quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Entre punhados de rolhas.


A cidade explode colorida, derramando os primeiros pingos de cor sobre a mais nova página em branco do caderno. Da sacada do apartamento enxergo metade do nosso mundinho. Não é Copacabana nem São Paulo, mas é bonito. Incontáveis cogumelos luminosos arrebatando os céus atrás dos prédios. Três ou quatro tímidos nas casas de gente mais simples. Cinco, quatro, três, dois, um. Feliz ano novo! O relógio marca zero hora. Depois zero hora e um minuto. O primeiro de outros tantos que viveremos à espera da próxima virada. Quando são duas da madrugada do novo ano, o champagne entorpece mentes e corpos, mas a alegria ainda não deixou as ruas. Junto com as rolhas que pulularam pelas janelas estão as crenças de multidões encantadas. Gente que acredita que pode deixar o passado no passado. Gente que tem certeza de que a virada de ano apagará problemas e trará soluções para o que não puder ser escondido com corretivo. Gente que acredita em novos começos, só porque mudamos de 2010 para 2011. Agora tudo parte do zero, diz a mocinha esperançosa enquanto o rapaz cai na noitada, doido para começar o ano podre de cachaça.
Feliz ano novo! Avante, recomeço! Recomeço? É mais do que isso e menos também. Não é apenas um ano chegando no bico de uma cegonha, não é apenas o fim de um ciclo de 365 dias. É o sinal de que as estrelas agora têm companhia. De que é hora de esvaziar os bolsos e queimar a escuridão outrora infalível. Vermelho, verde, azul, dourado. Muito dourado caindo sobre a terra, mas tudo que é lindo pode queimar, a exemplo do calção que minha mãe usava na virada de 2007 à beira-mar. E então o dinheiro acaba, o estoque também, e cá estamos nós. Carentes de um pouco mais do brilho, do colorido, da devassa luz que tomou o lugar das nuvens. Sedentos por um pouco mais da compreensão que nos assola quando o mundo resolve recomeçar sua contagem. A compreensão momentânea de que, não importa quão amedrontadoras sejam nossas vidas, a Terra não está nem aí. Vai continuar girando e girando e girando, até que outros 365 dias passem sem que grandes mudanças sejam operadas. Sem que os amores ingratos sejam esquecidos, sem que os quilos sejam perdidos, sem que a saudade seja curada. E quando tudo isso preenche nossas mentes, a maior parte do mundo prefere fechar os olhos e sonhar mais um pouco, talvez até o carnaval, acreditando piamente que ano novo é sinônimo de vida nova. Mas não eu. Meus olhos estão bem abertos e, mesmo enquanto admiro as explosões, tenho certeza de que minha vida continuará exatamente igual.
Quarenta minutos de 2011 e não enxergamos mais nada. Nem fogos, nem luz. As estrelas voltam a ser solitárias em sua vã eternidade. E nós, envoltos pela névoa que desce e contamina, procuramos o lugar onde uma explosão retardatária ainda possa acontecer. Mas há apenas poeira. Fumaça do que já passou. Porque tudo é mesmo assim: vêm em grandes explosões de contentamento e vai embora deixando apenas um rastro. Um bilhete que confirma sua estadia. A felicidade contada em quantas toneladas de estouros o mundo presenciou. Em quanto tempo a beleza foi capaz de permanecer sem que alguém encontrasse defeitos. Em quantas garrafas de champagne perderam suas rolhas para as ruas. Acabam os brindes, as comemorações na TV, as músicas de adeus ao ano que passou. Pobre ano velho, escorraçado, chutado para longe como um personagem de desenho animado, com sua experiência enrolada em uma trouxinha de pano. Tchau, ano velho, ninguém quer mais saber de você. Leve os problemas que trouxe, vá embora de vez. Deixe o bebê nascer, porque bebês são lindos e cheios de esperança. Pobre ano novo. Tão superestimado. Tão cobrado. Não passa de uma criança e todos já depositam nele suas expectativas. Seus sonhos infundados. Cada rolha voando é um pedido a mais para sua lista infinita. O cara de terno espera enriquecer, a sonhadora quer encontrar um amor, o desempregado deseja ter comida para dar ao filhos ao menos uma vez por dia. Uma legião de pessoas almeja mais tempo para viajar, mais dinheiro para depositar no banco, maior limite no cartão de crédito. Outra multidão quer apenas que o desespero acabe. Que suas casas, já tão precárias, não sejam levadas por enchentes. Que as chacinas e extermínios tenham fim. Que ônibus não sejam mais queimados e balas perdidas continuem para sempre perdidas e jamais sejam encontradas em um corpo caído. Que goleiros matem apenas a possibilidade do time rival fazer um gol. Pesquisadores querem conseguir mostrar ao mundo que o caos da natureza já não é mais uma possibilidade, mas uma grande certeza. E que a culpa de tudo isso vem da nossa podridão e do fato de nós, seres humanos irracionais, não entendermos os sinais de exaustão do planeta. Rir não adianta, chorar também não. Esquecer dos problemas segurando uma taça de champagne não muda absolutamente nada. Você pode fingir que sua vida será perfeita de agora em diante, mas no fundo todos sabemos que a realidade não é essa história infantil com final feliz.
