domingo, 20 de fevereiro de 2011

Formigueiro.

O pulso ainda pulsa, diz Arnaldo Antunes. O meu, infelizmente, tem pulsado muito dolorido nos últimos dois dias. Não sei o que aconteceu, mas acho que meu punho levou um pé na bunda. A dor é a mesma, vem em fisgadas. Vai ver deslocou como se desloca uma paixão que está ali ao lado em um segundo e no outro não existe mais. Ou quebrou como se quebra um coração quando um dos dois quer ser um só e o outro ainda quer ser a metade de um todo. Talvez tenha destroncado como se destronca felicidade quando tudo que se enxerga são restos banais de um caso bonito. Pode ser músculo esmagado como peito que esmaga embaixo de sola de sapato suja de quem não se importa. De quem entra com bota cheia de lama e pisa e repisa no tapete antes limpinho e cheio de amor em cada fibra. O mais provável, no entanto, é que seja minha alma dando sinais de que a fadiga está ultrapassando limites e precisa doer em outros lugares. Avisos de que o peso precisa ser distribuído, não pode mais ficar só onde as faixas de farmácia não são vistas.
E então, depois de perder a força na mão e não conseguir segurar o volante do carro, enfaixei o pulso como um dia já tentei fazer com meu peito cheio de farpas. Com a mão ainda esgoelando pontadas, mas já múmia firme, segura e presa a uma trouxinha de cubos de gelo, lembro do fracasso que foi minha época de alma enfaixada. Tentando firmar com talas o que a solidão não deixa endurecer. Procurando curar com resistência o que remédios prescritos não alcançam. Amores desditos. Vida enclausurada vivendo pedaços de gente. Nunca um alguém inteiro, só partes e discrepâncias e saudade no final que não sabe ser fim. Alma errada - quando já não pode ser passada a limpo - dói enfaixada ou solta, tanto faz. Não consegue juntar seus pedaços mutilados só porque tem uma tala de madeira tentando dar suporte. Não grita menos porque recebe medicamentos. Eu tentei analgésicos para aliviar a dor e ela continuou vindo em ondas fortes de surfista ao invés de marolas de mar tranquilo. Tentei antitérmicos porque a febre de uma alma devastada faz arder até o cantinho mais ínfimo de pele. Tentei antibióticos para eliminar as bactérias invasivas da melancolia, mas nada foi embora de mim. Tentei tudo até quase virar hipocondríaca. Alma dolorida não se deixa calar tão fácil e não morde toalhas para sufocar berros.
O pacotinho de gelo no pulso anestesia o que deve ser só saudade de tocar sua nuca. Dói lá nos ossos, nervos e músculos. Perguntei para a amiga fisioterapeuta e ela disse que "pulso aberto" é inflamação da partezinha que estabiliza os tendões do antebraço, um tal de retináculo. Mas não é isso que eu tenho. Aberto, nem o coração está mais. E, de tão fechado, vai ver abriu em outro lugar. Desestabilizou pulso para transferir dor e desafogar da tosse engasgada há tanto tempo. Mandou o edema para outra parte de mim que ainda não conhecia o inchaço de querer ser algo mais e não passar de um ontem que nunca é amanhã. Isa perguntou se estava formigando o braço, porque daí poderia ser compressão do nervo ulnar. Mas a última vez que minha mão formigou foi quando segurou a dele e eu ainda não conheço pomada para isso. O que formiga o tempo todo é o coração, que vive atordoado e não sabe passar por descompressão. Formigamento é ruim, Isa disse. É, sei bem. Aqui no fundo formiga o dia inteiro e não há nada que resolva. É como um brilhinho triste na pele e no mais profundo de mim, a coceirinha de uma história que poderia ter sido e não foi. Formiga sem parar um grande formigueiro em construção. Por fim, Isa recomendou que eu vá ao médico amanhã porque, as vezes, o problema nem está onde dói. De repente - disse ela - é no ombro ou no cotovelo e está doendo lá no pulso e no dedo mindinho. E eu engoli em seco porque o problema é mesmo em outro lugar, mas não achei que pudesse doer tão longe assim. Não é cotovelo, nem ombro, nem pescoço, nem clavícula. É muito mais distante e nunca pensei que pudesse irradiar tanto. O problema, amiga, coça mais no centro do corpo. É inflamação antiga. É o vírus da solidão que se instalou para sempre, depois de tanto correr para longe de tudo o que é vida de verdade. De tentar tanto, de percorrer tantos caminhos querendo outros, de socar roupas novas na mochila e terminar sempre com o mesmo trapo imundo e surrado de todos os dias. A tristeza de sorrir sem querer mostrar os dentes.
O que faço, então, já não sei. Porque se a dor fugiu da caixinha e começou a se espalhar, não vai parar até expulsar tudo e, neste caso, tudo é muita coisa. Começa com o pulso e depois vai doer mais para cima e mais para baixo. Cotovelos, joelhos, dedos, canelas, cóccix. Cada pedaço sozinho até que eu esteja incapacitada de tanta dor. Perdida no sofrimento que se revoltou e não quer mais ser calado e discreto. Na tremedeira de angústia que vira Parkinson. O vazio andando de muletas. A dor que quer se mostrar para o mundo em uma cadeira de rodas para a inválida de amor. O arder que não pode mais se concentrar em um tórax silencioso. A tristeza interna que precisa machucar e punir e deformar. O que faço, então, já não sei. Porque panos quentes só ajudam a amenizar cólicas menstruais e não corações estourados. Chá de boldo é para o fígado. Pasta de dente verde com babosa cura aftas e cortes de gengiva. Sangria era retirada de sangue que acabou virando bebida com vinho e frutas. Existem receitas caseiras para milhões de males, mas não acho que minha avó conheça uma mistura para dor de solidão. Para pulso magoado existe munhequeira, ortopedista e fisioterapeuta. E para todo o resto destruído, existe o quê?

3 comentários:

Francielle disse...

Nossa quase chorei lendo esse texto me indentifiquei tanto com ele. Principalmente com a parte "Existem receitas caseiras para milhões de males, mas não acho que minha avó conheça uma mistura para dor de solidão. Para pulso magoado existe munhequeira, ortopedista e fisioterapeuta. E para todo o resto destruído, existe o quê?" E qual será o remédio para solidão, angústia,insegurança,medo e entro outros? Só que o alguém que conseguisse fazer essa proeza iria faturar muito com esse remédio que seria o fim das dores do coração "partido".
Continue sempre assim escrevendo esses textos maravilhosos!
Beijos...

Gugu Keller disse...

Querida...

Costumo dizer... Já que não há remédio, por que não um pouco de veneno?

GK

Equilibrista disse...

é incrivel como você consegue colocar tanta intensidade em uma dor no pulso. gosto disso.

 
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