domingo, 9 de janeiro de 2011

Brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Pela terceira vez corri os dedos pelas lombadas das caixinhas de DVD’s procurando especificamente pela capa onde Jim Carrey e Kate Winslet deitam sobre uma pista de gelo, enquanto uma imagem dele, bem maior, olha para cima. Dei uma assoprada e limpei o disco com a ponta da blusa antes de colocá-lo para rodar e selecionei as mesmas opções de sempre no menu; áudio em inglês – por favor! - e legenda em português, embora esta já não seja mais necessária. Acomodei-me no sofá agarrada a uma almofada, com a eterna garrafa de água no console e Pandora roncando suave em minhas pernas. Preparada previamente para lágrimas iminentes que não caem por mim, mas por Joel Barish e Clementine Kruczynski. Por sua desgraça e amor. Ou seu amor desgraçado, tanto faz. No fim o amor é sempre essa confusão filha da puta mesmo.
A casa está silenciosa e escura. Já passa das dez da noite, mas aumento o volume da televisão para ouvir a angústia de Joel, o vazio que ele sente sem saber exatamente por quê. Os toques de piano. As páginas de seu caderno arrancadas. O súbito impulso de pegar um rumo diferente e faltar ao trabalho em uma manhã qualquer. A praia fria de inverno, branca e plácida. E Clementine, com seus cabelos azuis desbotados e despenteados demais, o moletom laranja berrante e um pacote imenso de petulância e impertinência. Tão despreocupada em ser bonita que ganha aquela beleza diferente de quem está cagando para o que o mundo vai pensar. De repente meus cabelos loiros, virgens de coloração, parecem totalmente sem graça. Clementine e eu somos dois opostos, mas só eu sei como gostaria de ter algumas de suas qualidades distorcidas.
Joel e Clementine estão deitados sobre a pista de gelo que ilustra a capa do DVD. Uma pista de gelo verdadeira, grande e aberta, dessas que o Brasil tenta reproduzir em seus shoppings mas nunca consegue. Um dos dois, já não me lembro qual, diz que está exatamente onde desejaria estar. Tento pensar em quantas vezes estive nos lugares certos. Lembro-me do deck do navio onde sentei durante sete dias para ver o sol se pôr, bebericando mojitos do pacote com tudo incluso da viagem e bancando a Rose do Titanic enquanto Guto balbuciava um “uuuu” melodioso à lá Celine Dion. Eu gostava de estar lá. Não, muito mais do que isso, eu amava estar lá, assistindo os tons alaranjados como o moletom de Clementine pintando o oceano na linha do horizonte que o mundo desconhece. Lembro-me também de uma livraria com café em São Paulo, onde passei a tarde reclusa em meu próprio mundinho com a mesma liberdade que teria em casa. Só faltou o pijama e as havaianas com meias surradas. Acompanhada por milhares de grandes caras. Charles Bukowski, com sua acidez. Balzac e as ilusões perdidas. Nelson Rodrigues, George Orwell, Charles Dickens. Mas o único lugar onde poderia passar o resto dos meus dias não tem oceano nem literatura. Porra, eu trocaria navio e café silencioso pelo seu colo sem hesitar, porque é ele o cenário do meu exatamente-onde-desejaria-estar.
O tempo começa a se misturar. Joel e Clementine viajam por suas lembranças, todos os momentos lindos e outros tantos nem tão lindos assim que viveram juntos. Tudo correndo rápido na mente de um Joel derrubado na cama pelo poder dos tranquilizantes. Ele está apagando a bêbada-irritante-melindrosa mas ainda doce-amável-surpreendente Clementine de sua vida, embora não tenha deixado de amá-la. Ela o deletou primeiro e ele não pode mais viver com isso. É lindo e trágico. É reconfortante. Por um instante não é Jim Carrey quem interpreta Joel, sou eu. Eu e todo esse amor incompreensível que insiste em continuar mesmo quando você já jogou tudo fora. Eu não passo de uma névoa em sua mente, mas você está tão vívido em mim que a dor é excruciante. Sobrou alguma coisa minha, qualquer coisa, na sua memória? Antigamente era mais fácil de me desligar. Joel era Joel e Clementine era Clementine. Hoje eu sou Joel e também Clementine. Querendo desesperadamente, aos trancos