terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Medalha de ouro.

Ninguém sabe quão frágil é seu coração até senti-lo despedaçando irremediavelmente, sem pomada ou analgésico para a dor. Atingir este ponto é como cruzar a linha de chegada de uma maratona. Você corre freneticamente para alcançar seu destino; transpira, fraqueja e resiste. A respiração se torna uma tarefa dolorosa e a boca resseca diversas vezes, mas você persiste porque sabe que, no fim, valerá à pena. As pernas queimam pelo cansaço, o corpo treme pedindo descanso, mas você já está tão perto que desistir seria insensatez. E então, quando finalmente a faixa aparece, nos últimos metros, a força que você nem sabia possuir lhe faz chegar, gloriosamente cruzando um marco em sua vida.
Com o coração não é diferente. Ele bate sem relutância, como um verdadeiro relógio biológico. Apaixona-se, adoece, esquece, recupera-se e apaixona-se novamente. Transpira, fraqueja e resiste. Na maratona da sobrevivência desse órgão vital, no entanto, não é suor que escorre pelo caminho, mas pequenos pedaços levados por outras pessoas, muitos deles arrancados à força. Nada que impeça de seguir em frente. Até quando, alguns metros à frente, você encontra o amor. Ele é a linha de chegada, esperando para ser vivido. Deste momento em diante, é tudo ou nada. Bandeirinhas flamejam pela vitória, aplausos e sorrisos em comemoração. Você chegou, parabéns! Alcançou o amor e descobriu o que é aquilo que todos anseiam, ainda que muitos digam não se importar. Arrematou o tão sonhado troféu. Comemore, banhe a todos com seu deleite, grite um sonoro "eu consegui". E depois, quando seu pulso voltar ao normal, veja onde você chegou. Não apenas olhe, mas enxergue de verdade.
A multidão vai embora. Cessam os estouros de champagne e fogos de artifício. Os flashes das câmeras param de espocar e acaba o interesse dos jornalistas. Resta apenas você, o pódio e o troféu. Mas que grande merda você faturou, hein? Uma droga de estatueta, chamada amor, que é grande demais para caber na estante e independente demais para ser trancada em um cofre. Há quem consiga descer do pódio carregando o troféu pesado, levando-o nas costas até encontrar um lugar seguro. Há quem não consiga suportar o peso por um longo caminho, mas sabiamente estica uma toalha nos degraus do pódio e senta com o amor no colo, ninando-o para sempre. E há aqueles que, como eu, alcançaram a linha de chegada já exaustos e abatidos demais para seguir em frente. Estes são os que desistem, os que percebem que o amor é, na verdade, um estripador disfarçado esperando o momento oportuno para picar os últimos pedaços do seu coração.
Eu cheguei à linha onde vencedores encontram seus familiares e prêmios. Atravessei a faixa listrada da vitória. E perdi. Não fui uma vencedora, nem mesmo depois de tantos quilômetros galgados com suor e pagos com minha própria dor. Desculpe-me, senhor organizador, mas não posso subir ao pódio. Não tenho tamanho para tanto, porque meu troféu-amor era tão grande que me esmagou. Agora faltam mãos e braços para agarrar o que é meu; pés para correr em busca de um abrigo; costas fortes para suportar o peso; cabeça para não definhar. Falta um tênis com amortecedor e joelheiras resistentes. Eu perdi. Não houve comemoração, pois também não houve vencedor. Apenas perdas e desfaçatez durante o longo percurso. Esta medalha não pode ser minha, pois não sei cuidar dela. Perdedores não ganham prêmios assim; eles ficam, no máximo, com a marca cansada de um dia ter passado perto do primeiro lugar. Perdedores vêem seu troféu passar de mão em mão até cair nos braços de alguém que possa segurá-lo. E está lá. Do ponto onde minha exaustão venceu, enxergo outra mulher exibindo o amor que deveria ser meu. Feliz, ela ergue o prêmio e posa para as câmeras com um pouco de exagero. Vou embora com paz no peito, sabendo que a taça de ouro estará melhor sem mim, vivendo em um mundo cor-de-rosa e plano, sem as oscilações e melancolias que teria ao meu lado. Aquela mulher de alegria desproporcional saberá, certamente, cuidar dela com a capacidade que eu jamais possuí.

4 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...

Um dos maiores erros que costumamos cometer é o de vermos como objetivo aquilo que na verdade deve ser conseqüência.

GK

Josiana Rezzardi disse...

Este é só mais um dos meus muitos erros, Gugu!

Anônimo disse...

leio o seu blog há um bom tempo já li todos os seus textos um mais encantador do q outro, mas esse foi oq eu mais me marcou é tudo o que eu estou passando... ele é o meu trofeu de ouro mais não tenho forças para carrega-lo e mante-lo em minha vida... acho que não sou capaz de cuida-lo como merece.

Josiana Rezzardi disse...

Querido(a) anônimo(a), muito obrigada pelo carinho!
Apesar de ficar feliz pelo fato de os textos lhe agradarem, sinto muito que identifique sua vida neles (especialmente neste)!
Mas, enfim, qualquer coisa que precisar, é só aparecer novamente!
Um beijo

 
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