domingo, 23 de janeiro de 2011

O medo mais cruel do mundo.

Quando Catatau parou de se alimentar, tomar água e levantar da cama, pensei que este fosse o medo mais cruel do mundo. Perder meu companheiro, a bolota gorda e cinzenta que não engole comprimidos e se esconde embaixo da cama à simples hipótese de um barulho estranho. Que quando resolve morder ou arranhar faz um estrago brutal com suas presas e garras de pantera. Que adora peixe cru e creme de leite, ainda que eu precise ralhar com minha mãe por ceder aos caprichos da mente gorda de um gato manhoso. São pires de creme suficientes para causar um problema de fígado, mas ela não me ouve e é assim que nós vivemos. Eu digo não, ela diz sim. E ele, por sua vez, continua pedindo porque sabe que a certa altura será atendido. No fim a gente ri dos miados compridos e pidões. Descobriu-se, no entanto, que o problema era uma luxação patelar, da qual ele melhorou com repouso e alguns remédios. Embora, é claro, nunca mais tenha descido de altura nenhuma sem pedir ajuda.
Quando Pandora foi mordida por uma aranha grande e peluda com a qual brincava, pensei ser este, então, o medo mais cruel do mundo. Perder minha menina, o travesseiro de pelos compridos e sedosos que só sabe miar baixinho para pedir afago. Que é louca por peixe cozido. E por frango. E por peito de peru. E por pão. E por barrinhas de cereais. E por qualquer outra coisa que eu esteja comendo. Minha amiga de olhos de coruja amarelos e enormes, que sai espanando pernas com a profusão de pelos do seu rabo torto. E que não se conforma quando demoro a acordar e levantar da cama, porque é um absurdo que eu a deixe esperando pela primeira refeição do dia ou por um carinho entre os olhos às sete da manhã. Que pula em meu peito exigindo atenção e que, no inverno, dorme colada em mim embaixo de cinco cobertas. Mas não houve sinal de veneno. Ela ficou bem, embora não tenha aprendido a lição e esteja caçando uma vespa neste exato momento.
Quando o pai de um amigo morreu, pensei que este fosse o medo mais cruel do mundo. Encarar a dor de alguém muito próximo, gostar da pessoa e mesmo assim não poder fazer absolutamente nada. Porque a morte é o fim, especialmente para quem não acredita em segunda, terceira ou quinquagésima vida. Para quem, como eu, crê que somos músculos - carne como a de qualquer outro animal - regidos por órgãos que um dia falharão, a morte é realmente o fim. Uma vez paralisado o sistema nervoso, estamos acabados; viraremos ossos amarelados dentro de uma caixa de madeira cara. E esse medo é cruel, o de pensar em perder alguém de forma irremediável. Não saber encostar a mão no ombro amigo e dizer palavras reconfortantes. Sentir-se inútil.
Então, quando fui para a faculdade pela primeira vez, tive receio de perder meus três amigos homens, os irmãos de vida que tanto me acompanharam pelos morros da cidade. Aqueles que cresceram ao meu lado, fizeram-me rir centenas de vezes - normalmente por besteiras que jamais esquecerei -, dividiram tanto de suas vidas comigo que me permiti dividir a minha com eles. Brigaram com namoradas por mim, contaram-me segredos e ouviram os meus. Tanto me tinham como o quarto homem do quadrado que me apelidaram de "cara legal de cabelos compridos". Ensinaram-me tudo sobre a mente masculina e criaram um monstro que, ao primeiro sinal de interesse de alguém, dá um jeito de chamar o rapaz de "brother", em tom de comédia, para firmar uma amizade. Porque meus três amigos me ensinaram, inconscientemente, que em um amigo você pode confiar, mas em um amante não. Eles me mostraram o quanto vale a amizade e fizeram de mim uma mulher que detesta fofocas, novelas e gritinhos. Mas não os perdi. Os três continuam sendo os homens da minha vida e não há nada como receber uma visita de um ou ligação de outro dizendo estar esperando na portaria do prédio.
Quando cheguei à metade da primeira faculdade e decidi que era hora de parar e partir para outra, pensei que este fosse o medo mais cruel do mundo. O medo do fracasso, de não conseguir chegar até o fim, de não suportar o tranco que todos suportam, de não ter culhões para tanto - ainda que eu não os tenha mesmo. Mais uma vez receei perder os amigos que fiz. Amargurei ter tudo em um momento e depois nada. Meus camaradas, moradores da porta logo abaixo à minha, que adoravam subir e sentar na sacada para bater um papo e tocar violão. Que riam dos meus pijamas de vó. Que amavam chegar na hora do jogo do Corinthians e rir da minha agonia e dos berros de motivação e raiva. Que nunca negaram um abraço e que faziam galões de poção gami só para mim. Mas estes amigos choraram na despedida, mesmo os que eu pensava que não tinham lágrimas em estoque. E eu ainda tenho guardado o cartão gigante onde todos assinaram seus recadinhos e o álbum de fotografias das últimas semanas. Não os perdi, o que foi um alívio.
Quando cheguei à casa onde moro agora, em Palotina, tive receio de não me adaptar. Antes eu morava sozinha e realmente amava a situação. Meus livros, fotos, quadros, sujeiras e bagunças, Pandora. Uma vida de silêncio quando eu quisesse. Mas Palotina é uma cidade de burgueses e dividir o aluguel foi necessário. Então achei que o medo mais cruel do mundo fosse o de não gostar das pessoas e da casa onde vim parar, porque não há nada tão ruim quanto amargar acordar dia após dia. Este medo, no entanto, tornou-se obsoleto quando Aline, Tânia e Petra me mostraram que morar com pessoas incríveis pode ser incrível também. E Palotina ganhou outra cor, embora os campos de soja sejam os mesmos. Ganhou tons bonitos, porque tenho companheiras para meus momentos de não solidão.
Quando lasquei a patela, perfurei a cartilagem e perdi líquido sinovial do joelho, jurei que este era o medo mais cruel do mundo. Andar eternamente com cuidado, ficar manca, reduzir movimentos. Nada mais de dançar esquisito ou fazer longas caminhadas pela praia, nem sentar com as pernas dobradas. Mas três meses de romance com muletas me fizeram ver que, entre todos os outros, este era o medo mais ridículo. Não fiquei manca, não ando com cuidado e não reduzi meus movimentos. Continuo dançando esquisito e fazendo longas caminhadas pela praia, embora agora ouça barulhos no joelho quando o faço. Sentar com as pernas dobradas, principalmente, é um costume que jamais abandonarei, mesmo que sinta estouros frequentemente. Ei, olhe que máximo, minha perna estoura.
Ainda cogito centenas de outras hipóteses que podem materializar o medo mais cruel do mundo. Medo de perder, de amar, de sofrer, de cair lá do alto depois de demorar tanto para subir. Medo de que o paraquedas não abra no próximo salto e eu acabe como aquele cara que teve o baço perfurado. Medo de palhaços e batracnofobia. Medo de ser um nada e de chegar a lugar nenhum. Medo das lembranças que me aterrorizaram por tanto tempo. Medo de tudo que ficou marcado em mim. Muitos deles parecem concorrer ao título, mas a verdade é que já desvendei o mistério. O medo mais cruel do mundo não é uma coisa só, mas sim uma convenção de medos. Uma barreira que impede que sonhos existam e que amores aconteçam. Uma trava na porta da frente que impede a passagem de boas histórias. Grade nas janelas e areia movediça no chão. Afundando, sempre afundando, sem jamais conseguir dar o próximo passo. Dentre todos os medos, tantos que já não tenho dedos para contar, descobri que o que faz as vezes de cereja do bolo é o medo de viver. Viver, deixar ser, permitir acontecer. Entregar, doar, compartilhar. Este é definitivamente o mais cruel, porque não é um só. É uma compilação de medos, uma coletânea de receios, de sofrimentos por antecipação, de descrença e clausura. E ainda mais conhecido do que ele, à mim, é sua terrivelmente familiar consequência: a solidão.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Querida Josi...

Olha só que interessante... Postei o texto abaixo no meu blog - não sei se vc chegou a ler - exatamente no mesmo dia deste teu post...

"Além de as melhores coisas para se fazer na vida serem justamente aquelas de que temos mais medo, em regra é através delas que encontramos todas as respostas...!"

O que acha?
Bjs!

GK

Fernando Imaregna disse...

Oi Josi...
Menina...que texto !...humpft...
Nem vou me alongar muito, pq hoje minha inspiração toda foi pro brejo com uma coisinha q aconteceu...hehehe

Mas volto com calma...
Só queria dizer que não exagerei nadinha nos meus "carinhos" para ti...
E vão ser muitos...pq a moçada do BEM que me acompanha, admirou tb...

Beijos menina...se cuide...

ps. volto...me aguarde

 
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