... tchau, amor. Só sofrerei mais um pouquinho, mais alguns minutos antes de dormir, porque a chuva continua forte e eu não tenho para onde ir a não ser para dentro de mim. E, aqui dentro, só tem você para onde quer que eu olhe. Adeus, você. De verdade, dessa vez. Leve sua vida e suas coisas. Eu estarei aqui, ainda no mesmo lugar e com o cadeado do portão destrancado, caso um dia você possa e queira voltar. Joguei o calendário fora, arranquei o relógio da parede. Você tem todo o tempo do mundo.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Pela terceira vez corri os dedos pelas lombadas das caixinhas de DVD’s procurando especificamente pela capa onde Jim Carrey e Kate Winslet deitam sobre uma pista de gelo, enquanto uma imagem dele, bem maior, olha para cima. Dei uma assoprada e limpei o disco com a ponta da blusa antes de colocá-lo para rodar e selecionei as mesmas opções de sempre no menu; áudio em inglês – por favor! - e legenda em português, embora esta já não seja mais necessária. Acomodei-me no sofá agarrada a uma almofada, com a eterna garrafa de água no console e Pandora roncando suave em minhas pernas. Preparada previamente para lágrimas iminentes que não caem por mim, mas por Joel Barish e Clementine Kruczynski. Por sua desgraça e amor. Ou seu amor desgraçado, tanto faz. No fim o amor é sempre essa confusão filha da puta mesmo.
A casa está silenciosa e escura. Já passa das dez da noite, mas aumento o volume da televisão para ouvir a angústia de Joel, o vazio que ele sente sem saber exatamente por quê. Os toques de piano. As páginas de seu caderno arrancadas. O súbito impulso de pegar um rumo diferente e faltar ao trabalho em uma manhã qualquer. A praia fria de inverno, branca e plácida. E Clementine, com seus cabelos azuis desbotados e despenteados demais, o moletom laranja berrante e um pacote imenso de petulância e impertinência. Tão despreocupada em ser bonita que ganha aquela beleza diferente de quem está cagando para o que o mundo vai pensar. De repente meus cabelos loiros, virgens de coloração, parecem totalmente sem graça. Clementine e eu somos dois opostos, mas só eu sei como gostaria de ter algumas de suas qualidades distorcidas.
Joel e Clementine estão deitados sobre a pista de gelo que ilustra a capa do DVD. Uma pista de gelo verdadeira, grande e aberta, dessas que o Brasil tenta reproduzir em seus shoppings mas nunca consegue. Um dos dois, já não me lembro qual, diz que está exatamente onde desejaria estar. Tento pensar em quantas vezes estive nos lugares certos. Lembro-me do deck do navio onde sentei durante sete dias para ver o sol se pôr, bebericando mojitos do pacote com tudo incluso da viagem e bancando a Rose do Titanic enquanto Guto balbuciava um “uuuu” melodioso à lá Celine Dion. Eu gostava de estar lá. Não, muito mais do que isso, eu amava estar lá, assistindo os tons alaranjados como o moletom de Clementine pintando o oceano na linha do horizonte que o mundo desconhece. Lembro-me também de uma livraria com café em São Paulo, onde passei a tarde reclusa em meu próprio mundinho com a mesma liberdade que teria em casa. Só faltou o pijama e as havaianas com meias surradas. Acompanhada por milhares de grandes caras. Charles Bukowski, com sua acidez. Balzac e as ilusões perdidas. Nelson Rodrigues, George Orwell, Charles Dickens. Mas o único lugar onde poderia passar o resto dos meus dias não tem oceano nem literatura. Porra, eu trocaria navio e café silencioso pelo seu colo sem hesitar, porque é ele o cenário do meu exatamente-onde-desejaria-estar.
