terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Elevador.


O espelho do elevador garantiu que não seria um bom dia. Simples, há horas em que é melhor não discutir com a imagem amassada que nem bolotas de rímel puderam salvar. Olhos de ressaca - como Capitu -, olheiras de insônia, cabelo preso em um coque desarrumado. Com certeza não será um bom dia. Ou, elevador, podemos botar para quebrar e você pode começar dizendo que minha cara não está tão ruim assim. Não têm pelos sobrando na sobrancelha e o hálito está bom; cheira a pasta de menta para deixar os dentes branquinhos. E a halls preto que, segundo Tânia, deveria ter outro nome já que não é preto nem aqui nem na África, embora eu nunca tenha comido halls africano. Bochechas com ar saudável, óculos de sol, piercing no nariz. Quer saber, elevador, tô achando que o dia pode não ser tão ruim assim. Acordei com essa gana de viver, esse arroubo estralando no peito, essa ansiedade de sair por aí e cumprimentar quem cruzar meu caminho. A faxineira que limpa a sujeira do mundo, o cara do primeiro andar que ritualmente leva o cachorro para fazer xixi na grama do fórum municipal, o outro cara que sempre insiste em oferecer um sorriso na academia, ainda que meus fones de ouvido nunca tenham permitido que entabulássemos uma conversa. O que você acha, elevador? Posso sair assim, quase desavergonhada de mim, e ser feliz por uma ou duas horas? Um cara me falou, semana passada, que sou muito simpática e tento dissimular minha tristeza, mas que o ar conta a verdade. Disse algo como "adorei você, mas não consigo entender esse seu jeito triste de tentar ser feliz". A verdade é que eu não sei de nada e por hoje isso basta. Que tal, elevador, se eu cantarolar uma música brega? Vou atravessar a faixa de pedestres sorrindo para os motoristas apressados, com a bolsa a tiracolo carregando apenas tralhas de mulher e não a bola negra de dor que sempre vai junto com o resto. Espera aí que vou deixar as tranqueiras em casa para poder receber a leveza no corpo. Olha só para mim, elevador, tô até sorrindo para a câmera pequena do cantinho; a mesma que pega a mulherada desentalando a calcinha, os homens coçando o saco e as crianças pestes brincando de apertar os botões de todos os andares. A mesma câmera que vê adolescentes fazendo sacanagem, a senhora de cabelos brancos do décimo andar jogando papel de bala no chão de mármore e a garota que é miss medindo suas curvas. A mesma câmera que já me filmou entrando sozinha e desamparada, sentando e chorando horrores até chegar ao quinto andar. E que já me gravou acompanhada, só para depois voltar a ser sozinha e continuar chorando sentada. Teve até a vez em que o companheiro elevador travou e eu sentei no seu cantinho e saquei o livro da bolsa até alguém me salvar. Esperava um bonitão, mas foi a bruxa da síndica. E demorou, provavelmente porque só apertei o sininho do socorro uma vez e o apito foi muito breve. Só não vá querer repetir a cena hoje, elevador, porque hoje eu tô feliz e preciso aproveitar. Fantástico, hoje posso ser feliz sem chocolate.
Dia nublado, mente sã, gente bonita e gente feia. Tem de tudo, porque a vida também é assim. Bêbados sentados desde cedo nos botecos, executivos tomando café preto e comendo pão de queijo fresquinho nos barezinhos mais ajeitados, minha mãe pedindo pastel de carne e jogando a carne fora para comer só a massa. Boutiques finas, loja de móveis, engarrafamento logo cedo. A maquete de São Paulo está crescendo, para orgulho dos papais. Marquei horário com o estilista para a segunda prova do vestido para aquele casamento e a mocinha da recepção me perguntou, solícita, se eu era a noiva. Tive vontade de sair correndo; epa, pera lá, também não estou tão feliz assim. Respondi com um breve e caricato "credo, não". Quis completar que até as araras abarrotadas de vestidos brancos e suntuosos já me deixam claustrofóbica, mas achei que não seria educado. Noivafobia, será que existe? Mais tarde devolvi o sorriso ao cara academia, desta vez com sinceridade, enquanto corria na esteira como um hamster fazendo exercício na gaiola. Tô feliz mesmo hoje, querido, posso aguentar o tranco do seu sorriso. E, voltando suada para casa, acenei para meu instrutor de carro da autoescola que fez a outra aluna buzinar para mim.
E aí, elevador, não é que o dia foi bom mesmo? Nada excepcional, mas leve como minha bolsa sem a bola negra e meu peito sem a dor. Minha mãe quis saber o que foi que me deu. A dona da academia disse que eu estava alegre como ela jamais vira antes. Nunca antes na história deste país, já diria Marcelo Tas. Sei lá, todo esse lance de brilho nos olhos que as pessoas enxergam e eu não. E o mais surpreendente: encontrei aquele cara na rua. Aquele, elevador. E ele perguntou o que tinha acontecido para que eu estivesse tão feliz. Quase pulei nos braços do calhorda para ganhar um abraço e dizer que nem eu sei o que aconteceu comigo. Acordei bem, é só. Dormi na pose estranha dos sozinhos, um braço e uma perna por cima do travesseiro de gestante que ganhei porque achei o máximo em um filme. "Olha só, deve ser uma delícia dormir abraçada com isto". E, no dia seguinte, um pacote enorme embrulhado para presente. Tem sido útil pra cacete e o melhor de tudo é que não ronca. As vezes, abraçando o saco de algodão fofinho, penso em quão sozinha tenho passado minhas noites. Sem um pé para esfregar as canelas até dormir. Mas, esta noite, nada poderia ser ter sido melhor. É claro que eu não disse tudo isso ao meu canalha preferido, nem que senti um arrepio ao encontrá-lo. Apenas mantive o sorriso - ainda sincero - e respondi que nada, nada tinha acontecido além da felicidade. Ele perguntou se eu estava mesmo bem, porque estava estranha. Está tudo ótimo, meu bem, e me deixa ir porque tenho mais o que fazer. Se quiser beber alguma coisa, sabe onde me encontrar. Foi o que respondi e agora estou aqui, sozinha, mas ainda leve e satisfeita, mesmo sabendo que virei as costas tão rápido que ele teve todo o tempo em que eu me distanciava para analisar minha bunda.
Na volta, sobem três pessoas comigo no elevador; duas paradas antes do quinto andar. Em qualquer outra noite me encolheria no canto e abaixaria os olhos para não sufocar com tanta gente encarando, querendo conversar sobre seu dia e contar causos do trabalho. Contaria os segundos da viagem até meu apartamento como se fossem horas, suando frio e precisando de um gole de água para a boca seca. Chega de gente, chega de máscaras e papo inúteis. Em qualquer outra noite. Hoje o dia foi mesmo bom e não me importo de sorrir mais um pouco. Sorrir para os três que presenciam minha subida de final de história feliz e que enfrentaram um dia que pode ter sido lindo ou turbulento. Hoje posso arreganhar os dentes, dizer "tudo bem" e perguntar "e você?" sem medo de a resposta ser longa. Manda ver, sou toda ouvidos. Dou uma piscadela discreta para a câmera e penso que o elevador está vendo. Se todos podem, também posso ter um dia diferente. Acho que foi o nada que me aconteceu. O coração vazio, desocupado, leve e brando. Não importa. O elevador vê, assim como eu, que se for para ser feliz por algumas horas, não vai adiantar seu espelho dizer que minha cara está deplorável. Ele vê e, penso, sorri para mim em resposta ao meu último sorriso do dia.

