sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Caroço de melancia.

Eu nem preciso enfiar o dedo na goela. Meu corpo sabe que tudo está errado, que não é assim que deveria acontecer. E a revolta que teimo em manter no vazio do meu estômago se mistura com todos os sucos do organismo. Pancreático, gástrico, biliar. O que alguns chamariam de gastrite nervosa eu chamo de "mandando embora". A cada vômito cai no vaso um pouquinho desse amor que abriu um buraco em meu sistema digestório. Que me fez voltar a roer unhas. Que obrigou meus órgãos a tomarem a atitude que eu não pude tomar. Eles querem te mandar embora, meu amor. Não aguentam mais sua presença em cada pedacinho do lugar onde vivem. Quase posso ouvir, no silêncio de estar sem você, o fígado - com seu bigodinho hitleriano - reclamando e liderando o pandemônio. "É isso aí, galera, chega dessa porcaria, manda tudo que tiver o nome desse cara para longe do corpitcho". E você sabe, eu estou tentando não deixar acontecer, buscando maneiras de te manter aqui dentro mesmo quando você já está tão fora. Mas a vesícula biliar expele seu líquido gosmento quando não há mais comida para vomitar, leva um pouco da nossa vida e me mostra o dedo do meio porque não fiz isso sozinha.
Eu me posiciono contra a rebelião, argumento que não dá para te expulsar como se estivesse cuspindo um caroço de melancia geladinha no verão. Você não é um caroço de fruta e eu não posso te cuspir. Você é um caroço, sim, mas é tumoral. Permanente. Metastático. Não sabe ser benigno e eu não sei me desvencilhar do que já tomou conta dos cantos do meu quarto e de tudo que faço. Estou aqui, tocando violão à minha maneira torpe, só pensando em como você sacanearia meus esforços. E nessa hora eu te acho certo, tão certo que não sei disfarçar a explosão. Porque você me faz rir de mim e da vida. Tudo para depois lembrar que você é errado e que eu sou errada e que, juntos, somos dois errados. Dois errados que teimam em, às avessas, tentar dar certo. E dá. Minha parte dá certo e espera e encontra e ama, enquanto a sua dá errado e foge e desencontra e desama. Desata o vínculo frágil que nunca passa do primeiro encontro. Nossos eternos primeiros encontros e eternas gafes do dia seguinte. E, no dia seguinte, eu ainda te amo e te espero e te sinto queimar nos lugares onde você encostou. Horas depois, talvez dias, ainda atravesso a rua pensando em te sorrir na próxima esquina, onde você não estará. Em correr para abraçar o vácuo que poderiam ser seus braços. E, no dia seguinte, você lembra que nunca me amou, que não quer me esperar e que eu não queimo nem nas pontas dos seus dedos. E lembra que, embora eu tenha parecido especial enquanto me esforçava para enxergar as letrinhas da legenda sem meus óculos, não sou mais nada pela manhã. Só um punhado de cabelos despenteados e voz rouca. E lembra que eu durmo calma e sem barulhos, mas acordo pulando na cama cada vez que tenho um pesadelo. Eu queria te dizer que aquele conto do Woody Allen, "O mais idiota dos homens", era para você. Mas não, era só mais um conto marcado com uma carta de baralho quando fechei o livro para te receber.
Deixa que eu te vire do avesso até que você ache um lugar eterno para mim no seu peito. Deixe que te sacuda até que você abra os olhos e me enxergue. Ei, olha para mim, eu estou aqui, plantada no mesmo lugar comum de nós dois, doendo, esperando por um sinal, um menear de cabeça qualquer. Não tenho cartolina e pincel para desenhar, mas deixa eu te esfregar na cara que sou seu amor ainda que você não tenha notado. E note, por favor, note. E quando notar, corra e me levante da privada para que eu pare de vomitar nossas histórias na vã tentativa de te abstrair de mim. Mande meu fígado se acostumar à sua presença e não à sua falta. Faça minha saliva decorar a sua. Bata nas minhas costas para que eu desengasgue. Obrigue meus pulmões a respirarem e lutarem contra a quietude de quando você some. Não deixe que eu te vomite para fora de mim, porque será para sempre. Basta que você não queira que aconteça. Eu não quero. Quero você aqui de todas as maneiras. Para parar de pensar no que me dá que provoca ânsia e enjoo e só passa quando te mando embora. Esquecer do "o que será que será" de Chico Buarque e voltar à certeza de que será você e só você. Tape minha boca para que eu te engula mais uma vez e me dê um efervescente para que eu consiga digerir suas estripulias e tripudiações. Quero fazer redução de estômago para caber menos você, mas não permita. Você, o tumor maligno, não pode permitir. Precisa vir e continuar sua metástase do ponto onde parou. Do mesmo local onde me deixou sozinha com mil placas de direção, sem saber para onde ir. Eu te preciso tanto que você precisa me precisar. Mas meu fígado não te quer. Não te precisa. Ele ainda quer te cuspir como se você fosse um dos tantos caroços chatos de melancia, igual à milhões de outros. Ele quer te jogar fora, abolir a escravidão dos órgãos sem uma assinatura minha. Mas a linha está vazia e não quero assinar. Rasgue o papel, meu amor, é só voltar e me trazer um pouco da sua essência para contentar minha solidão. Porque você ainda faz cócegas no meu coração de um jeito que ninguém mais sabe fazer.

7 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...
1 - Sem dúvida, muito mais do que o do conto, é o mais idiota dos homens!
2 - Como um dos primeiros a ter descoberto o "Plurais Solitárias", fico muito feliz e orgulhoso em ver como ele está "bombando"!
Bjs!
GK

Fernando Imaregna disse...

Oi Josi...
Grato pelo carinho da visita em meu blog e o comentário lá deixado...

Não exagerei...seus textos são realmente maravilhosos...estarei sempre por aqui e, caso permitir, utilizar trechos aqui colhidos para divulgá-los...

Ah ! Olha só a "coincidência" (isso existe ? hehehe)...
Hoje na consulta que gerou meu post, de minha mãe, as médicas receitaram sabe o quê ??

Ela comentou que anda dormindo mal..
Arrumaram um namorado para ela tb...um tal de RI...hehehehe

Bjos carinhosos...cuide-se !

Marinha disse...

Josiana, definitivamente, estou encantada com teus escritos!
O post do namorado com nome esquisito é excelente! Linguagem, técnica, ritmo e criatividade tudo junto e incluído, ah, e como não citar tua vontade de narrar bem. Parabéns, guria!!!
Bjo e paz.

Penélope disse...

Uma belíssima forma narrativa descritiva de como muitas pessoas pode ser um câncer na nossa vida.
Relata muito bem e tem um pulsar diferente, sem ser cansativo.
Parabéns!

Fernando Imaregna disse...

Oi Josi...

Desejo que teu domingo seja pontilhado de energias positivas e com as bençãos do nosso PAI MAIOR...

"Peguei" um pequeno trecho do texto Fiozinho de Areia Branca e coloquei lá no blog...hum rum...

Um beijo carinhoso e se cuide...

Aline disse...

Obrigada pelo carinho, e devo lhe dizer que achei seu blog de uma criatividade linda, adorei os desenhos ao lado.

E seu outro blog, também é lindo.

Um grande beijo, querida

Passos silenciosos disse...

olá, tudo bem...encontrei teu blog nas postagens do Fernando (blog irmão das estrelas)...adorei o texto que li lá e resolvi passar aqui, muito bom teu blog, estou seguindo, vou ficar te acompanhando, ok, te convido a passar lá em casa http://passossilenciosos.blogspot.com
Se gostar me segue...
Bjos no coração...

 
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