sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Meu namorado tem nome esquisito.

Estranho pra caramba, mas já há algum tempo estou saindo com um cara de nome incomum. Não sei o que ocorre na mente de pais criativos, mas o pobre coitado não merecia um nome tão feio. É um cara irremediavelmente caseiro, mas um ótimo companheiro. Nunca saímos para assistir a um filme, tomar um drink em um barzinho ou andar de mãos dadas pelas ruas exibindo nossa felicidade. Ele não é fã dessas coisas e eu acabei me acostumando a ficar em casa. Não é ruim para quem nunca foi de receber o capeta no corpo e sair abalando mesmo. Sinto-me, é verdade, bastante submissa às suas vontades, mas posso viver com isso pelo bem que ele me traz. Conforto, tranquilidade. É tão difícil encontrar essas qualidades em alguém que foi surpreendente que justo eu, aquela que não sabe amar como se deve, tenha enlaçado o rapaz. Depois de tantas coisas erradas, tantas pessoas que levaram embora pedaços de mim, é um alívio admitir que nem tudo está perdido.
Esse mundo flutuante não faz minha cabeça. Eu prefiro não pisar em nuvens, só por precaução. Quando percebi que ele não estava indo embora, nem me olhando como se soubesse que seria a última vez, nem me abraçando enquanto pensava em virar as costas e me deixar sozinha, um alerta gritou que algo estava muito errado. Assustada e paranoica, restou-me apenas o diálogo. Falei que nunca passei por isso antes, isso de dar certo. Estava tão acostumada a ver minha felicidade, volátil demais, escapando pelo furinho do balão, que não sabia como agir quando a coisa toda mudava de drama para romance. Ele, calmo como sempre, disse que tudo bem, que eu só precisava de tempo para me adaptar com o fato de que ele não estava indo a lugar algum.
Nós construímos uma relação legal, eu e o Ri. Conhecemos-nos através de um amigo em comum, um psiquiatra. A vida não mudou muito e ele não exige atenção demasiada. Faço minhas coisas durante o dia e à noite nós namoramos. Simples, ameno. Filmes franceses de Jean Renoir, Robert Bresson e Yves Allégret. Sinfonias de Mozart, Mahler e Bach. Clássicos da literatura mundial, de Edgar Allan Poe a Truman Capote. Meu novo namorado é exatamente como eu, não troca essas preciosidades por música eletrônica e luzes ofuscantes. Nós ficamos no sofá adquirindo cultura até o sono bater. Ri é quieto, então não conversamos sobre os filmes ou discutimos trechos dos livros que lemos. Acabamos sempre no meu monólogo, mas ele não parece se importar. E, até que eu diga boa noite, Ri não sossega. Ele gosta de me ver dormir bem porque sabe quantas noites de pesadelo – reais ou sonhados - já tive nos últimos meses.
Então nós deitamos. Ninguém faz carinho, mas a presença é tão forte que basta. Antes de este cara aparecer eu não passava de uma boneca de pano em frangalhos que não conseguia dormir. E eu tentava. Rolava pela cama de casal vazia tentando achar uma posição confortável, um lugarzinho seguro. Procurava esvaziar a mente, mas as recordações são uns bichos teimosos pra caralho. Acendia a luz, lia mais umas páginas do livro da vez e tentava novamente. Não tinha jeito. Quando conseguia dormir era só para acordar pulando uma hora depois, tentando me livrar do pesadelo. Mas com Ri tudo ficou mais fácil. O travesseiro é macio e não mais aquele bloco de pedra que machucava meu pescoço. A coberta se ajusta bem e deixou de ser o trambolho que me afogava em solidão. Não preciso mais procurar um lugarzinho na cama, porque posso dormir em qualquer canto. E ele nem se importa de ficar afastado enquanto minha gata carente se aninha na conchinha.
A verdade é que Ri mudou muitas coisas em minha vida. Quando ele está por perto toda aquela ansiedade absurda que parece ser inerente à minha composição vai embora. A tristeza, a solidão, a dor cortante no peito. Até as lembranças viajam por algumas horas. Antes que eu possa me irritar ou perder as estribeiras, Ri estende sua mão. E, se começo a chorar, dura o tempo de poucas lágrimas até que ele exerça sua influência sobre meu estado emocional. Às vezes esse poder todo me amedronta, porque sei que sou forte o bastante para não virar fantoche de um cara como o Ri, mas não quero fugir. Se quiser ficar longe, muito longe, eu consigo sem precisar de esforços. Nunca fui grudenta e isso não mudou só porque é ele. Mas a sensação da companhia é tão agradável que funciona como se o cara enfiasse a mão no lugar mais profundo da minha alma e arrancasse de lá meus receios e desilusões. Sobra só uma pontinha de saudade que nem o Ri consegue apagar. No outro dia está tudo ali novamente, mas poder dormir sem o peso da consciência plena é motivo suficiente para me fazer cair de amores. E eu relaxo como nunca fiz antes na vida. Por vezes pareço uma retardada, rindo do que não tem graça. E talvez deixe de chorar simplesmente por resvalar na ignorância por algumas horas. É a paz de espírito que vem como bônus. Tudo vai embora. Fica só o sono sem sonhos. O sono que desliga a mente e torna os músculos inúteis. O sono capaz de fazer escorrer babinhas na fronha. Em algum canto obscuro eu sei que o teatro de horrores ainda está com a bilheteria aberta e lotando as poltronas. Mas o espetáculo pode acontecer mais tarde; de repente, nada é mais importante do que dormir.
Meu namorado não requer nada além de um gole de água como acompanhamento. Não sei se me ama, mas sei que estou apaixonada. Doce, suave, cauteloso. Usa uma faixa preta na cintura que funciona como uma aliança, um aviso de que não é para todos. Só para os danificados. Os destruídos, de alguma forma. Aqueles que precisam comprar paz interior na farmácia. Para estes, ele oferece sua segurança e seu psicológico muito bem estruturado. Ri sabe muitas coisas e é cheio de qualidades. Seu único defeito é o nome esquisito, um tanto quanto excêntrico. Quem mais, no mundo, chama-se Clonazepam e é carinhosamente apelidado de Rivotril?

7 comentários:

Equilibrista disse...

nossa, me supreendeu...
acho melhor terminar esse namoro rapidinho, hein... rsrs
adoro seus textos.

Gugu Keller disse...

Josi...
Pois é... Apesar do que disse a Suellen, a verdade é que esses relacionamentos tendem a durar... Acredita que estou com a Ana há 23 anos?!? Sim! O nome dela é Anafranil!
Bjs!
GK

Charlote Rezzani disse...

Não esperava esse final, me fascinei por seus escritos, parabéns!

Layla disse...

Li e não quis te falar adoro-porque-me-identifico.
Acho egoísmo só gostar daquilo com o qual nos identificamos...
Gosto do estranho também, gosto de nunca ter chego perto deste Faixa Preta mas de você conseguir me passar como seria namora-lo!

Adorei seu comentário, muito muito doce!
:)

Fernando Imaregna disse...

Oi Josiana...
Passeando pelo blog de uma amiga em comum, li um comentário seu e resolvi vir dar uma espiadinha...

E aí me deparo com todos estes textos maravilhosos, de uma profundidade ímpar e brilhantemente elaborados...show...show...

Este, por exemplo,fui lendo linha a linha, até o "gran finale"...hehehe

Parabéns ! Um beijo fraterno

http://imaregna.blogspot.com

Marinha disse...

Josiana, amei o texto!!! Gostoso de ler, envolvente e com um final pra lá de surpreendente. Parabéns!
Bjo e paz, querida.

Simone disse...

Li esse texto agora a pouco na Revista Diference e confesso que ADOREI! No começo não desconfiei de nada, porém quando falou do Ri tive certeza! Compartilhamos o mesmo namorado! E nesse caso pode, nem se trata de traição!rsrsrs. Parabéns, texto escrito com maestria. Tô seguindo já!.

 
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