sábado, 22 de janeiro de 2011

Os dois lados da distância.

Vem, amor, sente-se ao meu lado e ouça. Já não interessa se o que sobra de mim quando você vai embora são cacos de cristal barato espalhados pelo chão ou se tenho vontade de esmurrar minha cabeça na parede para tentar lucrar uma amnésia. Tudo que escrevo sobre o quanto você me dói vai embora - com o último bilhete de passagem - quando sinto seu beijo. Ainda assim, chegamos a um ponto sem retorno. Estamos de bolsos vazios, sem dinheiro para a passagem de volta. Restou apenas a dor de ter você, tão meu e de mais ninguém, para depois não ter mais nada. Incline-se um pouco e deixe que eu encoste a cabeça no seu ombro, porque não conheço seu cheiro mas sei que ele poderia me levar ao delírio. Deixe que eu tente senti-lo uma última vez, esse cheiro de "sinta-me enquanto puder". Eu posso muito pouco, mas pagaria até a última moeda do meu pote de vidro cheio de quinquilharias e trocados para ter alguns mililitros do seu perfume guardados para sempre em um frasquinho blindado e diminuto.
Vem e me dá a mão, porque não estou pedindo nada além de um pouco do carinho que já não sei mais receber. Montei uma grade em volta do meu peito que não permite gestos afetuosos. Tranquei meu próprio coração na escuridão de uma abominável jaula de circo. Tornei-me companhia aos animais acuados que, de tão maltratados, não reconhecem o amor quando alguém o oferece. Tal qual o leão magro e faminto ou o urso cujas patas foram queimadas para que aprendesse a "dançar", estou presa nessa imundice humana. Uma aberração de um circo fétido, onde palhaços aterrorizam e animais padecem com a crueldade. E você, tão desprovido de sentimentos, conseguiu o emprego de tratador dos enjaulados. Sangue-frio, rosto impassível e impiedoso. Não importa se o macaco está machucado, se o cavalo está morrendo de medo ou se eu, depois de tantas surras, quero morder e arrancar pedaços de qualquer um que se aproxime demais. Você chega, larga um pedaço de carne esverdeada e vai embora, pensando ser mais do que suficiente. E eu fico escondida pela lona, atrás das grades enormes que sempre existiram, mas cujo cadeado só foi trancado depois de você. Estive jogada aqui por muito tempo, mas já não quero mais que as sombras ocultem minhas lágrimas.
Vem... Quero dizer que tentei ser alguém melhor, uma mulher que lhe inspirasse sentimento e desejo. Quis ser mais do que sou para mim e para você. Logrei meu coração trancafiado, jurando ao mundo que você era só mais um e que apenas cebolas descascadas e ciscos nos olhos poderiam me fazer chorar. E o mundo acreditou na mentira, quando tudo em mim relutava e ansiava por sinceridade. Porque tudo que sou suplica por um pouco de amor, uma colherinha qualquer para acalmar a solidão. Não uma caixa de chocolates inteira, apenas um bombom. Não Ouro Branco, apenas o tabletinho de banana ruim que sempre sobra rejeitado no final. Só um pouquinho de amor, só um pouquinho, por favor!
Mas, ainda assim, vem, para que, desta vez, eu possa lhe contar que esse amor não quero mais de você. O trem descarrilou. Eu conhecia nosso fim antes mesmo do início e não dei atenção à sabedoria; mereci, amor, tudo que recebi. Despi-me de mim e vesti-me de você, como um homem-bomba partindo em uma missão suicida. Colete no peito fazendo tic-tac. Após a explosão, no entanto, restou muito pouco. Destroços, bombeiros, equipes de resgate; todos tentando salvar o que não tem salvação. Virei um punhado de cinzas que o vento levou. Um corpo que, à primeira menção de um elogio, arma-se com sarcasmos. À eminência de um roçar de dedos suaves salta para longe, como um felino desconfiado. Um alguém que só sabe correr, fugir e erguer escudos. Viver atrás das grades do confinamento.
Agora, no entanto, não quero mais a carne esverdeada. Você usou seu chicote, brandiu sua indiferença, testou-me como se testa um combatente voraz e acreditou que eu estava domada para sempre. Achou que eu iria até a Via Láctea por nós dois. Esperou demais de um corpo quebrado. Mas não quero mais essa vida amarrotada; quero passar meus dias à ferro quente para deixá-los lisinhos como nunca foram. Quero distância de você, porque só assim poderei escapar desta jaula pútrida onde vim parar. Quero amassar a folha do nosso romance e praticar basquete, jogando-a na cesta de lixo e marcando três pontos. Tudo para que eu possa continuar sozinha, daqui por diante.
Você me quer nessa prisão vazia, dormindo no chão duro e cheio de pedregulhos, mas eu já fiquei aqui por tempo demais. Fui fiel ao piso frio e desconfortável mesmo quando outros ofertavam colchão box e lençóis limpos e macios. Mas, agora, vestirei uma roupa bonita para esconder a estopa suja e retalhada que envolve minha alma. Calçarei salto alto para elevar a autoconfiança que está rastejando pelo chão. Passarei batom vermelho para dar à face um pouco da cor da felicidade que perdi ou cor de boca para que o sorriso se estampe mais verdadeiro e menos atuado. Sairei arrumada, mesmo sabendo que maquiagem e roupas caras de nada adiantam, molduras perfeitas que são para um retrato feio e vazio. Mas não importa, desde que eu possa me levantar e partir. E, quando me enxergar trajando vestes melhores e uma superioridade que não sinto, sei que você voltará. Subitamente terá vontade de me tomar em seus braços e ganhar um beijo meu. Um que lhe pinte de vermelho ou cor de boca. Estenderá a mão, esperando que eu a agarre com avidez como sempre fiz. Você não sabe, porém, que agora existe um vão entre nós que outrora não existia. Uma fissura desconhecida. Um buraco que lhe impede de dar um passo a mais até mim, porque é assim que quero nos manter: distantes.
Sei que a distância tem dois lados. Cara e coroa. Herói e vilão. Detetive e criminoso. Saúde e doença. Loucura e lucidez. Sei que pode trazer uma vida nova e tranquila ou ensandecer a que já existia. Sei que pode curar feridas ou abrir cortes profundos. Sei que, a mim, irá machucar como uma faca afiada. Sem ela, no entanto, não tenho mais panos suficientes para estancar a hemorragia. Sonharei com a proximidade a cada noite, mas preciso parar de comprar band-aid achando que bastará. Então, vem, para que eu me perca em você mais uma vez antes de pegar a pá e cavar nosso fim. Deite de frente para mim e olhe em meus olhos, mas tenha a certeza de que não terá mais minha pupila tão próxima à sua. Aproveite todo o amor que eu lhe destilo, mas que você só absorve quando bem entende. E, depois, quando partir, treine salto à distância se ainda me quiser. Porque esta será a única maneira de transpor a fenda que, hoje, eu abri entre nós.

2 comentários:

Gugu Keller disse...

Josi...

Tudo bem... Talvez eu até caia nessa fenda... Mas, mesmo que o salto à distância definitivamente não seja o meu forte, ainda acho que vale a pena a tentar transpor, sim!

GK

Marinha disse...

Forte e lindo o texto!
"E, depois, quando partir, treine salto à distância se ainda me quiser. Porque esta será a única maneira de transpor a fenda que, hoje, eu abri entre nós".
Bjo e paz.

 
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