4 comentários:

Fernando Imaregna disse...

Oi Josiana...

Exagero ? Caráca Josi...lê o teu texto...lê...com calma, como eu...

Ria o quanto eu ri e, ao mesmo tempo, fique inebriado pelas linhas, uma a uma...Tô com inveja...hum rum...
Um dia ainda vou escrever assim...
Hehehehe

Menina, olha só...não preciso exagerar, não preciso rasgar sedas para ti...porquê o faria ?
É de coração o que falo...

Você é uma escritora ímpar...
Beijos !

ps. esse vou "roubar"...hehehehe
mas só um trecho, pq sempre incentivo as pessoas a virem aqui e lerem todos eles...

Deus te abençoe

Gugu Keller disse...

Josi...

Elevador...
Eleva a dor...
E leva a dor...

GK

Marcélia Macidália Leal disse...

Lembrei bem do filme do travesseiro de grávida. Plano B com a Jeniffer Lopez, não é?
Tive vontade de ter um, mas eu tenho meu melhor travesseiro: meu Grandão!
A velha história da Felicidade, que desafia todos nós. Nem que seja apenas por segundos, ela sim acontece. Não dá pra ser feliz o tempo todo.É impossível...
Parabéns pelo texto. Vc escreve muito bem...voltarei mais vezes...estou seguindo também.
Beijos

Iuri disse...

Retribuindo a visita, obrigado pelos comentários, adorei o texto, sorrir não é tão dificil

 
Creative Commons License
Vogais Vazias by Josiana Rezzardi is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Header Image by Colorpiano Illustration