sábado, 29 de janeiro de 2011

Um brinco por um barbudo.

No dia seguinte, acordo com a cabeça pesada e sinto-me tão vazia quanto o apartamento desabitado e sem móveis do segundo andar aonde fomos parar na noite passada. O barulho dentro de mim é ainda mais alto do que o dos sapatos batendo na madeira lixada e ressoando no vácuo durante a madrugada. Enquanto lá, depois da janela, a vastidão da noite iluminada nos ganhou por alguns instantes, habita em mim um incomparável breu. Só queria uma câmera para absorver um pouco da luz dos postes para minha própria vida e para registrar a beleza. O momento. A fotografia sobre nossas cabeças. O vazio mais cheio de alguma coisa. A cerveja esquentando porque perdeu a graça. Mas a câmera não cabia na bolsa pequena e eu saí mesmo só levando celular, chave de casa e dinheiro. Pouco dinheiro. Uns trocadinhos para contribuir com a bebida e para necessidades inesperadas. Faltou grana até para elas.
Chuva e noite esquisita que me prenderia em qualquer outra semana. A despeito disso, vejo-me saindo de casa e tirando os saltos para dirigir até onde ainda não acredito que vou. Mas vou e ninguém crê quando me vê chegar, nem tampouco eu creio quando minhas pernas descem do carro sozinhas depois de o braço ter puxado o freio de mão. Desço e crio confusão com minhas próprias defesas. Gotas de chuva no cabelo e um sorriso para aplacar a insegurança de quem não sabe o que está procurando. Risadas e olhares e me descubro perdida, embora pareça não estar. Louca para montar em uma das motos estacionadas no fundo do barracão e pilotar muito mais rápido do que posso controlar e para muito longe até dar de cara com um muro bem-vindo. Mas, enquanto isso, copo na mão e superioridade no rosto. E fico tempo demais porque não sou clássica e não penso nunca em ir embora após quinze minutos chiques. Sair pela tangente enquanto ainda há tempo e elegância. Não. Duas horas da madrugada é quando fica interessante e começo a me divertir. Gostaria de ser fina, mas não quero ir para casa cedo na sexta-feira à noite mais estranha da minha vida. Porque, pela primeira vez, é um estranho bom. Com pessoas estranhas, conversas estranhas e um medo estranho que faz o estômago contrair. Porém, ainda assim, tão ótimo quanto a expectativa.
Fim de noite, fim de carne na churrasqueira que até respiro tem, fim de casos engraçados. É isso; acabou o truco, acabou tudo. Tudo não. Carona, "que bom que você veio" e "como você é linda, mulher". Mentira, eu sei, mas nesta sexta não importa. O barbudo resolveu me querer e a barba dele é o máximo. O estranho enlouqueceu e eu resolvi enlouquecer também. Apartamento vazio e mais cerveja porque estou ficando ainda mais vazia. Preencho-me de maneiras torpes e esqueço-me por algumas horas de que deveria ser diferente. Depois de não ser clássica, não saber o que dizer e tremer de medo como um doente convulsionando, o cara dos olhos mais azuis que já vi ainda diz que sou misteriosa, quando tudo de mistério em mim já se mandou há tempos. Fale sobre você, diz ele, depois de explanar sobre a vista da janela. Não, não tenho nada para contar sobre minha vida. Ela ficou no parapeito da janela junto com a cerveja e não deve ser atiçada. Por favor, não toque nela porque esta noite não quero vivê-la. Quero uma vida diferente e ela pode começar com a sua barba. Esqueça que sou alguém. Confusão, loucura, não e sim. Inconsequência notável, segredo visto pela fresta da janela. Chão frio, abraço quente, beijo queimando e um pouco de loucura para coroar o que nunca foi são. Sussurros, perdição, sufoco e a pressa de dois notívagos sorrateiros. Encontro voraz. Olhos esfomeados, boca esfomeada, mãos esfomeadas. O corpo inteiro gritando de fome. Penumbra total e eu já não enxergo mais os limites da barba dele, mas posso senti-la em cada canto do apartamento. Uma barba diferente da habitual para uma vida diferente da habitual.
Entre mãos, pernas e pés, o lucro da noite foi descobrir que sou um apartamento em eterno processo de rescisão de contrato. Sem moradores nem gesso no teto. Sem sofá, mesa, cadeira ou cama. Apenas o vazio que fica após uma mudança. Uma casa para nômades que vêm e vão, não para uma família de verdade. Chegam móveis de caras como ele e móveis vão embora no dia seguinte; todas as quinquilharias carregadas elevador abaixo e enfiadas no bagageiro de um carro qualquer. É doloroso ser habitado por pouco tempo e depois saber que o inquilino prefere a multa. Ver o chão pegar poeira e as paredes amarelarem. É terrível, mas nesta sexta não importa porque o mundo é dos loucos e eu quero ser um deles. Ele me empresta barba, colo, carinho, elogios e inverdades; eu empresto uma parte de mim para que a gente viva algo fora da rotina. Não está tudo bem, mas pode ficar quando a culpa pegar a mochila e partir.
Depois eu chego em casa e deito agarrada no travesseiro de gestante que é a oitava maravilha do mundo. O sono vem fácil, mesmo quando o apartamento três andares abaixo parece ainda gritar. Antes de dormir, percebo que falta uma parte do meu brinco preferido, uma chapa redonda, grande e dourada. Sobrou só o filete que a segurava. Pela primeira vez na noite tenho vontade de chorar porque o perdi em um lugar para o qual jamais voltarei. São três lances de escada, mas já parece outro continente. Não me rendo à besteira das lágrimas, mas sinto culpa e tristeza pelo brinco. Imagino-o sozinho e pequeno no chão de madeira do apartamento vazio. Um pedacinho reluzente de ouro em meio à poeira do abandono. Lembrança de uma sexta sepultada em um quarto sem habitantes. Subitamente não é apenas o brinco, mas uma parte de mim que ficou lá para sempre. Como se aquela chapa dourada fosse a lápide da felicidade momentânea. Ela existiu e perdeu-se no tempo e espaço. O último pensamento da noite é que esta felicidade não é permitida a pessoas como eu. Perder o brinco foi só um aviso, um lembrete de que nada é de graça. Vida por vida, com juros altíssimos. Mas, com um sorriso no rosto, penso que não importa. Que se dane o brinco andarilho e que se dane o que a vida me cobrar. Eu tenho só uns trocados na bolsa e para esta noite foi mais do que suficiente. Se tiver que perder objetos pessoais para deixar de ser tão enclausurada e conhecer barbudos, que assim seja. Pegue, vida, minha caixa de jóias está em suas mãos.

2 comentários:

Fernando Imaregna disse...

Oi Josi...

Vir aqui é uma imensa alegria e um bálsamo gostoso para o coração...

É também navegar pelas linhas de teus textos e...sabe...viver esses momentos, passo a passo, lentamente, e absorver toda a intensa trama que se desenrola...

É demais...é sim...

Um bjo carinhoso menina...cuide-se e Deus te abençoe !

Gugu Keller disse...

Josi...

E que com ela, tua caixa de jóias, vão também embora todos os meus aparelhos de barbear, ainda que, no meu caso, direi a ti apenas verdades...!

GK

 
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