O tempo começa a se misturar. Joel e Clementine viajam por suas lembranças, todos os momentos lindos e outros tantos nem tão lindos assim que viveram juntos. Tudo correndo rápido na mente de um Joel derrubado na cama pelo poder dos tranquilizantes. Ele está apagando a bêbada-irritante-melindrosa mas ainda doce-amável-surpreendente Clementine de sua vida, embora não tenha deixado de amá-la. Ela o deletou primeiro e ele não pode mais viver com isso. É lindo e trágico. É reconfortante. Por um instante não é Jim Carrey quem interpreta Joel, sou eu. Eu e todo esse amor incompreensível que insiste em continuar mesmo quando você já jogou tudo fora. Eu não passo de uma névoa em sua mente, mas você está tão vívido em mim que a dor é excruciante. Sobrou alguma coisa minha, qualquer coisa, na sua memória? Antigamente era mais fácil de me desligar. Joel era Joel e Clementine era Clementine. Hoje eu sou Joel e também Clementine. Querendo desesperadamente, aos trancos e barrancos, apagar você das curvas do meu cérebro. Deletar sua imagem, seu nome, olhar, sorriso, prepotência, postura, desprezo, manipulação, cara-de-pau. Por favor, Stan, trace um mapa em meus lóbulos e leve esse maldito homem embora. Mande para o abismo do esquecimento as mentiras, as noites insones e lamentáveis, as cenas humilhantes. Ensaque as lembranças bonitas e jogue fora junto em um latão de lixo orgânico. Não permita que seja reciclável, pelo amor da minha sobrevivência. Tudo seria menos degradante se o Dr.Howard Mierzwiak existisse na vida real. Se para apagar um amor fosse necessário apenas chegar com uma caixa de pertences a um consultório e permitir um procedimento na calada da noite. Você pode apostar, meu amor, que não seria mais meu amor. Seria ninguém e eu teria paz. Poderia prestar atenção nos detalhes de meus filmes preferidos novamente, sem me enxergar no personagem dramático. Respirar sem medo de estilhaçar o resto de mim que ainda luta aqui dentro. Ler estes textos infames sem saber por que foram escritos. Posso imaginar uma vida sem sua existência. Sem seu jeito de me aconchegar para depois repelir como se minha pele fosse brasa insuportável ou material perfuro cortante. Nada da firmeza com que você segura minha cintura ou das besteiras que fala durante a madrugada. Nada de cobertor para dois quando o ventilador barulhento dá, enfim, conta de esfriar o ar. O teto seria só tijolos e cimento e não mais um mapa de lembranças bonitas e finais fracassados. Uma parede de presídio com inúmeros traços arranhados, contando o número de mentiras que já ouvi. Ligações suas não fariam meu coração palpitar e eu poderia, depois do alô, perguntar quem diabos estava falando comigo como se me conhecesse. O brilho eterno de uma mente sem lembranças. O brilho eterno de uma mente sem você. Sem jamais ter construído um mundo ao seu lado, onde só eu vivo.
Os créditos rolam na televisão e eu aumento mais quatro riscos no volume e fecho os olhos para ouvir o toque maravilhoso de “everybody’s gonna learn sometime”. Porque, dizem, todo mundo aprende mesmo as lições da vida eventualmente, embora eu não coloque minha mão no fogo por esta concepção otimista. Mas que a música é linda, é. E que eu sou obrigada a secar as lágrimas com as costas das mãos enquanto Pandora me olha desconcertada, sou. Não sei exatamente quantos minutos têm o filme. Nunca reparei. Sei apenas que Joel e Clementine, embora tenham lutado contra o processo, tiveram escolha. Ele a amou mesmo em seus dias loucos e ela o amou até em seus momentos grosseiros e impacientes. Até que ela decidiu, abalada por um impulso, que era hora de passar a borracha. Tchau, Joel, você não passa de um cara com a porta do carro amassada. E quando tudo virou amargura desenfreada, Joel resolveu que poderia também apagar Clementine de sua memória. Porque amar sem ser amado não tá com nada e o cara sabe muito bem disso. O roteirista também sabe e tem um plano. Tudo bem para quem tem a alternativa de passar um paninho na mente e deixá-la brilhando como um pára-brisa de carro saindo do posto. Mas, na vida real, eu continuo tentando sufocar a recordação com métodos cada vez mais falhos. Não tem brilho nenhum aqui. É a sujeira eterna de uma mente encalhada e entupida de lembranças.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Meu namorado tem nome esquisito.

Estranho pra caramba, mas já há algum tempo estou saindo com um cara de nome incomum. Não sei o que ocorre na mente de pais criativos, mas o pobre coitado não merecia um nome tão feio. É um cara irremediavelmente caseiro, mas um ótimo companheiro. Nunca saímos para assistir a um filme, tomar um drink em um barzinho ou andar de mãos dadas pelas ruas exibindo nossa felicidade. Ele não é fã dessas coisas e eu acabei me acostumando a ficar em casa. Não é ruim para quem nunca foi de receber o capeta no corpo e sair abalando mesmo. Sinto-me, é verdade, bastante submissa às suas vontades, mas posso viver com isso pelo bem que ele me traz. Conforto, tranquilidade. É tão difícil encontrar essas qualidades em alguém que foi surpreendente que justo eu, aquela que não sabe amar como se deve, tenha enlaçado o rapaz. Depois de tantas coisas erradas, tantas pessoas que levaram embora pedaços de mim, é um alívio admitir que nem tudo está perdido.
Esse mundo flutuante não faz minha cabeça. Eu prefiro não pisar em nuvens, só por precaução. Quando percebi que ele não estava indo embora, nem me olhando como se soubesse que seria a última vez, nem me abraçando enquanto pensava em virar as costas e me deixar sozinha, um alerta gritou que algo estava muito errado. Assustada e paranoica, restou-me apenas o diálogo. Falei que nunca passei por isso antes, isso de dar certo. Estava tão acostumada a ver minha felicidade, volátil demais, escapando pelo furinho do balão, que não sabia como agir quando a coisa toda mudava de drama para romance. Ele, calmo como sempre, disse que tudo bem, que eu só precisava de tempo para me adaptar com o fato de que ele não estava indo a lugar algum.
Nós construímos uma relação legal, eu e o Ri. Conhecemos-nos através de um amigo em comum, um psiquiatra. A vida não mudou muito e ele não exige atenção demasiada. Faço minhas coisas durante o dia e à noite nós namoramos. Simples, ameno. Filmes franceses de Jean Renoir, Robert Bresson e Yves Allégret. Sinfonias de Mozart, Mahler e Bach. Clássicos da literatura mundial, de Edgar Allan Poe a Truman Capote. Meu novo namorado é exatamente como eu, não troca essas preciosidades por música eletrônica e luzes ofuscantes. Nós ficamos no sofá adquirindo cultura até o sono bater. Ri é quieto, então não conversamos sobre os filmes ou discutimos trechos dos livros que lemos. Acabamos sempre no meu monólogo, mas ele não parece se importar. E, até que eu diga boa noite, Ri não sossega. Ele gosta de me ver dormir bem porque sabe quantas noites de pesadelo – reais ou sonhados - já tive nos últimos meses.
Então nós deitamos. Ninguém faz carinho, mas a presença é tão forte que basta. Antes de este cara aparecer eu não passava de uma boneca de pano em frangalhos que não conseguia dormir. E eu tentava. Rolava pela cama de casal vazia tentando achar uma posição confortável, um lugarzinho seguro. Procurava esvaziar a mente, mas as recordações são uns bichos teimosos pra caralho. Acendia a luz, lia mais umas páginas do livro da vez e tentava novamente. Não tinha jeito. Quando conseguia dormir era só para acordar pulando uma hora depois, tentando me livrar do pesadelo. Mas com Ri tudo ficou mais fácil. O travesseiro é macio e não mais aquele bloco de pedra que machucava meu pescoço. A coberta se ajusta bem e deixou de ser o trambolho que me afogava em solidão. Não preciso mais procurar um lugarzinho na cama, porque posso dormir em qualquer canto. E ele nem se importa de ficar afastado enquanto minha gata carente se aninha na conchinha.
A verdade é que Ri mudou muitas coisas em minha vida. Quando ele está por perto toda aquela ansiedade absurda que parece ser inerente à minha composição vai embora. A tristeza, a solidão, a dor cortante no peito. Até as lembranças viajam por algumas horas. Antes que eu possa me irritar ou perder as estribeiras, Ri estende sua mão. E, se começo a chorar, dura o tempo de poucas lágrimas até que ele exerça sua influência sobre meu estado emocional. Às vezes esse poder todo me amedronta, porque sei que sou forte o bastante para não virar fantoche de um cara como o Ri, mas não quero fugir. Se quiser ficar longe, muito longe, eu consigo sem precisar de esforços. Nunca fui grudenta e isso não mudou só porque é ele. Mas a sensação da companhia é tão agradável que funciona como se o cara enfiasse a mão no lugar mais profundo da minha alma e arrancasse de lá meus receios e desilusões. Sobra só uma pontinha de saudade que nem o Ri consegue apagar. No outro dia está tudo ali novamente, mas poder dormir sem o peso da consciência plena é motivo suficiente para me fazer cair de amores. E eu relaxo como nunca fiz antes na vida. Por vezes pareço uma retardada, rindo do que não tem graça. E talvez deixe de chorar simplesmente por resvalar na ignorância por algumas horas. É a paz de espírito que vem como bônus. Tudo vai embora. Fica só o sono sem sonhos. O sono que desliga a mente e torna os músculos inúteis. O sono capaz de fazer escorrer babinhas na fronha. Em algum canto obscuro eu sei que o teatro de horrores ainda está com a bilheteria aberta e lotando as poltronas. Mas o espetáculo pode acontecer mais tarde; de repente, nada é mais importante do que dormir.
Meu namorado não requer nada além de um gole de água como acompanhamento. Não sei se me ama, mas sei que estou apaixonada. Doce, suave, cauteloso. Usa uma faixa preta na cintura que funciona como uma aliança, um aviso de que não é para todos. Só para os danificados. Os destruídos, de alguma forma. Aqueles que precisam comprar paz interior na farmácia. Para estes, ele oferece sua segurança e seu psicológico muito bem estruturado. Ri sabe muitas coisas e é cheio de qualidades. Seu único defeito é o nome esquisito, um tanto quanto excêntrico. Quem mais, no mundo, chama-se Clonazepam e é carinhosamente apelidado de Rivotril?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Entre punhados de rolhas.


A cidade explode colorida, derramando os primeiros pingos de cor sobre a mais nova página em branco do caderno. Da sacada do apartamento enxergo metade do nosso mundinho. Não é Copacabana nem São Paulo, mas é bonito. Incontáveis cogumelos luminosos arrebatando os céus atrás dos prédios. Três ou quatro tímidos nas casas de gente mais simples. Cinco, quatro, três, dois, um. Feliz ano novo! O relógio marca zero hora. Depois zero hora e um minuto. O primeiro de outros tantos que viveremos à espera da próxima virada. Quando são duas da madrugada do novo ano, o champagne entorpece mentes e corpos, mas a alegria ainda não deixou as ruas. Junto com as rolhas que pulularam pelas janelas estão as crenças de multidões encantadas. Gente que acredita que pode deixar o passado no passado. Gente que tem certeza de que a virada de ano apagará problemas e trará soluções para o que não puder ser escondido com corretivo. Gente que acredita em novos começos, só porque mudamos de 2010 para 2011. Agora tudo parte do zero, diz a mocinha esperançosa enquanto o rapaz cai na noitada, doido para começar o ano podre de cachaça.
Feliz ano novo! Avante, recomeço! Recomeço? É mais do que isso e menos também. Não é apenas um ano chegando no bico de uma cegonha, não é apenas o fim de um ciclo de 365 dias. É o sinal de que as estrelas agora têm companhia. De que é hora de esvaziar os bolsos e queimar a escuridão outrora infalível. Vermelho, verde, azul, dourado. Muito dourado caindo sobre a terra, mas tudo que é lindo pode queimar, a exemplo do calção que minha mãe usava na virada de 2007 à beira-mar. E então o dinheiro acaba, o estoque também, e cá estamos nós. Carentes de um pouco mais do brilho, do colorido, da devassa luz que tomou o lugar das nuvens. Sedentos por um pouco mais da compreensão que nos assola quando o mundo resolve recomeçar sua contagem. A compreensão momentânea de que, não importa quão amedrontadoras sejam nossas vidas, a Terra não está nem aí. Vai continuar girando e girando e girando, até que outros 365 dias passem sem que grandes mudanças sejam operadas. Sem que os amores ingratos sejam esquecidos, sem que os quilos sejam perdidos, sem que a saudade seja curada. E quando tudo isso preenche nossas mentes, a maior parte do mundo prefere fechar os olhos e sonhar mais um pouco, talvez até o carnaval, acreditando piamente que ano novo é sinônimo de vida nova. Mas não eu. Meus olhos estão bem abertos e, mesmo enquanto admiro as explosões, tenho certeza de que minha vida continuará exatamente igual.
Quarenta minutos de 2011 e não enxergamos mais nada. Nem fogos, nem luz. As estrelas voltam a ser solitárias em sua vã eternidade. E nós, envoltos pela névoa que desce e contamina, procuramos o lugar onde uma explosão retardatária ainda possa acontecer. Mas há apenas poeira. Fumaça do que já passou. Porque tudo é mesmo assim: vêm em grandes explosões de contentamento e vai embora deixando apenas um rastro. Um bilhete que confirma sua estadia. A felicidade contada em quantas toneladas de estouros o mundo presenciou. Em quanto tempo a beleza foi capaz de permanecer sem que alguém encontrasse defeitos. Em quantas garrafas de champagne perderam suas rolhas para as ruas. Acabam os brindes, as comemorações na TV, as músicas de adeus ao ano que passou. Pobre ano velho, escorraçado, chutado para longe como um personagem de desenho animado, com sua experiência enrolada em uma trouxinha de pano. Tchau, ano velho, ninguém quer mais saber de você. Leve os problemas que trouxe, vá embora de vez. Deixe o bebê nascer, porque bebês são lindos e cheios de esperança. Pobre ano novo. Tão superestimado. Tão cobrado. Não passa de uma criança e todos já depositam nele suas expectativas. Seus sonhos infundados. Cada rolha voando é um pedido a mais para sua lista infinita. O cara de terno espera enriquecer, a sonhadora quer encontrar um amor, o desempregado deseja ter comida para dar ao filhos ao menos uma vez por dia. Uma legião de pessoas almeja mais tempo para viajar, mais dinheiro para depositar no banco, maior limite no cartão de crédito. Outra multidão quer apenas que o desespero acabe. Que suas casas, já tão precárias, não sejam levadas por enchentes. Que as chacinas e extermínios tenham fim. Que ônibus não sejam mais queimados e balas perdidas continuem para sempre perdidas e jamais sejam encontradas em um corpo caído. Que goleiros matem apenas a possibilidade do time rival fazer um gol. Pesquisadores querem conseguir mostrar ao mundo que o caos da natureza já não é mais uma possibilidade, mas uma grande certeza. E que a culpa de tudo isso vem da nossa podridão e do fato de nós, seres humanos irracionais, não entendermos os sinais de exaustão do planeta. Rir não adianta, chorar também não. Esquecer dos problemas segurando uma taça de champagne não muda absolutamente nada. Você pode fingir que sua vida será perfeita de agora em diante, mas no fundo todos sabemos que a realidade não é essa história infantil com final feliz.
Quanto a mim, quero muitas coisas. Tenho grandes planos para 2011 e outros tantos pequenos também. Resoluções malucas nunca são cumpridas e no final do ano seguinte só servem para mostrar quão incapaz você é por não conseguir manter suas próprias promessas. Como qualquer outra mulher, quero emagrecer. De verdade, subir na balança e ser leve como uma pluma. Quero uma bunda perfeita e uma cinturinha impecável. Mas tenho também milhões de outros desejos. Conseguir organizar meus interesses em uma escala imaginária, para que sobre tempo para tudo. Altas notas na faculdade, embora me contente com notas medianas desde que esteja aprendendo como ser uma grande pessoa. Poder sentar à sombra de uma árvore ou em um banco confortável e ler sem dar a mínima para o resto do dia ou para o fato de os óculos me deixarem com aparência de nerd. Quero o começo de uma grande carreira e de realização profissional. Dinheiro para não precisar racionar cada centavo como se fosse o último da carteira. E que aquela nota de dois reais não seja, realmente, a última da carteira. Não ter obrigação de telefonar para as pessoas que amo porque magicamente essas pessoas começarão a compreender que o fato de odiar telefones não diminui meu amor por elas. Música boa mesmo morando em uma cidade onde tudo que toca é sertanejo universitário. Todas as coisas singelas que sempre fizeram parte da minha vida, de um jeito ou de outro. Literatura, cinema, sons e silêncio. Quero, sim, meu silêncio bem-vindo, porque só ele é capaz de salvar minha sanidade. Poder deitar a cabeça no travesseiro e chorar quando sentir necessidade, sem julgamentos e sem que deem a isso o nome de besteira. Poder me exilar do mundo quando a solidão aprouver melhor, quando minha verdade for conveniente e as mentiras sociopatas não. Ser capaz de fazer algo pelo planeta. Algo que mostre que, se está ruim para nós, está muito pior para os animais que vivem nas geleiras. E que se nossa estimativa de vida está diminuindo, a deles está drasticamente aproximando-se do nada.
Não quero acreditar no sistema, nem em nada que me torne novamente a bobinha ingênua que por muito tempo fui. A idiota que colocaria a mão no fogo por qualquer pessoa. Hoje minha mão é só minha e por nada ela vai se queimar. Não quero fé se ela não for sólida. Aliás, não quero nem a fé sólida se for só para dizer ao mundo que a possuo. Quero continuar sem me importar se um amigo ou parente fica horrorizado com minha descrença. Não quero amolecer meu coração ou perder tijolos da parede medieval que construí em torno dele. Não quero os guardas que o protegem mortos por flechas alheias. Quero continuar endurecendo porque é o único jeito de sobreviver às farpas da vida e aos lobos disfarçados de cordeiros. Quero me olhar no espelho e enxergar confiança e propósito. Não importa se não enxergar beleza, desde que a segurança esteja a mil. Quero rir de tudo. Rir de mim, de quem eu amo numa via de mão única, de quem me odeia e de quem questiona meus motivos de reclusão. Rir de quem lê meus escritos e deseja me internar em uma clínica de reabilitação ou me fazer tomar remédios antidepressivos. Rir especialmente de quem toma por ofensa minhas opiniões sobre o mundo e quão pouco acredito nele. Não vou apontar o dedo jamais, mas não posso reprimir um pensamento do tipo “eu avisei” quando tudo virar poeira.
Quero meu amor, mas não qualquer um. Só se for aquele. Quero não precisar escrever tantas coisas, ferir tantas páginas, dilacerar tantos machucados. Quero escrever sem sentir tanto por tudo. Quero o mundo reduzido a nós dois. E como tudo o que quero não se resume a três parágrafos, chega de querer. Sei que, caso o ano novo falasse, me mandaria à merda. Ele não trará nenhum dos meus desejos, porque não é sua obrigação. Devo conseguir tudo sozinha e com luta própria, não apenas desejando enquanto brindo sei lá o quê. Por enquanto, então, querido ano novo, contento-me com poder abraçar Pandora e Catatau, com a parte do silêncio, da leitura, da bunda e cintura perfeitas e, se possível, Johnny Depp, Gerard Butler e Jensen Ackles enviados por Sedex aqui pra casa. Assim, só para sonhar alto como todo mundo faz. Até que é divertido. Imagine só! Pode ser? Ok, ok, deixa para lá, risca a última parte.
 
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