Quanto a mim, quero muitas coisas. Tenho grandes planos para 2011 e outros tantos pequenos também. Resoluções malucas nunca são cumpridas e no final do ano seguinte só servem para mostrar quão incapaz você é por não conseguir manter suas próprias promessas. Como qualquer outra mulher, quero emagrecer. De verdade, subir na balança e ser leve como uma pluma. Quero uma bunda perfeita e uma cinturinha impecável. Mas tenho também milhões de outros desejos. Conseguir organizar meus interesses em uma escala imaginária, para que sobre tempo para tudo. Altas notas na faculdade, embora me contente com notas medianas desde que esteja aprendendo como ser uma grande pessoa. Poder sentar à sombra de uma árvore ou em um banco confortável e ler sem dar a mínima para o resto do dia ou para o fato de os óculos me deixarem com aparência de nerd. Quero o começo de uma grande carreira e de realização profissional. Dinheiro para não precisar racionar cada centavo como se fosse o último da carteira. E que aquela nota de dois reais não seja, realmente, a última da carteira. Não ter obrigação de telefonar para as pessoas que amo porque magicamente essas pessoas começarão a compreender que o fato de odiar telefones não diminui meu amor por elas. Música boa mesmo morando em uma cidade onde tudo que toca é sertanejo universitário. Todas as coisas singelas que sempre fizeram parte da minha vida, de um jeito ou de outro. Literatura, cinema, sons e silêncio. Quero, sim, meu silêncio bem-vindo, porque só ele é capaz de salvar minha sanidade. Poder deitar a cabeça no travesseiro e chorar quando sentir necessidade, sem julgamentos e sem que deem a isso o nome de besteira. Poder me exilar do mundo quando a solidão aprouver melhor, quando minha verdade for conveniente e as mentiras sociopatas não. Ser capaz de fazer algo pelo planeta. Algo que mostre que, se está ruim para nós, está muito pior para os animais que vivem nas geleiras. E que se nossa estimativa de vida está diminuindo, a deles está drasticamente aproximando-se do nada.
Não quero acreditar no sistema, nem em nada que me torne novamente a bobinha ingênua que por muito tempo fui. A idiota que colocaria a mão no fogo por qualquer pessoa. Hoje minha mão é só minha e por nada ela vai se queimar. Não quero fé se ela não for sólida. Aliás, não quero nem a fé sólida se for só para dizer ao mundo que a possuo. Quero continuar sem me importar se um amigo ou parente fica horrorizado com minha descrença. Não quero amolecer meu coração ou perder tijolos da parede medieval que construí em torno dele. Não quero os guardas que o protegem mortos por flechas alheias. Quero continuar endurecendo porque é o único jeito de sobreviver às farpas da vida e aos lobos disfarçados de cordeiros. Quero me olhar no espelho e enxergar confiança e propósito. Não importa se não enxergar beleza, desde que a segurança esteja a mil. Quero rir de tudo. Rir de mim, de quem eu amo numa via de mão única, de quem me odeia e de quem questiona meus motivos de reclusão. Rir de quem lê meus escritos e deseja me internar em uma clínica de reabilitação ou me fazer tomar remédios antidepressivos. Rir especialmente de quem toma por ofensa minhas opiniões sobre o mundo e quão pouco acredito nele. Não vou apontar o dedo jamais, mas não posso reprimir um pensamento do tipo “eu avisei” quando tudo virar poeira.
Quero meu amor, mas não qualquer um. Só se for aquele. Quero não precisar escrever tantas coisas, ferir tantas páginas, dilacerar tantos machucados. Quero escrever sem sentir tanto por tudo. Quero o mundo reduzido a nós dois. E como tudo o que quero não se resume a três parágrafos, chega de querer. Sei que, caso o ano novo falasse, me mandaria à merda. Ele não trará nenhum dos meus desejos, porque não é sua obrigação. Devo conseguir tudo sozinha e com luta própria, não apenas desejando enquanto brindo sei lá o quê. Por enquanto, então, querido ano novo, contento-me com poder abraçar Pandora e Catatau, com a parte do silêncio, da leitura, da bunda e cintura perfeitas e, se possível, Johnny Depp, Gerard Butler e Jensen Ackles enviados por Sedex aqui pra casa. Assim, só para sonhar alto como todo mundo faz. Até que é divertido. Imagine só! Pode ser? Ok, ok, deixa para lá, risca a última parte.

1 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...
Desculpe-me se isso soar algo depressivo, mas tendo a crer, sempre o digo, e esses agitos de reveillon a que vc se referiu o ilustram com precisão, que a esperança é dentre todos o pior dos vícios...!
GK

 
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