quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Linhas de caneta preta.

Estou sentada com você neste banco de couro entre pessoas e motos, mas sua barba faz parecer que já não existem motos, pessoas, bancos ou qualquer outra coisa. Eu tinha prometido à minha consciência que não escreveria mais sobre seus braços tatuados e a estranheza de a sua música preferida do Lynyrd Skynyrd ser também a minha. Jurei que não falaria mais sobre como você fica bonito usando óculos, mas pedir para passar a mão nos seus cabelos ralinhos e já macios foi covardia e eu não consegui cumprir a promessa. Logo em um daqueles dias de sair correndo para esquecer que a vida não pode ser deixada para depois, você senta ao meu lado e me conta sobre as compras da sua mãe e sobre como ela é fofa. E eu não sei se continuo querendo correr porque sua proximidade e conversa despreocupada me deixam ainda mais desnorteada, ou se quero ficar para ouvir um pouco mais sobre sobre a salinha nova da belezura da sua mãe. Quero fugir porque estou começando a sentir o que não devo por alguém que quer guardar meus textos em gavetas de bidê. Em cantinhos escuros, entre outras quinquilharias. Qualquer lugar que esconda minha existência e que não conte a nenhuma futura ou passada namorada que eu já estive ali, em algum lugarzinho seu.
Tantas coisas massacrando, tantas ideias relapsas para minha própria vida e ideais maculados pela loucura da impossibilidade e você chega e resolve tudo dizendo oi e puxando minha mão de encontro a você. Depois, com um empurrão de ombros divertido, pergunta o que aconteceu. Eu estive tentando arrancar a angústia com as mãos enfiadas entre os cabelos e nem percebi quando você chegou. Aconteceu que eu preciso de um abraço, penso, mas você não pode me dar. Não se dissimula um abraço como mãos passeando por lugares impróprios ou, em nosso caso, próprios demais. Eu não posso te obrigar a me abraçar, nem quero que você descubra que quando eu abraço estou entregando uma parte de mim. E aqui, entre tantas pessoas subindo rampas e circulando entre cones, não seria verdadeiro. Seria um encostar constrangido, um quase lá que não serve. Você me envolveria por alguns segundos e eu uniria a cabeça ao seu peito como quem sabe que a vida é absurda demais sem um encaixe momentâneo desses. Você pensaria "mas que tola" e eu veria o deboche na sombra dos seus olhos azuis, mesmo sem querer admitir. Então sorrio, não peço abraço algum e digo que nada aconteceu. Porque, na verdade, eu não saberia por onde começar, já que o mundo inteiro aconteceu de uma só vez. Você sabe como é a sensação, como esmaga pensar tanto e sobre tantas coisas aglutinadas. Então continua perguntando o que foi e se não vou contar. Mas, apenas para satisfazer uma curiosidade, não posso abrir meu peito magoado. Sustento o sorriso, mas você não cai e eu quase perco as estribeiras que tanto luto para manter. A imagem da mulher forte que não pode ser aniquilada. Afasto a vontade homérica de pedir sua nuca emprestada para chorar por alguns minutos toda a dor que guardo só para mim. Estrangulo a coceira de puxar seu rosto para mostrar ao seu sorriso bonito que eu também sei sorrir quando minha nuvem desesperada vai embora. Afasto tudo porque você quer tanto a verdade que tenho medo de acabar falando além do decorado.
Eu não posso ir embora agora, penso. Este é o único lugar, entre todos do meu dia, onde consegui não enlouquecer. Você não precisa ficar aqui comigo, só me deixa ficar nesse banco gostoso ouvindo o ronco das motos e não estando em outro lugar. Hoje minha casa sufoca, o carro sufoca e até as ruas e suas pessoas mesquinhas sufocam. Curiosamente, só este banco não sufoca. Mas você não precisa zelar pelo meu bem-estar, nem fazer essa cara de preocupação e achar palidez em meu rosto. Eu quase quero pedir perdão por estar tão mal assim e me deixar desmantelar na sua frente, porque sei que deveria ser sempre a divertida que cai da moto na parada do oito e levanta rindo. Se você não ficasse aqui do meu lado, agora, com sua perna raspando na minha, eu não precisaria pedir perdão, nem me sentiria culpada por ainda não ter ido embora. Mas a vontade que tenho é de pregar seu joelho neste exato lugar do estofado para que não saia de perto jamais. E, então, eu me pego querendo lembrar para sempre que você ficou quando eu estava acabada, ainda que tenha sido por curiosidade. Você ficou, mesmo quando eu insisti que o vazio me caía bem e quando todo mundo reconheceu minha insuportabilidade.
E, para escapar de ter que responder qualquer coisa sobre minhas aflições, conto que já escrevi sobre aquela nossa noite. E você quer o texto de presente, mas não aceita uma coisa moderna e digitalizada. Tem que ser escrito à mão, com minha letra horrenda figurando no papel, uma gota de perfume e um beijo no canto. Tudo para que, dentro de alguns anos, você abra as dobraduras e lembre que já beijou minha boca, aquela da marca no papel. E eu rio porque é um pedido inútil, já que no mês que vem você não lembrará mais de mim. Um pedido escandaloso e inútil que estou prestes a atender por razões que desconheço. Para terminar perdida e esquecida na sua gaveta. Protegida do resto do mundo em uma gaveta onde papeladas de imposto de renda cobrirão meus rabiscos. Mas atendo seu pedido porque, quem sabe um dia - se eu tiver coragem de viver da única coisa que gosto de fazer - acabo publicando um livro com algumas crônicas. E, quem sabe, entre elas estejam algumas sobre você. E, então, se eu descobrir onde você foi parar depois de tanto tempo e te mandar um exemplar, talvez você associe aquelas páginas aos originais de letra feia e lembre que passou algumas tardes e noites comigo.
Talvez porque você seja o único que já quis ser escrito por mim e que aceitou a situação, é assim tão estranho te personificar. Porque eu sei, das lições que a vida ensinou, que meus textos estragam tudo de bonito que existe e acabam com a possibilidade do que ainda poderia ser. Você não pode ser tão diferente de todos os caras e, por isso, não acredito quando diz que acha legal ser o "sobre" de alguém. Mas você é meu sobre desde a noite do apartamento vazio. Se eu contar que estou fugindo para os lugares mais tortuosos que alguém poderia escolher, você vai me olhar com cara assustada e me achar mais louca ainda. A louca que não puxa cabelos, não grita e não faz fiasco, mas é louca o bastante para escrever páginas e mais páginas sobre quem se importa tão pouco. Louca o suficiente para querer, mais que tudo, um documento em branco do Word para falar mais de mil caracteres só sobre sua barba e outros mil sobre seus olhos azuis. Eu poderia discorrer sobre meus maiores medos e contar que um deles inclui você, mas sua reação me arrepia até no imaginário. Decido, então, que não posso mesmo contar. Que tudo que você precisa saber, já descobriu de alguma forma mais seca e original. Boto na cabeça que preciso parar por aqui, porque aceitar escrever sobre meu sobre favorito em linhas de caneta preta está ficando pessoal demais e pessoal sempre me machuca. E, principalmente, decido que, sim, ainda preciso correr. É hora de fugir porque não escrevo mais sobre "ele". Ele, agora, já é você.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Formigueiro.

O pulso ainda pulsa, diz Arnaldo Antunes. O meu, infelizmente, tem pulsado muito dolorido nos últimos dois dias. Não sei o que aconteceu, mas acho que meu punho levou um pé na bunda. A dor é a mesma, vem em fisgadas. Vai ver deslocou como se desloca uma paixão que está ali ao lado em um segundo e no outro não existe mais. Ou quebrou como se quebra um coração quando um dos dois quer ser um só e o outro ainda quer ser a metade de um todo. Talvez tenha destroncado como se destronca felicidade quando tudo que se enxerga são restos banais de um caso bonito. Pode ser músculo esmagado como peito que esmaga embaixo de sola de sapato suja de quem não se importa. De quem entra com bota cheia de lama e pisa e repisa no tapete antes limpinho e cheio de amor em cada fibra. O mais provável, no entanto, é que seja minha alma dando sinais de que a fadiga está ultrapassando limites e precisa doer em outros lugares. Avisos de que o peso precisa ser distribuído, não pode mais ficar só onde as faixas de farmácia não são vistas.
E então, depois de perder a força na mão e não conseguir segurar o volante do carro, enfaixei o pulso como um dia já tentei fazer com meu peito cheio de farpas. Com a mão ainda esgoelando pontadas, mas já múmia firme, segura e presa a uma trouxinha de cubos de gelo, lembro do fracasso que foi minha época de alma enfaixada. Tentando firmar com talas o que a solidão não deixa endurecer. Procurando curar com resistência o que remédios prescritos não alcançam. Amores desditos. Vida enclausurada vivendo pedaços de gente. Nunca um alguém inteiro, só partes e discrepâncias e saudade no final que não sabe ser fim. Alma errada - quando já não pode ser passada a limpo - dói enfaixada ou solta, tanto faz. Não consegue juntar seus pedaços mutilados só porque tem uma tala de madeira tentando dar suporte. Não grita menos porque recebe medicamentos. Eu tentei analgésicos para aliviar a dor e ela continuou vindo em ondas fortes de surfista ao invés de marolas de mar tranquilo. Tentei antitérmicos porque a febre de uma alma devastada faz arder até o cantinho mais ínfimo de pele. Tentei antibióticos para eliminar as bactérias invasivas da melancolia, mas nada foi embora de mim. Tentei tudo até quase virar hipocondríaca. Alma dolorida não se deixa calar tão fácil e não morde toalhas para sufocar berros.
O pacotinho de gelo no pulso anestesia o que deve ser só saudade de tocar sua nuca. Dói lá nos ossos, nervos e músculos. Perguntei para a amiga fisioterapeuta e ela disse que "pulso aberto" é inflamação da partezinha que estabiliza os tendões do antebraço, um tal de retináculo. Mas não é isso que eu tenho. Aberto, nem o coração está mais. E, de tão fechado, vai ver abriu em outro lugar. Desestabilizou pulso para transferir dor e desafogar da tosse engasgada há tanto tempo. Mandou o edema para outra parte de mim que ainda não conhecia o inchaço de querer ser algo mais e não passar de um ontem que nunca é amanhã. Isa perguntou se estava formigando o braço, porque daí poderia ser compressão do nervo ulnar. Mas a última vez que minha mão formigou foi quando segurou a dele e eu ainda não conheço pomada para isso. O que formiga o tempo todo é o coração, que vive atordoado e não sabe passar por descompressão. Formigamento é ruim, Isa disse. É, sei bem. Aqui no fundo formiga o dia inteiro e não há nada que resolva. É como um brilhinho triste na pele e no mais profundo de mim, a coceirinha de uma história que poderia ter sido e não foi. Formiga sem parar um grande formigueiro em construção. Por fim, Isa recomendou que eu vá ao médico amanhã porque, as vezes, o problema nem está onde dói. De repente - disse ela - é no ombro ou no cotovelo e está doendo lá no pulso e no dedo mindinho. E eu engoli em seco porque o problema é mesmo em outro lugar, mas não achei que pudesse doer tão longe assim. Não é cotovelo, nem ombro, nem pescoço, nem clavícula. É muito mais distante e nunca pensei que pudesse irradiar tanto. O problema, amiga, coça mais no centro do corpo. É inflamação antiga. É o vírus da solidão que se instalou para sempre, depois de tanto correr para longe de tudo o que é vida de verdade. De tentar tanto, de percorrer tantos caminhos querendo outros, de socar roupas novas na mochila e terminar sempre com o mesmo trapo imundo e surrado de todos os dias. A tristeza de sorrir sem querer mostrar os dentes.
O que faço, então, já não sei. Porque se a dor fugiu da caixinha e começou a se espalhar, não vai parar até expulsar tudo e, neste caso, tudo é muita coisa. Começa com o pulso e depois vai doer mais para cima e mais para baixo. Cotovelos, joelhos, dedos, canelas, cóccix. Cada pedaço sozinho até que eu esteja incapacitada de tanta dor. Perdida no sofrimento que se revoltou e não quer mais ser calado e discreto. Na tremedeira de angústia que vira Parkinson. O vazio andando de muletas. A dor que quer se mostrar para o mundo em uma cadeira de rodas para a inválida de amor. O arder que não pode mais se concentrar em um tórax silencioso. A tristeza interna que precisa machucar e punir e deformar. O que faço, então, já não sei. Porque panos quentes só ajudam a amenizar cólicas menstruais e não corações estourados. Chá de boldo é para o fígado. Pasta de dente verde com babosa cura aftas e cortes de gengiva. Sangria era retirada de sangue que acabou virando bebida com vinho e frutas. Existem receitas caseiras para milhões de males, mas não acho que minha avó conheça uma mistura para dor de solidão. Para pulso magoado existe munhequeira, ortopedista e fisioterapeuta. E para todo o resto destruído, existe o quê?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amanhã lacaniano.

Mais uma vez preciso escrever sobre esperas em vão. Sobre o calor abafado da sacada e os carros passando lá embaixo na rua, faróis de homens vagando na noite. Sobre a falta dos seus faróis estacionando na frente de casa. Carros vermelhos, pretos e azuis, mas nunca prateados. Sobre meus cotovelos apoiados na sacada, segurando uma cabeça que pesa toneladas de tudo que falta. Sobre planos, horas de preparação para horas de sono vazio mais tarde. Mais uma vez afogada em um copo de whisky e frustrada a ponto de sentir saudade da infância e da saia vermelha e horrível que me deixava ser a cigana de Explode Coração, sacudindo penduricalhos dourados da garagem ao jardim. Ao menos eram faniquitos de criança e não a explosão nada novelística que adultos aprendem a enfrentar.

Começa com a simplicidade de uma saudade, de um querer ver a todo custo. Eu não te amo e isso me faz te querer mais ainda; o sangue corre mais suave, não dá para ouvir minha necessidade e posso sorrir sem tremer o cantinho da boca ou agarrar as mãos. E então me pego querendo que você chegue rápido e que eu te enxergue logo no olho mágico da porta. Achando que você vem porque você falou que viria antes mesmo que eu perguntasse. Princípio de euforia, de promessa de corpo quentinho por três horas ou quatro. Ajeitei a casa com o capricho de quem não tem mais nada para fazer, mesmo com a escassez de tempo livre. Apaguei as luzes brancas, acendi as amarelas e estiquei até as pontas das almofadas. Preparei a lista de rock clássico e coloquei o vinho para gelar um pouco por causa do calor infernal. Taças de cristal sem um pelinho sequer, reluzindo e brilhando na bancada de mármore. Tomei um banho demorado com direito a esfoliante de açaí e hidratação intensiva nos cabelos. Passei creme no corpo todo e escolhi cuidadosamente cada peça de roupa; tinha que ser confortável e caseira, mas preservar algo sexy. E sorriso no rosto porque são nove da noite e daqui a pouco você vai interfonar lá embaixo e o gato vai correr para baixo da cama. Plastificada, colorida de cosméticos perfeitos, modelada e com cabelo de foto de revista só para você. Quase saio andando com passos de bossa nova e vento na cara, como material publicitário. A perfeição do casual e do “me espera, então”. E eu espero.
Meia hora depois começo a transpirar ele-não-vem na nuca. Escorre uma gotinha pelo meio das costas e entra cafajeste na calcinha de renda. É a única a analisar meus esforços. Só não roo as unhas porque elas estão compridas e vermelhas depois de tanto tempo em carne viva. Perfeição do “essa semana quero te visitar todos os dias, querida”. Uma hora, dez da noite e eu estou pedindo, por favor, em alto e bom desespero, que você não me faça doer pelo que não precisa ser doloroso. Que não me deixe fissurada, esperando por uma ligação que não vem e molhando de suor a linha abaixo dos olhos. Que perfeição eventual já nem existe mais; agora é o nervoso do abandono, melancolia e nada de sono. Ardenciazinha nos olhos que não passa e eu não tenho suas canelas quentes para esquentar meus pés gelados. Chegue e me salve porque agora tudo que eu quero é pular da sacada porque você mentiu quando nem verdade eu tinha pedido. Ficasse quieto, então. Não era um convite e a porta não estava aberta, mas você quis bater e sair correndo como moleque traiçoeiro que liga para os bombeiros para dar trote no meio da noite.
Começa bonito, com vontade de ver, desejo de sentir e tiquinho de respiração irregular. E termina com demaquilante, pijama de malha, notebook e nada de você real, mas muito de você virtual. Descrito, aberto e despido por meus dedos. Contado em detalhes ao meu amigo mais íntimo que é o documento em branco do Word. Eu queria tanto te tocar e acabei com as teclas de um computador velho e defasado, lutando contra a letra f aniquilada pelo tempo. Você me obrigou a aumentar três gotas na dose de Rivotril e a buscar uma jaqueta para o frio psicológico que arrepiou os buracos dos pelos onde não há mais pelo algum. Lisinha, perfumada e sozinha. Com promessas guardadas para outra hora, óculos partidos ao meio e “On the Road” esperando por sua vez no bidê. Mas eu não quero pegar minha mochila e partir com Jack Kerouac; quero tirar esse pijama e rebobinar a noite. Quero voltar às taças no balcão e ao frio dos meus pés ficando quentes em você. Quero o vinho e não o whisky amargo, quero apertos e o retorno das vontades que foram embora com algum dos carros da avenida.
Você me fez de boba quando tudo que quis foi ser um pouco sua. Eu desentoquei minha melhor parte para te dar por uma noite ou pela semana inteira que você disse querer me ver. Abri a porta de um armário e guardei a sacola do meu pedaço mais fedido para que você tivesse nas mãos só o que é cheiroso e agradável. Você mexeu com minha dor tão bem guardada dos últimos meses. Eu te queria tanto sem te amar que só o querer já foi capaz de machucar e deixar cacos pelo chão. Restos para limpar no dia seguinte. Fiquei esperando sua boca chegar, sua barba chegar, seu beijo chegar e tocar o interfone. Aguardando o atraso perdoável, com a gota de suor na bunda já seca de tanto esperar.
Era uma terça e nós podíamos ter fingido um pouco de amor, mas você preferiu fingir sozinho e distante. Agora não preciso mais. Já guardei as taças, tirei o vinho da geladeira, arranquei a roupa e estou enfiada entre travesseiros, gatos e a derrota. Amanhã você vai dizer que vem – talvez de verdade, talvez para me deixar esperando mais uma noite - mas, quer saber? Tirei do armário a sacolinha da parte fedida e amanhã eu só preciso de você se você for Jacques Lacan.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Aspirador de pó.

Saia da cama, mulher, que já passou da hora. Abra os olhos e tome cuidado com a luz porque o sol já raia alto e você não quer queimar as retinas. Fuja da consciência de quem quer continuar dormindo por trinta anos seguidos. Você pensa que seria feliz assim, aninhada para sempre na escuridão, mas nem ao menos sabe o que é felicidade. Vista uma camiseta velha, amarre o cabelo e ataque de faxineira porque sua vida está precisando tanto quanto seu apartamento. Ligue uma música animada e aumente os risquinhos do volume até um vizinho reclamar, só para ver se isso acorda um pouco seu silêncio. Não reviva o turbilhão de pensamentos que te assolam todos os dias e te fazem preferir o sono. Não deixe que o quarto te oprima e te mande ficar na cama porque tudo é menos triste nela. Travesseiros não podem te esconder para sempre do mundo e o relógio no pulso dos caras de terno e das moças descoladas está avisando que não é só isso. Que vida não é só colchão, cobertor quentinho, abraço na gata que é a coisa mais linda do universo e conchinha vazia. Disseram por aí que existe mais. Que em algum lugar pessoas levantam cedo e tomam café da manhã com brioches, torradinhas, frutas e sucos em jarras de cristal. Que há gente rindo logo pela manhã, sem inchaço no rosto e vontade de morrer por mais algumas horas. Gente que diz bom dia querendo que seja mesmo um grande dia para todo mundo, indiscriminadamente. Dizem, veja só, que há inúmeras pessoas que não dormem sozinhas e que têm suas conchinhas preenchidas. Pessoas que dormem tranquilas, pernas abertas cobertas por um lençol fino porque não precisam da proteção da muralha do edredom. Gente que quer acordar.Levanta dessa cama, mulher, que é dia de faxina. É dia de deixar o aspirador de pó feliz e bem cheio do que te faz espirrar. Sente com sua mãe nas primeiras horas do dia e coma aquele pão fresquinho que ela comprou e colocou na sanduicheira. Ou, se te preocupar que ele vá parar nas gordurinhas das coxas, passe batido, mas sente com sua mãe mesmo assim porque o ministério diz que não há nada mais saudável que um sorriso de mãe. E o da sua é tão lindo que é crime desperdiçar. Dê uma risada sobre a toalha de natal posta na mesa quando já é época de carnaval e veja o vaso de gloxínia roxa e perfeita em cima da mesa. Sua flor preferida está ao seu lado na luta, frágil mas cheia de vontade. Vivendo mais do que você. Amando mais do que você. Sorrindo mais do que você. Querendo estar acordada e não murchando suas pétalas no sono de quem se esconde dos fantasmas dos olhos abertos.Brinque de caçar esses mesmos fantasmas com o cano do aspirador antes de sentir as costas doerem. Se achar que deve, rebole um pouco. Ninguém está vendo mesmo. Tudo bem, não precisa rebolar, mas pelo menos cante e faça caretas como se a sacada fosse o palco e o detergente o microfone. Solte a voz e grite para quem está lá embaixo, passeando na rua, que quem você chama se houver algo estranho são os ghostbusters! Deixe que o aspirador de pó faça sua manha. Sempre varrendo tudo, engolindo poeira, fio de cabelo e pelo de gato sem distinção. Até aranha as vezes entra no rango. É bandejão de restaurante universitário. E vai sugando e ficando gordo, deixando para trás só as manchinhas grudadas no chão. Mas aí você passa um pano e até isso some. Com um pouco de barulho, toda a sujeira da casa vai parar em um saco de lixo para ser recolhido na segunda-feira junto com todas as sacolas de tralha orgânica dos outros andares do prédio.Erga a cabeça e balance o corpo suado que hoje é dia de dar uma geral. Água com sabão, balde e pano torcido. Dia de limpar todos os cômodos: peito, mente, fígado e infecção. Desinfetante para a sujeira grossa, álcool para aquilo que grudou, bom-ar para o que cheira mal e espanador para a poeira do que ficou para trás. Dia de jogar fora o inútil de tudo que te torna pequena como a barata que você esmagou com seu chinelo. Você pode não ficar brilhando no final das contas, mas muito da meleca nojenta que tomou conta da sua alma pode ir embora se o trabalho for bem feito. Ao menos a meleca superficial. Não poupe seus braços, esfregue de verdade. O apartamento já está limpo agora, então dedique-se a você, que ainda está toda imunda, com teias de aranha e outras sujeiras que o tempo se encarregou de trazer e que a vida tratou de apresentar. Quantas vezes mais vai aceitar quando algo podre pedir para viver em você, sabendo que não poderá limpar tudo sozinha mais tarde? Suas noites esfregando o chão e o coração - até rasgar pano e músculo e desistir – são sempre em vão. Você sabe que, em algum momento, larga o pano marrom, encosta a cabeça no balde e chora pelo fracasso. Não há álcool suficiente para arrancar de você tudo de ruim que se encravou em suas partes mais profundas. O bolor, o mofo da solidão e do abandono. É isso: você está mofada por dentro, como um potinho de comida esquecido na geladeira e descoberto tarde demais.Agora você sabe porque continua sozinha. Leite coalhado cheira azedo, ninguém quer. Pão com fungos verdes não é coisa que apeteça. Alma mofada também não. Você não sabe mais viver como deveria. Acha que vida é não saber tomar água no copo. Abrir a geladeira, pegar a garrafa e tomar no gargalo mesmo. É como tirar fruta da pitangueira e comer sem lavar. É como engolir jabuticaba com semente e tudo, mastigar a casca e esperar trancar o intestino depois. Coisas tão naturais que nada poderia ser mais vida, você diz. Se ficar marca de batom, você limpa. Se criar fungo, joga fora. Surpresa, mulher, há quem diga que vida é muito mais do que sua água geladinha, mas você está suja demais para enxergar. Há teias de aranha em seus olhos e manchas de sangue em seu peito de tantas unhas que já foram cravadas ali. Há terra em suas mãos e entre seus dedos, porque você adora pegar punhados de barro para se lembrar de que pertence a um lugar. Para ter certeza que seus pés ainda estão no chão e que sua vida ainda pode ser uma vida de verdade e não a foto falsa e poética que parece. Aquela onde só se vê céu escuro e o contorno de um corpo cheio de defeitos. Escuro porque na escuridão não há quem veja sua dor. Escuro como seu coração e o fundo dos seus olhos. Escuro como o quarto de onde você gostaria de não sair. Em algum momento você apagou as luzes e quebrou os interruptores e, agora, não enxerga um palmo à frente do nariz. Não há luz no fim do túnel, nem lanterna para carregar. Há apenas lamparinas antigas, mas nenhum óleo para fazê-las funcionar. Você está sozinha no meio do nada em que se enfiou. Você e sua dor. Mas, quer saber? Eu sei, mulher, que não dá para ver, mas há um balde em algum cantinho da sua vida. Um balde, alguns panos e um aspirador de pó. É só abrir as cortinas e começar a limpar. É só ter coragem de rosquear a lâmpada e mandar a escuridão embora. É só ser diarista da sua própria alma. Você juntará enormes pilhas de sujeira mas, quem sabe, descubra um alçapão embaixo disso tudo. A porta para um recomeço. A saída para um jardim. Abra os olhos. É dia de acordar e já passou da hora.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O teto e a torta de limão.

Encarando o teto do meu quarto por mais de cinco horas, descobri o livro de uma vida estampado em cimento e tinta Suvinil. Páginas de letras pequenas e sem gravuras, rasgadas e amareladas pelo tempo. Não há fotos penduradas dedurando amizades antigas; não há frases adolescentes escritas com tinta preta e pincel. Nada que conte um caso ou a cronologia de uma história. É só uma parede branca, mas todas as noites de solidão e saudade estão ali desenhadas como em uma tira de quadrinhos em preto e branco. Lembranças coladas como aquelas pequenas constelações brilhantes e horríveis de 1,99 que quartos de crianças - que se acham o máximo, mas são bregas - costumam ter. O meu tinha. Na casa da mãe ainda tem; haja álcool para desgrudar. E a mesma constelação brilhante e horrível, vista na escuridão da madrugada, parece, então, uma das coisas mais lindas que já vi. Não porque exista beleza em estrelinhas de plástico, mas porque olhar para elas é quase uma certeza de que nem tudo fica para trás. Uma crença de que o passado pode se misturar ao presente não apenas por tropeços e rombos na carcaça, mas também por memórias bonitas.
O teto apontou um dedo severo e contou que transformei minha vida em uma figura de tinta guache. Quando eu era criança, lá pelos seis anos de idade e cabelos tipo tigela, a professora ensinava um grande nada nas aulas de educação artística. Tudo que eu tinha que fazer era derrubar pingos de diferentes cores de tinta no centro de uma folha sulfite, dobrá-la ao meio e esfregá-la do interior para as laterais até as poças coloridas espalharem. E pronto, uma pestinha descoordenada virava Pablo Picasso. Quando abria a folha novamente, ficava maravilhada com as formas exóticas e de cores intensas que se formavam com a simples pressão de dedos pequenos e gorduchos. Enxergava borboletas e ursos em pinturas abstratas. Eram horríveis, mas eram minha arte. Só minha. Ei, gente, olha minha super obra! Aplausos, por favor! Digna de museu, não? Não, querida, não. Foi o que fiz, percebo, com minha vida. Espalhei tinta, dobrei-me ao meio, botei pressão nos dedos, esfreguei bastante e abri para ver o resultado. E não foi bonito. Nada, nem um resquício da tal arte que eu pensava criar quando os bons anos de deslumbramento me acompanhavam. A mistura do verde, amarelo, azul e vermelho formou uma mancha negra e ressecada, tingida por um preto esverdeado que só as coisas apodrecidas têm. Um borrão amorfo. Sem ajustes, sem contorno, sem elegância, sem delicadeza de pincel número zero. Sem vida. Só um buraco escuro e entupido de dor latente que vai comigo para todos os cantos do mundo.
Descobri também, graças ao teto, que isso que estou sentindo enquanto o encaro - essa coisa azeda misturada com cheiro de tequila e sabor de café amargo - é desilusão servida em pratinhos de festa infantil. A gente pega o prato de papelão, garfinho e faquinha de plástico e destrói corações. Assassina expectativas e amores com a mesma calma com que se espeta um pedaço de bolo de nozes ou qualquer outro sabor que a doceira da cidade inventa para os aniversários. O fato é: a gente experimenta, mastiga, dilacera, estraga e comenta que não está tão bom assim. Diz que conhece uma receita melhor e que esta não vale a pena. Olha, dona Pafúncia, vou te passar uma receita que é segredo de família, hein? Joga esse bolo no lixo porque a torta de limão é muito mais gostosa. O doce do leite condensado com o azedinho do limão. Dá até para colocar raspinhas da casca para decorar. Perfeita. Ela tem tudo, enquanto eu tenho só o amargo da fruta bichada. Morango mofado, pêssego passado, abacaxi podre. Figo, eca! E as coisas são mesmo assim. Eu gosto tanto, tanto, tanto da torta de limão que acabei sendo o bolo da minha vida. Massa intragável. Bolo de fubá estragado e sem cobertura.
Sem conseguir pregar os olhos, o teto ainda teve tempo de contar mais uma coisa. Disse que estou desperdiçando um tempo precioso da vida. Que estou fazendo o que não gosto, morando em uma cidade que não gosto, amando uma vida que não gosto só para fingir que gosto. Tolerando o mais ou menos desde sempre. Curso mais ou menos, gente mais ou menos, noites mais ou menos, vida mais ou menos. E mais ou menos, que grande ironia, não é vida. Não há remédio que baste para fazer tudo parecer bonito, quando há tantas coisas feias. Nem vícios suficientes, nem corpos, nem tardes com assuntos também mais ou menos. O teto disse que eu deveria abrir os olhos e enxergar a verdadeira constelação, não a de plástico berrante. A que brilha sempre e não apenas a noturna. Pegar as malas e partir. Procurar meu caminho e, de preferência, um de verdade desta vez. Jurou que eu não preciso ser a Barbie veterinária para ninguém, muito menos a princesa que perde o sapato. Ele gritou: corra, menina! Corra muito que você sai dessa merda e alcança o fantástico. O não mais ou menos. Corra até as pernas queimarem e seus pulmões estarem a ponto de explodir. Doa, lateje, massacre suas partes, mas jamais pare de correr. Agora você tem uma ideia do lugar para onde quer ir, da vida que quer viver. Então, corra para longe de onde você está agora, o mais distante possível. Largue tudo, você pode. Você deve. Escolha o caminho que tanto te apetece. Seja a torta de limão e não o bolo. Você tem culhões para isso e eu estou de dando uma sacola cheia de limões para começar. Vá!
O teto convenceu. Pulei na cama, dancei sem música a dança dos que conhecem seu destino, joguei fora o sarcasmo e a folha de compromissos e comecei a ajeitar as roupas na mala. No corpo um agasalho, porque eu queria mesmo correr. É isso, chega de ser bolo; agora só quero ser alguma coisa se for para ser torta de limão! E tem que ser das novinhas de padaria, aquelas bem cremosas que dão um chute na bunda de biscoito da torta trufada. E aí, de repente, bateu um vento na cara que congelou meu sorriso. A adrenalina baixou. O sangue fluiu normalmente nas veias e a taquicardia da certeza foi embora. Ficamos eu - enfiada em um agasalho patético no meio da madrugada -, a mala semi-pronta e o teto. Nós, os arrasados pelo vento. Nós e a percepção de que nada muda tão fácil assim. Porque isso tudo pode estar certo e ser o melhor conselho que já recebi mas, no final da trilha de tijolos amarelos, quem tem contas a pagar e família para desapontar sou eu, não o teto. Desculpa, amigão, o colorido da pré-escola vai ficar para mais tarde.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Elevador.


O espelho do elevador garantiu que não seria um bom dia. Simples, há horas em que é melhor não discutir com a imagem amassada que nem bolotas de rímel puderam salvar. Olhos de ressaca - como Capitu -, olheiras de insônia, cabelo preso em um coque desarrumado. Com certeza não será um bom dia. Ou, elevador, podemos botar para quebrar e você pode começar dizendo que minha cara não está tão ruim assim. Não têm pelos sobrando na sobrancelha e o hálito está bom; cheira a pasta de menta para deixar os dentes branquinhos. E a halls preto que, segundo Tânia, deveria ter outro nome já que não é preto nem aqui nem na África, embora eu nunca tenha comido halls africano. Bochechas com ar saudável, óculos de sol, piercing no nariz. Quer saber, elevador, tô achando que o dia pode não ser tão ruim assim. Acordei com essa gana de viver, esse arroubo estralando no peito, essa ansiedade de sair por aí e cumprimentar quem cruzar meu caminho. A faxineira que limpa a sujeira do mundo, o cara do primeiro andar que ritualmente leva o cachorro para fazer xixi na grama do fórum municipal, o outro cara que sempre insiste em oferecer um sorriso na academia, ainda que meus fones de ouvido nunca tenham permitido que entabulássemos uma conversa. O que você acha, elevador? Posso sair assim, quase desavergonhada de mim, e ser feliz por uma ou duas horas? Um cara me falou, semana passada, que sou muito simpática e tento dissimular minha tristeza, mas que o ar conta a verdade. Disse algo como "adorei você, mas não consigo entender esse seu jeito triste de tentar ser feliz". A verdade é que eu não sei de nada e por hoje isso basta. Que tal, elevador, se eu cantarolar uma música brega? Vou atravessar a faixa de pedestres sorrindo para os motoristas apressados, com a bolsa a tiracolo carregando apenas tralhas de mulher e não a bola negra de dor que sempre vai junto com o resto. Espera aí que vou deixar as tranqueiras em casa para poder receber a leveza no corpo. Olha só para mim, elevador, tô até sorrindo para a câmera pequena do cantinho; a mesma que pega a mulherada desentalando a calcinha, os homens coçando o saco e as crianças pestes brincando de apertar os botões de todos os andares. A mesma câmera que vê adolescentes fazendo sacanagem, a senhora de cabelos brancos do décimo andar jogando papel de bala no chão de mármore e a garota que é miss medindo suas curvas. A mesma câmera que já me filmou entrando sozinha e desamparada, sentando e chorando horrores até chegar ao quinto andar. E que já me gravou acompanhada, só para depois voltar a ser sozinha e continuar chorando sentada. Teve até a vez em que o companheiro elevador travou e eu sentei no seu cantinho e saquei o livro da bolsa até alguém me salvar. Esperava um bonitão, mas foi a bruxa da síndica. E demorou, provavelmente porque só apertei o sininho do socorro uma vez e o apito foi muito breve. Só não vá querer repetir a cena hoje, elevador, porque hoje eu tô feliz e preciso aproveitar. Fantástico, hoje posso ser feliz sem chocolate.
Dia nublado, mente sã, gente bonita e gente feia. Tem de tudo, porque a vida também é assim. Bêbados sentados desde cedo nos botecos, executivos tomando café preto e comendo pão de queijo fresquinho nos barezinhos mais ajeitados, minha mãe pedindo pastel de carne e jogando a carne fora para comer só a massa. Boutiques finas, loja de móveis, engarrafamento logo cedo. A maquete de São Paulo está crescendo, para orgulho dos papais. Marquei horário com o estilista para a segunda prova do vestido para aquele casamento e a mocinha da recepção me perguntou, solícita, se eu era a noiva. Tive vontade de sair correndo; epa, pera lá, também não estou tão feliz assim. Respondi com um breve e caricato "credo, não". Quis completar que até as araras abarrotadas de vestidos brancos e suntuosos já me deixam claustrofóbica, mas achei que não seria educado. Noivafobia, será que existe? Mais tarde devolvi o sorriso ao cara academia, desta vez com sinceridade, enquanto corria na esteira como um hamster fazendo exercício na gaiola. Tô feliz mesmo hoje, querido, posso aguentar o tranco do seu sorriso. E, voltando suada para casa, acenei para meu instrutor de carro da autoescola que fez a outra aluna buzinar para mim.
E aí, elevador, não é que o dia foi bom mesmo? Nada excepcional, mas leve como minha bolsa sem a bola negra e meu peito sem a dor. Minha mãe quis saber o que foi que me deu. A dona da academia disse que eu estava alegre como ela jamais vira antes. Nunca antes na história deste país, já diria Marcelo Tas. Sei lá, todo esse lance de brilho nos olhos que as pessoas enxergam e eu não. E o mais surpreendente: encontrei aquele cara na rua. Aquele, elevador. E ele perguntou o que tinha acontecido para que eu estivesse tão feliz. Quase pulei nos braços do calhorda para ganhar um abraço e dizer que nem eu sei o que aconteceu comigo. Acordei bem, é só. Dormi na pose estranha dos sozinhos, um braço e uma perna por cima do travesseiro de gestante que ganhei porque achei o máximo em um filme. "Olha só, deve ser uma delícia dormir abraçada com isto". E, no dia seguinte, um pacote enorme embrulhado para presente. Tem sido útil pra cacete e o melhor de tudo é que não ronca. As vezes, abraçando o saco de algodão fofinho, penso em quão sozinha tenho passado minhas noites. Sem um pé para esfregar as canelas até dormir. Mas, esta noite, nada poderia ser ter sido melhor. É claro que eu não disse tudo isso ao meu canalha preferido, nem que senti um arrepio ao encontrá-lo. Apenas mantive o sorriso - ainda sincero - e respondi que nada, nada tinha acontecido além da felicidade. Ele perguntou se eu estava mesmo bem, porque estava estranha. Está tudo ótimo, meu bem, e me deixa ir porque tenho mais o que fazer. Se quiser beber alguma coisa, sabe onde me encontrar. Foi o que respondi e agora estou aqui, sozinha, mas ainda leve e satisfeita, mesmo sabendo que virei as costas tão rápido que ele teve todo o tempo em que eu me distanciava para analisar minha bunda.
Na volta, sobem três pessoas comigo no elevador; duas paradas antes do quinto andar. Em qualquer outra noite me encolheria no canto e abaixaria os olhos para não sufocar com tanta gente encarando, querendo conversar sobre seu dia e contar causos do trabalho. Contaria os segundos da viagem até meu apartamento como se fossem horas, suando frio e precisando de um gole de água para a boca seca. Chega de gente, chega de máscaras e papo inúteis. Em qualquer outra noite. Hoje o dia foi mesmo bom e não me importo de sorrir mais um pouco. Sorrir para os três que presenciam minha subida de final de história feliz e que enfrentaram um dia que pode ter sido lindo ou turbulento. Hoje posso arreganhar os dentes, dizer "tudo bem" e perguntar "e você?" sem medo de a resposta ser longa. Manda ver, sou toda ouvidos. Dou uma piscadela discreta para a câmera e penso que o elevador está vendo. Se todos podem, também posso ter um dia diferente. Acho que foi o nada que me aconteceu. O coração vazio, desocupado, leve e brando. Não importa. O elevador vê, assim como eu, que se for para ser feliz por algumas horas, não vai adiantar seu espelho dizer que minha cara está deplorável. Ele vê e, penso, sorri para mim em resposta ao meu último sorriso do dia.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Camiseta velha.

Ele disse que não quer que eu escreva sobre nós, porque o observo com grandes olhos azuis hoje e verdes amanhã e ele não sabe se vive o hoje ou se espera pelo amanhã. Então, não escreva sobre mim, esbravejou ele, porque não quero me ler quase desenhado nas páginas daquele seu site e sentir que sou o mais canalha dos seus canalhas. Não foi um pedido, foi um aviso. Ele gostará de mim enquanto eu não escrever. Porque, é verdade, fico observando com os tais olhos grandes e a boca contorcida em um sorriso ameno quando ele manda que eu pare de juntar palavras e sentimentos. Querendo enterrar o rosto na curva macia que ele tem entre o pescoço e o ombro. Evitando porque, se deito nesse lugarzinho tão melhor que minha cama, ele mexe em meu cabelo com aquele jeito de fazer dormir e aí, então, sou obrigada a escrever sobre as mãos robustas e o toque do cara que não quer ser escrito. E ele não mais gostará de mim, já avisou. Eu me sinto analisado, disse ele, e homens não gostam disso. Nós precisamos de leveza e é por isso que mulheres burras nunca estão sozinhas. Nada é difícil com elas e suas estúpidas respostas.
Não que eu não seja burra. Fosse inteligente, estaria a pelo menos cem metros de distância do conforto daquela barriga. Mas tenho vontade de falar sobre os pelos ao redor do umbigo, sobre os cílios enormes, a musculatura das pernas e a curva das costas. Quero contar nossos beijos, atrevimentos e silêncios. E, para não gritar ao mundo, apenas escrevo sobre o farfalhar dos tecidos apertados e puxados, as falas sem sentido e a vontade de chorar que as vezes me dá. Reluto porque tenho medo de que o aviso seja verdadeiro, mas preciso tanto escrever sobre o queixo dele, sobre os olhos perscrutadores de animal selvagem e sobre o estilo inusitado. Desta vez, ao menos, contive-me sobre a barba e devo ganhar créditos por isso.
As mulheres burras, continuou ele, tornam o envolvimento mais simples porque quando acaba a gente não sente nem falta. Mas eu não faço nada do jeito difícil, pensei. Não é como se estivesse apertando o nó da gravata até você sufocar e decidir se me ama ou me deixa. Acho linda sua camiseta velha e largada, a exemplo de nossas vidas velhas e largadas. Eu sei, respondeu ele, você nunca pressiona. As vezes espreme tão pouco que parece nem se importar. Você é leve e sutil, mas só até que a gente descubra seus textos. Ah, qual é, eu só preciso escrever sobre nossa velharia e sobre seus joelhos nus e canelas tatuadas. Que mal pode fazer? Escrever não muda o fato de que você está livre para ir e vir quando bem entender. Mas é isto, está vendo garota? Você é uma confusão ambulante dentro destes olhos azuis ou verdes ou sei lá o quê.
Não posso, mas quero escrever. Escrever de verdade, escrever tanto até que a imagem grude em meu cérebro, porque é algo que não quero esquecer. Nós sabemos que acabará logo, que ele quer o físico e eu preciso de algo mais. Um pouco de sentimento, talvez, embora nunca fale a respeito. Ele diz que o problema é que é muito fácil de se apaixonar por mim, mas não sei se sabe o que é isso. Talvez pense que paixão é como gostar de um filme alugado; a gente pode amar o enredo mas, mesmo assim, devolve às prateleiras no dia seguinte. E tudo bem se não evoluirmos, sério. Eu só preciso falar de como ele me pega no colo e fala coisas sem sentido. Colocar no papel a sensação de quando ele aperta meus ombros e declara que estou tensa demais, para logo depois me dar um beijo daqueles em retribuição ao meu eterno calar.
Não o culpo por não querer se enxergar em um nível mais profundo de nós, quando o superficial é infinitamente mais confortável. Todos precisam jogar o peso dos escombros sobre as costas de alguém e, não podendo jogá-lo sobre mim ou sobre ele, decidi culpar nosso erro de timing. Em outra hora, quem sabe, poderíamos sentar e trocar palavras mais sinceras. Em outra época, quem sabe, poderíamos nos completar. Se eu tivesse aparecido mais cedo ou muito mais tarde, talvez. Se ele tivesse surgido em um momento mais simples, quando eu não fosse oprimida pelos pedaços de prédio que caíram sobre mim. Talvez essa ruína venha da distância dos tempos em que vivemos. Eu, tão antiga, alguém que claramente nasceu na década errada. Alguém que deveria viver no período das lamparinas a óleo e relações às escuras. Apaixonada, mesmo sem querer, desgostosa da promiscuidade e das noites fúteis. Quase uma mulher de espartilhos e anáguas. Ele, tão futurista, paixão concentrada entre as virilhas, acostumado a amar por uma noite só. Duas, três e sobras no prato.
Com uma pausa de alguns anos, quem sabe, ele veja que escrevo sobre nós por motivos mais belos que encontros furtivos. Que não falo sobre sua atitude calhorda ou que ela realmente não me importa. Quem sabe ele perceba, quando nosso erro de timing acabar e quando, afinal, nos encontrarmos no tempo correto, que é por gostar demais que não dou moral aos avisos de partida. Que escrevo, mesmo sem permissão, sobre os fantásticos risos e a volúpia que ele provoca. E que penso, cada vez mais, que posso largar a escrita por um momento extra em nossas vidas. Sem placas, sem avisos, sem timing errado. Sem nó de gravata, mas com nossas camisetas velhas e largadas. Apenas uma retirada da sessão velharia; um filme de locadora com atraso na devolução.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O garoto de 24 anos.

O garoto de 24 anos fala comigo como se eu fosse uma princesa, embora não passe de um grande garotão. Enquanto balbucia que gosta de mim, penso em brincar com sua idade - mesmo achando a ideia ridícula - só porque não tenho absolutamente nada para dizer. Porque quando alguém gosta de mim eu peço emprestadas as unhas da Pandora e ergo minhas mãos como patas almofadadas. Ou ataco ou saio correndo. Mas o garoto de 24 anos não se fere com as unhas, nem tampouco com as bofetadas que leva com palavras. Mais temível do que aqueles que fogem e vão tentar algo mais simples, ele dá risada, fala que levou um "direto de esquerda" no queixo e segue afirmando que acha legal meu jeito de ser, especialmente a coisa toda de não tentar provar nada para ninguém. Estilo de quem já cansou das coisas fáceis e agora prefere os desafios. Eu tô sacando seu cabelo e roupa de playboy, garotão. A novidade do jogo para o cara é que, quando eu viro um desafio, é sinal de está na hora de parar de jogar. Porque, ao contrário do que pensa o pessoal da faculdade - que há tempos me apelidou de troféu - não sou um prêmio a ser conquistado. Um outro cara disse, certa vez, que troféus as vezes ficam sozinhos na estante. Não me importo em ficar sozinha, mas não sou troféu e não quero ninguém aprendendo a lançar dados para me ganhar.
O garoto parece muito mais jovem do que é e eu pareço muito mais velha do que sou. Idade mental de quarenta, já diria o psiquiatra. Então ele quer sair e beber uma cervejinha para descobrir mais sobre mim, quando o pouco que sabe é mais do que eu desejaria contar. Você está com frio, está com calor, está brava, está bonita, está isto, está aquilo e eu já nem entendo mais o que ele está falando. Gostaria de pular esta parte da caça e passar logo para a despedida - tchau, obrigada pela carona e pela cerveja - porque ambos sabemos que não há chance de acontecer algo entre nós. Eu, com meus quase 22, sou muito velha para você, rapaz. Não é só porque ele não tem barba, mas também porque eu não tenho paciência para começos. Estou no durante há tempo demais, não consigo retroceder às mensagens em códigos e bilhetes jogados por cima do muro. Na manhã seguinte, há um e-mail dele na caixa de entrada, no qual pede desculpas por qualquer coisa, diz que não sabe brincar nem mentir e mistura suas palavras com versos de Drummond. Não me surpreendo porque sei que galanteadores são assim mesmo. Mentiras repaginadas em frases bonitas para ganhar o coração das mulheres troféus. Desafios particulares. Deleto a mensagem e depois rio do clichê.
O garoto de 24 anos disse possuir uma veia de psicólogo e discorreu sobre mim como se me conhecesse particularmente bem quando, na verdade, não sabe mais do que o garçom do boteco onde eu tomo suco de acerola. Não era mais o banco do carro sob minha bunda, mas sim um divã nada confortável. Você é fechada, disse ele. Uau cara, parabéns, grande descoberta. Mas é porque a vida te deixou assim, com esse ar meio triste. É, isso é; agora me impressionou. Você tem uma aura de mistério que dá vontade de desvendar. Blá blá blá. Disco repetido. Posso pagar a consulta e ir embora? Pode ficar com a cerveja. Você está achando um saco minha conversa. Touché. Mas eu poderia aprender a gostar um pouquinho do seu papo se você me levasse embora agora mesmo e me poupasse deste bafafá.
O garoto me deixa em casa e eu penso, satisfeita com a performance, que fui capaz de assustá-lo o bastante para que não tente mais nada. Mas, no dia seguinte, do alto dos seus 24 anos, ali está ele batendo na porta. Dizendo que adorou conversar comigo e que precisa de uma chance para me surpreender e mostrar que pode ser muito melhor do que o conceito que tenho sobre os homens. O divertido é que ele nem sabe qual é esse conceito. Ele pede, por favor, que eu tope mais uma saída respeitosa. Olha, amigo, você é uma gracinha, mas eu realmente não estou interessada, entende? Não, ele não entende. É do tipo que joga no ataque, jamais na defesa. É do tipo que não deixa a bola em campo e que não dá ponto sem nó. Tá, qualquer hora dessas a gente sai. Qualquer hora dessas? Sim, qualquer hora dessas. Então tá, você escolhe o dia e a hora. Por favor, menos sede ao pote, garotão. Continuo achando sua pose coisa de filhinho de papai e seu jeito nada sincero. Essa panca de galã não funciona comigo. Mas tudo bem, a gente sai qualquer hora dessas e eu tento te mostrar, de novo, que não sou tudo isso. Ótimo! Quando, amanhã? Não, calma! Tá, tá, depois de amanhã, então?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Blitz.

Sol de lusco-fusco, janelas do carro abertas porque vento é muito melhor do que ar-condicionado. Cinto de segurança, sinto muito, sinto tudo. Neste exato momento, nada é tão triste quanto sentir. Meia luz; tento acendê-la em mim também, mas não encontro o botão. Óculos de sol, mais para esconder as olheiras e borrões de rímel do que para proteger dos raios ultravioleta. E giro, circulo, dirijo por aí sem nem ao menos saber que direção tomar. Pé lá no fundo da embreagem, depois pé lá no fundo do acelerador para aguentar o tranco da subida. O carro consegue, eu não. Primeira, segunda, terceira marcha. Alguém mude, por favor, a minha também, porque o motor está pedindo socorro e daqui a pouco vai apagar. Pelas caixinhas de som, Pink Floyd conta coisas ao pé do meu ouvido, mas tudo que ouço é você dizendo que tenho sombras na minha vida e que não sou real com ninguém. Ressoa no peito a frieza do momento em que você acabou com tudo de bonito que eu ainda sentia a seu respeito. E, por isso, sentir é profundamente desconsolador.
Você diz que eu bebo pouco e que não saio de casa por motivos quaisquer que não entende. E, dizendo isto, permite que eu veja o quanto estive enganada a seu respeito. Sempre pensei que você enxergasse além da visão comum, que analisasse a vida pelo ângulo menos mesquinho e egoísta. Do auge da inocência, acreditei que você fosse capaz de ver que, por trás da carapaça dura que criei, está um submundo de pesos, machucados e dores. Não medo de ser julgada. Não receio de desagradar aos pensamentos infames da sociedade. Não uma mulher retraída por vergonha. Apenas uma mulher doída demais, um bicho escorraçado que aprendeu a não chegar perto de pés que podem chutá-lo. Mas não, você viu como qualquer pessoa sem importância vê. A culpa é minha por ter separado você do restante do mundo como se, das peças do xadrez, você fosse o rei e não mais um peão. Xeque-mate para nós. Por muito tempo te achei diferente do mundano, mesmo vendo - jogadas à porta de casa e esfregadas em minha cara - provas mais do que cruéis de que você é igual a qualquer outro.
Já que você quer saber, vou te contar que se não vou às festas não é por medo de me mostrar, como sua mente adolescente quis acreditar. É porque considero tudo hipócrita demais. Não tenho saco para eventos patéticos com pouca luz e música estourando os tímpanos sem dizer absolutamente nada. Andando por aí com fones de ouvido, que me protegem de conversas inúteis, ao menos há sempre um vocalista com algo sábio a falar. Detesto o esquema de poluição de vidas e de acordar no dia seguinte meio surda e com o corpo retumbando no mesmo ritmo escolhido pelo DJ da noite anterior. Tenho pavor de toda essa gente robótica e fútil que sai de casa para curtir a vida, como se a vida se resumisse a rebolar o bastante para esfregar a bunda no chão. É isso que você pensa que eu deveria fazer? Toda vez que arrisco sair, que arrisco uma dancinha esquisita, que arrisco cair no social, volto para casa exausta e cada vez mais vazia. E você, do alto da sua sabedoria festiva, vem dizer que eu não me solto por vergonha do que a sociedade pensará. Vergonha deveria ter essa tal "sociedade" que pensa com a bunda e que não aceita que alguém não ame suas imposições. Vergonha deveria ter você por julgar meus motivos, que tanto desconhece, meros trejeitos de garota tapada que se importa com os olhares do mundo.
Te amei do melhor jeito que pude, mas você nasceu para alguém que não concorde com Bukowski quando ele diz que as pessoas são todas iguais e que temos de viver com esses putos pelo resto de nossas vidas. Nossas, minha e dele. Mas não a sua. Não, você nasceu para amar os putos e banais. Demorei para me dar conta de que nada em sua essência soube me ver como sou. Quebrada, desastrada, apavorada. Tentei ser, mais do que uma amiga, um coração onde você pudesse morar. E agora tudo que quero é vender o mesmo coração para que levem junto essa dor terrível.
Parada no sinaleiro, ouvindo Leoni cantar que "foi só um sorriso e foi por amor / nenhuma ironia, não foi por mal / foi quase uma senha para te tocar / nem foi um sorriso, foi um sinal", estou do jeito que você gostaria. Aberta, escancarada, corte de bisturi separando o peito em dois pedaços. Chorando descontroladamente com a cabeça encostada no banco e as mãos firmes no volante para o carro não escapar da pouca força que restou. A janela ainda está aberta e a mulher do Peugeot ao lado me observa preocupada ou apenas curiosa. Na próxima quadra, mais algumas pessoas se juntarão às cabeças viradas para mim e aos pontos de interrogação flutuantes. Nem mesmo os óculos de sol enormes podem esconder os soluços decepcionados que borbulham. Decepção. Eu quis tanto que você fosse diferente. Aceitei tantas coisas, relevei tantas outras, amarguei golpes sem fim. Para, no fim, você não enxergar um palmo além da minha máscara. Para me julgar supérflua e fútil. Era o que você queria. Minha dor exposta ao mundo, pronta para ser vista e questionada. Deixo que me vejam assim, não porque devo isto a você, mas porque subir o vidro da janela exige uma resistência que não tenho. Deixo, então, o mundo me ver como você jamais verá.
Segundos antes de o sinal abrir, a moça do Peugeot inclina um pouco o corpo e pergunta se há algo que possa fazer. Ainda consigo olhar para ela, abrir um sorriso e dizer que não, não há nada que possa ser feito. Agora ela me acha louca e eu realmente não me importo. Verde, acho o ponto da embreagem e acelero, chorando agora com o carro em movimento e Leoni dizendo "enquanto eu sorrir ainda posso esquecer". Só mais cinquenta metros e estarei em meio a uma blitz policial. Seis fardados enfileirados no meio da avenida, sirenes ligadas para assustar. A carteira que ainda não chegou pelo correio parece um assunto um pouco preocupante, mas não consigo parar de chorar. Estou fodida e não consigo parar de chorar por alguém que me julga frívola e burra. Passo o primeiro policial, o segundo e o terceiro, só esperando que alguém mande que desça do carro. Mas, ao que parece, os homens sentem pena de mim. Pobre moça, deixe que ela sinta sua dor na próxima rua, na encruzilhada seguinte. Pode seguir, moça, pode seguir.
Você queria me cercar em uma blitz, agora entendo. Uma parada para observar meus documentos, rir da foto da identidade e descobrir algo sobre mim, já que sou uma grande mentirosa. Poderia atirar na sua cara montes de papeladas onde escrevi tudo que já passei e senti, mas agora sei que a atitude mais correta que tomei foi esconder minha vida da sua falta de escrúpulos, porque ninguém merece menos saber meus porquês. Com o tempo, você poderia descobrir inúmeras coisas, mas preferiu ser mais um a perder a credibilidade e o amor que eu nutria aqui dentro. Poderia ter se enroscado perfeitamente em meu mundo, mas agora você não cabe mais em nenhum pedaço meu. Estou te expulsando, junto com estas lágrimas idiotas, para muito longe de mim. Você e seus pensamentos medíocres e infantis. Você e sua pretensão quando diz que também era assim, como eu, mas que quando a gente amadurece, muda. Principalmente, sempre torci para que você nunca lesse meus textos mas, agora, ficaria feliz e agradecida se você descobrisse estes meus últimos parágrafos sobre nós. Porque esta é minha resposta à sua ignorância: malas na rua e um enorme e irredutível adeus.
 
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