domingo, 13 de fevereiro de 2011

Aspirador de pó.

Saia da cama, mulher, que já passou da hora. Abra os olhos e tome cuidado com a luz porque o sol já raia alto e você não quer queimar as retinas. Fuja da consciência de quem quer continuar dormindo por trinta anos seguidos. Você pensa que seria feliz assim, aninhada para sempre na escuridão, mas nem ao menos sabe o que é felicidade. Vista uma camiseta velha, amarre o cabelo e ataque de faxineira porque sua vida está precisando tanto quanto seu apartamento. Ligue uma música animada e aumente os risquinhos do volume até um vizinho reclamar, só para ver se isso acorda um pouco seu silêncio. Não reviva o turbilhão de pensamentos que te assolam todos os dias e te fazem preferir o sono. Não deixe que o quarto te oprima e te mande ficar na cama porque tudo é menos triste nela. Travesseiros não podem te esconder para sempre do mundo e o relógio no pulso dos caras de terno e das moças descoladas está avisando que não é só isso. Que vida não é só colchão, cobertor quentinho, abraço na gata que é a coisa mais linda do universo e conchinha vazia. Disseram por aí que existe mais. Que em algum lugar pessoas levantam cedo e tomam café da manhã com brioches, torradinhas, frutas e sucos em jarras de cristal. Que há gente rindo logo pela manhã, sem inchaço no rosto e vontade de morrer por mais algumas horas. Gente que diz bom dia querendo que seja mesmo um grande dia para todo mundo, indiscriminadamente. Dizem, veja só, que há inúmeras pessoas que não dormem sozinhas e que têm suas conchinhas preenchidas. Pessoas que dormem tranquilas, pernas abertas cobertas por um lençol fino porque não precisam da proteção da muralha do edredom. Gente que quer acordar.Levanta dessa cama, mulher, que é dia de faxina. É dia de deixar o aspirador de pó feliz e bem cheio do que te faz espirrar. Sente com sua mãe nas primeiras horas do dia e coma aquele pão fresquinho que ela comprou e colocou na sanduicheira. Ou, se te preocupar que ele vá parar nas gordurinhas das coxas, passe batido, mas sente com sua mãe mesmo assim porque o ministério diz que não há nada mais saudável que um sorriso de mãe. E o da sua é tão lindo que é crime desperdiçar. Dê uma risada sobre a toalha de natal posta na mesa quando já é época de carnaval e veja o vaso de gloxínia roxa e perfeita em cima da mesa. Sua flor preferida está ao seu lado na luta, frágil mas cheia de vontade. Vivendo mais do que você. Amando mais do que você. Sorrindo mais do que você. Querendo estar acordada e não murchando suas pétalas no sono de quem se esconde dos fantasmas dos olhos abertos.Brinque de caçar esses mesmos fantasmas com o cano do aspirador antes de sentir as costas doerem. Se achar que deve, rebole um pouco. Ninguém está vendo mesmo. Tudo bem, não precisa rebolar, mas pelo menos cante e faça caretas como se a sacada fosse o palco e o detergente o microfone. Solte a voz e grite para quem está lá embaixo, passeando na rua, que quem você chama se houver algo estranho são os ghostbusters! Deixe que o aspirador de pó faça sua manha. Sempre varrendo tudo, engolindo poeira, fio de cabelo e pelo de gato sem distinção. Até aranha as vezes entra no rango. É bandejão de restaurante universitário. E vai sugando e ficando gordo, deixando para trás só as manchinhas grudadas no chão. Mas aí você passa um pano e até isso some. Com um pouco de barulho, toda a sujeira da casa vai parar em um saco de lixo para ser recolhido na segunda-feira junto com todas as sacolas de tralha orgânica dos outros andares do prédio.Erga a cabeça e balance o corpo suado que hoje é dia de dar uma geral. Água com sabão, balde e pano torcido. Dia de limpar todos os cômodos: peito, mente, fígado e infecção. Desinfetante para a sujeira grossa, álcool para aquilo que grudou, bom-ar para o que cheira mal e espanador para a poeira do que ficou para trás. Dia de jogar fora o inútil de tudo que te torna pequena como a barata que você esmagou com seu chinelo. Você pode não ficar brilhando no final das contas, mas muito da meleca nojenta que tomou conta da sua alma pode ir embora se o trabalho for bem feito. Ao menos a meleca superficial. Não poupe seus braços, esfregue de verdade. O apartamento já está limpo agora, então dedique-se a você, que ainda está toda imunda, com teias de aranha e outras sujeiras que o tempo se encarregou de trazer e que a vida tratou de apresentar. Quantas vezes mais vai aceitar quando algo podre pedir para viver em você, sabendo que não poderá limpar tudo sozinha mais tarde? Suas noites esfregando o chão e o coração - até rasgar pano e músculo e desistir – são sempre em vão. Você sabe que, em algum momento, larga o pano marrom, encosta a cabeça no balde e chora pelo fracasso. Não há álcool suficiente para arrancar de você tudo de ruim que se encravou em suas partes mais profundas. O bolor, o mofo da solidão e do abandono. É isso: você está mofada por dentro, como um potinho de comida esquecido na geladeira e descoberto tarde demais.Agora você sabe porque continua sozinha. Leite coalhado cheira azedo, ninguém quer. Pão com fungos verdes não é coisa que apeteça. Alma mofada também não. Você não sabe mais viver como deveria. Acha que vida é não saber tomar água no copo. Abrir a geladeira, pegar a garrafa e tomar no gargalo mesmo. É como tirar fruta da pitangueira e comer sem lavar. É como engolir jabuticaba com semente e tudo, mastigar a casca e esperar trancar o intestino depois. Coisas tão naturais que nada poderia ser mais vida, você diz. Se ficar marca de batom, você limpa. Se criar fungo, joga fora. Surpresa, mulher, há quem diga que vida é muito mais do que sua água geladinha, mas você está suja demais para enxergar. Há teias de aranha em seus olhos e manchas de sangue em seu peito de tantas unhas que já foram cravadas ali. Há terra em suas mãos e entre seus dedos, porque você adora pegar punhados de barro para se lembrar de que pertence a um lugar. Para ter certeza que seus pés ainda estão no chão e que sua vida ainda pode ser uma vida de verdade e não a foto falsa e poética que parece. Aquela onde só se vê céu escuro e o contorno de um corpo cheio de defeitos. Escuro porque na escuridão não há quem veja sua dor. Escuro como seu coração e o fundo dos seus olhos. Escuro como o quarto de onde você gostaria de não sair. Em algum momento você apagou as luzes e quebrou os interruptores e, agora, não enxerga um palmo à frente do nariz. Não há luz no fim do túnel, nem lanterna para carregar. Há apenas lamparinas antigas, mas nenhum óleo para fazê-las funcionar. Você está sozinha no meio do nada em que se enfiou. Você e sua dor. Mas, quer saber? Eu sei, mulher, que não dá para ver, mas há um balde em algum cantinho da sua vida. Um balde, alguns panos e um aspirador de pó. É só abrir as cortinas e começar a limpar. É só ter coragem de rosquear a lâmpada e mandar a escuridão embora. É só ser diarista da sua própria alma. Você juntará enormes pilhas de sujeira mas, quem sabe, descubra um alçapão embaixo disso tudo. A porta para um recomeço. A saída para um jardim. Abra os olhos. É dia de acordar e já passou da hora.

4 comentários:

Gugu Keller disse...

Querida...

Dizem tanto por aí que querer é fácil e que difícil é fazer...! Engraçado... Quanto mais penso a respeito, mais me convenço do completo contrário...!

GK

Fernando Imaregna disse...

Oi Josi...

Magnífica semana para ti tb...
Tá pensando que ser dona de casa é fácil é ? Humpft...que nada...

Que dirá quando temos que faxinar a alma e o coração...caráca, dá trabalho dobrado....hehehehe

Bjos carinhosos !

Al Reiffer disse...

Ótimo teu blog, parabéns!

Daniel disse...

Olá Josiana.
Obrigado pela visita em meu blog. Fico feliz que tenha gostado e espero que volte mais vezes.

Achei sua postagem muito interessante. E o que ela tem de longa, também tem de conteúdo. Parabéns.

Em alguns trechos me pareceu que era para alguém, e se isso for uma verdade, escreveu da melhor maneira.

Vou segui-la também.

Beijo
Daniel

 
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