domingo, 30 de janeiro de 2011

Lynyrd Skynyrd.

O celular tocou e eu cheguei tarde demais. Não ouvi as primeiras notas de Free Bird, a escala musical crescente que só fica realmente audível quando Johnny Van Zant pergunta se ainda me lembraria caso ele partisse amanhã, porque é livre como um pássaro e precisa seguir viagem. If I leave here. E antes do tomorrow a ligação foi finalizada. Lenta demais para desligar o chuveiro, secar as mãos e abrir o box de vidro, não deu tempo. Para consolar, botei no modo mp3 e deixei a música terminar, pelo menos para ouvi-la até o fim e não ficar o resto da noite cantando o mesmo pedacinho. Would you still remember me? Claro, não há como esquecer.
No visor um número estranho, mas sei quem era. De repente o cara resolveu me oferecer mais uma carona. Ou, então, emprestar mais sete reais para a babaca que saiu com cinco e descobriu que precisava de doze. Pode estar querendo cobrar a dívida, mas não creio que seja isso. Acho que ele quer que eu me afunde mais uma vez em suas voltas. Tenho cervejas long neck da Heineken na geladeira e reflito sobre o assunto. Mas elas ainda não estão no ponto e nem eu estou. Não estão trincando e eu não posso me deixar trincar. Poderia me acabar no jeito dele de me sentir ou, pelo menos, aproveitar para dizer que preciso achar o pedaço perdido do meu brinco preferido. Mas não estou no ponto certo. Não ouvi mesmo a música tocando a chamada, mas não há arrependimento. Talvez o instinto seja proposital, afinal, sempre tendendo à proteção, à barreira eterna de defesa.
Ele parece um sugador de almas e eu não quero ser ainda mais esvaziada. Rosto imperscrutável e cheio de segundas e terceiras intenções que são assustadoramente instigantes. Ele é do jeito que quer e ninguém desconfia do potencial monstro em que pode se transformar. Um homem comum, de barba diferente e estilo único, circulando no mar de pessoas e conquistando incontáveis mulheres. Não precisa de técnica ou estratégia; olhar, perfil e lábia são mais do que suficientes. Caso alguém me perguntasse sobre alienígenas, eu diria que eles andam entre nós vestindo a pele de homens como ele. Nem gosmentos, nem verdes, nem prateados e longilíneos, mas sim bonitos, inteligentes e sedutores. Exatamente como ele. Aprendendo a vida na Terra e ganhando poder. Ligando no dia seguinte como nenhum homem deste planeta faz. Talvez seja até mesmo uma experiência e lá em Marte a mulherada sofra tanto quanto nós.
E ele é lindo e encantador, mas é monstro. É vândalo que chega com spray colorido, pronto para pichar muro e coração. Desta vez, no entanto, sou capaz de convocar a polícia antes de ver meu muro ser transformado em aberração e meu coração se encher de desenhos abstratos e palavrões. Ele é monstro que joga charme e liga no dia seguinte para depois cair no abismo do nada, mas eu não sei se estarei disposta a atender a próxima chamada. Depende de Johnny Van Zant e sua banda clamarem por atenção mais cedo. De ter o saco de segurança bem cheio para não ser sugada e esvaziada como uma boia. De estarem as garrafas de Heineken no ponto e eu mesma no tal ponto que nem sei qual é. Gelada o bastante, imagino.
Quem sabe amanhã eu mesma retorne a ligação e pergunte o que ele queria. Talvez a vontade volte e o desejo de cair em um abraço forte também. Se no começo da semana eu achar que posso me envolver sem ficar vazia, tudo bem. Se ele não me fizer mais sentir necessidade de escrever no calor da hora, como agora, pode ser. Não quero mais um assunto para dividir com o Word. Se puder deixar acontecer sem enlouquecer o resto de mim, tento. Garanto que tento. Boto tom de desculpas na voz e ligo dizendo que não ouvi o celular tocar baixinho. O que é verdade, mas parecerá mentira. E mentira por mentira, ele também mente e é capaz até de gostar. Monstros se alimentam disso. Mas, por hora, deixa Lynyrd Skynyrd tocar sua guitarra que já está de bom tamanho. Porque, no fim, também sou um pássaro livre que não pode ser mudado e hoje a mudança é esta: estou partindo e tenho muitos lugares só meus para conhecer. Johnny Van Zant vai cantando comigo e, quem sabe, na próxima música eu mudo de ideia.

5 comentários:

Fernando Imaregna disse...

Bom dia Josi...

Tem selinho para ti no Blog...

Hoje tô todo cheio....hehehe
Recebi o carinho em um blog parceiro, da Dinorah, e não tô podendo nem sair de casa, de tão inflado...hehehehe

Assim como você, ela é "parceira" agora...

Disse-lhe o que lhe digo : são tantos e maravilhosos novos escritores e poetas no Brasil, que seria uma injustiça não divulgá-los, da forma que for...

Bjos menina...cuide-se

ps. aliás postei um trechinho do "Barbudo"...hehehehe

Unknown disse...

Já disse e digo novamente: quem realmente te conhece, sabe que essa é a Josiana, que estas palavras e a maneira de colocá-las no word descrevem exatamente quem você é.
E se quer saber amiga, eu adoro os textos tanto quanto adoro você!
Sinto saudades :**

Josiana Rezzardi disse...

Muito obrigada, meu bem!
Você me emociona e sabe disso, não é?
Sinto muita saudade de ti também e estou super feliz de te ter por aqui e mais ainda por você me reconhecer nos escritos tanto assim!
Um super beijo, amiga!

Gugu Keller disse...

JPR...

All we can do is write about it!

GK

Marinha disse...

Amei o texto! Tb postei sobre celular e suas sinuosidades nessa semana.
Bjo e sorrisos, querida.

 
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