e barrancos, apagar você das curvas do meu cérebro. Deletar sua imagem, seu nome, olhar, sorriso, prepotência, postura, desprezo, manipulação, cara-de-pau. Por favor, Stan, trace um mapa em meus lóbulos e leve esse maldito homem embora. Mande para o abismo do esquecimento as mentiras, as noites insones e lamentáveis, as cenas humilhantes. Ensaque as lembranças bonitas e jogue fora junto em um latão de lixo orgânico. Não permita que seja reciclável, pelo amor da minha sobrevivência. Tudo seria menos degradante se o Dr.Howard Mierzwiak existisse na vida real. Se para apagar um amor fosse necessário apenas chegar com uma caixa de pertences a um consultório e permitir um procedimento na calada da noite. Você pode apostar, meu amor, que não seria mais meu amor. Seria ninguém e eu teria paz. Poderia prestar atenção nos detalhes de meus filmes preferidos novamente, sem me enxergar no personagem dramático. Respirar sem medo de estilhaçar o resto de mim que ainda luta aqui dentro. Ler estes textos infames sem saber por que foram escritos. Posso imaginar uma vida sem sua existência. Sem seu jeito de me aconchegar para depois repelir como se minha pele fosse brasa insuportável ou material perfuro cortante. Nada da firmeza com que você segura minha cintura ou das besteiras que fala durante a madrugada. Nada de cobertor para dois quando o ventilador barulhento dá, enfim, conta de esfriar o ar. O teto seria só tijolos e cimento e não mais um mapa de lembranças bonitas e finais fracassados. Uma parede de presídio com inúmeros traços arranhados, contando o número de mentiras que já ouvi. Ligações suas não fariam meu coração palpitar e eu poderia, depois do alô, perguntar quem diabos estava falando comigo como se me conhecesse. O brilho eterno de uma mente sem lembranças. O brilho eterno de uma mente sem você. Sem jamais ter construído um mundo ao seu lado, onde só eu vivo.
Os créditos rolam na televisão e eu aumento mais quatro riscos no volume e fecho os olhos para ouvir o toque maravilhoso de “everybody’s gonna learn sometime”. Porque, dizem, todo mundo aprende mesmo as lições da vida eventualmente, embora eu não coloque minha mão no fogo por esta concepção otimista. Mas que a música é linda, é. E que eu sou obrigada a secar as lágrimas com as costas das mãos enquanto Pandora me olha desconcertada, sou. Não sei exatamente quantos minutos têm o filme. Nunca reparei. Sei apenas que Joel e Clementine, embora tenham lutado contra o processo, tiveram escolha. Ele a amou mesmo em seus dias loucos e ela o amou até em seus momentos grosseiros e impacientes. Até que ela decidiu, abalada por um impulso, que era hora de passar a borracha. Tchau, Joel, você não passa de um cara com a porta do carro amassada. E quando tudo virou amargura desenfreada, Joel resolveu que poderia também apagar Clementine de sua memória. Porque amar sem ser amado não tá com nada e o cara sabe muito bem disso. O roteirista também sabe e tem um plano. Tudo bem para quem tem a alternativa de passar um paninho na mente e deixá-la brilhando como um pára-brisa de carro saindo do posto. Mas, na vida real, eu continuo tentando sufocar a recordação com métodos cada vez mais falhos. Não tem brilho nenhum aqui. É a sujeira eterna de uma mente encalhada e entupida de lembranças.

3 comentários:

Alguns Sussurros. disse...

- seus escritos são fantásticos, sempre me impressionam, você é encantadora. me identifiquei muito com você. um grande beijo, parabéns. não poderei ficar sem te seguir.

Gugu Keller disse...

Querida Josi...
Acredita que, na madrugada do último sábado para domingo, eu assisti também um filme com ela, Kate Winslet?
Sincronicidade, não?
O nome é "Pecados Íntimos"! Se vc não assistiu, recomendo! É interessantíssimo!
Bjs!
GK

Layla disse...

esqueci de dizer que adoro a última frase deste!

aproveitando a sintonia de cada uma estar no blog da outra: vou colocar um link seu também! uma honra você tê-lo feito! :)

ah, a madrugada inspira, não?!!!
Beijos, aproveite-a!

 
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