terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Então... Tchau, amor.

Então... Tchau. Tudo dará certo, acredite. Só mais um beijo, só mais um abraço, só mais um afago. Não me deixe antes de sentir que consigo continuar em pé. Não vá antes que eu diga que minhas pernas já aguentam sozinhas. Porque, por mais que eu tente, ainda não aprendi a dividir os pedaços de mim e fazer do amor algo saudável. Não corra; no instante em que o portão se fechar sobrará só enxaqueca, azia, enjoo e um buraco enorme e vazio. Calma, ainda não. Tenho tanta coisa para dizer, tantas palavras acumuladas como bolas de pelo na garganta, pedindo para serem vomitadas. Tanto amor para contar, tanta proteção para buscar, tanto medo de perder.
Você se foi. Ficaram só as tais palavras escondidas em um canto obscuro da minha consciência. Fiquei eu, perdida em seus braços fortes por um tempo curto demais. Perdida em seus olhos castanhos de adeus, brilhantes, preocupados, atrasados e carregados de algo que eu não soube decifrar. Perdida em sua boca pela última vez, apertando as pálpebras para memorizar seu gosto, a textura dos seus lábios comprimindo os meus, das suas mãos segurando meu rosto - tão calculadamente impassível - e das minhas tentando decorar, no último minuto, cada traço seu. Fiquei só, descobrindo como despedidas são demônios, loucos para tirar casquinhas dos fantoches que manipulam. O adeus com data marcada, então, é o chefão do inferno. Ele crava sua marca e chama de goodbye o que de bom não tem nada. Badbye combinaria mais.
Ao virar as costas, abri a tampa da garrafa mais próxima para acompanhar o fim, porque fins têm cheiro, cor e sabor. Era água e não estava gelada, mas nosso fim não têm gosto de água. Tem, sim, o gosto de um último beijo, urgente, suave, quase imperceptível, mas áspero como uma lixa. E o gosto da bebida forte que entra rasgando língua e palato, levando embora a parte doce que ainda restava daquele último encontro. Tem trilha sonora, um CD inteiro de músicas melancólicas e poéticas que golpeiam pernas, braços, rins e peitos. Tem cena de novela, quando o mocinho vai embora e a mocinha fica chorando encostada na porta. Tem muito mais do que isso e muito menos do que nós merecíamos. Tem você entrando no carro e eu fechando o portão, trancando o cadeado e querendo morrer. Usando as barras de ferro como muletas para sustentar meu peso triplicado de amargura.
Entre tantas besteiras, tanta gente sem fibra, tantas conversas vazias e festas inúteis, você. Você e os retalhos que sobram de mim. Tentei ser inteira, mas meu inteiro sempre foi todo seu e voltou cada vez menor dos seus braços. Agora, tão pequena, reduzida ao tamanho de uma pedrinha na calçada, fico aqui cheia de por quês e sem porquês, entupida até a borda da certeza do nunca mais e pedindo mais um copo vazio para as próximas doses de "quem sabe um dia apareço de novo". Transbordando amor ingrato e tentando ganhar massa muscular para ser mais forte e não desfalecer tão fácil cada vez que lembrar de nossas idas e vindas e de tudo que inevitavelmente me leva à você. Enfiada nas dúvidas sem fim, na saudade latente, nas palavras contidas, nos convites não feitos, na lembrança do seu jeito tão particularmente meu. Tão cabível nos desenhos do meu mundo e tão colado que não dá certo. Tão perfeito em cada curva que o universo reclama e diz que não pode ser, criando um abismo que não podemos transpor. Assim não dá, diz o mundo, certo assim não tem jeito. É hora do adeus e aí o simples vira complexo, o bonito vira feio e quem queria já não quer mais porque sabe que assim não dá, certo assim não tem jeito. Você senta ao meu lado, escorando as costas e abraçando minhas pernas enquanto eu beijo sua nuca e penso, por alguns instantes, que esse mesmo mundo sabe que não pode lutar contra isso. E então vai embora você e fica essa gula infantil que aponta para a vidraça da confeitaria e diz, com dedinhos melecados e impacientes, que quer porque quer. E que, por mais que receba, nunca se satisfaz. Como a bala 7 belo que eu devorava quando era mais jovem. Exatamente igual, exceto pelo fato de que tudo era mais fácil quando o único desejo de um dia comprido era ter um punhado de balas de framboesa nas mãos.
Depois do nosso último abraço molhado de chuva, depois de fechar o portão e ouvir você buzinar sua despedida, depois de assistir você virar o carro, direcionar-me mais um aceno e tomar seu rumo, depois de encostar a porta e mergulhar em solidão, restou só a barulheira dos trovões e o silêncio em meu peito. Casa vazia, coração batendo fraco, saudade incontrolável. Vontade de responder ao instinto e sair correndo na chuva, implorando por mais dois ou três instantes para colecionar. Esfolar os joelhos no meio da rua e gritar por sua volta, por mais um abraço de corpo inteiro, mais um cisco de amor e um minuto para te olhar. Só isso, só olhar. Alguma coisa passou despercebida e eu não quero esquecer nenhuma grama das suas manias, porque pensar em partes suas nunca será suficiente. E a memória foi tudo o que restou, junto com aquela foto e as reticências esquecidas em meu quarto.
Mas não adianta correr, socar paredes ou quebrar copos de vidro. Ainda que eu berrasse ao mundo essa massa negra que encheu meu corpo quando você partiu, nada poderia ser feito. A rua está vazia agora, como a casa e como eu mesma. Não sobrou nada além da chuva, dos vizinhos curiosos e do grilo cricrilando atrás da pia da cozinha, cantando sua vida feliz tão alto que não aguentei as pontas. Saí, inerte, flutuando pelas ruas porque você estava em todas as partes da casa. Sala, cozinha, quarto, tudo cheio do seu cheiro. Sufocando, ardendo na garganta, inchando os olhos e doendo até em lugares que não deveriam doer. De repente minha casa ficou pesada, escura e cruel demais. Escancarada, pronta para esfregar na minha cara tudo que preciso esquecer.
Ainda está chovendo e estou sentada no meio-fio de uma rua deserta de domingo. Ensopada e tremendo de frio, sem dar a mínima importância. Pneumonia, seja bem-vinda. Lembro-me de quando você posicionou as mãos na parede, imprensando minha cabeça entre elas, para perguntar o que eu via em você. Pedindo desculpa pelas canalhices, como se um dia elas fossem terminar. Explicando-me pela milésima vez meias-verdades. E eu, como sempre, sucumbindo ao desejo de te ter mais perto, mais meu. Recordo-me, então, do penúltimo dia. Seu abraço permanente em meu quadril, como se não soubesse que eu jamais iria embora. Eu, a cachorrinha que precisa de um osso e um pouco de carinho no fim da tarde. Aquela foi a última noite em que te vi dormir e também a última em que tentei adormecer ao seu lado e não consegui. Não poderia, sabendo que, horas mais tarde, o mundo te arrancaria de mim como se arranca a pérola de uma ostra. Rubem Alves diz que "ostra feliz não faz pérola", mas você foi a minha. Negra, guardada a sete chaves em um coração só seu; roubada pelo cara que pensa ser dono do mar. Sugaram até a gosminha comestível que eu chamaria de futuro. Levaram tudo, não sobraram sequer placas de retorno indicando como voltar para um dos dias em que você ainda estava aqui. Você não sabe o quanto eu te memorizei naquela última noite e como te amei naquele momento, com seu braço descansando sobre mim e meus pés gelados aquecendo no calor das suas pernas.
Já tarde da noite, deitada na cama mais opressora do universo, vejo detalhes que desconhecia. A manchinha na parede, os pelinhos de lavagem no lençol preto que você não gostava, os sapatos vermelhos largados no cantinho em frente ao espelho. Sua foto na tela do computador, transformando em cinzas o que ainda não se queimara na explosão. É isso, é assim. Se fosse diferente, você faria tudo igual. Se a situação permitisse, você ainda não escolheria ficar ao meu lado. Mas tudo certo, rapaz. Eventualmente a rua parecerá bonita novamente e a casa não provocará tonturas. Seu rosto será apenas uma fotografia e esta só um close que alguém deu, sabe-se lá por quê. Acabará em uma caixa bonita guardada no alto do armário e dentro do meu coração. Você certamente saiu da minha vida ouvindo um rock e cantando alto enquanto eu permanecia caída atrás da porta. Mas não importa, eu sinto sua falta pelo tamanho de nós dois. É melhor que você esteja bem, sorrindo e feliz porque nós podemos não ter futuro na sua agenda, mas o seu é brilhante.
Então... tchau, amor. Só sofrerei mais um pouquinho, mais alguns minutos antes de dormir, porque a chuva continua forte e eu não tenho para onde ir a não ser para dentro de mim. E, aqui dentro, só tem você para onde quer que eu olhe. Adeus, você. De verdade, dessa vez. Leve sua vida e suas coisas. Eu estarei aqui, ainda no mesmo lugar e com o cadeado do portão destrancado, caso um dia você possa e queira voltar. Joguei o calendário fora, arranquei o relógio da parede. Você tem todo o tempo do mundo.

2 comentários:

Ana Clara Fujimori disse...

Que delicia de texto, fiquei presa por total nele. Adorei cada palavra e esse jeito de escrer. Lindo. Estou seguindo e vou divulgá-la também.

E ah, obrigada por ler o meu =)
Bjbj

Gugu Keller disse...

Josi...
Ver partir um grande amor é como sair pelo portão do cemitério após o próprio enterro.
GK

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration