segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Camiseta velha.

Ele disse que não quer que eu escreva sobre nós, porque o observo com grandes olhos azuis hoje e verdes amanhã e ele não sabe se vive o hoje ou se espera pelo amanhã. Então, não escreva sobre mim, esbravejou ele, porque não quero me ler quase desenhado nas páginas daquele seu site e sentir que sou o mais canalha dos seus canalhas. Não foi um pedido, foi um aviso. Ele gostará de mim enquanto eu não escrever. Porque, é verdade, fico observando com os tais olhos grandes e a boca contorcida em um sorriso ameno quando ele manda que eu pare de juntar palavras e sentimentos. Querendo enterrar o rosto na curva macia que ele tem entre o pescoço e o ombro. Evitando porque, se deito nesse lugarzinho tão melhor que minha cama, ele mexe em meu cabelo com aquele jeito de fazer dormir e aí, então, sou obrigada a escrever sobre as mãos robustas e o toque do cara que não quer ser escrito. E ele não mais gostará de mim, já avisou. Eu me sinto analisado, disse ele, e homens não gostam disso. Nós precisamos de leveza e é por isso que mulheres burras nunca estão sozinhas. Nada é difícil com elas e suas estúpidas respostas.
Não que eu não seja burra. Fosse inteligente, estaria a pelo menos cem metros de distância do conforto daquela barriga. Mas tenho vontade de falar sobre os pelos ao redor do umbigo, sobre os cílios enormes, a musculatura das pernas e a curva das costas. Quero contar nossos beijos, atrevimentos e silêncios. E, para não gritar ao mundo, apenas escrevo sobre o farfalhar dos tecidos apertados e puxados, as falas sem sentido e a vontade de chorar que as vezes me dá. Reluto porque tenho medo de que o aviso seja verdadeiro, mas preciso tanto escrever sobre o queixo dele, sobre os olhos perscrutadores de animal selvagem e sobre o estilo inusitado. Desta vez, ao menos, contive-me sobre a barba e devo ganhar créditos por isso.
As mulheres burras, continuou ele, tornam o envolvimento mais simples porque quando acaba a gente não sente nem falta. Mas eu não faço nada do jeito difícil, pensei. Não é como se estivesse apertando o nó da gravata até você sufocar e decidir se me ama ou me deixa. Acho linda sua camiseta velha e largada, a exemplo de nossas vidas velhas e largadas. Eu sei, respondeu ele, você nunca pressiona. As vezes espreme tão pouco que parece nem se importar. Você é leve e sutil, mas só até que a gente descubra seus textos. Ah, qual é, eu só preciso escrever sobre nossa velharia e sobre seus joelhos nus e canelas tatuadas. Que mal pode fazer? Escrever não muda o fato de que você está livre para ir e vir quando bem entender. Mas é isto, está vendo garota? Você é uma confusão ambulante dentro destes olhos azuis ou verdes ou sei lá o quê.
Não posso, mas quero escrever. Escrever de verdade, escrever tanto até que a imagem grude em meu cérebro, porque é algo que não quero esquecer. Nós sabemos que acabará logo, que ele quer o físico e eu preciso de algo mais. Um pouco de sentimento, talvez, embora nunca fale a respeito. Ele diz que o problema é que é muito fácil de se apaixonar por mim, mas não sei se sabe o que é isso. Talvez pense que paixão é como gostar de um filme alugado; a gente pode amar o enredo mas, mesmo assim, devolve às prateleiras no dia seguinte. E tudo bem se não evoluirmos, sério. Eu só preciso falar de como ele me pega no colo e fala coisas sem sentido. Colocar no papel a sensação de quando ele aperta meus ombros e declara que estou tensa demais, para logo depois me dar um beijo daqueles em retribuição ao meu eterno calar.
Não o culpo por não querer se enxergar em um nível mais profundo de nós, quando o superficial é infinitamente mais confortável. Todos precisam jogar o peso dos escombros sobre as costas de alguém e, não podendo jogá-lo sobre mim ou sobre ele, decidi culpar nosso erro de timing. Em outra hora, quem sabe, poderíamos sentar e trocar palavras mais sinceras. Em outra época, quem sabe, poderíamos nos completar. Se eu tivesse aparecido mais cedo ou muito mais tarde, talvez. Se ele tivesse surgido em um momento mais simples, quando eu não fosse oprimida pelos pedaços de prédio que caíram sobre mim. Talvez essa ruína venha da distância dos tempos em que vivemos. Eu, tão antiga, alguém que claramente nasceu na década errada. Alguém que deveria viver no período das lamparinas a óleo e relações às escuras. Apaixonada, mesmo sem querer, desgostosa da promiscuidade e das noites fúteis. Quase uma mulher de espartilhos e anáguas. Ele, tão futurista, paixão concentrada entre as virilhas, acostumado a amar por uma noite só. Duas, três e sobras no prato.
Com uma pausa de alguns anos, quem sabe, ele veja que escrevo sobre nós por motivos mais belos que encontros furtivos. Que não falo sobre sua atitude calhorda ou que ela realmente não me importa. Quem sabe ele perceba, quando nosso erro de timing acabar e quando, afinal, nos encontrarmos no tempo correto, que é por gostar demais que não dou moral aos avisos de partida. Que escrevo, mesmo sem permissão, sobre os fantásticos risos e a volúpia que ele provoca. E que penso, cada vez mais, que posso largar a escrita por um momento extra em nossas vidas. Sem placas, sem avisos, sem timing errado. Sem nó de gravata, mas com nossas camisetas velhas e largadas. Apenas uma retirada da sessão velharia; um filme de locadora com atraso na devolução.

2 comentários:

Francielle disse...

Como sempre mais um texto fantástico.
Ah, e adoro quando você posta com frequência, entro no blog sempre que posso.
Tenha uma boa noite!

Gugu Keller disse...

Costumo dizer que, se fosse minimamente inteligente, eu seria burro!
GK

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration