quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Papanicolau.

"E então, como está seu emocional?", perguntou a ginecologista. E a pergunta simplória passou por mim como uma bruxa gargalhando. Virei a protagonista retardada da cena onde os sons emudecem e as imagens somem, restando apenas o corredor comprido onde a verdade mora. Aquele corredor sem portas anexas e rotas de fuga no qual eu caio mais vezes do que gostaria e saio correndo tão rápido que não dá tempo de fazer faxina. Desta vez deu para perceber; caramba, o lugar está uma bagunça! Paredes descascando, chão imundo e passos levantando poeira. Um rato morto e cupins na madeira. Posso apostar que minha verdade não gosta de morar aqui, mas a tirana bem que merece. Se não fosse tão cruel eu poderia arrumar um colchão extra lá em casa. Agora, encarando a merda toda meio luminosa lá no final do corredor, posso me lembrar dos motivos pelos quais não voltava há tanto tempo. Ninguém gosta de visitar quem serve biscoitos sabor fel e chá adoçado com lágrimas sem sacarose. Há um mundo bonito lá fora e é contraditório perder tempo observando o que maltrata. O lado sombrio. A coisa toda de viver catando pedaços perdidos e minúsculos. Chega disso de verdade, Verdade, estou indo embora de novo.
"Ah... Desculpe, doutora, o que você perguntou mesmo?", indaguei após piscar destrambelhadamente algumas vezes. "Perguntei como está seu emocional, querida", ela respondeu com paciência. Dei risada. Olha, se fosse responder com honestidade invadiríamos áreas da medicina e você acabaria me mandando para um psiquiatra, penso. A verdade, aquela do corredor, é que meu emocional está, como diria uma amiga, abalado. Reduzido à mesma sujeira degradante que domina o corredor. Ao invés disso, no entanto, digo apenas o íntimo e decorado "tudo bem". A doutora não é cega; conhece a mim e a meus ovários policísticos há anos, não acreditando no sorriso plácido. Talvez porque minhas mãos irrequietas denunciem ou porque sua sensibilidade é admirável, ela não cai na conversa fiada. Seja o que for, aquiesce, muito provavelmente porque sabe que, caso insista, a porta para escapar do consultório está a uma levantada da cadeira e dois passos de mim.
"Ótimo, então", diz ela, complacente, enquanto me dirige para a saleta ao lado. Droga, droga, droga. Cadê a brincadeira toda? Quando eu era criança adorava ir ao médico, porque o pediatra me chamava de espeto, imitava o Pato Donald e me fazia rir só de encostar o estetoscópio no peito e dizer "inspire". Aliás, chama-me de espeto até hoje. E agora estou aqui, enfiada no patético pijaminha azul de hospital que deixa a bunda aparecendo. Se é para a traseira ficar toda exposta, por que temos que vestir alguma coisa? Deixa a mulherada pelada que é mais digno. Deitada na posição ginecológica humilhante de sempre, com as pernas tensas abertas em apoios laterais, penso em como preferia estar na praia ou em uma sessão do cinema Belas Artes. A doutora está falando alguma coisa, mas não ouço. Minha atenção está no teto branco com cantos de gesso trabalhado e, posteriormente, no quadro pregado na parede à direita, explanando o procedimento e as maravilhas funcionais do Papanicolau. Ah, as inutilidades da vida. Isto aqui que está acontecendo exatamente agora é autoexplicativo, não precisa de quadro não. Mas talvez seja de bom grado uma placa de aviso com os dizeres: "Cuidado, a camisola hospitalar pode destruir seu ego".
Enquanto registro mentalmente este texto sem propósito algum, penso em como George Papanicolau não tinha mais o que fazer da vida. O cara estudou citologia vaginal, pelo amor da bizarrice. Mas do resultado nossos colos uterinos não podem reclamar, já que muitos deram adeus ao câncer graças ao velho amigo George, que de papa ou bispo não tinha nada - ainda bem. No final das contas, tudo é mesmo uma questão de saúde. Mesmo o lubrificante vaginal com que meu amigo lambuzou o corpo inteiro porque alguém lhe disse que essa era a cura para a queimadura solar. Emplastrou até o rosto, por via das dúvidas, e vai sair indicando por aí porque parece que a macumba da glicerina líquida funcionou. O importante mesmo é não deixar a peteca cair, embora eu sempre tenha achado o ditado fútil demais. Quero dizer, petecas caem eventualmente, não é um grande problema. E tudo isso nada tem a ver com o que eu pretendia escrever, mas deixa para lá. Mulheres, não esqueçam do camarada Papanicolau, o grego cujo nome parece russo. E se lhe vier à mente um cara bigodudo, é porque ele era mesmo. Homens, exame de próstata. Encarem com ar amigável o homem que vai lhe dar uma dedada singela. Vocês sabem como é: tudo é questão de saúde.
E como fica a verdade que iniciou este texto sem nexo? Bom, se você quiser contar a sua à ginecologista ou ao proctologista, fique à vontade. A minha, particularmente, continuará de castigo no corredor até aprender como se comporta uma dama de boa índole.

3 comentários:

Ellen Azevedo disse...

Adorei a verdade com que você escreve. E quero agradecer pelo carinho em meu cantinho; o seu também é encantador!

Alguns Sussurros. disse...

oi, sempre adoro seus textos, a forma como vc escreve e seus pensamentos. tudo é muito lindo, um grande beijo.

Gugu Keller disse...

Quem dera para os corações que padecem de loucas paixões houvesse, através de um buraco para tanto feito no tórax, algum exame similar ao papanicolau ou ao toque retal que fosse capaz de, apenas pelo tato, diagnosticar os porquês a caminho de uma cura...!
GK

 
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